terça-feira, 13 de novembro de 2012

“O quase marinheiro português do século XIX que bem o é” - "Colóquio Internacional 100 anos de Jorge Amado"

"Colóquio Internacional 100 anos de Jorge Amado"
12 a 16 de Novembro de 2012, CLEPUL, Universidades de Lisboa, Coimbra e Porto.

Dia 13: Mesa 1 - "Jorge Amado, Portugal e o neorrealismo".
Coord.: João Marques Lopes.
Com: Edvaldo Bergamo (UnB), Ernesto Rodrigues (FLUL), Fernando Cristóvão (FLUL), Teresa Martins Marques (CLEPUL) e Juva Batella (CLEPUL).

“O quase marinheiro português do século XIX que bem o é” — Ensaio acerca da completa verdade sobre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso

Resumo:

Recontar-se-á aqui a vida do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, narrativa do volume Os velhos marinheiros, de Jorge Amado, sob um específico interesse: observar esta invenção que realiza de si mesmo o comerciante “seu” Aragãozinho como a encarnação de um dilema que ultrapassa a sua biografia ficcional e contamina o modo como se pode inscrever este texto no percurso da literatura de Jorge Amado.

Palavras-chave:

Autoficção
Biografia
Invenção
Marinheiro
Memória

Texto:

Quando li “A completa verdade sobre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso”, segunda narrativa dOs velhos marinheiros, de Jorge Amado, e vi ali um personagem que podia ser muitas coisas — um personagem acerca do qual não havia verdade que se encaixasse melhor na sua personalidade do que a mentira por ele inventada —, pensei que posso olhar para o Comandante Moscoso como um marinheiro português do século XIX.

Bem sei que a tarefa aqui é daquelas tidas como improváveis. Observar a invenção que realiza de si mesmo o comerciante “seu” Aragãozinho como a encarnação de um dilema que ultrapassa a sua biografia ficcional e contamina o modo como se pode inscrever esse texto no percurso da literatura de Jorge Amado. E para tal tentarei convencer a mim mesmo de que um marinheiro português que nunca foi nem marinheiro nem português pode muito bem, não exatamente vir a sê-lo, mas ter sido. Estamos a falar do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso.

Que nasceu em 1868 e morreu, aos 82 anos, em 1950, sendo, portanto, um homem do século XIX. O que nos interessa aqui é a verdade, a verdade do texto, a verdade do narrador e a do personagem. O narrador, ele próprio diz, não costuma “discutir, muito menos negar a literatura e o jornalismo”.

Vivemos aqui, com este delicioso romance de Jorge Amado, duas narrativas: uma em tempo de narração, o narrador a falar de si e do seu tumultuoso caso de amor com a mulata Dondoca; outra em rememoração, a contar episódios passados, sendo um deles a atribulada existência do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, a sua vida de menino, de jovem e adulto, e tudo o que se deu após a sua chegada na pacata região de veraneio chamada Periperi, na Costa Leste Brasileira, nos anos de 1929. A segunda narrativa dá-se em dois níveis: no da própria narração (o narrador amante da mulata Dondoca e favorável ao Comandante, em primeira pessoa, a contar o que sabe, e sabe porque lhe contaram); e, o outro, no encadeamento dos fatos, por si, durante o qual mal se percebe a presença de um narrador, embora ele lá esteja. Está, sim, e não sozinho, pois surge um outro, a funcionar como um contraponto: um personagem inserido na história de 1929, Chico Pacheco, “o invejoso”, que nos vai contar uma outra história, ou melhor, que vai contar ao narrador amante da Dondoca uma outra história, e ele nos vai contar a nós. A verdade dos fatos, ao final, estará sempre ao lado do narrador, seja ele qual for.

E de quem estamos a falar, ao fim e ao cabo? Do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, um homem do mar, com um olhar e uma postura que revelam uma antiga intimidade com o Oceano, feita de amor e cólera, de histórias vividas, sensível aos corações pacatos de Periperi, corações que nunca viveram a aventura distante e brilhante do heroísmo.

O que é Periperi antes da chegada do Comandante? Uma região habitada por uma população estável de aposentados e retirados dos negócios, com suas famílias, quase sempre a esposa e por vezes uma irmã solteirona, e muitos velhinhos sozinhos, como, por exemplo, um bom exemplo, o “seu” Adriano Meira. Retirado do negócio de ferragens, o homem sai, todas as noites, durante o verão, depois das nove horas, com uma lanterna elétrica, para, como ele mesmo diz, “passar em revista os namorados, ver se estão trabalhando bem”.

Nada acontecia em Periperi, onde “o tempo se alongava, nada o apressava, os acontecimentos duravam acontecendo”, com exceção de dois ótimos escândalos. O primeiro deu-se com o tenente-coronel Ananias Miranda, a sua esposa Ruth de Morais Miranda e o jovem estudante de Direito, Arlindo Paiva, um dia a entreter a dona Ruth, como fazia todos os dias, à tarde, enquanto o marido, o tenente-coronel, trabalhava. Entretinham-se muito bem, tão sozinha a dona Ruth..., entretendo-se ambos, Arlindo e Ruth, sempre nus no quarto de casal, em meio a risadas e gemidos, quando numa tarde decide o nosso Ananias Miranda fazer à mulher uma surpresa, toda ela composta de guloseimas e vinhos em sacos plásticos presos aos dedos. Vinha carregado de compras o Ananias. Mas podia ter avisado... Não avisou; simplesmente apareceu, surpresa é surpresa, deixando a empregada à porta em pânico. Não há muito o que narrar, fiquemos apenas com esta cena: Ananias parado à soleira, tentando desvencilhar-se dos sacos plásticos das compras presos aos dedos, tentando chegar à pistola presa ao cinto; Ruth paralisada, gritando por dentro, esbugalhados os olhos; Arlindo Paiva, nu, saltando a janela, desaparecendo pelado, atravessando Periperi em alta velocidade e à vista de toda a população, e nunca mais voltando.

O segundo escândalo rasgou a família Cordeiro, composta do pai, da mãe e de quatro filhas casadoiras. A mais nova, Adélia, um dia desaparece, levando as suas roupas, as melhores roupas das irmãs e ainda, na mala, o dr. Aristides Melo, médico e casado. A mulher do dr. Aristides invade a casa dos Cordeiro, aos berros: “A putinha da sua filha roubou o meu marido!”. Fogem os Cordeiro de Periperi. A casa é vendida. O pai, Pedro Cordeiro, mata-se.

