quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

"A almazinha de João Ubaldo Ribeiro"

Escrever sobre João Ubaldo Ribeiro hoje, logo após a sua morte, pode significar um olhar compulsório para trás, observando-se uma obra agora completa e uma vida que foi toda ela, do começo ao fim, dedicada à literatura, mas este caráter obrigatoriamente retrospectivo é apenas aparente. A arte de Ubaldo segue adiante, gerando leitores, estudiosos e novas interpretações — uma forma de se atestarem a potência de um trabalho e o seu caráter imorredouro. O escritor publicou, ao longo de 41 anos, dez romances. Quem quiser conhecer a obra romanesca de João Ubaldo Ribeiro terá de os atravessar, e dentro desses romances tentar encontrá-lo, e também à sua marca.

Será isto conversa de escritor, ou os escritores têm marcas? Há escritores reconhecíveis à distância, numa leitura cega, e há outros de mais difícil identificação? Diante de um escritor como Ubaldo, em que não se detecta um estilo formal ou temático explícito a permear os seus romances, há então o quê, à excepção da assinatura, a agrupá-los? Sua obra romanesca é tematicamente sortida, o que tem dado ensejo a múltiplas abordagens, com variados resultados. Deve haver, no entanto, um centro nervoso, uma “marca” a enlaçar textos tão dissemelhantes.

É um curioso personagem ubaldiano, batizado no romance Viva o povo brasileiro de a “almazinha brasileira”, que pode iluminar uma leitura dos demais livros, anteriores e posteriores a 1984, e nos ajudar a identificar a “marca” do escritor baiano. É este personagem também que pode funcionar como a representação ficcional de um modo de se narrar ampla e radicalmente utilizado pelo autor: o discurso indirecto livre.

A almazinha de Ubaldo aparece como uma das mais brilhantes ideias da literatura brasileira, e justamente porque se comporta tal qual um discurso indireto livre o faria, sobrevoando as inúmeras histórias que compõem um romance e não se identificando de modo restrito com nenhum personagem; antes, de maneiras diversas, conseguindo ser cada um deles e ao mesmo tempo não ser nenhum, sendo apenas ela mesma, de algum modo única e sozinha. A almazinha que surge às primeiras páginas de Viva o povo... atravessa quatro séculos e algumas gerações, sempre a encarnar em pobres-diabos, índios tupinambás, negrinhas escravas maltratadas ou ainda soldados brasileiros mortos na flor da idade, como foi o caso do pescador e alferes José Francisco Brandão Galvão.

O jovem, atingido pelas balas portuguesas, cai morto no cais da Ponta das Baleias, na Baía de Todos os Santos, com o crânio em pedaços. Mas José Francisco, graças às palavras de amor à pátria que teria supostamente proferido à hora da morte, se tornou, da noite para o dia, um herói da independência.

Naquele dia de 1822, a almazinha que habitava o corpo do alferes um segundo antes do passamento afinal se despega, às carreiras, e sobe mais uma vez aos céus, aboletando-se no “Poleiro das Almas”, sítio onde se aboletam as almas enquanto esperam pelo momento de mais uma vez poder descer e encarnar noutro ser. Permanecendo almas, não aprendem nada; encarnando, aprendem as razões da vida. As almas precisam ser, e cada encarnação de uma alma é um modo de ser. E é essa almazinha brasileira que acaba por ser, ao fim e ao cabo, o mais constante personagem do caudaloso romance de Ubaldo. Ela entra e sai das histórias mais diversas, através de encarnações e desencarnações que partem do século XVII e chegam ao XX — quatro séculos de tiranias e humilhações —, para compor a eloquente amostra de alguns específicos modos de ser brasileiro.

Quais modos de ser? Do entrelaçamento de todas as histórias do livro e dos cruzamentos familiares verificados ao longo de tantas décadas destacam-se, do quadro ficcional, três personagens, analisados pela professora Eneida Leal Cunha, na sua tese Estampas do imaginário — literatura, cultura, história e identidade (Dep. Letras, PUC-Rio, Rio de Janeiro, 1993). José Francisco, que a posteridade reconhece como o heroico alferes Brandão Galvão, encarnará a ideia do patriotismo vazio que atravessa o imaginário brasileiro, do povo às elites. Um índio tupinambá, que chamam de Capiroba, habitante da ilha de Itaparica pelos idos de 1647, canibal de gosto exigente e apreciador da carne holandesa, transforma-se na possibilidade de se poder ouvir uma voz sempre silenciada nos relatos da história oficial: a do índio em processo de catequização. E transforma-se também — porque o centro da acção, aqui, é a catequese forçada, uma vez que o índio não se submeteu à conversão — no produto, levado às últimas consequências antropofágicas, do que lhe haviam ensinado os padres jesuítas: a celebração da Eucaristia.

A terceira encarnação da almazinha brasileira recairá sobre uma mulher. A jovem guerrilheira Maria da Fé parece constituir uma vontade do autor de que seja ela, das três, a mais apropriada encarnação da alma do povo brasileiro — almazinha inquieta e indecisa, é verdade, mas possuidora de um grande desejo de ser. Os três personagens carregam por toda a vida, habitando-lhes as entranhas, a almazinha brasileira que constitui o ser do romance; e carregam também, agora nos ombros, a responsabilidade de constituírem, cada um à sua maneira, uma tentativa de representação da assim chamada “identidade nacional”.

Esta almazinha é então esses três personagens, e não é nenhum deles, sendo apenas ela mesma e igual apenas a si mesma. Esta almazinha pode ser uma resposta à nossa busca pela “marca” do autor, na medida em que este insólito personagem funciona como uma representação ficcional, portanto interna à obra, de uma outra coisa, esta, sim, constituinte e fundante do universo romanesco: o narrador. A natureza do narrador na obra de João Ubaldo Ribeiro é a mesma da almazinha voadora: errática e ambígua quanto à sua identidade.

