sexta-feira, 1 de julho de 2011

“A Biblioteca” e “A Cidade” — entre quatro aspas

"Falaram-me várias vezes do homem que, numa casa do bairro de Flores, esconde a réplica de uma cidade em que trabalha há vários anos. Construiu-a com materiais insignificantes e numa escala tão reduzida que podemos vê-la de uma só vez, próxima e múltipla e como que distante na suave claridade da alba.

“A cidade está sempre longe e essa sensação de distância tão próxima é inesquecível. Vêem-se os edifícios e as praças e as avenidas e vê-se o subúrbio que se esbate para oeste até se perder no campo.

“Não é um mapa, nem uma maqueta, é uma máquina sinóptica; a cidade está toda ali, concentrada em si mesma, reduzida à sua essência. A cidade é Buenos Aires, mas modificada e alterada pela loucura e a visão microscópica do construtor.

“O homem diz chamar-se Russell e é fotógrafo, ou ganha a vida como fotógrafo, e tem o seu laboratório na calle Bacacay e passa meses sem sair de casa a reconstruir periodicamente os bairros do sul que as cheias do rio arrasam e enterram cada vez que chega o Outono.

“Russell acredita que a cidade real depende da sua réplica e por isso está louco.”

Ricardo Piglia, “Prólogo”, in O último leitor, trad. Jorge Fallorca, Lisboa, Teorema, 2005, p. 9-10.

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