Acontece então a entrada do Comandante, comprador da casa vendida, a chamada “Casa das janelas verdes”. Todos examinam o “cidadão baixote e troncudo, de rosto avermelhado, nariz adunco, vestido com aquele extraordinário paletó”; “o Comandante pela rua, vestido com o seu paletó marítimo, o cachimbo na boca, e, sobre os revoltosos cabelos, um boné ornado com uma âncora”. Zequinha Curvelo, leitor assíduo de romances de aventuras, devorador de folhetins baratos, é quem inicia a construção da imagem do Comandante para o povo de Periperi. O Comandante faz a sua parte, sim, mas a própria cidade faz o resto. E diziam, aumentando e enfeitando as cenas: “Antes mesmo de entrar em casa foi ver o mar”; “Quanta coisa esse homem não tem para contar”; “Essa gente do mar, em cada porto uma mulher…”; “Basta olhar para ele e logo se vê um homem de ação”; “Um herói, meus amigos, vivendo entre nós”. E as narrativas do Comandante Vasco Moscoso de Aragão desfilam portos, tubarões abertos pela barriga, mulheres, vinho, uísque, pôquer e muitos outros fragmentos de vida que contribuem para a construção de uma autobiografia, um escrever-se a si mesmo. Diz o narrador, o amante da mulata Dondoca: “Quem muito viveu é assim: qualquer fato, paisagem ou face recorda-lhe algo do passado”. Quando não há passado a ser recordado, há um passado a ser criado, e qualquer fato, paisagem ou face inspira a sua criação. Ou a sua mentira. A escolha é nossa.

Há Soraia, “a pecadora, a mórbida bailarina de lábios de fogo (…) aquela por quem Johann, o piloto sueco e dramático, contraíra dívidas, vendera objetos do navio, quisera matar-se”; “… ela bulia como o sangue dos homens, música langorosa como um vício”; “Soraia era como uma doença a penetrar o sangue, envenenando-o. Os braços de serpente, as despidas pernas, o fulgor das pedras preciosas sobre os seios, uma flor no ventre, quem não perderia a cabeça?” Há Giovanni, italiano, supersticioso: “Comandante, se eu morrer embarcado quero ser jogado em mar de minha terra”; “Segundo ele, se seu corpo fosse atirado em outras águas, sua alma não teria descanso…”. Há o naufrágio nas costas do Peru, durante um maremoto: “Vagas como montanhas, rasgando-se o mar em abismos, o céu negro como tão negra jamais a noite conseguira ser” (está aqui o narrador a ser escritor). Há a história da bebida aprendida com um velho lobo do mar, nas bandas de Hong-Kong: açúcar queimado, trago de água, conhaque português, casca de laranja. Há os tubarões no Mar Morto (o nosso herói abriu a barriga de três…). Há o seu título de “Capitão de Longo Curso”, enaltecedor do patriotismo do Comandante, que, aos 37 anos, veio do Oriente para prestar os seus exames na Bahia, no “cais de Salvador, de onde partira menino para a aventura do mar”. Há o seu ser português: o que conta à Clotilde quando está a bordo do Ita: suas relações com a lusofonia, “sua participação nas lutas monárquicas e republicanas em Portugal, levado por nobres sentimentos de gratidão ao rei D. Carlos I. Navegou de Portugal para as Índias, onde os marujos o haviam apelidado de Mão de Ferro e Coração de Ouro, pois, brando como a brisa, amigo de seus tripulantes, podia ser, se desobedecido, violento como o furação, implacável mão de ferro”. Recebe, do rei de Portugal e Algarves, pelos seus relevantes serviços ao comércio marítimo, a condecoração lusitana da Ordem de Cristo. Quando está para receber a medalha, assim diz o Capitão de Fragata, George Dias Nadreau: “… ele se chama Vasco, é comandante, neto de portugueses, quase parente do Almirante Vasco da Gama…”. E a premiação lhe é entregue com a seguinte justificativa, lusitana até à medula: por sua notável contribuição à abertura de novas rotas marítimas. Não há coisa mais portuguesa do que a abertura de rotas marítimas...

E há, enfim, Dorothy, a razão do seu abandono do mar, o juramento que faz à amada, em seu leito de morte, de nunca mais enfrentar o oceano caso ela não resista à doença que a foi matando. Ela não resiste, e o Comandante Vasco Moscoso de Aragão, então, nunca mais deixa de pisar a terra.

Belas linhas, e parabéns ao nosso narrador, que quer ser escritor mas sabe que escrever é tão difícil quanto satisfazer a Dondoca, dada a quantidade de críticas que recebe, pelo seu “estilo frouxo e impreciso, [pela] ação lenta e débil, [pelos] lugares comuns em quantidade, personagens sem vida interior. Uma frase da qual, confesso, me orgulho [diz ele], uma que ficou aí para trás, ‘contra ele se levantam, em vagalhões de infâmia, os oceanos da calúnia’, mereceu a sardônica reprovação e um riso de mofa”. De quem? Como se mencionou lá atrás, é Chico Pacheco quem solta a gargalhada: “Capitão de longo curso? Pra mim, esse sujeito não é capaz de comandar nem uma canoa… Tem cara de dono de armarinho…”. E assim faz ele, infelizmente, um espetacular resumo biográfico do nosso Comandante...

Chico Pacheco, embora personifique o conhecimento sistematizado do mundo e se localize no pólo oposto ao do Comandante — usuário da literatura como forma de conhecimento do mesmo mundo, sim, mas um conhecimento diferente, não sistematizado, errante e náfego —, Pacheco também pratica lá as suas mentirinhas, que não passam de tricas jurídicas, “triviais e limitadas, seu campo de ação não ultrapassava a cidade da Bahia, gente conhecida, cenários a meia hora de trem”; nada comparado ao “exagerado sem medidas, plantado na cobertura de navios no meio de mares e oceanos remotos, às voltas com tempestades, naufrágios, tubarões, batido por todos os ventos e repleto de mulheres, a maioria delas apaixonadas e lúbricas”. O objetivo de Chico Pacheco é negar uma realidade de vida. Sim, o diploma de Capitão de Longo Curso era difícil de negar, mas o que havia por trás do diploma? A outra história de vida do Comandante Vasco Moscoso do Aragão?

A outra história que ele não escreveu? A do “seu” Vasquinho? Aquela história descoberta por Pacheco acerca do passado do Comandante? A história dos cinco amigos: o Coronel Pedro de Alencar, o Capitão de Fragata George Dias Nadreau, o Dr. Jerônimo de Paiva, o Tenente Lídio Marinho, e o “seu” Vasco Moscoso de Aragão, dono da firma Moscoso & Cia. Ltda.? A outra história? A do “seu” Vasquinho? Neto do José Moscoso, um português das antigas, de rígidos princípios e de visão comercial, para quem a firma era tudo, e o resto era quase nada? A outra história? A do “seu” Vasquinho? Neto que herdou as quotas do avô, que lhe garantiram o controle da firma, a maior parte dos lucros, uma fortuna considerável e nenhuma responsabilidade. A outra história? A do “seu” Vasquinho? Sim: a história do que poderíamos chamar “Mal de Moscoso”, a angústia por não possuir de seu, seu de verdade, nenhum título.