Ubaldo leva às últimas consequências, como poucos escritores o fazem, o discurso indirecto livre, que se apresenta, na sua narrativa, com uma radicalidade joyceana. E quais são essas “últimas consequências”? São graves. O que se espera de um narrador? Que conheça a história que vai contar. Mas o narrador ubaldiano, que não consegue mover-se e falar senão como se move e fala o personagem que está incorporando, não conhece a história que deveria contar, salvo nos raríssimos momentos em que não está “incorporando” algum personagem.

Assim como a almazinha, que necessita encarnar para aprender, o trabalho do narrador vai desenrolar-se ao longo de um determinado percurso de vida — a sua vida de narrador ao longo dos principais romances do escritor. De Setembro não tem sentido, de 1968, a O albatroz azul, publicado 41 anos mais tarde, vislumbra-se um caminho, linear no tempo, de progressiva e nítida abertura, que parte do personagem ensimesmado e avança em direcção a uma nova condição — condição que inclui os relacionamentos desse personagem com os grupos sociais que o envolvem, cada vez maiores e mais complexos, e também consigo mesmo e com a História.

Assim é que o seu primeiro romance, Setembro não tem sentido, se concentra na figura de Orlando, fechado em seu quarto e em si mesmo e demonstrando angústia e falta de perspectiva. Este romance tem a velocidade e a criatividade de um livro no qual claramente se inspira: O retrato do artista quando jovem, de James Joyce.

O facho da narrativa começa a abrir-se para o mundo no romance seguinte, Sargento Getúlio, de 1971. O narrador apresenta-se aqui em primeira pessoa, o próprio sargento, e por todo o livro o que faz é falar, não apenas de si, mas do que faz na vida: ser sargento, ser um empregado de seu chefe e ser portador de uma missão: levar um preso tido por comunista de um lugar para outro. Sargento Getúlio foi traduzido para o inglês pelo próprio Ubaldo e inspirou um estupendo e premiado filme homónimo, do realizador brasileiro Hermano Penna, com o actor Lima Duarte no papel principal. Observamos, neste segundo romance, o personagem Getúlio diante de sua missão e diante de si mesmo. Não há à sua volta nenhum grupo social a que pertença; há apenas ele, Getúlio, o desgarrado. A narrativa e o leitor estão encarcerados na mente de Getúlio.

Oito anos mais tarde chega ao público o romance Vila Real (1979). O personagem Argemiro torna-se ao longo da história um líder natural para o seu povo; um homem pouco preocupado consigo mesmo e dolorosamente comprometido com os valores e os problemas da sua comunidade. Toda a narrativa se mantém encaixada na terceira pessoa, usando e abusando, no entanto, do discurso indirecto livre, para dar conta do universo subjectivo de Argemiro, contraposto às agruras objectivas do povo de Argemiro, uma comunidade rural situada na região da Jurupema, ameaçada de todos os lados por povos inimigos. Não há aqui uma perspectiva nacional; não há perspectiva outra senão a da comunidade. Não se fala de Brasil; fala-se da região da Jurupema. O diâmetro do facho narrativo não ultrapassa as cercanias de Vila Real. O facho, no entanto, abriu-se um pouco mais. Já se pode ver que a área iluminada pelo narrador ultrapassa em muito os interesses particulares dos protagonistas, não mais fechados em seus quartos ou preocupados apenas em cumprir uma ordem e se manter em paz consigo próprios.

Com o romance Viva o povo brasileiro (1984), João Ubaldo, a começar pelo título, que não fala de um homem, Getúlio, nem de uma vila, a Real, mas de um povo, o brasileiro, dá mostras de avançar e ampliar sensivelmente o facho de interesses e o universo temático do seu narrador. O grupo social de que se fala agora é outro, ou são vários: o povo brasileiro como um todo e cada uma das suas partes — pretos e brancos, e dentro dos brancos os portugueses, holandeses, alemães e ingleses, e dentro dos pretos os de vários tipos e origens, e entre eles todos os pardos, mulatos, cafuzos e mamelucos.

Tudo isso está representado pela gente de um mesmo lugar, o seu universo por excelência: o Recôncavo Baiano. Os rudimentos de uma ideia de pátria envolvem todos os personagens e relativizam os seus projectos particulares em nome de uma causa maior, de âmbito nacional. Foi a partir de Viva o povo... que se começou a falar, acerca da obra de Ubaldo, da necessidade cultural, espelhada na literatura, de se contornar com mais nitidez o que se convencionou chamar de “a questão da identidade nacional”.

O romance seguinte, O sorriso do lagarto, de 1989, cujo protagonista é um cientista, inaugura uma nova direcção no grupo de temas do escritor. Mesmo se passando em Itaparica, o livro não tem como preocupação contar a história desta ilha baiana e do seu povo. O narrador ilumina os seus personagens com um assunto de responsabilidade internacional e alça-os à condição não mais de representantes de um povo do Recôncavo Baiano ou do Brasil, mas de uma ideia de humanidade. Os alvos dO sorriso do lagarto são a ciência, a engenharia genética, as consequências sociais do mau uso da tecnologia e a suposta presença de uma ideia universalista do mal nas condutas humanas.

