sábado, 1 de novembro de 2014

“Gato vai, gato vem”

16. “Gato vai, gato vem”, Revista Lilica and Tigor, São Paulo, nov. 2014 (data aproximada).

— Mas eu nunca tive um gato!

Não deu nem tempo de resmungar; a minha amiga portuguesa já me entregava um bichinho que ela jurava ser um gato, mas que para mim era um rato: não possuía pelos e quase cabia na minha mão de tão pequenino. Um gato... Eu já tive na vida uma galinha (a Chimbica), uma tartaruga (a Mafalda) e uma cadela (a Pinga), mas um gato, não.

— E o nome dele é Jeremias! — anunciou a gaja, virando as costas e dando no pé.

Esta foi a pior parte do nosso encontro, porque a perspectiva que mais me atraía em toda essa história de ter um gato era dar ao bicho um nome, porque eu adoro dar nomes às coisas, digo, aos bichos. E jamais batizaria de “Jeremias” um gato pra chamar de meu. Na primeira oportunidade, renomeio o gato, pensei, animado. Será “Ulisses”! Ulisses, o guerreiro! Ulisses, o navegador! Quem sabe até Ulisses, parceiro de uma futura gatinha chamada Penélope! Show! Comecei a gostar... Mas em menos de duas horas já estava a minha pequena Clara no chão, a conversar com o Jeremias. O papo era linguístico:

— Tu mias, Jeremias?

— Miau...

— Tu mias, Jeremias?

— Miau, miau...

— Pai, já viste isto? O Jeremias percebe tudo! E isto tem a ver com o nome dele! Tão querido...

Apenas eu em Lisboa passei a chamar o Jeremias de Ulisses, e em pouco tempo o “guerreiro” destruiu meu sofá, derrubou e quebrou meus porta-retratos, arranhou as lombadas dos meus livros, comeu minhas plantas e espatifou minha escultura do Fernando Pessoa. Quando minha namorada brasileira veio me visitar e recebeu um olhar terno e um ronrom, apaixonou-se pela criatura, já então robusta e peluda. Prometi-lhe que na minha próxima viagem ao Rio de Janeiro levaria o bichano na mala de mão. Vacinei-o, tirei um passaporte para o terrorista disfarçado de “grande navegador”, metemo-nos num avião nós dois, cruzamos o Atlântico, e pronto: o presente foi entregue. Ulisses ficou radiante porque caiu numa casa com mais dois gatos, e eu bem sei que gato não gosta de morar sozinho, mas com outros gatos, todos se limpando e caçando juntos. Com a sensação de que fiz a coisa certa, voltei para Lisboa feliz, para uma casa sem gato, mas com plantas, livros e pequenos objetos sobre as prateleiras. Um paraíso de estabilidade...

Mal sabia eu que, um ano depois, eu iria acabar deixando Lisboa... Uma vez no Rio, quando vou jantar na casa da namorada, ou ver lá um filme, ou tomar um vinho; toda vez, enfim, que toco a campainha, quem é que aparece se esfregando nas minhas canelas e mal se contendo de felicidade gatífera?

Eu não deveria ter mexido no nome dele...


— Tu mias, Jeremias?

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

“Como fazer para não pensar”

15. “Como fazer para não pensar”, Revista Lilica and Tigor, São Paulo, set. 2014 (data aproximada).

Os filhos e as filhas de nossos namorados e namoradas são como se fossem nossos, e não são; e também não são, mas é como se fossem. E nunca que daremos jeito nesse vai-e-vem pedagógico: tentamos fazer com que aprendam conosco mas eles não aprendem, e acabamos, aos trancos e barrancos, aprendendo nós. Aprendendo o quê? Ah, muitas coisas. Uma delas é não tentar fazer com que eles aprendam o que quer que seja conosco.

Nunca imaginei que o pacote seria do tamanho que é. Comecei a namorar, e éramos apenas nós dois, mas o namoro foi melhorando, e a intimidade, crescendo, e Nossa Senhora do Quotidiano fez o dia-a-dia mudar (essa senhora, se não é santa, deveria ser, de tão poderosa que é...). Os filhos dela começaram a gostar de mim, e eu deles, e eles a se sentir à vontade perto de mim, e eu deles. E as minhas duas miúdas portuguesas também, mas estas moram em Lisboa, e minha namorada, em relação às duas, não é testada pela tal Nossa Senhora do Quotidiano. Eu sou. E vou aprendendo. O quê? Ah, muitas coisas...

Com a minha enteadazinha, vamos chamá-la assim, aprendo mais filosofia do que quando tentava aprender sentado e de lápis à mão. Com ela aprendo aos trancos e barrancos o que podemos denominar de corrente pragmático-esportista. Seu objetivo? Ser feliz. Seu método? A correta utilização do zero: zero problema e pensamento zero.

No meio de um jantar ela anuncia, meio que gritando: “Estou tão feliz! Atualmente eu tenho zero problema!”. Diante da pergunta da mãe, minha namorada, interessadíssima no tema do zero problema e confrontada em seu dia-a-dia (valei-nos, Nossa Senhora do Quotidiano!) com tantos deles, a pequena diz, na lata (é assim que se expressam os filósofos pragmático-esportistas): “Como é que a gente faz pra ter zero problema? É só resolver todos. Resolve um, depois outro, depois outro, e assim vai...”. E comenta minha namorada, tentando entender (e eu, já de lápis à mão, pra ver se aprendo): “Mas meus problemas nunca acabam...”. E nossa filósofa, com a impaciência típica dos pragmático-esportistas que estão há mais de cinco minutos sentados: “É que nem jogo de futebol, mãe! Não pode sair todo mundo da defesa de uma vez; nem atacar com todos os jogadores de uma vez. Ah! E não pode perder a bola!”. E disse a mãe da menina: “Mas eu sempre perco a bola...”.

Diante de nosso desânimo a garotinha se levanta da mesa, pega sua bola e diz: “Vocês não pegaram... Vou dar um exemplo: quando jogo futebol, não penso. Por quê? Porque fico muito concentrada e não ligo pra mais nada”. Esse assunto me interessa, pensei. É o aprofundamento do conceito do pensamento zero. E pedi a ela que continuasse. E ela, já impaciente com a minha lentidão: “Quando fico concentrada, fazendo coisas de agilidade, meu corpo toma o controle de tudo. Não ligo pra mais nada”. E eu, anotando furiosamente cada palavra, pedi a ela que seguisse adiante, desenvolvesse... E ela seguiu: “Quando você não ‘tá fazendo nada, você pensa o tempo todo. E até pensa que ‘tá pensando! Você não consegue não pensar. E não pensar é muito bom!”. E eu lhe disse: “Valeu! Preciso pensar mais sobre isso”. E ela, com pena de mim, me olhou longamente: “Juva, você não entendeu nada...”.