O que temos aqui é a verdadeira história de uma história de vida verdadeiramente inventada. O Comandante Vasco Moscoso de Aragão não inventou um presente ou um futuro. Não, toda a sua construção de si é um a priori que só funciona a posteriori. Dentro de si estavam todas aquelas histórias de viagem, e um título como o seu não poderia vir sozinho; tinha de vir com um passado. Mas, no entanto, a construção do passado do Comandante teve de eliminar um passado de vida em Salvador, a vida do “seu” Aragãozinho, na pensão Monte Carlo, com a verdadeira Dorothy.

Somem-se a isso a entrada em Periperi e a junção de duas demandas: a necessidade de contar a sua história de vida grandiosa e a necessidade daquele povo de ouvir uma história de vida — uma demanda a legitimar a outra. A semelhança entre os Ulisses, o homérico (herói: comandante do mar, filho de Laertes) e o joyceano (anti-herói: Leopold Bloom), é clara. Aqueles interlocutores transformaram tudo em verdade. E todos saem ganhando, menos Chico Pacheco.

E, de repente, surge a viagem a comandar o Ita, e o passado se defronta com o presente, mas se cumprimentando, um ao outro, educadamente, e todas as histórias de amor a bordo se arrumam. Mas essa história do “seu” Vasquinho não nos interessa aqui (a nossa cena é a dos heróis!); podemos pular todas essas páginas e cair diretamente na navegação do Ita, quando o Comandante finalmente entra num navio, depois de muitos anos sem pôr o pé num (frase ambígua?).

E chegar diretamente à questão das amarras ao cais. Não há para este homem meio termo. Serão todas as amarras, ou não será nada, porque todos os ventos de todas as suas histórias comparacerão para tentar derrubar o seu navio, amarrado com todas as amarras, todos os ferros, todas as manilhas, todas as espias, todos os strings e o ancorete, e o navio a se ligar por amarra ou cabo de aço, Comandante? “Pelos dois”, diz o Comandante Vasco Moscoso de Aragão. E todos riram. E os ventos surgem. Quais? Todos. Ou são todos ou não é nenhum. As Monções, o Harmatã, os ventos Alísios, o Mistral, os ventos da Sibéria, e os do Nordeste, o Terral e o Aracati.

Estava o personagem dividido e a meio caminho entre o seu ser português e “comandante” e o seu ser brasileiro e comerciante, com a sua “cara de dono de armarinho”. Estava o nosso comandante-comerciante envolvido com a invenção de um passado glorioso que iria representar uma saída para o registo documental da sua vida quotidiana, a sua ficção a desafiar o seu real. E do mesmo modo está a narrativa d“A completa verdade sobre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso” a oscilar entre uma vontade lírica de realismo mágico e uma necessidade social de realismo — o que vai resultar no que Adolfo Casais Monteiro chamou de “realismo lírico”, referindo-se ao universo literário de Jorge Amado, qualidade que tanto influenciou os romancistas portugueses do neorrealismo, ajudando-os a não cair no risco de se preterir a ficção em nome do documentarismo político-social de caráter panfletário.

Naquele navio, o Ita, ele foi, agora verdadeiramente, o Comandante Vasco Moscoso de Aragão — não no modo de pôr o navio a navegar, mas no modo de não o pôr a navegar; no modo de melhor o imobilizar, preso, bem preso, à terra, tal como o seu comandante se manteve toda a vida.

Pergunta-nos o narrador, ao final do romance: “Qual a moral a extrair desta história por vezes salafrária e chula? Está a verdade naquilo que sucede todos os dias, nos quotidianos acontecimentos, na mesquinhez e chatice da vida da imensa maioria dos homens ou reside a verdade no sonho que nos é dado sonhar para fugir de nossa triste condição?”. O Comandante Vasco Moscoso de Aragão mostra-nos as duas verdades: a verdadeira história de uma história de vida verdadeiramente inventada e, além disso, também o êxito do seu projecto, que é a satisfação de duas demandas. A primeira: a sua necessidade íntima e ficcional de imaginar para si, capitão de longo curso, as aventuras que diz ter vivido; a segunda: a necessidade das pessoas de Periperi de ouvir as histórias que ouviram, escapando assim de um real ordinário e encontrando, enfim, o herói que sempre quiseram ter ali, à mão, a viver entre elas — uma demanda a legitimar a outra. Aqueles interlocutores-ouvintes, transformando a invenção em verdade, concretizam o pacto ficcional.

Ensaiamos uma tese: o comandante; deparamo-nos com uma antítese: o “seu” Vasco; e chegamos a uma síntese: o comandante “seu” Vasco a comandar o Ita. Naquele navio, ele se reconcilia com o seu passado, que deixou de ser uma mentira. A sua grande peculiaridade é esta: tanto no seu passado criado como no seu presente, ele comanda navios, mas os comanda da terra: todos os navios que comandou localizam-se no passado, menos o Ita, e ele os comanda do presente, e através da memória, do leme da memória, olhando, pela luneta, não para frente, e sim para trás, para o passado. Com exceção do Ita. Mantendo o seu Ita bem amarrado ao cais, com todas as amarras, ele o comandou como nenhum outro comandante o faria. Viva o Comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso, o nosso marinheiro português do século XIX!

Referências:

AMADO, Jorge. “A completa verdade sobre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso”. In: __________. Os velhos marinheiros — duas histórias do cais da Bahia. São Paulo: Martins, 1970.

COUTINHO, Afrânio (Dir.). A literatura no Brasil. 6 Vols. — Vol. V: Era Modernista. 3ª ed. revista e atualizada. Rio de Janeiro: José Olympio; Niterói: EDUFF — Editora da Universidade Federal Fluminense — UFF.

GOLDSTEIN, Ilana Seltzer. O Brasil best seller de Jorge Amado — Literatura e identidade nacional. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2003.

SALEMA, Álvaro. Jorge Amado: o homem e a obra — presença em Portugal. Lisboa: Publicações Europa-América, 1982.

TAVARES, Paulo. Criaturas de Jorge Amado. São Paulo: Martins, 1969.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

"Uma homenagem à Língua Portuguesa"



17 a 19 de Outubro de 2012, Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL); Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Juva Batella apresenta uma dramatização que tem como tema "Uma homenagem à Língua Portuguesa".