No romance que se lhe segue, O feitiço da ilha do Pavão (1997), esse facho narrativo, que começou com o indivíduo e chegou à humanidade, realiza agora a sua abertura mais radical: através do tempo histórico, para afirmar uma dilatação não apenas do seu ambiente ficcional, mas do raio de acção de uma liberdade humana sem precedentes. O facho dilata-se para dentro do tempo, não como em Viva o povo..., que cobre quatro séculos da história brasileira, comendo-a pelas bordas, mas através da exploração radical de uma espécie de leque de possibilidades — à semelhança da cauda de um pavão. Para tanto, parte do seguinte ponto, simples: a História está todo o tempo a ser alterada em seu futuro pelos actos cometidos no presente. O feitiço..., no entanto, não pára aí; utiliza-se da metáfora da viagem no tempo para dar conta da ideia de que a História também pode ser alterada retrospectivamente — um outro modo de se dizer que o passado pode ser reinventado, sim, a depender do caminho interpretativo que se percorra, tal qual uma obra literária...

Como se viu, o facho narrativo de Ubaldo se foi abrindo, de 1968 a 1997, e o seu narrador, a cada abertura, se foi tornando mais e mais comprometido com algo que o ultrapassa. Os romances Miséria e grandeza do amor de Benedita (2000) e A casa dos Budas ditosos (1999) não se encaixam em tal caminho interpretativo; enveredam por um desvio face à linearidade observada nos seis livros anteriores. São romances escritos em função de encomendas específicas: A casa dos Budas ditosos, para a série “Plenos Pecados”, da editora brasileira Objetiva; e Miséria e grandeza do amor de Benedita, inserida no projecto da editora Nova Fronteira de criação do primeiro e-book brasileiro.

Em 2002, com a publicação de Diário do farol, o autor regressa ao ponto de partida: o quarto fechado, onde o facho parece estreitar-se novamente para os limites do indivíduo ensimesmado. Parece estreitar-se, mas na verdade se amplia. O protagonista do Diário..., dentro do seu quarto, talvez o quarto de uma instituição psiquiátrica, dispõe-se a forjar a sua biografia, com paciência e detalhes. O facho volta a dirigir-se ao indivíduo, mas se dilata para dentro do universo infinito das memórias de infância, do inconsciente e da loucura.

Com O albatroz azul, o seu último romance, de 2009, Ubaldo narra com uma tristeza e uma melancolia que já o acompanhavam de alguma forma. É o seu romance mais introspectivo e triste. Tertuliano Jaburu, o protagonista, é um homem triste; a vida de Tertuliano é, na sua maior parte, também triste, e de uma tristeza serena e constante, sendo os seus momentos menos tristes ironicamente aqueles em que passa a acreditar que irá morrer dali a pouco, anunciando assim a boa nova aos amigos; a história de seus antepassados é triste, e não poderia ser senão triste o tom do narrador, uma vez que está quase todo o tempo em focalização interna com Tertuliano — um narrador que só não fala mais da morte e da velhice porque tem uma história de vida para contar, ou um romance para escrever.

Mesmo assim é da morte que fala, e é para ela e o seu infinito que se amplia o foco narrativo. Com este romance o leitor conhece um novo e último Ubaldo, agora às voltas com um novo e último tema, que é o velho tema, o tema de sempre, o tema de todo dia, que é o próprio fim, uma das maneiras de se falar da própria vida.

Toda essa gradual abertura para universos mais amplos e complexos, da infância à velhice e à morte, obriga o narrador de Ubaldo a “encarnar” em mais vidas e a se comprometer com problemas cada vez menos particulares. Ao longo do facho, que é sempre outro e mais amplo, já não são um ou dois, mas uma grande comunidade de personagens a reivindicar para si esse narrador. Talvez seja esta a “marca” que procurávamos — esta “almazinha brasileira” que está lá em cada personagem, e ao mesmo tempo não está, e que será sempre aquilo que nos escapa. A almazinha de João Ubaldo Ribeiro, no entanto, esta não nos escapa: está impressa, página a página, aguardando leituras e releituras eternas. Isto é um convite.



domingo, 25 de dezembro de 2016

Aijaz Ahmad

“A mudança de um concepção primordialmente política para uma concepção culturalista tornou-se, então, ainda mais a-histórica porque surgiu num contexto acadêmico norte-americano que também testemunhou, depois que os radicalismos políticos dos anos de 1960 foram domesticados, o surgimento de uma ideologia específica que poderíamos chamar, no sentido estrito da palavra, de culturalismo — uma ideologia, em outras palavras, que trata a “cultura” não apenas como um forte aspecto de organização e comunicação social, mas como uma instância determinante. Achei muito surpreendente que, exatamente naquele momento histórico em que o capitalismo havia penetrado, pela primeira vez, os âmbitos mais longínquos não só das produções econômicas mas também das produções culturais, houvesse surgido uma ideologia que procurava deslocar o locus de determinação da economia política para a cultura.”

Aijaz Ahmad, “Prefácio à edição brasileira”, in: _____, Linhagens do presente — ensaios, org. Maria Elisa Cevasco, trad. Sandra Guardini Vasconcelos, São Paulo, Boitempo Editorial, 2002, p. 8-9.

"Sol, pão e mar"

Para Byron Mello Rosa

Havia o mar, a terra e muitos pinheiros que, espetados a alguma distância da praia, apontavam o céu. Não havia ninguém naquela praia do Algarve, apenas bancos de areia fofa a formar suavíssimas inclinações — brancas quando de frente para o sol, brancas nos momentos de sombra, brancas também à noite. No céu, nem mesmo uma única cor parecia inteira, tudo um vinho a misturar-se com azul e amarelo, tudo um quadro. Ali, onde só havia os dois, formavam os dois juntos, no espaço indeterminado de uma praia que se perdia, um mesmo ponto — deitados um sobre o outro e a beijarem-se. Não se sabe o que ocorreu, mas é possível imaginar tudo o mais olhando-se para a dobra daquele meio sorriso, é verdade que tímido, mas enfim.