E foi jogar bola.

sábado, 19 de julho de 2014

"Cartas ao jovem sobrinho"

"Caderno Ípsilon, Cultura", O Público, Lisboa, 19 de Julho de 2014;

"Espaço Público, O Público errou", O Público, 21 de Julho de 2014 (pedido de desculpas do jornal por não haver assinado o texto "Cartas ao jovem sobrinho", da edição do dia 19 de Julho).


"Cartas ao jovem sobrinho"

Quando publiquei o meu primeiro livro entreguei um exemplar ao velho tio e, ansioso como um jovem autor não deveria ser, não esperei passarem-se 24 horas e já o procurei, batendo-lhe à porta, para saber o que havia afinal achado do meu primeiro romance, e ele me puxou para dentro com veemência, como se fugíssemos de repórteres, e me aconselhou aos cochichos a jamais perguntar a opinião de alguém acerca de um livro que se tenha escrito. “Deixe que o leitor se manifeste, querido sobrinho. Jamais pergunte uma coisa dessas!”

E me disse meses depois, numa carta, que eu arranjasse, por amor a todos os santos da Bahia, uma ocupação decente, “que não se aproximasse tão perigosamente do ofício de seu tio”. E as inúmeras cartas que recebi dele começavam sempre assim: “Irrepreensível e inadmoestável sobrinho”. E me aconselhou a ler Shakespeare. “Basta isso, sobrinho! E que Deus tenha pena de sua alma jovem! Basta ler Shakespeare, ainda há tempo!, e todo o resto virá naturalmente. E se você me disser que não lê em inglês aí eu deixo de me dar com você, vá ler inglês urgentemente, conselhos do velho tio: há que ler os clássicos! Os clássicos não são clássicos à toa. O que se deve evitar é ler o que escreveram sobre os clássicos, a não ser que o autor do clássico sobre o clássico seja também um clássico, coisa rara, mas encontradiça.”

Também me aconselhou a ler Homero, “principalmente A Ilíada, é claro”, e me sugeriu que evitasse as traduções em versos, porque os pés gregos são inimitáveis. E numa das cartas, a maior e a mais divertida de todas, simulou uma entrevista que eu daria, anos mais velho, à revista Fortune, onde, acendendo o meu charuto com uma nota de mil dólares, relataria ao curioso e assustado repórter as origens do meu sucesso capitaneando um império editorial sem tamanho. “Mas vê-se que o senhor não é um fumante de charutos...”, assim disse eu, como personagem de João Ubaldo, ao estupefato repórter que me entrevistava para a Fortune. “Qualquer fumante de charutos sabe que o charuto aceso com uma nota de mil dólares tem um sabor inigualável.”

E em todo os momentos da minha vida o velho tio praticamente me obrigou a prosseguir em minha “trilha triunfal e adotar como lema Audaces fortuna juvat, que calha muito com o seu nome: a sorte sorri aos audazes! Em frente!Eia Sus!”, escreveu ele, que sempre assinava assim: “Misteriosamente, João Ubaldo Ribeiro”.

Hora de reler o velho tio, linha a linha, e refazer esse traçado que já faz parte de mim.

Ah!, e de vez em quando ele assinava assim: “Do seu velho tio, Ubaldão, o Cruel”.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

"Eu tive medo de Campos de Carvalho"

"Eu tive medo de Campos de Carvalho", trabalho para o mestrado na PUC-Rio, sem data.

Minha mãe um dia atirou-me ao colo a obra reunida de Campos de Carvalho e disse: “Leia isto”. Estava disposto a obedecer, mas antes perguntei a ela se já tinha lido. “Até onde me foi possível.” “Foi possível o quê?” “Até onde me foi possível ler e não enlouquecer”, disse ela. Aquilo me animou.

Tempos depois candidatei-me para o curso de mestrado na PUC-Rio. Feitas as provas, tive de submeter-me à entrevista, à qual me dirigi sem um objetivo concreto de estudo. Às tantas quiseram saber dos meus propósitos — quem, ou o quê, eu iria estudar. Ainda não me tinha feito eu mesmo essa pergunta, e nem achei que deveria, mas, não sei por quê, ali, àquela hora, diante daqueles professores que me entrevistavam, a resposta veio à minha cabeça e prontamente se expressou, com uma convicção e uma segurança que até a mim me impressionaram. “Vou estudar o Campos de Carvalho”, disse, e quando vi já havia dito o que nem eu mesmo sabia que sabia até o momento. A reação não poderia ter sido melhor. Parabenizaram-me sorrindo, e eu quase posso apostar que por baixo dos sorrisos estavam dizendo, animados, algo como um “até que enfim apareceu um maluco disposto”.

Dado o primeiro passo por acaso, dei, também por acaso, o segundo: arranjei um colega de mestrado, Mauro Gaspar, que se tornou companheiro, cúmplice, confidente e irmão — o segundo maluco disposto. Campos de Carvalho tornou-se, de uma hora para outra e ao mesmo tempo, tema de trabalho de dois malucos dispostos. As coincidências envolvendo o meu tema estavam apenas começando a me impressionar.

Em uma belíssima noite, conversei por telefone com uma ex-chefe muito amiga, Fernanda Gurjan, e falei-lhe acerca do mestrado. “E a dissertação?”, perguntou. “Ah, vai ser sobre um escritor mineiro.” “Quem?” “Você não conhece. Aliás, ninguém conhece.” “Você não conhece tanta gente assim, para estar tão convicto de que ninguém o conheça. E então, quem é o seu autor?” “O Campos de Carvalho.” “Campos de Carvalho?” “Não falei que você não conhecia...” “O Walter?” “Walter?!” “O Walter é meu primo!”, disse ela, tentando não gritar. “Ah”, disse eu, e pensei: “Nunca estive tão perto do homem”. Eu estaria mais ainda.