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

"Portugalzinho e o seu (meu) coração"

Um belo dia, em Lisboa, decidi ver e viver acontecimentos, um deles relativo ao meu coração, cuja válvula aórtica não é lá muito cristã no seu vai-e-vem de abrir e fechar. Terei um dia, quem sabe, de substituir a dita cuja por uma mecânica, tomar uns remedinhos, fazer exames periódicos e pronto. O cardiologista me disse, escondendo um quase-sorriso:

— O senhor já reparou na base do seu pescoço?

— O que é que tem a base do meu pescoço, senhor doutor?

— Ela pulsa. Veja — e me estendeu um espelhinho.

E eu vi, mesmo na base do pescoço, bem no meio, entre as clavículas, o vai-e-vem do coração pulsando sob a pele.

— Puxa... a pele se mexe para cima e para baixo...

— Pois se mexe...

Eu nunca havia reparado nisso, e nunca ninguém havia reparado nisso. Tratava-se de uma peculiaridade física que eu, aos 37 anos, acabava de descobrir em mim mesmo. Fiquei sem saber o que dizer, e a única coisa que me veio à cabeça e que consegui comentar foi:

— Nunca poderei fazer o papel de um morto no cinema…

O cardiologista, olhando-me pela primeira vez com alguma curiosidade, perguntou:

— O senhor é ator?

— Ator? Não, não... Sou escritor... Quer dizer...

— Escritor... Ah...

E assim terminou a consulta.

A secretária do senhor cardiologista me perguntou se eu queria que ela chamasse, pelo telefone, um táxi, porque ali passavam poucos táxis.

— Não, minha senhora. Obrigado. Eu sou um rapaz de sorte.

E, de fato, mal pisei a rua e já lá vinha um táxi. Fiz um sinal, entrei. Dobramos a primeira rua e caímos num grande congestionamento próximo à praça do Marquês de Pombal, em frente à avenida da Liberdade.

E o motorista do táxi, como se estivesse com tudo aquilo entalado na sua garganta há muitos anos, desandou a fazer o que muitos portugueses gostam de fazer (e o fazem com graça e inteligência): reclamar. O congestionamento no qual entramos e dentro do qual já estávamos metidos até o pescoço era, percebi imediatamente, apenas um pretexto para a sua digressão.

— O senhor veja, o senhor é brasileiro, o senhor há de me entender. Isto do jeito que está não funciona! — e ele colocou a mão esquerda para fora, num gesto que tinha a intenção de abarcar Lisboa inteira, Portugal todo ele. — Isto do jeito que está não anda a correr nada bem! O senhor olha aí para os lados, e o que o senhor vê? Vê um português por carro… Um carro por português. Isto assim não vai nada longe! É por isto que este país está assim, e esta cidade está assim, e este povo está assim… Isto aqui não corre nada bem! O senhor veja a quantidade de carros aqui à volta…

— Isto é em todo o mundo… — consegui dizer.

— Mas... Ó, meu senhor... Portugal é um país pequeno. Nós somos pequenos... Nós somos pequeninos. Isto assim não funciona! O português tem de saber viver na medida da sua possibilidade. E os transportes públicos? E os metros, os autocarros e os comboios? O senhor ‘tá a ver? Um carro por pessoa! O senhor sabe como isto aqui estará daqui a uma data d’anos? Não sabe… Pois não queira saber, hã… Ó, meu senhor. O senhor é brasileiro, o senhor há de me entender. Vou lhe dizer assim, o senhor veja: o português ganha, por mês, cinquenta, e gasta cinquenta e dois, e para obter estes dois ele vai ao banco e pede quatro de empréstimo, e gasta os cinquenta e seis e ainda começa a dever três no início do mês para o banco… Então o que é que temos? Temos um português que ganha cinquenta e gasta, ao fim e ao cabo, cinquenta e nove!

— Pois — disse eu.

— Pois — disse ele. E seguiu: — Isto é a bola de neve! A bola de neve portuguesinha... E ainda há quem diga por aí que Portugal tem condições... Portugal não tem condições, meu senhor. E o senhor sabe por quê? Porque o português não trabalha! Sim, isto mesmo! O português não trabalha! Isto aqui está tudo encostado, o dinheiro que temos aqui é o dinheiro da Comunidade. Agora o senhor vá conhecer o português fora de Portugal... O senhor é brasileiro, o senhor há de me entender... O português fora de Portugal é um bravo!

— Pois — disse eu, pensando nos portugueses donos da padaria Rio-Lisboa, ali no Leblon, no Rio de Janeiro. Pensei na padaria que vi e na qual entrei durante toda a minha infância e toda a minha adolescência, e me dei conta de que nunca vi aquela padaria Rio-Lisboa fechada em toda a minha vida… Estará fechada no dia do Juízo Final? Já posso ver, no dia do Juízo Final, aquela fila de gente à espera de levar o derradeiro pão-nosso-de-cada-dia para a vida eterna... E acrescentei ao meu comentário um outro comentário: — Pois. O português lá fora é um bravo... Mas aqui dentro também...

— O senhor não me está a levar a sério... Posso ver que não… Mas o senhor é brasileiro, e o senhor há de me entender... É como eu lhe digo: o português cá de dentro se encosta no Portugal que tem. O português de fora trabalha como um verdadeiro português, porque lá fora ele não tem o seu Portugalzinho para se encostar... O português lá fora é um cidadão do mundo! Adapta-se, corre atrás, dá o seu sangue e não fica à espera. É um bravo! Aprende as línguas, sai à rua, anda, como faz toda a gente, nos transportes públicos, e não fica com o reizinho na barriga, que é como vocês lá no Brasil dizem, não é mesmo? Se calhar nós é que inventamos a frase… O gajo tem o rei na barriga… Não é assim? É o caso do português cá de dentro. O português cá de dentro é o hóspede do seu Portugalzinho.

— Pois — disse eu, retornando aos comentários sintéticos.

— Pois — disse ele. E seguiu: — E o que é que faz este português de dentro, a encostar-se no seu Portugalzinho, a viver dentro do seu Portugalzinho como se estivesse num hotel?... Em vez de trabalhar e de dar o seu sangue, como faz o português de fora, que está no estrangeiro a ganhar a vida, o que é que faz o português que vive cá em Portugal, em vez de trabalhar? O que é que faz este português, dentro do seu Portugalzinho pequenino? Faz a única coisa que sabe fazer: reclamar e reclamar e reclamar... Isto, meu senhor, não está a correr nada bem...