Depois, muito ou algum tempo depois, sentiram fome e sede. Atravessaram sem pressa o espaço incontornável da uma praia deserta e chegaram a uma espécie de mercearia, birosca, tasca, casebre de madeira fincado na areia e sonolentamente presidido por um só homem, grande e forte. Sentaram-se e esperaram. O vendeiro atravessou a areia que separava o seu balcão do conjunto de banquinhos e mesas, atravessou-a como se não tivesse fim, e plantou-se à frente dos dois, curioso, a olhá-los.

— O senhor tem aí uma cerveja? — perguntaram-lhe.

— Pois tenho — disse, girando os polegares.

e dois cachorros-quentes também.

— Mas isto não é peixe que se pesque por aqui!

— O senhor teria então algum sanduíche?

O vendeiro parou com os polegares no ar e não disse mais nada.

— Queremos saber se o senhor tem aí algum pão — disse ela, pela primeira vez abrindo a boca desde a hora em que a abriu pela última vez, durante o beijo na areia sobre o qual pouco se sabe.

— Pão não tenho. Só caseiro. Está ali — apontou.

E foram lá os dois a cortar o pão numa bancada de madeira. Cortado o pão, olharam-se. Chamaram o vendeiro:

— O senhor tem aí algo que se possa colocar dentro do pão?

— Dentro do pão?

— Sim, senhor. Dentro do pão.

— Eu não tenho nada, não.

— O senhor nos dá licença?

O homem resmungou e, com o resmungo, pareceu ter concedido a licença. Foram então ele e ela na direção de algumas prateleiras, escolheram recheios e molhos, levaram tudo para a mesa, pegaram as cervejas, comeram, beberam e, fartos de olhar o mar, beijaram-se mais uma vez.

E chamaram o vendeiro:

— O senhor poderia trazer-nos a conta, se faz favor?

O homem inclinou muito pouco a cabeça, espremeu os olhos e levantou as sobrancelhas. Depois de algum tempo, ela decidiu insistir:

— Quanto é que nós devemos ao senhor?

O vendeiro, balançando os ombros e um pouco impaciente, disse apenas:

— E como é que eu posso saber?

— O senhor então nos dá licença?

E levantaram-se. O vendeiro aproveitou para sentar-se num banquinho, pernas abertas e braços apoiados no joelho, e acompanhá-los com o olhar enquanto se dirigiam ao balcão. E lá ficaram os dois um bom tempo, falando baixinho, a tentar pesquisar na gaveta de notas e no caderno da mercearia uma maneira de bem calcular o preço do pão e do que dentro dele puseram.

sábado, 24 de dezembro de 2016

"A quem possa interessar: o autor inédito"

Como ser um autor inédito, um autor publicado, um autor de um livro só, uma “coisa assim” num aquário ovalado, um sujeito em risco, um travesso?

Convidaram-me um dia para participar de uma mesa redonda cujo tema era “O autor inédito”. Como havia outros participantes que, pela idade e pelo currículo, estavam bastante longe da condição de jovens escritores, ainda por cima inéditos; eram antes intelectuais de peso, nome e renome, deduzi sem esforço que o papel de autor inédito, naquela mesa, não cabia a mais ninguém, senão ao pobre de mim. Comecei a ficar nervoso uns dias antes, mas pensava, para a minha tranqüilidade, que a presença do Juva, ali, seria praticamente ilustrativa, tal como se eu fosse um espécime colhido ao acaso em meio a um cardume de seres semelhantes ao pobre de mim: os jovens escritores brasileiros, inéditos e ávidos por uma publicação. Todos na mesa usarão da palavra, todos debaterão com paixão e lucidez o tema proposto, mas ali, naquele debatedouro, apenas eu não teria esse encargo. Sou, afinal, o autor inédito, pensei; sou, afinal, aquele de quem se falará exaustiva e brilhantemente. E me preparei para não falar nada, no máximo uma ou outra expressão de aturdimento, às vezes de desamparo.

É verdade que eu disse imediatamente às simpáticas moças que me convidaram que eu não era mais um autor inédito, tendo publicado na vida quatro livros, o quinto no prelo, alguns contos, alguns artigos, nenhum poema de amor ainda, mas nunca se sabe, e as simpáticas moças me bateram às costas: “Mas já foi autor inédito! E, além do mais, é um jovem autor! É de coisas assim que precisamos!”. Eu gostei mais daquele “jovem autor” do que do “coisas assim”, e passei o dia todo amuado, vendo a mim mesmo não mais que uma “coisa assim”, ansiosa e atordoada. No dia marcado, entretanto, e como sou cumpridor dos meus compromissos, me enchi de brios e fui. Estavam na mesa dois editores, um agente literário, dois intelectuais inteligentes e eu: o autor inédito, o jovem autor, a “coisa assim”, ou que quer que seja que se encaixe na fôrma da minha condição. Cheguei a sonhar, um dia antes, que meu lugar não seria à mesa, mas na mesa mesmo, e dentro de um aquário ovalado e transparente, por onde me veriam não falando, que uma “coisa assim” não fala, mas soltando belas bolhas.

Foi quase isso. Mal nos sentamos, cumprimentativos e sorridentes, e todo o mundo ficou me olhando, até mesmo eles, os estudiosos da minha condição. E enquanto falavam entremeavam suas digressões com pausas que se destinavam a viabilizar um exame mais minucioso daquela criatura que ali estava, aberta à visitação e com o seu melhor sorriso amarelo. E era como se dissessem à platéia de ouvintes: “Olhem para ele, observem-no, tem um olhar obcecado, uma postura obstinada, vê editores em todos os cantos, sonha com editores, faz vodu com editores”. E imaginei a mim mesmo, ou lembrei de mim mesmo, no papel do autor inédito, a andar, erradio e obstinado pela chamada cidade grande, olhando para os lados e repetindo para mim mesmo: “Sou um autor! Sou um autor!”, ao mesmo tempo em que o resto do mundo me atirava à cara a outra condição: “És inédito! És inédito!”.

