sábado, 16 de agosto de 2003

“Quando a amizade ainda era possível"

“Quando a amizade ainda era possível — Relação entre dois jovens, um judeu e um ariano, permite compreender a Alemanha às vésperas do nazismo”, Caderno Idéias, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2003.

Resenha sobre o livro O reencontro, de Fred Uhlman, ed. Planeta.

Eu já resenhei aqui o livro-testemunho A noite, de Elie Wiesel, prêmio Nobel da Paz em 1986, e escrevi que nenhum relato acerca do Holocausto poderia ser desconsiderado, e com cada um deles teríamos de conviver, porque todos, em sua verdade básica, têm o mesmo direito de se constituir como memória coletiva e todos flutuam, legítimos, à mesma margem da História. A pequena novela O reencontro, de Fred Uhlman, parte do mesmo fundo temático — a campanha nazista e suas conseqüências — para contar uma outra história.

As semelhanças com A noite, de Wiesel, bem como as diferenças, são muitas. São ambos relatos curtos de duas vidas longas; são ambos narrados na primeira pessoa; são os dois protagonistas meninos entre quatorze e dezesseis anos; são os dois meninos judeus. Os autores já eram homens feitos quando se puseram a escrever os livros. A visão sobre o acontecido, bem como sobre a psicologia dos personagens, deveria ser retrospectiva e distanciada, mas não é. Em A noite e O reencontro, Wiesel e Uhlman conseguem aproximar ao máximo o menino que viveu do adulto que anos mais tarde está contando. É com os olhos do menino Wiesel que o homem Wiesel dá conta de sua tragédia; é com o coração do jovem Hans Schwarz que o sexagenário Fred Uhlman relembra os mais tocantes episódios de sua vida adolescente na Alemanha pré-nazista. É o narrador adulto a buscar o tom e o olhar próprios do menino de ontem.

As diferenças correm ao longo do texto, na própria história que contam os nossos moleques. Elie Wiesel narra a história de dentro do redemunho: em 1944, aos 16 anos, foi feito prisioneiro em Birkenau — e por Birkenau, Auschwitz, Buna, Gleiwitz e Buchenwald estiveram por um ano o menino Wiesel e seu pai. Fred Uhlman (1901-1985), bem mais velho que Wiesel, nasceu em Stuttgart e, em 1933, com 32 anos, deu o fora. Depois de muitas andanças, firmou pé na Inglaterra, e lá viveu a vida, advogou, escreveu e pintou. Escreveu O reencontro — nem totalmente autobiográfico, nem totalmente ficcional — em 1960, criando para seu alter ego o menino judeu Hans Schwarz. A história é simplesmente a de uma amizade, que não teria a metade de sua graça não fosse ambientada em Stuttgart justamente naquele início de temporada nazista: a caça aos comunistas e aos judeus começando a mostrar a cara; suásticas começando a pipocar aqui e ali, nas fachadas dos prédios; judeus começando a sofrer injúrias e agressões no meio da rua; a Alemanha começando a cheirar mal.

A história da amizade entre Hans Schwarz e Konradin von Hohenfels também não teria lá muita graça não fosse Hans um judeu como outro qualquer, filho de judeus e neto de rabinos, e seu amigo Konradin um nobre alemão do tipo assim denominado “puro”, cheio de antepassados importantes e imprescindíveis à formação da brava história alemã. Conheceram-se no colégio e, lentamente, se aproximaram: discutiam juntos os seus escritores, músicos e pintores preferidos, discutiam filosofia e a recente psicanálise e vez por outra pegavam os dois um trem e pernoitavam nalguma cidadezinha próxima a Stuttgart, onde arranjavam um “quarto limpo e barato, comida excelente e vinho da região”. Não, a amizade não descamba para alguma espécie de homoerotismo adolescente. Se há aqui uma sugestão, a história não a desenvolve. As energias de Hans estavam por demais concentradas em concretizar o que ele chamava o seu “ideal de amizade”, e o seu ideal de amizade significava antes de tudo uma verdadeira interlocução, que de fato ocorria quando os temas não passavam de literatura, música, arte e psicanálise. Quando Hitler e os seus planos para o futuro da Alemanha passam a figurar como o tema da conversa — ou, por outra, como o silêncio da conversa —, Hans e Konradin transformam-se no microcosmo de provavelmente muitos outros dramas semelhantes que explodiram quando explodiu a sandice nazi-fascista.

É este pano de fundo a força do livro: o desenvolvimento do nazismo, através da lenta, mas constante, adesão da sociedade civil à causa ariana e à desconfiança em relação aos judeus. Os comentários mais ou menos desinteressados de Hans acerca da ascensão de Hitler — uma figurinha ridícula que muitos judeus e alemães não levavam a sério — produzem sobre a leitura um curioso e incômodo efeito: estamos a acompanhar uma história que conhecemos muito bem, pelas mãos de um narrador que não a conhece nada. Uhlman, como se disse, procura narrar a partir da ótica de seu Hans Schwarz, e Schwarz, à época, não poderia conceber em sua imaginação o que faria mudarem de cor os ares de Stuttgart e o solo de toda a Europa.

Conseguir manter, nesse contexto histórico hoje tão conhecido e óbvio, o olhar ingênuo, otimista e levemente alienado de um narrador que não estava interessado em muito mais do que manter intactas uma amizade e a sua coleção de livros configura, antes de tudo, uma estratégia narrativa. O custo do emprego dessa estratégia é o aparente simplismo de todo o texto diante dos eventos narrados. Por que é aparente o simplismo? Porque do lado de cá de todo narrador há sempre, a atualizar e potencializar a narrativa, um leitor. E se ele conhece o contexto histórico do que lê e sabe identificar estratégias, esse leitor consegue converter ingenuidade, otimismo e alienação em seus opostos — consegue, assim, transformar o recurso ao simplismo em atitude crítica.

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