— Pois — disse eu, a pensar, e enquanto pensava ia olhando, pela janela, para a cidade mais maravilhosa do mundo.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

“A categoria do humor categórico de Campos de Carvalho” - "XIII Congresso da Sociedade Internacional para o Estudo do Humor Luso-Hispânico"

"XIII Congresso da Sociedade Internacional para o Estudo do Humor Luso-Hispânico"
17 a 19 de Outubro de 2012, Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL).
Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

- Dia 17: “Evento Cultural - Mesa do CLEPUL, coordenada pelo seu Diretor”.
Apresentação de livros pelos autores Carmen Lobato (México), Onésimo Teotónio Almeida (Portugal/Estados Unidos da América), Beatriz Weigert (Brasil/Portugal), Conceição Pereira (Portugal), Juva Batella (curta dramatização).

- Dia 18: “Loucura, Nonsense e Surrealismos”.
Moderador: Maria do Carmo Cardoso Mendes (Universidade do Minho, Braga).
Com: Sofia Santos, Conceição Pereira, Rui Sousa, Juva Batella (todos do CLEPUL, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa).


"A categoria do humor categórico de Campos de Carvalho"

Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL)
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

“Eu deixei de escrever porque deixei. Deixei passar o tempo, 10 anos, 15 anos, 25 anos. Depois de 25 anos comecei a compreender que era esquecido.” Isto disse Walter Campos de Carvalho em sua última entrevista.[1] Disse que, para ele, a Bulgária continuava não existindo, “ao contrário do Estado do Piauí, por exemplo, que existe, e é um estado sofrido. A Bulgária é uma imaginação que eu tive”. Disse que ultimamente só fazia procurar aquilo que nunca precisou encontrar: o humor — “A solução é o humor”. Disse, em 1961, que o grande embaraço da literatura brasileira é a língua — “mais hermética que o mais hermético dos túmulos, quase tão desconhecida quanto o sânscrito ou o volapuque” —, e Machado de Assis, o seu grande engano — “considero Machado e seus asseclas o oposto da verdadeira literatura”. Disse que já viu o diabo, “há coisa de nove anos, aqui no Rio de Janeiro mesmo, dentro do meu quarto, às quatro horas da manhã. Não foi sonho nem alucinação, foi visão mesmo (...). Ele se limitou a fitar-me por alguns instantes, todo de preto, os olhos que eram uma maravilha: encostado à parede, perfeitamente visível na escuridão. Meu coração bateu um pouco mais forte e foi só”. Alega ter nascido em 1916, na cidade de Uberaba, em Minas Gerais, no Brasil, no dia 1º de novembro, “em plena Guerra Mundial, a primeira, num dia de Todos os Santos, a um passo do Dia de Finados. Isso explica em parte um antibelicismo, minha profunda irreligiosidade e meu pendor pelo macabro e o trágico. Local do nascimento: aquele mesmo, e de todos”. Disse que aos dezoito anos achava Marx bárbaro — “Aos trinta, (...) acabei descobrindo que cada um tem o Marx que merece. Os meus chamavam-se Groucho, Harpo e Chico”. Disse que não gosta de se considerar um autor trágico; disse que era mais fácil ele próprio existir do que Deus; “disse”, no período de 1956 a 1964, quatro romances considerados geniais, e depois não disse mais nada. Permaneceu em silêncio literário por mais de três décadas e afinal morreu, aos 82 anos, no meio de uma Semana Santa.

Raras são as histórias da literatura brasileira que falam das histórias de Campos de Carvalho, raras as antologias em que toma parte, raras as monografias, dissertações e teses. O leitor médio não o conhece, o estudante de letras mal o conhece, as livrarias não o possuem, e poucos são os alfarrábios que conseguem escondê-lo por algum tempo — o bastante para que um aficionado colecionador, tão raro quanto o exemplar que cobiça, finalmente o descubra e o leve embora para sempre. Trata-se, sim, de um marco — mas do qual não se falava há mais de trinta anos.

Durante seu decênio produtivo, 1954 a 1964, Campos de Carvalho fez sucesso e publicou por duas editoras fundamentais dentro da história editorial brasileira: José Olympio e Civilização Brasileira. Falaremos aqui de dois dos quatro que publicou: a lua vem da ásia, publicado em 1956 e que conta a história de um sujeito que se julga o hóspede de um hotel de luxo, depois o prisioneiro de um campo de trabalhos forçados, para finalmente percebermos tratar-se do interno de um hospício; e o púcaro búlgaro, seu último trabalho, de 1964, onde a tónica é o humor levado a sério, às últimas consequências, através de um grupo de esquisitos reunidos num apartamento e envolvidos na organização de uma expedição à Bulgária com vistas a verificar a sua real existência.

A importância e a atualidade da literatura de Campos de Carvalho têm residência fixa justamente em sua capacidade de representar uma crise de representação — a partir de seu núcleo: o sujeito em crise que se revolta e decide falar. Sua fala, o tempo inteiro confessional, é uma fala do contra: contra a sociedade que o esmaga, as instituições que o emparedam, a psicologia que o normaliza, a linguagem que o ensurdece e cala.

a lua vem da ásia, primeiro romance do escritor, foi o responsável por sua entrada nos salões da literatura brasileira. Chamaram-no, à época da primeira edição (1956), louco, imoral, debochado e satânico. “Há quem me tome por louco e eu mesmo já me tomei”, disse Campos de Carvalho. “Mas basta uma visita ao hospício para me convencer — desgraçadamente — do contrário. É como se fosse um lobo vestido com a pele de um cordeiro: expulsam-me só pelo faro.”

Chico Buarque de Holanda considera a lua vem da ásia seu livro mais contundente; o cineasta brasileiro Glauber Rocha o chamou “a diarreia Campos de Carvalho”; o crítico Antonio Olinto o saudou como “desconcertante”; para André Laude, da revista Nouvelles Littéraires, o livro é “manifestamente um escrito subversivo, inclassificável, irrecuperável”.

O primeiro parágrafo da lua vem da ásia, de todos os que Campos de Carvalho escreveu, é dos mais citados por toda a imprensa. “Aos dezesseis anos matei meu professor de lógica, invocando a legítima defesa.”[2] Mais adiante, aos vinte, a venda de sua alma ao diabo. O crime aos dezesseis anos marca o ingresso do narrador-personagem na independência intelectual que o caracteriza. Adilson, ou Astrogildo, nosso narrador-terrorista, ou matava o professor ou este o matava com a sua “lógica”. Eliminados ambos, estamos prontos, narrador-personagem e nós, leitores-ouvintes, para a entrada numa espécie de novo mundo, de cujo tom dão conta as duas frases que seguem: “... e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris”.