E talvez eu seja mesmo. Meus cadernos de caligrafia, escritos com algum esforço no início da década de 70, ainda estão inéditos, e ainda haverá um intelectual inteligente que convencerá um editor astuto do valor daquilo, no que concerne à crítica genética, biográfica e arquivística (eu já não estarei neste mundo...). Sou um autor inédito porque metade da minha vida acadêmica está dentro da gaveta. Sou um autor inédito porque sempre que me sento para escrever algo novo em folha é como se estivesse indo tomar a primeira injeção: tenho medo de que doa; doa sentar-se, permanecer sentado hora e meia e se levantar, com cara de bobo, sem ter escrito uma única linha, somente bolhas. Felizmente isso quase nunca acontece (ou eu nunca confesso que aconteça), mas é mais fácil acontecer essa fatalidade literária a alguém que já tem um livro publicado do que a um aventureiro que nunca publicou nada. Eu usei a palavra “aventureiro” de propósito, pensando nos sentidos potentes que tem essa palavra. Se a literatura é uma aventura do espírito (sim, isso é um lugar comum, mas vamos tentar retirar essa idéia do lugar-comum e olhar para ela como se pela primeira vez; esse procedimento salva muita coisa do lugar comum...); se a literatura é uma aventura, quem escreve deve se debruçar, antes de tudo, sobre uma aventura, ou seja, sobre um risco. Uma pessoa que nunca tenha publicado um livro; que não seja, portanto, o que se chama de “autor publicado”, pode viver essa aventura de um modo mais produtivo, porque não carregará nas costas qualquer título ou passado literário público, por menor e irrelevante que seja. Um autor publicado, infelizmente e em muitos casos, mete na cabeça um série de minigâncias idiotas, compromissos literários inexistentes e responsabilidades para com algum tipo de expectativa cuja origem está na figura abstrata de um leitor, e pronto: está montado o quadro para esse sujeito simplesmente meter os pés pelas mãos, sentar-se, ficar hora e meia pensando na Literatura com maiúsculas e sair da cadeira com nada mais que a cicatriz de uma picada.

Tudo isso que eu disse acerca da potência de se sentar para escrever sem um passado literário às costas fica muito bonito escrito e mesmo lido em voz alta, mas também é chato e mentiroso. Ninguém que se considere um escritor e que goste de ser um escritor e que precise ser um escritor porque precisa escrever e, escrevendo, ganhar dinheiro e confiança e auto-estima com aquilo que escreve — ninguém vai querer dedicar-se ao rito de retornar estrategicamente à condição de autor inédito toda a vez em que se dispuser a se sentar para escrever. Eu me lembro que apreciei bastante o dia em que deixei de ser esta “coisa-assim-tipo-autor inédito” e passei a ser esta “coisa-assim-tipo-autor publicado”. É claro que me dediquei, antes do advento daquele dia, a uma certa produção — produção que incluiu, entre outras coisa, escrever, sim, mas não só.

A primeira providência que tomei para deixar de ser autor inédito foi mudar o nome, seguindo os preceitos do Mário de Andrade: “Fernando Tavares Sabino, si você quiser continuar sendo escritor, antes de mais nada tem que encurtar o nome. Tavares Sabino, Fernando Tavares, Fernando Sabino. O que é impossível é Fernando Tavares Sabino. Me desculpe esta sinceridade e entremos pelos outras”, escreveu o Mário para o Fernando, em janeiro de 1942.

A segunda coisa que fiz para deixar de ser autor inédito foi deixar de lado a preocupação muito consciente de que deveria abandonar a condição de autor inédito. E então comecei a escrever assim, como quem não queria nada. Escrevi, como já disse a Marguerite Duras e eu citei aqui uma outra vez, escrevi para saber o que eu escreveria se escrevesse... E, como quem não quer nada, publiquei; publiquei para saber o quer eu publicaria caso publicasse... O Mário diz que os estreantes devem pôr no primeiro livro a idade que têm. Eu pus, e ainda pus uma foto minha de cinco anos antes, para impressionar os mais velhos.


Depois, quando já não era mais autor inédito, sentei para escrever com o propósito de reforçar a idéia de que eu já não era mais autor inédito, mas ainda era, pior dos piores, “autor de um livro só” — o que deve ser bem mais angustiante do que ser autor inédito, porque o autor de um só livro passa aos outros, e a si mesmo (o que é desgraçadamente mais grave), a sensação de que tudo o que tinha a dizer já disse, e não há portanto mais nada, tendo sido aquele primeiro livro nada mais que um espasmo, um acaso, um surto, um arroubo que aconteceu e pronto: não vai mais acontecer, prometo. Em menos palavras: pode ser mais custoso escrever o segundo livro que o primeiro. Pudera... São escritos por autores diferentes (quem escreve o segundo livro é o “autor publicado”, que sofre, não raro, da moléstia da dupla personalidade, uma vez que ele pode ser também o amofinado “autor de um livro só”, ao passo que quem escreve o primeiro livro é simplesmente, e nada mais, o “autor inédito”, ou seja, o sujeito em risco). De minha parte, no entanto, a estratégia vem funcionando. Na hora em que me sento para me dedicar a escrever o meu quinhão de escrita diária, faço de tudo para me sentir, o mais verdadeiramente possível, um autor inédito, um amador, um aventureiro dedicado a descobrir, de preferência com espanto e delícia, qual a travessura que faria, caso a fizesse.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

"Uma noite sem adjetivos"

A noite está curvada sobre a janela do quarto de dormir da filha da empregada. A filha da empregada ainda não é também uma empregada. Pode suceder que sua vida siga por onde não segue a de uma empregada. Mas isto não está acontecendo, pois que a noite, por enquanto, ainda está curvada sobre a janela do quarto de dormir da menina.

