domingo, 25 de dezembro de 2016

"Sol, pão e mar"

Para Byron Mello Rosa

Havia o mar, a terra e muitos pinheiros que, espetados a alguma distância da praia, apontavam o céu. Não havia ninguém naquela praia do Algarve, apenas bancos de areia fofa a formar suavíssimas inclinações — brancas quando de frente para o sol, brancas nos momentos de sombra, brancas também à noite. No céu, nem mesmo uma única cor parecia inteira, tudo um vinho a misturar-se com azul e amarelo, tudo um quadro. Ali, onde só havia os dois, formavam os dois juntos, no espaço indeterminado de uma praia que se perdia, um mesmo ponto — deitados um sobre o outro e a beijarem-se. Não se sabe o que ocorreu, mas é possível imaginar tudo o mais olhando-se para a dobra daquele meio sorriso, é verdade que tímido, mas enfim.

Depois, muito ou algum tempo depois, sentiram fome e sede. Atravessaram sem pressa o espaço incontornável da uma praia deserta e chegaram a uma espécie de mercearia, birosca, tasca, casebre de madeira fincado na areia e sonolentamente presidido por um só homem, grande e forte. Sentaram-se e esperaram. O vendeiro atravessou a areia que separava o seu balcão do conjunto de banquinhos e mesas, atravessou-a como se não tivesse fim, e plantou-se à frente dos dois, curioso, a olhá-los.

— O senhor tem aí uma cerveja? — perguntaram-lhe.

— Pois tenho — disse, girando os polegares.

e dois cachorros-quentes também.

— Mas isto não é peixe que se pesque por aqui!

— O senhor teria então algum sanduíche?

O vendeiro parou com os polegares no ar e não disse mais nada.

— Queremos saber se o senhor tem aí algum pão — disse ela, pela primeira vez abrindo a boca desde a hora em que a abriu pela última vez, durante o beijo na areia sobre o qual pouco se sabe.

— Pão não tenho. Só caseiro. Está ali — apontou.

E foram lá os dois a cortar o pão numa bancada de madeira. Cortado o pão, olharam-se. Chamaram o vendeiro:

— O senhor tem aí algo que se possa colocar dentro do pão?

— Dentro do pão?

— Sim, senhor. Dentro do pão.

— Eu não tenho nada, não.

— O senhor nos dá licença?

O homem resmungou e, com o resmungo, pareceu ter concedido a licença. Foram então ele e ela na direção de algumas prateleiras, escolheram recheios e molhos, levaram tudo para a mesa, pegaram as cervejas, comeram, beberam e, fartos de olhar o mar, beijaram-se mais uma vez.

E chamaram o vendeiro:

— O senhor poderia trazer-nos a conta, se faz favor?

O homem inclinou muito pouco a cabeça, espremeu os olhos e levantou as sobrancelhas. Depois de algum tempo, ela decidiu insistir:

— Quanto é que nós devemos ao senhor?

O vendeiro, balançando os ombros e um pouco impaciente, disse apenas:

— E como é que eu posso saber?

— O senhor então nos dá licença?

E levantaram-se. O vendeiro aproveitou para sentar-se num banquinho, pernas abertas e braços apoiados no joelho, e acompanhá-los com o olhar enquanto se dirigiam ao balcão. E lá ficaram os dois um bom tempo, falando baixinho, a tentar pesquisar na gaveta de notas e no caderno da mercearia uma maneira de bem calcular o preço do pão e do que dentro dele puseram.

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