A cidade imaginária é Paris, o rio é o Sena — e a moradia, uma ponte, não poderia ser mais romântica. O poeta fuma sob o céu estrelado e, como ainda é imberbe, deixa crescer-lhe a barba, sim, mas em pensamento. Em seguida morre “tranquilamente, dentro da noite calma”. Quando acorda, um gari estende-lhe o último jornal da tarde, onde lê a respeito de uma hecatombe sobre a cidade de Melbourne. Adilson, ou Heitor, lava o rosto com o próprio pranto, entrega seu jornal a um menino cego e sai mundo afora — “até deparar com a estátua do marechal Joffre montado a cavalo”. Como o dia seguinte é de guerra, apresenta-se a um general de divisão que lá estava a passear no Bois de Boulogne e recebe dele uma corneta e cinco mil francos destinados a um uniforme — “Com a corneta toquei o Danúbio azul (...), e com os cinco mil francos fui a uma sessão de cinema”. Acaba preso como espião moscovita — “por causa de minhas barbas patriarcais e malcheirosas” — e submetido a um “conselho de guerra composto de 15 mil generais, todos eles fardados”. Inocentado, volta a perambular e a dormir sob as pontes europeias — “Foi por essa época que aprendi a tocar berimbau com um professor do Conservatório de Varsóvia, herr Hepsteimm, e quando também resolvi fazer a minha primeira comunhão, por absoluto estado de fome”. Nomeou-se, em seguida, conselheiro musical na corte de Luís II da Baviera.

Ao longo de sua atribulada vida e de suas inenarráveis viagens, ocupou incontáveis cargos, trabalhou em todos os ofícios e naturalizou-se cidadão em cada ínfimo canto do mundo, nada encontrando que se ajustasse ao seu “temperamento profundamente humano”. De espião moscovita, conselheiro musical na corte de Luís II da Baviera, coveiro na Bolívia, professor de natação na Beira, poeta futurista, caçador de elefantes na África Equatorial Francesa, tradutor de Virgílio para o alemão, filho bastardo do rei dos belgas e negociante de falsos diamantes, a traficante de cocaína em Coimbra, sacristão no Ceará, autor do Tratado da Desesperação Metafísica e membro-fundador do Partido Anarquista Nacional.

Campos de Carvalho acerca-nos do que pode haver de mais estranho no comportamento humano: a loucura do outro. Basta ouvirmos as frases de Heitor, ou Ruy Barbo, para nos convencermos disso. Em seguida, quando já se está suficientemente convencido, quando não há mais dúvidas de que estamos diante do relato de um louco e somos, ou assim gostaríamos de ser, diferentes dele, esta mesma loucura passa então a fazer parte, de algum modo, da realidade de nossa própria razão.

Quando conta retrospetivamente, Ruy Barbo, ou Astrogildo, rememora suas grandes viagens por todos os reinos do mundo. Aos dois enfoques, o retrospectivo e o presente, corresponde a divisão do livro em duas partes. Na primeira, intitulada “A vida sexual dos perus”, são descritos os seus grandes périplos. A segunda parte, “Cosmogonia”, descreve a fuga do manicômio e a entrada no mundo — um manicômio bem maior.

A partir de então não haverá mais viagens, mas uma única viagem rumo ao fim. É justamente em seu período de total imobilidade, preso naquele “hotel de luxo”, que Astrogildo, ou Adilson, mais se desloca. E seu deslocamento é obsedante, geográfica e historicamente.

“. Indo em peregrinação a Meca, (...) tive que atravessar às pressas o não sei por que chamado mar Vermelho, que me pareceu tão azul quanto o mar Negro ou o mar Amarelo (...). De Meca transportei-me, puro já de alma, para a próspera cidade de Medina, onde comprei metade da Arábia a um alto membro do governo que depois eu vim a saber ser tão árabe e tão membro do governo quanto eu mesmo (...). Reduzido a 15 milhões de arabescos, fugi de bicicleta para Damasco, onde apanhei o tifo (...).

. (...) Deportado para a Groenlândia num cargueiro que transportava 20 toneladas de alfinetes de cabeça e um pequeno elefante, ali vivi.” (Grifamos.)

Ao fim, mata-se. “O certo mesmo seria chamar a este meu suicídio de homicídio, já que em mim eu mato o homem que não me agrada e não o meu eu verdadeiro, que é até simpático.” “Aos dezesseis anos matei meu professor de lógica”, confessa Heitor, ou Ruy Barbo, logo à primeira frase do romance de Campos de Carvalho, antecipando o que nos espera.

Este diário de viagem, esta “peça” literária insólita e disparatada chamada o púcaro búlgaro, significará o término de um itinerário de angústias, através de uma espécie de redenção pelo humor. O diário do narrador-expedicionário Hilário limita-se ao registro do dia-a-dia do que seriam os preparativos para a sua expedição particularíssima à Bulgária. O texto detecta a existência de um problema aparentemente insolúvel: a dúvida “em torno dessa mirífica e cada vez mais nebulosa disputa geográfica: ou, para dizer com mais exatidão, em torno desse espanto geonomástico, como tão bem definiu um famoso historiador búlgaro”: a existência ou não da Bulgária e, consequentemente, dos búlgaros. Segue agora a descrição sumária da razão de ser de todo o diário:

No verão de 1958 o autor visitava tranquilamente o Museu Histórico e Geográfico de Filadélfia quando, ao voltar-se um pouco para a direita, avistou de repente um púcaro búlgaro. A impressão causada pelo estranho acontecimento foi tamanha que no dia seguinte ele embarcava de volta no primeiro avião, deixando a mulher no hotel sem dinheiro ao menos para pagar as despesas. (Grifamos.)

o púcaro búlgaro entra aqui de modo exemplar, porque realiza um duplo jogo surrealista. No nível estético, desbanaliza a linguagem, retirando-lhe os seus ranços e os seus lugares comuns, a sua previsibilidade e a sua acomodação. No nível existencial, apresenta um mundo ocupado por personagens que amanhecem e anoitecem inteiramente surrealistas — em todos os seus atos e pensamentos veem e fazem um mundo surrealista, regido pela credibilidade do sonho e pela vontade férrea de ver a realidade a cada momento com olhos livres.

Radamés Stepanovicinsky é, de todos os personagens, o que melhor se poderia definir como um “homem de espírito”, na aceção que lhe emprega Bergson em seu famoso estudo sobre o riso. O espírito num homem é a sua capacidade de pensar com dramaticidade, fazendo das ideias coisas que se veem, ouvem e manejam. Em sentido estrito, será a porção de comédia que um homem põe em movimento através de seus atos e, principalmente, de suas palavras.