A mãe, no momento, está trabalhando na cozinha, lavando pratos, panelas, talheres e copos. Os convidados de seu patrão bebem e conversam na sala de estar. Não vêem a noite, bem como a menina em seu quarto também não.

A noite, lá fora, ocupa todo o quintal. Entra por debaixo das folhas das árvores, escurecendo os ninhos dos currupacos e facilitando o trabalho daqueles que se aproximam para devorar os currupacos. Envolve os ramos das plantas que ainda estão para crescer e que precisam do orvalho que só vem com a noite para se refrescar do calor do dia e para se preparar para o calor do sol que o dia trará. Cuida de alargar o buraco das pupilas dos que andam à noite, para que possam perceber, plantado no chão, o buraco dos caminhos; para que possam não perder, na tocaia do céu, com suas mil nuanças, o céu.

Mais coisas faz a noite. Da à luz os recém-nascidos vindos da noite de dentro de cada mãe; acorda morcegos; faz acenderem-se lampiões; desculpa amantes e vergonhas; vive medos e cala telefones. À noite, o banco das praças muda de cor e reflete a lua. As formigas interrompem o trabalho iniciado ao amanhecer, e as minhocas, ao anoitecer, recomeçam o trabalho da perfuração, pois a noite penetra a terra e a umedece. Então as minhocas se reproduzem. Reproduzem-se também os homens, já que, à noite, há menos ruídos nas cidades e a campainha não toca.

Na sala de estar, o telefone não pára de tocar. Os convidados do patrão da mãe da menina sobre cuja janela está curvada a noite não param de comer. É uma pena, pois que a noite, parando tudo o que costuma fazer, no momento é vista apenas debruçada sobre a janela do quarto de dormir, fazendo a cama para os grandes sonhos da filha da empregada.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

“João Ubaldo Ribeiro — Um personagem que esqueceu de se incluir num dos seus oito livros"

TEXTO SEM DATA
SÉRGIO, Renato, “João Ubaldo Ribeiro — Um personagem que esqueceu de se incluir num dos seus oito livros, desde o primeiro, Setembro não tem sentido, escrito na flor dos vinte anos — agora reeditado —, até Viva o povo brasileiro, aos 40. E já pensando no próximo: O sorriso do lagarto. Frase padrão: ‘Baiano não nasce, estreia’”, Revista Ele Ela, texto sem data.

JUR: “Glauber foi um gênio da nacionalidade, o maior cineasta nacional, isso todo mundo tem que engolir, pra começo de conversa. O único que construiu uma linguagem autônoma que resolveu a necessidade de comunicar de tal maneira que forma e conteúdo estivessem efetivamente integrados na específica situação brasileira. Claro que ele sofria influência, e até profunda, de Jean-Luc Godard. Mas sua briga foi muito mais difícil, porque Glauber sempre esteve ameaçado de perder e só não perdeu porque tinha uma tal potência intelectual, uma tal pujança de imaginação e uma tal habilidade de viver — contraposta a uma proverbial inabilidade de viver — que permitiram que ele continuasse naquela briga de foice no escuro. E ele continuou porque brasileiro prefere Godard, prefere Bergman, prefere Kurosawa, prefere qualquer coisa, desde que não seja da gente. (...) Assim, no limite do que se poderia chamar ‘a loucura de Glauber’, ele produziu uma linguagem brasileira, sem xenofobias. E somos todos tão aculturados, nossas raízes se perderam tão profundamente, que encaramos como esquisito aquilo que é mais nosso. O que vem significar o ápice da enrabação de um povo por um vasto processo colonialista, aquele que faz você receber como de fora aquilo que mais lhe diz respeito”.

RS: "Um dia Glauber estava filmando Jece Valadão saindo da água com um peixe na mão, em Arambepe, João observando à distância. Mas Glauber viu João e gritou: ‘Tire a camisa, tire a camisa!’. A João foi entregue uma espingarda e ordenado que atirasse para o alto várias vezes, entes de virar a arma na direção [ilegível] Duarte, que passava o filme inteiro tocando violão. Foi tão bom o desempenho de João Ubaldo, que Glauber Rocha botou-lhe um 38 na mão, numa cena coletiva de multidão, o povo todo dançando, João deu mais tirinhos de cinema, inclusive no olho da câmera, e recitou o to be or not to be”.

JUR: “Foi meu amigo desde a adolescência. Difícil descrevê-lo, uma personalidade muito complexa, uma pessoa muito divertida, inteligente, intuitivo, um homem agradabilíssimo. Era amigo para caralho. Me dava muito bem com ele. Estou com saudades dele”.

“A loucura de Glauber”

TEXTO SEM DATA
GOMES, João Carlos Teixeira, “A loucura de Glauber”, texto sem referência.

JCTG: “Essa obra uniforme em sua temática mas altamente criativa, sendo uma interpretação fundamental de nossa realidade, na mesma linha de livros pioneiros como Os sertões [e] todo o ciclo do romance regional nordestino, tornou-se de difícil entendimento para o público, apesar de tão impregnada de brasilidade e de tocar em problemas essenciais de nossa formação e do nosso povo. Isto decorre não de um deliberado propósito de hermetismo, mas do extremos apego de Glauber Rocha a uma concepção artística de valorização revolucionária das formas e da sua ampla consciência da especificidade da linguagem fílmica, que o levou a repudiar o cinema comercial...”.