A partir daí, o Campos de Carvalho passou a ser “o Walter”. “Estou tentando encontrar a Lygia Rosa, mulher dele, mas não acho”, disse-me Fernanda, excitadíssima, pelo telefone. “Ela está em algum lugar de São Paulo, e sei que vai se mudar para o Rio. Quero organizar um jantar aqui em casa com você, Lygia e Maria Amélia Mello, gerente editorial da José Olympio.” Eu só sorria.

Enquanto isso eu começava a tentar sair do lugar. Consegui o e-mail de outro primo do Walter, o escritor Mario Prata, que gentilmente me telefonou e se colocou à disposição para tudo o que eu quisesse. Mario Prata publicou alguns artigos nO Estado de S. Paulo: “O brado retumbante do Ipiranga” (8 set. 1993) e “Onde andará o primo Campos de Carvalho” (30 nov. 1994) foram responsáveis por tudo o mais que se seguiu; foram a pedra de toque para que hoje estejamos a falar de Campos de Carvalho. Devo mencionar, neste sentido, o Antonio Prata, filho do Mario, o Pedro Bial e também o Paulo Roberto Pires — entrevistadores corajosos que, através de seu trabalho, lograram arrancar de um Campos de Carvalho pouco eloqüente, cansado e triste as poucas palavras que, mesmo assim, conseguiram aproximá-lo de seus antigos e novíssimos leitores.

Meti-me, em seguida, na internet, e de lá saí com o nome de mais um maluco disposto, um título e um lugar: Alfeu Sparemberger, Campos de Carvalho: a subjetividade condicional, dissertação de mestrado apresentada à Universidade de Santa Catarina, mas disponível em cópia na Faculdade de Letras da UFRJ, na Ilha do Fundão. Lá fui. Cheguei animado e sorridente à moça da biblioteca e lhe disse: “Estou procurando isto”, e lhe entreguei o papelzinho com o nome do Sparemberger, seguido do título. Ela sorriu de volta, consultou um terminal de computador e, apontando para uma enorme sala entupida de pastas encadernadas, disse: “A dissertação que você procura está nesta sala, sob o número tal”. Sorri de volta e comecei a consultar a primeira das doze fileiras de estantes. Cada fileira tinha aproximadamente dez metros de comprimento e quatro andares de prateleiras. Identifiquei um número qualquer em um dos andares e disse-lhe: “Acho que dei sorte. Acabei encontrando um número próximo ao do Sparemberger. Deve ser um pouco mais para cá”, e continuei. “Não, não”, ela me interrompeu, e o seu sorriso foi minguando: “Não está na ordem”. “Ah”, disse eu, e, sentando no chão, diante do primeiro andar de prateleiras, arregacei as mangas. Hora e meia depois saí, sujinho e empoeirado, com uma cópia da dissertação de mestrado do Alfeu Sparemberger, levemente suspeitoso de que Campos de Carvalho, onde quer que se achasse, estava disposto a dificultar qualquer tentativa minha de encontrar, por minha própria conta, algo a seu respeito.

O jantar com Lygia e Maria Amélia Mello saiu afinal do papel, e para lá nos dirigimos eu e Mauro, a encontrar uma Fernanda Gurjan animadíssima diante de sua mesa de jantar literariamente caracterizada com tudo o que havia na casa sobre Campos de Carvalho. Foi um jantar literário. Lemos trechos dA lua vem da Ásia, da Vaca de nariz sutil, dO púcaro búlgaro, e, não sei bem como ou por quê, coube a mim ler Fernando Pessoa. Alguém me disse: “Escolha um número e abra a página correspondente”. Eu escolhi o treze, dia do meu aniversário e, por coincidência, do de Fernando Pessoa. Abri a página treze daquela edição e dei com um verso cujas palavras principais eu procurava há algum tempo e não encontrava. Trata-se de uma expressão utilizada por Carlos Felipe Moisés em seus comentários à Vaca de nariz sutil. Diz ele, à página 18 da Obra reunida:[1] “... de um lado, o binômio morte-cemitério, de outro, a sugestão — já agora pessoana, ‘cadáver adiado que procria’ — de que há mais mortos fora do que dentro”. E isto está no décimo e último verso da Quinta Quina, homenagem a D. Sebastião, rei de Portugal, da primeira parte de Mensagem, de Fernando Pessoa. E este “cadáver adiado que procria” fui encontrá-lo justamente ali naquele jantar, naquela página treze, sem o menor esforço, sem a menor pesquisa, apenas abrindo numa página cujo número, o treze, nas palavras de uma atentíssima Lygia, bem ao meu lado na mesa, era o número preferido do seu marido, Walter Campos de Carvalho, “o Walter”. Comecei a montar o que eu chamei de a minha insólita suspeita: ele, onde quer que se achasse, estava disposto a ajudar-me em tudo o que se relacionasse com o seu trabalho e com o meu — desde que fosse ele a decidir o quê, quando e como eu deveria encontrar.

Ilustra esta idéia o que me aconteceu na Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Eu estava lá, na seção de periódicos microfilmados, à cata de um importantíssimo artigo de Sérgio Milliet acerca dA lua vem da Ásia. A simpática moça encarregada entregou-me um rolo contendo os microfilmes dO Estado de S. Paulo, do dia 1º ao dia 15 de fevereiro de 1957. Eu precisava muito daquela crítica, e por isso permaneci obsedado diante daquela tela verde-musgo, a rodar as manivelas e a ver passarem diante de mim todas aquelas minúsculas páginas, pensando no tamanho da lupa que teria de arranjar para conseguir ler as letrinhas que me esperavam. Já estava no final da edição do dia 3 de fevereiro, ansioso pela edição do dia 4 e, portanto, ansioso para chegar ao caderno cultural onde certamente estava o artigo do Sérgio Milliet, quando me dei conta de que, dentro daquele rolinho de filmes, o dia seguinte ao 3 de fevereiro de 1957 era, inexplicavelmente, o dia 5... A microfilmagem havia pulado, por razões incognoscíveis, a edição do dia 4... Perguntei à moça encarregada se aquilo era possível e mesmo permitido, e ela disse: “Sim. Erro de microfilmagem. Nada a fazer”.[2] Mas eu já estava com a cabeça longe, a pensar que a minha insólita suspeita afinal se revelava certa.