Ri-se, mas não se sabe exatamente de quê, e esta intangibilidade daquilo que nos faz rir é o ponto de partida do estudo de Bergson. A inconsciência da própria comicidade é, em geral, uma das mais eficientes características da comicidade, e a imagem clássica da risada geral contraposta ao silêncio de uma só criatura de quem todos riem pode ser facilmente repassada: o cômico sério, e cada vez mais sério, à medida que os seus disparates se vão tornando progressivamente mais engraçados e seu semblante mais e mais fechado.

Não há no púcaro búlgaro um só personagem que ria. A seriedade é geral e crescente diante do solene projeto que têm à mão os expedicionários, sob a chefia do professor Radamés. A atitude compenetrada de todos diante de uma empreitada que, logo ao início se percebe, não dará em nada é em si mesma uma fonte inesgotável de riso, por duas razões, a serem identificadas na teoria da comicidade de Bergson.

A primeira reside na mecanicidade, e é dela uma consequência: é próprio dos mecanismos ser reversível. Situações onde a reversibilidade é a mola produzem riso, diz Bergson, e elenca inúmeros casos, entre eles o do marido angustiado que “acredita escapar de sua mulher e da sogra pelo divórcio. Casa-se de novo; e as tramas combinadas do divórcio e do casamento acabam levando-o à antiga mulher, mas em situação mais grave, pois agora ela é sua sogra”.[3] Um exemplo de reversibilidade, não sobre uma série de acontecimentos, mas sobre a superfície da linguagem:

“— Professor, como se explica que até mendigo hoje tenha rádio transístor?
— Não é o mendigo que já tem transístor, e sim o transístor que já tem o seu mendigo — respondeu Radamés, como sempre meio nebuloso.
— Então, como o sr. explica que, hoje, qualquer transístor já tenha o seu mendigo?”

Uma das consequências da reversibilidade é a nulidade do resultado. Para Herbert Spencer, “o riso seria indício de um esforço que depara de súbito com o vazio”. Para Kant, “o riso advém de uma espera que dá subitamente em nada”.[4] De nada adiantou casar-se, como de nada adiantará reunirem-se os candidatos à expedição à Bulgária, porque não haverá Bulgária alguma, quanto menos expedição, que esta, no máximo, terá lugar no próprio apartamento do narrador, assim como magistralmente o fez Xavier de Maistre.

A segunda razão alimenta-se da solenidade com que todos tratam da questão búlgara — uma solenidade que, contraposta à nulidade do resultado e à pequenez do projeto, produz riso. Esta solenidade artificial, que Bergson chama de exagero, aliada ao seu oposto, a degradação, fazem ambas parte de uma das três leis básicas da teoria da comicidade: interessa-nos aqui a transposição, que nada mais é que o deslocamento de ideias e expressões de um lugar para outro, criando assim um estranhamento qualquer: “Falar das pequenas coisas como se fossem grandes é, de modo geral, exagerar. O exagero é cômico quando é prolongado e sobretudo quando é sistemático (...)”.[5]

Toda a tríplice introdução ao púcaro búlgaro: a solenidade das palavras, entrevista no discurso em terceira pessoa com ares cientificistas; a carta ao diretor do Museu de Filadélfia; as notas de pé de página do Editor; tudo isso entrecortado por toda a sorte de disparates, são um exemplo exato deste recurso cômico.


“Isso me lembra um incunábulo que vi certa vez na Biblioteca do Vaticano, do século XIII ou XIV se não me engano, e que trazia este título (em latim) bastante sugestivo: “no que pensam os adolescentes quando não estão pensando no sexo”. Suas quatrocentas e tantas páginas vinham em branco naturalmente, um pouco amarelecidas pelo tempo, e só no final se lia a advertência finis, em belas letras góticas. Propus a tradução de obra tão erudita a um editor de Florença, mas como ele não concordasse em suprimir aquele tópico final, que me parecia uma excrescência, a ideia não foi avante.[6]

Tanto o trecho acima quanto a sua respectiva nota se encaixam ao mesmo tempo nos dois processos mencionados por Bergson — por degradação e por exagero. Se considerarmos verídicas certas informações históricas, tais como a existência do humanista florentino Niccolo de Niccoli, da Biblioteca do Vaticano, e do próprio Vaticano, está a narrativa circundante a degradar instituições e pessoas, misturando-as com assuntos de sexologia barata e, assim, produzindo riso. Neste caso o solene desce de nível e se encontra com o familiar (o sexo dos adolescentes).

Se, ao contrário, partirmos do princípio de que todo o trecho pode ser uma grande invenção, acabaremos por ficcionalizar todo o universo da narrativa e assim encontrar elementos solenes criados com o objetivo de revestir de importância papal, humanista, editorial, bibliotecária e histórica os conteúdos mentais constantes dos adolescentes de todos os tempos, que agora sobem de nível, ao encontro de uma importância que antes não tinham.

“Rosa:
— Está aí fora um sujeito que diz que não existe.
— Mande entrar assim mesmo.
Era um sujeito franzino, raquítico, como se de fato não existisse; mas ainda assim dava para enxergar.
— Chamo-me (...) Fulano C. Meireles. Esse C. até hoje não consegui descobrir o que seja.
— Sente-se.
— Não sei se o sr. sabe, mas em 1585 o papa Gregório XIII decidiu que o dia seguinte a 4 de outubro de 1582 passaria a ser 15 de outubro de 1582 — parece que para acertar um calendário qualquer. (...) Pois bem, os avós dos meus avós (...) nasceram exatamente entre 5 e 14 daquele ano (...). Eu até que, antes de descobrir esse fato, era um halterofilista razoável, com várias medalhas no peito (...). Quando descobri que não existia, perdi todo interesse de existir (...).
— Lamento muito a sua inexistência” [p. 348-349].

Ao lado do movimento rígido e mecânico de fisionomias e gestos cômicos, há na linguagem a rigidez da frase feita, que, uma vez rasgada por uma ideia absurda, a instaurar então uma coexistência dentro da mesma frase, produz riso. Bergson diz: “Obtém-se um efeito cômico quando se toma uma expressão no sentido próprio, enquanto era empregada no sentido figurado”.[7] o púcaro búlgaro presta-se por inteiro como exemplo.

“... e entrei sorrateiramente no quarto de Rosa, que dormia a sono solto. Prendi-lhe o sono entre as mãos, entre os braços, e depois entre as pernas.
Chegou o professor Radamés, com mala e tudo.
— Vi que o sr. morava sozinho e resolvi vir morar sozinho com o senhor.
— Só que há a Rosa, que também mora sozinha. Assim seremos três a morar sozinhos.”