“O analfabetismo erudito”

TEXTO SEM DATA
RIBEIRO, João Ubaldo, “O analfabetismo erudito”, Enfim, texto sem data, p. 20-21. 

JUR: “(...) se eu começasse a falar inglês, o pessoal todo da mesa ia entender, mas, se eu começasse a falar sergipês, o pessoal ia boiar. (...) se essas pessoas tivessem sido levadas aos clássicos da língua (em vez de repelidas, tarefa precípua dos professores de literatura), se não manipulassem um vocabulário pop, cheio de psicanalês, sociologuês e adjetivos antes dos substantivos, compreenderiam tudo perfeitamente, pois um sergipano ignorante apenas estropia as palavras que pertencem ao nosso patrimônio histórico, que são nossas, que refletem nossa maneira de pensar e ver o mundo e que, por isso mesmo, o colonizador transforma em língua estrangeira.

JUR "... As revistas nacionais desenvolveram um estilo esquisitíssimo, cheio dos tais adjetivos na frente dos nomes, às vezes separados por vírgulas, cheio dos recursos jornalísticos americanos, como se fôssemos um povo imbecil, incapaz de adaptar sua própria língua (ou seja, sua identidade cultural) a exigências tecnológicas. Como se inglês, por ser a língua dos dominantes, tivesse sido, por essa razão mesma, predestinada (...) para servir melhor a propósitos tecnológicos. Na realidade, (...) inglês é uma língua que convive com imprecisões exasperantes (...). E o português, se não atingiu a precisão da navalha do francês, foi (...) porque os povos da língua portuguesa vêm pegando em baixo há bastantes séculos. É que nós abdicamos da nossa sagrada autonomia de ver o mundo à nossa forma e importamos as formas pré-fabricadas que nos empurram. E aí ficamos fazendo comentários cretinos, tais como ‘em inglês isto é muito melhor de dizer’, esquecendo que, quando falamos tais coisas, estamos confessando que já somos ingleses (ou americanos). E o pior é que não somos, porque lá eles nos acham engraçados. E aí ficamos, coitados de nós, passando esta vida na colonização e morrendo sem entender nada.

JUR: "... já viram que a coisa que brasileiro mais gosta é que gringo diga que ele é bom? Comigo mesmo aconteceu isto, porque, quando meu livro saiu nos Estados Unidos e os americanos gostaram (embora escrevendo besteiras incríveis, na maior parte dos casos), houve grandes festejos locais e recebi propostas de (...) um porrilhão de países sobre os quais sei muito pouca coisa, nem quero saber”.

“Os baianos — ‘Baiano não nasce; estreia...’”

TEXTO SEM DATA
RIBEIRO, João Ubaldo, “Os baianos — ‘Baiano não nasce; estreia...’”, Revista Manchete, texto sem data.

JUR: “... esse é o baiano do Recôncavo — falador, pegador, alisador, compositor, cantor, declamador, tomador de intimidades instantâneas, preguiçoso, relaxado, incapaz de compreender a necessidade de horários, festeiro, cara-de-pau... (...). Em contraste, vem o baiano do sertão, o euclideano ‘antes de tudo um forte’ (aliás, Euclides da Cunha se referia a nós, do Recôncavo, como ‘mestiços neurastênicos do litoral’), gente muito diversa do pessoal da praia. (...) São os baianos de ancestrais cangaceiros, coronéis, jagunços, combatentes de Canudos, acostumados a ‘tudo pouco’: pouco de comer, pouca chuva, pouca conversa, pouca brincadeira, pouca intimidade, tudo pouco. (...) ... continuamos a ser e não ser tudo aquilo que pensam de nós, a ser cidadãos de um país grande e nativos de uma nação especial. E não aceitamos presentes de pulseiras e colares, nada que amarre (...), não gostamos que nos passem a mão na cabeça (...), não sentamos de costas para a porta, não damos nem nome nem objeto pessoal à gente de pouca confiança (...), não esquecemos o santo na hora de beber, gostamos de conversar sobre comida, temos hábitos sexuais pouco ortodoxos, somos compositores, cantores, vaqueiros, sofredores, curtidores, lutadores (...)”.

“João Ubaldo Ribeiro — Um personagem que esqueceu de se incluir num dos seus oito livros"

TEXTO SEM DATA
SÉRGIO, Renato, “João Ubaldo Ribeiro — Um personagem que esqueceu de se incluir num dos seus oito livros, desde o primeiro, Setembro não tem sentido, escrito na flor dos vinte anos — agora reeditado —, até Viva o povo brasileiro, aos 40. E já pensando no próximo: O sorriso do lagarto. Frase padrão: ‘Baiano não nasce, estreia’”, Revista Ele Ela, texto sem data.

JUR: “Glauber foi um gênio da nacionalidade, o maior cineasta nacional, isso todo mundo tem de engolir, pra começo de conversa. O único que construiu uma linguagem autônoma que resolveu a necessidade de comunicar de tal maneira que forma e conteúdo estivessem integrados na específica situação brasileira. Claro que sofria influência, e até profunda, de Jean-Luc Godard. Mas sua briga foi muito mais difícil, porque Glauber sempre esteve ameaçado de perder e só não perdeu porque tinha uma tal potência intelectual, uma tal pujança de imaginação e uma tal habilidade de viver — contraposta a uma proverbial inabilidade de viver —, que permitiram que ele continuasse naquela briga de foice no escuro. E ele continuou, porque brasileiro prefere Godard, prefere Bergman, prefere Kurosawa, prefere qualquer coisa, desde que não seja da gente. (...) Assim, no limite do que se poderia chamar ‘a loucura de Glauber’, ele produziu uma linguagem brasileira, sem xenofobias”.

sábado, 26 de novembro de 2016

Quem tem medo de Campos de Carvalho? (capa)

Quem tem medo de Campos de Carvalho?, Rio de Janeiro, Editora 7Letras, 2004, 289p. (ISBN: 8575771353)

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

"Três gênios da literatura de invenção", depoimento de Juva Batella a Edney Silvestre


Depoimento a Edney Silvestre, para o programa "GloboNews Literatura" - "Três gênios da literatura de invenção", que tratou dos escritores Campos de Carvalho, Murilo Rubião e Simões Lopes Neto. Este vídeo foi editado, tendo seu conteúdo reduzido e contendo apenas o trecho referente a Campos de Carvalho. Exibido em 25/11/2016. 