A última e mais importante coincidência a contribuir para a construção deste trabalho aconteceu alguns meses depois daquele jantar, quando eu e Mauro fomos convidados por Lygia para um vinho em sua casa. “Onde ela mora?”, perguntei a ele, que me foi apanhar de carro e já havia ido lá uma vez. “Em Copacabana”, disse. Entramos em uma rua e eu quis saber se era aquela a rua da Lygia. “É. Por quê?” “Porque é mais uma coincidência que me aparece.” “Qual?” Mas eu não cheguei a responder. Quando paramos em frente ao prédio, resmunguei: “É aqui, Mauro? Não pode ser...”. “Por que não?” E eu: “Qual o andar da Lygia?”. Mas ele estava ocupado em nos identificar junto ao porteiro. “Diga que é Juva e Mauro.” Mas o porteiro, cumprimentando-me com simpatia, dispensou com a mão as identificações e pediu que subíssemos. “Você o conhece?”, perguntou o Mauro, já no elevador. Mas eu queria era saber o andar da Lygia. Paramos logo no primeiro. “É aqui”, disse ele. “Ah...”, disse eu. “Ah, o quê?” “Você não vai acreditar, Mauro. A coincidência de que lhe havia falado quando entramos nesta rua é maior do que eu imaginava.” “Diga.” E antes que tocássemos a campainha eu disse a ele; disse que Lygia Rosa, mulher de Campos de Carvalho, era vizinha de porta de minha mãe, Telma, que um dia me atirou ao colo a Obra reunida e disse: “Leia isto”.

O leitor não imagina a minha felicidade ao perceber que ainda o tenho aqui, leitor, em minha companhia, passadas estas tantas linhas de uma história que, afinal, conseguiu contar-se a si mesma. Agora, confiante em que não seguirei desacompanhado, passo ao segundo e último ponto, dividindo-o em três partes.

A primeira: o principal problema que Campos de Carvalho assunta e cutuca é o desajuste, cada vez mais evidente, entre o homem e os seus diferentes semelhantes. O desenho que pus na capa de minha dissertação — A corda de quatro pontas: a hipótese do narrador único na obra de Campos de Carvalho[3] — é um auto-retrato, tendo por baixo a designação: o cenobita Campos de Carvalho, ou seja, “indivíduo que leva vida retirada, mas em comum com outros que têm seus mesmos interesses, princípios ou prerrogativas”, diz o Aurélio.[4] Campos de Carvalho sentia-se um cenobita. Seu narrador sentia-se um cenobita e dá provas disso. Esse desajuste entre homem e homens radicaliza-se e amplia-se para dentro, de modo a tornar-se um desajuste entre o homem e seus inúmeros hóspedes de si mesmo — partes desse mesmo homem em conflito incessante. O personagem de Campos de Carvalho, o principal, o único, está em pé de guerra consigo próprio. Seu narrador é, como já escreveu Affonso Romano de Sant’Anna acerca desse tipo de personagem, “uma anomalia como Macunaíma, Don Quijote e Finnegans Wake; um anti-herói, um ex-cêntrico, um displaced, um gauche”.[5]

Passo à segunda parte. Logo ao início, a informação principal que eu tinha acerca de Campos de Carvalho era a seguinte: Campos de Carvalho é um escritor surrealista. Eu não sei por quê, mas isso me incomodava — talvez porque eu soubesse muito pouco sobre o surrealismo, e com certeza porque eu não sabia nada acerca de Campos de Carvalho, nem mesmo que sua mulher Lygia era a simpática vizinha de minha mãe... Fui aos poucos compreendendo que aquela definição, como quase toda definição, constituía um ponto de partida, e não de chegada. A chegada é uma das poucas oportunidades que temos de poder falar com alguma autoridade sobre a partida. Borges disse que só podemos definir algo quando nada soubermos a respeito desse algo. Eu nada sabia acerca de Campos de Carvalho, e tudo o que me aparecia à frente me dizia que ele era um escritor surrealista.

Ser surrealista foi a sua maneira de manter acesa uma crítica constante sobre a sociedade. Campos de Carvalho sempre se definiu um autor surrealista. Há duas maneiras de se entender isso: a primeira, compreendendo-se o surrealismo em seu sentido mais corriqueiro, como um conjunto de atos, palavras e/ou idéias que dêem conta de algo que está de certo modo deslocado, fora do real, do comum, do razoável, do verossímil e do sensato. O efeito produzido por tudo o que esteja ligado a este sentido tem o humor como fator constituinte. O tipo de surrealismo que lemos em O púcaro búlgaro e as situações mais corriqueiras de A lua vem da Ásia são ótimos exemplos.

"— Ah, o senhor tem um banheiro dentro de casa... Mas isto é magnífico!
— Não apenas um mas dois (...).
— Ótimo! Assim pode-se tomar dois banhos ao mesmo tempo — e pôs-se a examinar o teto com ar entendido. — O sr. nunca andou no teto?
E diante da minha surpresa relativa, dado que eu mesmo não me lembrava se havia andado ou não:
— Pergunto porque não se notam marcas de pés, ou pegadas como se diz lá em Quixeramobim. (...).
De fato não havia marca nenhuma, e isso me deixou um pouco encabulado.[6]

Rosa:

— Está aí fora um sujeito que diz que não existe.
— Mande entrar assim mesmo.
Era um sujeito franzino, raquítico, como se de fato não existisse; mas ainda assim dava para enxergar.
— Chamo-me (...) Fulano C. Meireles. Esse C. até hoje não consegui descobrir o que seja.
— Sente-se.

(...)

— Não sei se o sr. sabe, mas em 1585 o papa Gregório XIII decidiu que o dia seguinte a 4 de outubro de 1582 passaria a ser 15 de outubro de 1582 — parece que para acertar um calendário qualquer. (...) Pois bem, os avós dos meus avós (...) nasceram exatamente entre 5 e 14 daquele ano (...). Eu até que, antes de descobrir esse fato, era um halterofilista razoável, com várias medalhas no peito (...). Quando descobri que não existia, perdi todo interesse de existir (...).
— Lamento muito a sua inexistência.[7]"

E há ainda o caso do Ivo que viu a uva, bastante idoso — “... o que leva a crer que já tenha visto toda espécie de uva que há no mundo e só lhe reste agora conhecer as famosas uvas búlgaras”[8] —, e alegando descender de um hindu cujo grande feito foi a invenção do zero, o que lhe dá direito a royalties sobre zeros utilizados, e não são poucos. Os exemplos demonstram a exploração de uma espécie de absurdo qualquer. Campos de Carvalho leva o absurdo às últimas conseqüências. Um outro exemplo, este tirado dA lua vem da Ásia, certamente o exemplo mais citado e o mais sintomático de Campos de Carvalho:

"Aos dezesseis anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos.[9]"

A segunda maneira de se entender a intimidade de Campos de Carvalho com o surrealismo vai levar-nos ao surrealismo como uma atitude diante da existência. Neste segundo sentido, o que é ser surrealista? É, antes de tudo, não conceber uma arte que esteja apartada da vida e uma vida que não tenha em si, do começo ao fim, um projeto artístico. Campos de Carvalho é surrealista porque teve consciência de que seu trabalho circulava em meio a uma sociedade mediocrizada, atomizada e afundada em seu amor ao dinheiro. Ser surrealista é trabalhar com a palavra do modo com Campos de Carvalho trabalhava: dando a palavra aos loucos, às crianças e aos poetas, exatamente como ele fez quando pôs para falar seus personagens — todos loucos, crianças e poetas. Falar, por fim, de Campos de Carvalho como autor surrealista é falar de sua relação de essencialidade com a linguagem. Para ele, surrealista que é, o homem — e essas palavras não são de um surrealista, mas do semiólogo Roland Barthes, que talvez fosse surrealista lá a seu modo... —, o “homem não existe antes da linguagem enquanto espécie ou enquanto indivíduo. Jamais encontraremos um estágio em que o homem esteja separado da linguagem, que ele então cria para ‘expressar’ o que ocorre dentro dele; é a linguagem que dá a definição do homem, não o inverso”.[10]

A terceira parte: minha hipótese principal na dissertação é a de que os quatro livros de Campos de Carvalho — A lua vem da Ásia (1956), Vaca de nariz sutil (1961), A chuva imóvel (1963) e O púcaro búlgaro (1964) — contam uma única história, e seus quatro narradores, todos a narrar na primeira pessoa do singular, constituem as quatro arestas de uma única face. O meu desejo secreto era reescrever cada livro de Campo de Carvalho através de minha análise particular — de, na verdade, criar para A lua vem da Ásia, para a Vaca de nariz sutil, para A chuva imóvel e para O púcaro búlgaro os seus respectivos duplos, que são os capítulos que escrevi para cada um deles. O narrador de Campos de Carvalho é pura fala. Seus quatro romances expõem uma criatura em estado limite de confissão. O narrador, sempre na primeira pessoa narrativa, é o dono de uma voz que não permite a si mesma interromper-se, exceto diante de seu momento final — o momento em que a voz se cala. O narrador só existe enquanto fala. Percebi que todos os quatro livros se orquestravam no sentido de que se estabelecesse entre eles uma coerência: uma literatura de desabafo, crítica e inquieta, tendo por porta-voz um narrador que permanece teimosamente o mesmo, sob diversos disfarces.

Eu uni os pontos à minha maneira e dei a eles a coerência que me interessava; eu, de certo modo, construí eu mesmo o meu objeto de estudo. Onde não havia sentido algum, há agora os meus sentidos. E cada um poderá construir quantos objetos de estudo quiser, ou seja, haverá tantas luas que vêm da Ásia quantos trabalhos houver acerca daquela lua que vem da Ásia original; aquela que na verdade não existe como um objeto fechado, mas que começará a existir quando começar a ser empreendido um trabalho de interpretação sobre ela. Eu usei os livros de Campos de Carvalho para servir aos meus propósitos.

Em seguida, lendo as entrevistas de Campos de Carvalho, conversando com pessoas que o entrevistaram, e especulando bastante, fui percebendo, ao longo da feitura do trabalho, que Campos de Carvalho não poderia ter criado uma espécie diferente de narrador. Ele próprio muitas vezes agia verbalmente como seus personagens, e sua indignação tinha quase sempre os mesmos alvos. Ele cruzava as vozes, e vivia sob a pele de seus personagens. Olha o surrealismo aí: o surrealismo presente nas atitudes e idéias de seus personagens invadiu a sua própria vida, provocando um transbordamento de sua ficção no seu comportamento como autor empírico. Sua literatura é pessoalizada demais para que ele não tivesse nada a ver com aquilo tudo. Falar claramente das intenções de Campos de Carvalho é um risco muito grande, é verdade. Mas não é tão grande quanto falar das intenções autorais de Guimarães Rosa no Grande Sertão: veredas, por exemplo. Entre o narrador Riobaldo e o Rosa há uma distância muito maior do que entre o narrador de Campos de Carvalho e o próprio Campos de Carvalho. E são ambas narrativas em primeira pessoa, monologais e confessionais. Ninguém sabe das intenções de ninguém, o que vale é o que se escreveu. Mas há as pistas. E Campos de Carvalho, mesmo em silêncio, foi generoso com as pistas. Diante dessas duas intenções, a da obra e do autor, descobrir a minha intenção como leitor foi fácil: reforçar esses laços e interpretar os quatro livros de Campos de Carvalho de modo a que fossem um só. Campos de Carvalho escreveu um único romance ao longo de oito anos, e continua desgraçadamente atual e incômodo.

A situação de Campos de Carvalho e de seu narrador pode ser muito bem ilustrada com o seguinte pensamento: é um pensamento que resume um modo de vida específico de uma sociedade africana, chamada os Dogon. Os Dogon acreditam no seguinte e pautam toda a sua existência a partir dessa crença: a de que a pessoa nasce com um punhado de palavras dentro da barriga e, ao longo da vida, vai falando e vai gastando as palavras que tem lá dentro de sua barriga. Quando todas as palavras acabam, a pessoa então morre. E é por isso, dizem os Dogon, que os mortos não falam. É por isso que os Dogon se reúnem à volta dos velhinhos que estão para morrer, na esperança, às vezes correspondida, às vezes não, de que os velhinhos tenham deixado para o final as suas mais importantes palavras, aquelas que, por serem as esclarecedoras do mistério ou dos mistérios da existência, ficaram por último. Às vezes nem a própria pessoa as conhece, a essas últimas. Às vezes não é nada senão um suspiro, ou um muxoxo, ou um espirro. Campos de Carvalho falou, na verdade escreveu, todas as palavras que tinha em si. E sabiamente percebeu o momento em que suas palavras acabaram, e por isso parou de escrever, e por isso morreu em sua condição de autor. Agora, o único modo de fazê-lo falar novamente é lê-lo e, assim, reinventá-lo. Isto é um convite.

* * *

[1] Campos de Carvalho, Obra reunida — A lua vem da Ásia, Vaca de nariz sutil, A chuva imóvel, O púcaro búlgaro, Rio de Janeiro, José Olympio, 1995. 

[2] E, de fato, quanto a isso nada fiz. Bem mais tarde, por ocasião de minha defesa, a professora Regina Salgado Campos, da USP — Universidade de São Paulo —, convidada para a minha banca, sentiu-se estimulada pela história, fez lá suas pesquisas e gentilmente me presenteou com o referido artigo. 

[3] Dissertação muitíssimo bem orientada pela minha querida amiga, a professora Pina Coco, do Departamento de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em fevereiro de 2001 — a quem muito devo, agradeço e admiro. 

[4] Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Dicionário Aurélio Eletrônico, v. 2.0, baseado no Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996, verbete cenobita. 

[5] “A narrativa de estrutura simples e a narrativa de estrutura complexa”, in Affonso Romano de Sant’Anna, Análise Estrutural de Romances Brasileiros, Petrópolis, Vozes, 1973, p. 27. 

[6] Campos de Carvalho, Obra reunida, ob. cit., p. 333-334. 

[7] Idem, p. 348-349. 

[8] O púcaro búlgaro, in Campos de Carvalho, Obra reunida, ob. cit., p. 331. 

[9] A lua vem da Ásia, in Campos de Carvalho, Obra reunida, ob. cit., p. 36. 

[10] Roland Barthes, “Escrever: verbo intransitivo?” (palestra de Roland Barthes proferida no Simpósio Internacional “Les Langages Critiques et les Sciences de l’Homme”, no John Hopkins Humanities Center, entre 18 e 21 de outubro de 1966), in Richard Macksey & Eugenio Donato (orgs.), A controvérsia estruturalista: as linguagens da crítica e as ciências do homem, trad. Carlos Alberto Vogt e Clarice Sabóia Madureira, São Paulo, Cultrix, 1970, p. 149.Eu tive medo de Campos de Carvalho

quinta-feira, 1 de maio de 2014

“Ponte Aérea Rio-Lisboa”

14. “Ponte Aérea Rio-Lisboa”, Revista Lilica and Tigor, São Paulo, mai. 2014 (data aproximada).

Então perguntei a ela se já havia terminado o banho e se eu poderia ajudá-la com a toalha.

— Eu já tenho set’anos, papá! Já sei secar-me com a toalha!

E eu disse à Clara que sim, que sabia perfeitamente disso: que ela já estava crescida. Tinha, afinal, viajado sozinha de avião: de Portugal para o Brasil.

— E portei-me muito bem, papá. Fiquei sentada o tempo todo. Quer dizer, quase o tempo todo… Houve uma vez em que brinquei às escondidas com a mana…

Arregalei os olhos: “Brincar de esconde-esconde dentro de um avião?!” Perguntei se a aeromoça não tinha dado uma bela bronca nas duas.

— Não, papá. As hospedeiras da TAP até riram. E brincamos também às corridas...
— Brincaram de pique-pega? No avião?!

— Sim, mas paramos. As hospedeiras disseram que deveríamos parar. E eu parei. Já sou crescida… Percebo as coisas.

— O que é que tu percebes, minha filha?

— Percebo que agora moras mesmo de vez no Brasil, e que a mamã vai continuar a morar em Portugal. Mas percebo outras coisas. Percebo que eu e a mana não precisamos de ter um país; podemos ser como certas pessoas que não têm sítio. A palavra que a professora ensinou na escola é “nômade”.

Eu lhe disse que talvez fosse um bocado cedo para ela e a irmã serem pessoas “nômades”.

— Mas eu já tenho set’anos, papá! Se eu e a mana já sabemos viajar de avião sozinhas, já sabemos fazer quase tudo, não é mesmo? Tu mesmo já disseste que andar pelos aeroportos e andar de avião pelo mundo são coisas complicadas de se fazer, e que tens até um amigo que nem tem medo de avião, mas tem medo é de aeroporto, de tão tramado que é. Ora, eu e a mana já entendemos das duas coisas. E eu não tenho medo de aeroporto.

— Vira de costas. Deixa eu secar teu cabelo.

Ela se virou, e eu até estranhei que tenha se virado numa boa, sem dizer que sabia muito bem como secar o cabelo e que não precisava da minha ajuda, uma vez que já tinha sete anos. Mas a criatura estava no meio de um raciocínio:

— Alguns amigos teus, papá, disseram-me que sou tão linda e fofa que eles gostariam de me adotar. Foram praí uns quatro ou cinco que disseram isso…

— Sei… E?...

— E eu pensei, não nos teus amigos, mas em outra coisa. Numa ideia bué gira, numa ideia maneira, como tu dizes aqui no Brasil, estou a tentar falar brasileiro... A ideia é: e se eu e a mana formos adotadas, não pelos teus amigos, mas por uma hospedeira da TAP, ou mesmo duas? Eu e a mana podemos ser como as tais pessoas nômades, e estar sempre a viajar de Lisboa ao Rio, e podemos ver-te sempre, a ti e a mamã, e não morar em sítio algum, nem no Brasil e nem em Portugal. O que é que achas disso?

— …

— Tu não precisas responder agora. Pensa um pouco... E larga meu cabelo, papá. Já sei secar-me sozinha. Já tenho set’anos!

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

"Conto para os que não suportarem"

“Conto para os que não suportarem”, in: Tentados, ed. Cata-Vento.

