quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

“O analfabetismo erudito”

TEXTO SEM DATA
RIBEIRO, João Ubaldo, “O analfabetismo erudito”, Enfim, texto sem data, p. 20-21. 

JUR: “(...) se eu começasse a falar inglês, o pessoal todo da mesa ia entender, mas, se eu começasse a falar sergipês, o pessoal ia boiar. (...) se essas pessoas tivessem sido levadas aos clássicos da língua (em vez de repelidas, tarefa precípua dos professores de literatura), se não manipulassem um vocabulário pop, cheio de psicanalês, sociologuês e adjetivos antes dos substantivos, compreenderiam tudo perfeitamente, pois um sergipano ignorante apenas estropia as palavras que pertencem ao nosso patrimônio histórico, que são nossas, que refletem nossa maneira de pensar e ver o mundo e que, por isso mesmo, o colonizador transforma em língua estrangeira.

JUR "... As revistas nacionais desenvolveram um estilo esquisitíssimo, cheio dos tais adjetivos na frente dos nomes, às vezes separados por vírgulas, cheio dos recursos jornalísticos americanos, como se fôssemos um povo imbecil, incapaz de adaptar sua própria língua (ou seja, sua identidade cultural) a exigências tecnológicas. Como se inglês, por ser a língua dos dominantes, tivesse sido, por essa razão mesma, predestinada (...) para servir melhor a propósitos tecnológicos. Na realidade, (...) inglês é uma língua que convive com imprecisões exasperantes (...). E o português, se não atingiu a precisão da navalha do francês, foi (...) porque os povos da língua portuguesa vêm pegando em baixo há bastantes séculos. É que nós abdicamos da nossa sagrada autonomia de ver o mundo à nossa forma e importamos as formas pré-fabricadas que nos empurram. E aí ficamos fazendo comentários cretinos, tais como ‘em inglês isto é muito melhor de dizer’, esquecendo que, quando falamos tais coisas, estamos confessando que já somos ingleses (ou americanos). E o pior é que não somos, porque lá eles nos acham engraçados. E aí ficamos, coitados de nós, passando esta vida na colonização e morrendo sem entender nada.

JUR: "... já viram que a coisa que brasileiro mais gosta é que gringo diga que ele é bom? Comigo mesmo aconteceu isto, porque, quando meu livro saiu nos Estados Unidos e os americanos gostaram (embora escrevendo besteiras incríveis, na maior parte dos casos), houve grandes festejos locais e recebi propostas de (...) um porrilhão de países sobre os quais sei muito pouca coisa, nem quero saber”.

Nenhum comentário: