sábado, 19 de julho de 2014

"Cartas ao jovem sobrinho"

"Caderno Ípsilon, Cultura", O Público, Lisboa, 19 de Julho de 2014;

"Espaço Público, O Público errou", O Público, 21 de Julho de 2014 (pedido de desculpas do jornal por não haver assinado o texto "Cartas ao jovem sobrinho", da edição do dia 19 de Julho).


"Cartas ao jovem sobrinho"

Quando publiquei o meu primeiro livro entreguei um exemplar ao velho tio e, ansioso como um jovem autor não deveria ser, não esperei passarem-se 24 horas e já o procurei, batendo-lhe à porta, para saber o que havia afinal achado do meu primeiro romance, e ele me puxou para dentro com veemência, como se fugíssemos de repórteres, e me aconselhou aos cochichos a jamais perguntar a opinião de alguém acerca de um livro que se tenha escrito. “Deixe que o leitor se manifeste, querido sobrinho. Jamais pergunte uma coisa dessas!”

E me disse meses depois, numa carta, que eu arranjasse, por amor a todos os santos da Bahia, uma ocupação decente, “que não se aproximasse tão perigosamente do ofício de seu tio”. E as inúmeras cartas que recebi dele começavam sempre assim: “Irrepreensível e inadmoestável sobrinho”. E me aconselhou a ler Shakespeare. “Basta isso, sobrinho! E que Deus tenha pena de sua alma jovem! Basta ler Shakespeare, ainda há tempo!, e todo o resto virá naturalmente. E se você me disser que não lê em inglês aí eu deixo de me dar com você, vá ler inglês urgentemente, conselhos do velho tio: há que ler os clássicos! Os clássicos não são clássicos à toa. O que se deve evitar é ler o que escreveram sobre os clássicos, a não ser que o autor do clássico sobre o clássico seja também um clássico, coisa rara, mas encontradiça.”

Também me aconselhou a ler Homero, “principalmente A Ilíada, é claro”, e me sugeriu que evitasse as traduções em versos, porque os pés gregos são inimitáveis. E numa das cartas, a maior e a mais divertida de todas, simulou uma entrevista que eu daria, anos mais velho, à revista Fortune, onde, acendendo o meu charuto com uma nota de mil dólares, relataria ao curioso e assustado repórter as origens do meu sucesso capitaneando um império editorial sem tamanho. “Mas vê-se que o senhor não é um fumante de charutos...”, assim disse eu, como personagem de João Ubaldo, ao estupefato repórter que me entrevistava para a Fortune. “Qualquer fumante de charutos sabe que o charuto aceso com uma nota de mil dólares tem um sabor inigualável.”

E em todo os momentos da minha vida o velho tio praticamente me obrigou a prosseguir em minha “trilha triunfal e adotar como lema Audaces fortuna juvat, que calha muito com o seu nome: a sorte sorri aos audazes! Em frente!Eia Sus!”, escreveu ele, que sempre assinava assim: “Misteriosamente, João Ubaldo Ribeiro”.

Hora de reler o velho tio, linha a linha, e refazer esse traçado que já faz parte de mim.

Ah!, e de vez em quando ele assinava assim: “Do seu velho tio, Ubaldão, o Cruel”.

6 comentários:

Manuel Sá disse...

Ainda não me recuperei disso. Ele fazia parte da minha vida direta (através dos livros) e indiretamente, através dos meus veraneios na ilha de itaparica. Lindo texto, Juva!

Juva Batella disse...

Obrigado, Manuel, pelo teu comentário e pelo teu carinho.
Fica com este abraço, e com todas as letras.
Juva

O Escravisauro disse...

Soube anteontem da morte do seu tio. Fiquei incrédulo. Assim como quando morreu o Dorival Caymmi há uns anos. Como pode? Velho baiano, músico ou escritor, não morre. Nunca.
Li hoje o seu texto no Público. Estranhamente, o nome do autor não vem publicado. Intrigou-me. Fui procurar. Encontrei-o aqui. Muito prazer. Vejo que mora em Lisboa. E faz muito bem. "Não t'acanhes" por cá. Conselho póstumo de seu tio.

Juva Batella disse...

Meu caro,
Tens razão, o gajo não morre nunca. Quanto ao Público, aquilo foi um erro que teve a sua causa na incrível correria que foi o jornal no dia da morte do João. A Isabel Coutinho pediu-me imensas desculpas, e já fez um "O Público errou", que saiu na segunda-feira.
Obrigado pelo seu carinhoso comentário.
E este abraço,
Juva

Anônimo disse...

Achei esse blog por um acaso: joguei no google algo sobre o livro O fosso de babel, de jacyntho lins. Resolvi ler o post sobre o ubaldo, achei realmente muito bom, descontraído e bem escrito. Vá em frente, espero ler livros do sobrinho do ubaldo. aproveito a deixa para, sob modéstia de um leitor juvenil, pedir um conselho de livro do ubaldo que nao seja do 'grau' de viva o povo brasileiro. agradeço!
um abraço,
A.M.I

Juva Batella disse...

Caro A.M.I.,

Obrigado pelas tuas palavras, e desculpa lá demorar tanto a responder. Andei por Lisboa, meio desligado da vida. Olhe, sugiro-lhe vivamente "Vila Real" e também "Sargento Getúlio". E, se puderes, assiste ao filme "Sargento Getúlio", do diretor Hermano Penna. Encontras no YouTube. Aqui:

https://youtu.be/z5YjBYxHHjY

Abraços!
Juva