BATELLA, Juva. Quem tem medo de Campos de Carvalho? Rio de Janeiro: ed. 7Letras, 2004, 289p. (ISBN: 8575771353)

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

"O realismo inclusivo de Campos de Carvalho"

Dia 10 de novembro de 2016, PUC-Rio, LAC – Laboratório de Artes Cênicas, 14:30 ("Encontros imprevistos")
. Performance artística - Leitura de trechos selecionados das obras de Rawet, Campos de Carvalho e Guimarães Rosa por alunos de Letras e de Artes Cênicas da PUC-Rio

. Debates - Mediadora: Rosana Kohl Bines (PUC Rio); Participantes: Helena Martins (PUC Rio), "Palavras catrumanas e severinas"; Mauro Gaspar Filho, "1956: um round Walter Campos de Carvalho x Samuel Rawet"; Juva Batella, "O realismo inclusivo de Campos de Carvalho"; Stefania Rota Chiarelli (UFF), "Caminhos para Rawet: conversa entre pares"

O realismo inclusivo de Campos de Carvalho (resumo)
Juva Batella

Campos de Carvalho costuma ser lido como um autor afastado do realismo literário e próximo do fantástico (é chamado de surrealista, intimista, psicológico e nonsense). Nesta ordem entram, mesmo que de forma apressada, seus romances A lua vem da Ásia, Vaca de nariz sutil, A chuva imóvel e O púcaro búlgaro — este último uma verdadeira celebração do nonsense-comédia, que se lê de olhos arregalados ou às gargalhadas.

Como então pensar que em 1956, data em que publicou A lua vem da Ásia, vieram também à baila Grande Sertão: veredas e Corpo de Baile, de Guimarães Rosa; Contos do imigrante, de Samuel Rawet; Encontro marcado, de Fernando Sabino; e Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto? Nossa proposta é tentar uma outra aproximação com o romance A lua vem da Ásia, lendo-o como um texto fantástico, sim, mas que vai além, incorporando realidades díspares. Sua linguagem, para isso, é inclusiva, deglutidora, capaz de conviver com diversas formas de realismo. O fantástico, em Campos de Carvalho, ultrapassa a realidade imediata do real; é mais realista, mais alargado e potente, conforme sugere Cortázar em suas reflexões sobre seus contos — para ele fantásticos, sim, e justamente por isso muito realistas.

sábado, 2 de julho de 2016

Do gato Ulisses as sete histórias (capa)

Do gato Ulisses as sete histórias, Rio de Janeiro, Editora Vieira e Lent, 2015, 72p. (ISBN: 9788581600253)


sexta-feira, 1 de julho de 2016

"(Cattus Fugit)"

Revista Navegações, v. 9, n. 2, 2016
Revista de Cultura e Literaturas de Língua Portuguesa

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

(Programa de Pós-Graduação em Letras)

Universidade de Lisboa
(Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias)



Avaliação do Qualis CAPES - 2015
ÁREA CAPES - Letras/Linguística
CLASSIFICAÇÃO - B1


(Cattus Fugit)
Resenha de Eurídice Gomes sobre o livro Do gato Ulisses as sete histórias

domingo, 6 de março de 2016

“O analfabetismo erudito”

TEXTO SEM DATA
RIBEIRO: João Ubaldo, “O analfabetismo erudito”, Enfim, texto sem data, p. 20-21.

JUR: “Esses caras, disse eu a Glauber [Rocha], são todos eruditos, eles são uns caras ótimos. Mas eles não sabem ler o que existe aqui, eles apenas comparam, porque a colonização tomou conta da cabeça da gente e vivemos medindo tudo com régua alheia e ninguém está sabendo de nada, nem mesmo a respeito da nossa língua, da nossa dança, de nada. Que coisa, disse eu, uns analfabetos eruditos”.

Glauber: "Você acha que existe crítica no Brasil?".

Eu: "Não. Acho a crítica ruim e omissa".

Glauber: "Todos ruins?".

Eu: "Uns substitutos da censura. Uns analfabetos eruditos".

Glauber: "Inclusive Wilson Martins?".

Eu (depois de leve pausa): "Inclusive Wilson Martins. (...) Eu nunca tive (...) livro ignorado pela crítica. E não tenho motivos desse tipo para esculhambar a crítica. Por incrível que pareça, tenho motivos honestos. (...) o que eu digo é o seguinte:

1. Que a maioria das pessoas literárias já leu Updike e nunca leu Antônio Vieira;
2. Que a maioria das pessoas literárias espera que o outro diga o que é bom;
3. Que a maioria das pessoas literárias só conhece literatura;
4. Que literatura não é literatura;
5. Que, para me esculhambar, os críticos teriam que saber mais é da nossa língua falada, das nossas ilusões, das nossas imagens, teriam que saber mais de nossa vida, em vez de saber o que se pensa sobre nós".

JUR: "A literatura é um produto cultural. Não é composta de objetos atemporais, ahistóricos, antisséticos”.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

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domingo, 31 de janeiro de 2016

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