Antes não éramos tantos. Fomos ficando muitos, e agora a vida é isto, o melhor é esperar a vez para levantar e começar o dia. Aqui no nosso apartamento ainda estamos bem organizados, à exceção de um ou outro que fura a fila, ou melhor, tenta, porque mesmo furar fila, nos dias de hoje, não significa muito. Furar fila furavam os nossos antepassados, quando não éramos tantos, é o que sempre ouvi, ou quando havia algum lugar para ir quando se furava uma fila. É engraçado. É por isso que quando alguém dá a impressão de estar furando uma fila todo o mundo já sabe que é mesmo só impressão, porque a coisa, hoje, está nesse pé: somos tantos que já não há como contar, já não há como medir, já não há como fazer nada, a não ser se manter nas filas e ir levando, sem cair, claro, na tentação. Daqui a pouco, no máximo uma hora e meia, talvez tenha algum ânimo para me levantar; uma pessoa, afinal, tem de dormir deitada, embora as previsões não caminhem nesse sentido. Uma pessoa, afinal, tem de dormir, e ponto, mas o barulho que fazemos é grande; é muita a conversa, e há sempre quem nos compare a formigas, mas não me ocorre que as formigas conversassem, não que eu saiba, nem que se matassem. É muita a conversa, é um fluxo sem fim, porque há sempre gente nova chegando de todos os lados, e o lugar do apartamento onde dormi noite passada não será o mesmo lugar da noite seguinte. O problema nem é mudar o lugar; é ficar tudo sempre, a cada dia, mais apertado, mas a gente se acostuma; no inverno acaba sendo bom, gera calor, mesmo num apartamento caindo aos pedaços. E sem falar nas amizades que surgem; a cada novo dia alguém diferente à frente e alguém diferente atrás e dos lados. As amizades surgem mas também desaparecem. Vão. E quando a gente se afeiçoa é assim, uma coisa que começa triste e depois vai ficando banal. Eu me afeiçoo fácil. Fico pensando se quando não éramos tantos as amizades duravam mais. Isso eu teria de perguntar aos meus bisavós se eles fossem vivos, ou se, uma vez vivos, eu soubesse reconhecê-los. Ainda bem que ainda somos organizados, e nesse ponto aprendemos muito com as formigas, que por sua vez não creio que tenham aprendido nada conosco. Somos organizados aqui neste prédio e especialmente neste velho apartamento, cujos princípios são simples. Primeiro, respeitar, dentro do possível, as filas, porque com as filas a vida fica mais fácil, embora furar filas não faça lá muita diferença, uma vez que somos tantos; e depois, é claro, não cair em tentação, porque, apesar de tudo e de tanto tempo, ainda se acredita que ninguém tem esse direito.

Eu disse que ainda somos organizados, mas o mérito não é nosso; é dos princípios, muito bem pensados nalgum passado mais distante por aqueles que tiveram a capacidade de prever o quadro atual; um passado distante e menos populoso, quando não éramos tantos. Somos organizados, mas nem tanto. Se fôssemos, tudo estaria previsto, como numa bela engrenagem, e não está. O que não previram é que continuaríamos com essa história da tentação. Lá vou eu com filosofias, mas agora tenho de me lavar em banheiros onde se faz tudo coletivamente, e todos debaixo de umas grandes duchas, porque assim dizem que a economia de água é bem maior, com a única divisão sendo ainda mulheres num e homens noutro, e não se fica sozinho um único segundo, e depois pegar as minhas barras de refeição. A minha vida, a nossa vida, assim contada, fica até engraçada, e parece doida e impraticável, mas não é muito, embora seja idiota. Posiciono-me na fila da porta de saída do apartamento, em seguida na dos elevadores, ou das escadas, a escolha é minha, ainda bem que não nos engavetamos tão alto, e finalmente consigo sair do prédio e ganhar as ruas. E, quando sair do apartamento e em seguida do prédio, tudo por aqui ficará mais vazio, ou na verdade um pouco menos ocupado, porque há, afinal, a equipe de sono diurna, formada por todas as pessoas da cidade que vagam à noite mas de dia têm de dormir, nada mais justo. E justiça é comigo mesmo, isso sem falar que é um conceito filosófico, e eu gosto muito de pensar, porque enquanto penso a fila se mexe e nem me dou assim tanta conta da passagem do tempo. Já estou quase dentro da fila da porta de saída, que vai dar na dos elevadores, e as duas, afinal, são a mesma fila. Meu pai me dizia, antes de eu o perder de vista nesta imensa cidade, que ao fim e ao cabo, no fundo de tudo, meu pai era prolixo, a bem da verdade, dizia ele, a fila é uma só. Meu pai estava sendo filosófico quando sustentava isso, deve ser mal de família isso da filosofia, porque, sendo prático, ou sendo adepto da filosofia pragmática, as filas são várias. Cada elevador, por exemplo, tem a sua fila, porque cada andar tem o seu elevador, caso contrário não conseguiríamos nunca entrar num elevador, porque ele já pararia aqui completamente cheio quando o primeiro da fila abrisse a porta. O que seríamos de nós sem os elevadores? Uma pessoa, nesta vida, tem de andar para frente, mesmo que seja numa fila, e numa fila lenta, e também andar para cima e andar para baixo, muitos andares. Essa fila anda ou não anda? deve ser das coisas que mais se ouvem nesta cidade, vasta cidade. Uma coisa importante, eu falei agora há pouco do primeiro da fila, mas isso é modo de dizer, porque o primeiro da fila não existe.

O único lugar onde não existe fila é dentro dos elevadores, quando e onde podemos olhar mais para as caras uns dos outros e até mesmo refazer a fila como der, porque no fundo, como eu já disse, tanto faz. Alguma conversa até se engrena, mas é sempre a famosa conversa de elevador, uma coisa que não muda, por mais que mude a humanidade. É como Deus, que não desaparece. Fala-se do tempo, que nos dias de hoje é sempre o mesmo, nublado; fala-se da possibilidade remota de algum reencontro, e sempre com alguma galhofa, sem a qual ficaríamos bem mais tristes do que já somos, e nessa hora todos riem dentro do elevador; e falam-se das filas, claro, uma forma de se falar de tudo. Quando um elevador quebra há sempre alguém que sabe fazer a coisa voltar a funcionar, em meio a uma roda de muitos de nós, que ficam assistindo a um dos trabalhos mais importantes de que se tem notícia, e chego a pensar com algum espanto divertido que a única coisa que ainda fazemos bem é consertar elevadores, quem diria. E pode parecer que estou sendo filosófico de novo, mas na verdade não, embora eu tenha lá as minhas teorias, e teorias quanto ao andar das filas nunca me faltaram. Na época em que lia, cheguei a entrar no tema, especialmente na teoria das filas relacionada àquilo que nos interessa, que é o fluxo de tráfego para pessoas, ou seja, uma teoria que inclui a definição de final de fila e início da fila seguinte; a forma como se dá o tempo do serviço, se é regular ou não; o número de pontos de atendimento de tal serviço, e os elevadores são aqui um bom exemplo de ponto de atendimento e ainda de final de uma fila para começo de outra; e isto sem falar na capacidade do sistema de manter e ainda incorporar novas filas; na população geral de usuários das filas, que pode ser finita ou infinita, o que no nosso caso é finita mas na prática é infinita, uma vez que somos tantos; e, por fim, na disciplina de atendimento na fila, que no fundo não passa da forma como se organizam os critérios de formação da fila; e mais um blá, blá, blá que eu nem conto. E isto parece ser o ponto fraco (risos) da nossa sociedade, porque, mesmo que estejamos tentando modelos de falha zero, o que acaba prevalecendo é o bom e velho quem chegar na frente é atendido primeiro, há até um termo técnico para isso, embora, na prática, tanto faça, porque ser atendido primeiro não significa nada mais do que entrar em último lugar na próxima fila, seja ela qual for. E, seja ela qual for, o movimento de uma fila é uma ondulação, e sempre será; o corpo mexendo-se em ondas, as pessoas mexendo-se em ondas, uma de cada vez, e não todas a andar ao mesmo tempo, porque afinal não é a fila que anda, mas cada pessoa que dá o seu passo, como uma peça individual de um corpo maior composto de inúmeras peças, e é isso que confere ondulação à coisa, o intervalo de tempo entre a pessoa da frente andar e a que está atrás perceber o espaço vazio à frente e dar então o seu passo adiante. Uma fila não é como um trem e seus vagões; uma fila é como uma lagarta. Teoricamente falando, claro.