Campos de Carvalho vai reproduzir no púcaro búlgaro o mesmo artifício cômico amplamente utilizado em a lua vem da ásia: a compulsão geográfica. Tanto o louco Adilson, ou Heitor — preso em seu hotel de luxo ou campo de concentração —, quanto o expedicionário Hilário, o professor Radamés e toda a bulgarófila trupe, mantêm contrapostas duas atitudes: a vertiginosa mobilidade de seus espíritos, observada ao longo de seus mirabolantes roteiros de viagem, e a exasperante imobilidade de seus corpos. Em ambos os livros, o mundo inteiro à disposição e onipresente. Um mundo, porém, diferente.

As narrativas da lua vem da ásia e do púcaro búlgaro dispõem dos mapas-múndi refazendo-os, e nesta “refazenda” do mundo refazem-se a si mesmos, já que não conseguem mover-se. A lua virá da Ásia ou da Bulgária, e a Ásia, como a Bulgária, pode ser encontrada em qualquer ponto do globo, desde que se crie um roteiro, seja ela qual for — “... até um náufrago agarrado à sua tábua poderia vir a descobrir a Bulgária, desde que, condição sine qua non, a Bulgária lhe aparecesse pela frente”.

O roteiro proposto pelo professor Radamés Stepanovicinsky, escrito em “um papel minúsculo, do tamanho de uma unha se tanto”, colocado com solenidade sobre uma mesa e lido atentamente com uma lupa, assemelha-se aos melhores momentos de viagem de Astrolgildo, ou Heitor, ou Ruy Barbo.

“— Eu (...) pretendia de início partir de Mar de Espanha, o suntuoso porto de Minas Gerais. Mas como, em lá chegando, constatei que aquilo não era nem nunca fora Espanha, nem tinha qualquer mar à vista, desisti do intento. Assim, partiremos mesmo de Niterói (...).

De Niterói tomaremos o rumo das Canárias (...) — engolfaremos pelo Golfo Pérsico, atingiremos (...) o mar Egeu, e costearemos (...) o litoral da Líbia. Após (...) uma lauta refeição, zarparemos de novo em direção às quedas de Massassa e (...) ao mar de Barents, quando (...) contornaremos a Groenlândia e chegaremos ao planalto Tibetano (...). Após uma copiosa refeição enfrentaremos o monte Erebus, a Tasmânia, a Trácia e, de certo modo, também o Transvaal. (...) Às dez horas do dia seguinte enfrentaremos um terrível furacão, como sempre que se realiza a travessia do equador — após o que passaremos ao largo de Constantinopla e (...) rumaremos imediatamente para o lago Tanganyika (...). Comidos e pernoitados, entraremos no Danúbio, avistaremos a Iugoslávia, a Romênia (...) e, pondo fogo nas velas do navio para poder enxergar o mar Negro, iremos fazer uma visita ao sultão de Istambul (...). Pegando o rio Jequitinhonha, (...), velejaremos (...) na direção onde muito provavelmente deverão estar Araraquara, Pindamonhangaba, Santa Rita de Passa Quatro e Belo Horizonte — o que significa que estaremos a um passo de Niterói e consequentemente de nossas casas. Cumprido esse périplo, se não tivermos avistado nenhuma Bulgária é porque a Bulgária não existe mesmo ou então somos nós que não existimos (...).”

Campos de Carvalho foi um terrorista; sua literatura, parte essencial de um projeto terrorista de renovação da linguagem e de libertação do homem. Se está hoje a um passo de entrar para as nossas estantes canónicas, isto não significa que não possamos lê-lo como se estivéssemos nós na pele de seus primeiros e assustados leitores.

Bibliografia

BERGSON, Henri, O riso — Ensaio sobre a significação do cômico, 2ª ed., Rio de Janeiro, Brasil, Guanabara, 1987.

CARVALHO, Campos de, Obra reunida — A lua vem da Ásia, Vaca de nariz sutil, A chuva imóvel, O púcaro búlgaro, Rio de Janeiro, Brasil, José Olympio, 1995.

COMODO, Roberto, “Silêncio rompido — Após 30 anos longe das livrarias, quatro romances cultuados de Campos de Carvalho são relançados”, Revista IstoÉ, Livros, Brasil, 12 abr. 1995. (Entrevista)

ENEIDA, “Campos de Carvalho”, in __________, Romancistas também personagens — Letras Brasileiras, São Paulo, Brasil, Cultrix, 1961. (Entrevista)

LAUDE, André, “Campos de Carvalho — Délire contre délire”. Nouvelles Littéraires, 1º abr., França, 1976.

PIRES, Paulo Roberto, “A paixão anarquista da liberdade — O cultuado Campos de Carvalho tem editada ‘Obra Reunida’ 30 anos depois de abandonar a literatura”, O Globo, Rio de Janeiro, Brasil, Segundo Caderno, sábado, 8 abr. 1995. (Entrevista)

PRATA, Antonio & COHN, Sergio, “Campos de Carvalho”, Revista Azougue, Brasil, s/d. (Entrevista)

PRATA, Antonio, “Não gosto de mim trágico”, O Estado de S. Paulo, São Paulo, Brasil, Caderno 2, sábado, 11 abr. 1998. (Entrevista)

SILVESTRE, Edney Célio, “Este homem é um maldito — Há quem o considere o fenômeno mais importante das artes no Brasil. A cultura oficial, entretanto, ignora-o. Os críticos temem escrever a seu respeito. Os leitores o consideram um louco, mas seus livros estão esgotados. O que vem a ser um marginal dentro da cultura brasileira?”. O Cruzeiro, Brasil, 30 out. 1969. (Entrevista)





[1] Este texto reunirá muitos trechos de entrevistas. Para evitarmos tantas notas de rodapé, a relação das fontes encontra-se na Bibliografia ao final.
[2] Também para evitar tantas notas, não detalharemos aqui as referências bibliográficas dos dois livros de Campos de Carvalho citados, A lua vem da Ásia e O púcaro búlgaro, listados ao final.
[3] BERGSON, Henri. “Comicidade de situações e comicidade de palavras”. In: _____. O riso — Ensaio sobre a significação do cômico. 2ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987, p. 49.
[4] Citados ambos por BERGSON, Ibid.
[5] Id., p. 67.
[6] “O título exato da obra, atribuída ao célebre humanista florentino Niccolo de Niccoli, é: ‘Aquilo em que, 60 minutos por hora, 24 horas por dia, 30 dias por mês e 12 meses por ano pensam os adolescentes, as crianças e as criancinhas quando não estão pensando no sexo’. Existem pelo menos duas traduções conhecidas, uma para o venezuelano e a outra para o volapuque, sendo esta última bastante incompleta, sem o título e a advertência final. (Nota do Editor.)”
[7] BERGSON, “Comicidade de situações e comicidade de palavras”, op. cit., p. 62.