Não vou negar que estou sempre à espera de uma oportunidade e alguma coragem. E creio que todos estamos, menos as formigas, porque não creio, embora seja ignorante acerca de formigas, que elas procurassem isolamento para o que quer que fosse. E veja que nem falei numa formiga em particular, mas nas formigas, sempre no plural. Nunca imaginei uma formiga andando sozinha, cantarolando por estradas de terra, a pensar na vida ou na própria morte. Isso faziam os nossos antepassados. As formigas eram o formigueiro, e parece que sempre foram. Uma coisa só. Nós, não. Nós, hoje, somos o nosso bendito e maldito sonho de um mirabolante projeto de voltar a circular como antes, livres. E é por isso que há sempre alguma história misteriosa e heroica acerca de uns poucos milhões que trabalham sem parar na ampliação da cidade, não mais para cima, porque para cima já fizemos tudo o que era preciso e possível fazer, e não há espaço nem logística para se construírem mais prédios, embora isso seja fundamental no sentido de continuarmos vivos, uma vez que não há espaço no chão. Isso pode parecer inacreditável mas não é. O trabalho de ampliação, dizem, é para os lados, embora essa ampliação para os lados, na minha opinião, não passe de conversa de fila, porque nunca conheci ninguém desses poucos milhões que tenha ido ou voltado das fronteiras, o único lugar, de fato, onde se poderia ficar, mesmo que por algum tempo, a sós, e vivo, e assim aliviar um pouco a vontade de se cair definitivamente em tentação. E não passa de conversa de fila o projeto de ampliação das fronteiras porque, também na minha opinião, claro, não há mais fronteiras. A cidade está em todo lado, e, se antes, quando não éramos tantos, havia ainda algum mar, agora já não creio que haja mar algum. E é por isso que, em nosso passado distante, crescemos tanto para cima, sempre para cima, trabalhando sem parar na construção de prédios altíssimos e descobrindo formas de os tornar ainda mais altos. Nesse ponto teríamos muito a ensinar às formigas se as formigas ainda existissem.

Falar da inacreditável altura dos prédios que construíram os nossos antepassados é uma forma de se falar da morte, e falar da morte é ser prático, e não filosófico, podendo-se falar da morte de duas formas. Se por um lado é bom sair enfim dessas torres de gavetas, depois de enfrentar todas as filas dos apartamentos e elevadores, e ainda a fila para se sair às ruas, que é uma confluência dos amontoados que saem de todos os elevadores; ou seja, se por um lado é bom botar a cabeça para fora após tanto tempo esperando a vez de sair dos prédios, por outro lado vive-se o perigo de se estar ao ar livre, o que significa, para os mais prevenidos, ficar olhando o tempo todo para cima, já que a morte vem de cima. Por mais numerosas que sejam as medidas de segurança, como as grades nas raras janelas e os picos eletrificados (os prédios não possuem, no topo, áreas planas e se vão afunilando ao ponto de se tornar agulhas espetando o céu), há sempre alguém que desiste e se atira, e, atirando-se, além de se matar a si mesmo, ainda mata um punhado de nós, que estamos aqui em baixo na fila, aguardando a vez de seguir em frente. E abre-se um clarão no chão, e algumas filas se desfazem até que tudo se reordene, e novas filas se formam, embora bem mais lentas, até que o susto e a curiosidade diante de alguns corpos no chão desapareçam; e novamente não se vê o chão, apenas os pés de nós todos, que somos tantos, embora antes não fôssemos. Não sei se é filosofia barata de minha parte, mas já não fico a olhar para cima como antes, quando era mais jovem e acreditava que suportaria tudo. Nunca ninguém me caiu por cima, e nem creio que cairá; e, se afinal cair, não vai ajudar nada eu estar com o nariz pro céu, achando que poderia desviar de alguém despencando feliz, e é por isso que minha vida é mais com a cabeça para baixo do que para cima, a observar e tentar medir a velocidade com que andam os pés que vejo à minha frente e que vou seguindo com os meus, o que nada mais é do que viver o andar da lagarta.


Mas há um dia em que o andar da fila ou a cidade ou as fronteiras ou o mar e o horizonte e o maldito sonho de uns poucos e benditos milhões de heróis já não importam de modo algum, porque tudo o que se deseja de imediato são alguns instantes a sós, alguns segundos em silêncio e a sós. Quantos segundos, ou mesmo minutos? Isto irá depender da absurda altura do prédio e das medidas de segurança e do estado das grades nas raras janelas e de alguém ao lado ou atrás tentar me impedir ou não; para tudo dá-se um jeito, não vou negar que estou sempre à espera de uma oportunidade e alguma coragem — hoje, mais de oportunidade do que de coragem, porque o desejo afinal de cair em tentação, de ficar, mesmo que por uns bons segundos, ou mesmo mais de um minuto, o máximo que puder, dentro de um silêncio veloz e a sós, sentindo o vento forte nos cabelos e pelo corpo inteiro, a força da gravidade, os braços abertos e os olhos o tempo todo fechados para não ver o formigueiro, lá embaixo, ficando cada vez maior; esse desejo é mais forte do que o remorso e o arrependimento e a culpa que não vou ter tempo de sentir quando chegar, saciado e feliz, ao chão.