terça-feira, 28 de junho de 2011

A bola de neve

"Os intérpretes simultâneos na ONU traduzem — através de um complexo equipamento — os discursos dos delegados na mesma velocidade em que estes normalmente falam. Se uma palavra crucial para o debate for traduzida de modo incorreto, precisa ser revista no decorrer da discussão, sob o risco de transformar as conversações numa festa do Chapeleiro Louco, extraída de Alice no País das Maravilhas. Um incidente assim ocorreu durante a época da descolonização, quando um representante do rapidamente minguante Império Britânico lia um relatório das atividades de uma região sob custódia do Reino Unido durante uma Assembleia. Quando falava das tentativas do pessoal do lugar (antigamente denominado apenas ´nativos´) para combater as pragas de besouros-rinocerontes, o intérprete russo compreendeu a palavra ´rinoceronte´ (nasaróg, em russo), mas não ´besouro´ (zhook). O delegado soviético, portanto, interrompeu para perguntar como os nativos podiam equipar-se para resistir à invasão de inumeráveis rinocerontes. Recebeu a resposta de que o pessoal do lugar recebia vassouras e baldes de produtos químicos. Isso pareceu ao representante soviético não só armamento insuficiente para combater o ataque de hordas de rinocerontes, mas também prova de má vontade colonialista em distribuir armas de fogo aos africanos para proteção contra o ataque de animais ferozes. ´Ao mesmo tempo´, contrapôs o delegado soviético, com boa dose de farisaísmo ecológico, ´restam apenas algumas centenas de rinocerontes na África; por que deveriam ser exterminados?´ A isso replicou o delegado britânico: ´Ah, não! Há muitos milhões deles. Todas as primaveras eles voam do norte em grandes enxames e comem as cascas das árvores´. A essa altura a discussão já se havia complicado tanto que a sessão precisou ser suspensa, até que a palavra ´besouro´ foi localizada e — finalmente — aposta a 'rinoceronte'.”

Charles Berlitz, “Traduções pouco diplomáticas”, in As línguas do mundo, trad. Heloisa G. Barbosa, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988, p. 154-155.

domingo, 26 de junho de 2011

Companhia: a Vertigem das Letras

Recontextoalização

“Alice was beginning to tire of sitting by her sister on the bank. She took out her iPhone and played Angry Birds for the next three hours.”

“Call me Ishmael_65.”

“Mother died today. I posted it as my Facebook status.”

E mais inícios alterados de romances.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

“Palavra, um jogo sem fronteiras” - "Festival do Silêncio"


"Festival do Silêncio"
15 a 25 de Junho de 2011, Lisboa (página de jornal e programa com as páginas 1 e 10).

Dia 24: Conversa 5 - “Palavra, um jogo sem fronteiras” (Cinema São Jorge).
Mediador: José Mário Silva.
Com: Juva Batella, José Eduardo Agualusa e Richard Zimler.

Diferentes culturas, diferentes universos, uma paixão única: a palavra. Escrita, dita ou cantada, a palavra enquanto motor para uma cultura transnacional e transversal. Uma conversa moderada pelo jornalista José Mário Silva e que junta à mesma mesa escritores de várias nacionalidades: o brasileiro Juva Batella, o angolano José Eduardo Agualusa e o norte-americano Richard Zimler.

... conversar e bater e debater e rebater e esbater, e silenciar...

... tempo          som          cultura          jogo          fronteira          barriga          mudez          algaravia          universalidade          Platão          fonema          sistema          morfema          pátrias          venenos          histórias          conversas          silêncio          Ulisses          poesia          trovão          mitologia          círculo          magia          conto          iceberg          dinossauros          limite          entardecer          rinocerontes          besouros                      ... (e tomar, depois, uma cerveja)...

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Amarrando cordinhas…

Fala o escritor:

“Tomemos a palavra “thunder” [trovão] e olhemos em retrospecto para o deus Thunor, o equivalente saxão do Thor nórdico. A palavra tunor exprimia o trovão e o deus; mas tivéssemos perguntado aos homens que chegaram à Inglaterra com Hengist se a palavra exprimia o estrondo no céu ou o deus colérico, não acho que seriam argutos o suficiente para compreender a diferença. Imagino que a palavra carregava ambos os sentidos sem se comprometer muito a fundo com nenhum deles. Imagino que, quando proferiam ou escutavam a palavra “thunder”, ao mesmo tempo ouviam o grave estrondo no céu e viam o raio e pensavam no deus. As palavras eram envoltas em mágica; não tinham um significado estanque”.

Jorge Luis Borges, “Pensamento e poesia”, in Esse ofício do verso, org. Calin-Andrei Mihailescu, trad. José Marcos Macedo, São Paulo, Companhia das Letras, 2000, p. 85.

Fala o filósofo:

“Tudo a que chamamos mito é (…) algo condicionado e mediado pela atividade da linguagem; é na verdade o resultado de uma deficiência linguística originária, de uma debilidade inerente à linguagem. Toda designação linguística é essencialmente ambígua e, nesta ambiguidade, nesta paronímia das palavras, está a fonte primeva de todos os mitos”.

Ernst Cassirer, “A linguagem e o mito: sua posição na cultura humana”, in Linguagem e mito, trad. J. Guinsburg e Mirian Schnaiderman, São Paulo, Perspectiva, 2000, p. 18.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

"O mar...

"... está sempre em movimento para não sair do lugar. Se o mar saísse do lugar teriam que mudar os mapas. Se o mar ficasse parado ele escorreria para cima das cidades e apagaria os vulcões. A água sobe quando o sol a evapora. O sal da água do mar não evapora. Quando chove sobre o mar a água recupera o sal que havia deixado ali com o resto das águas. Há tanta água na água quanto a água evaporada que há no ar. Há tanta água salgada como lágrima dentro do mar. Quando a água doce do rio chega ela deixa de ser doce porque o mar é maior. E quando requebra na praia é bonito. E tem gente que morre de sede no meio do mar."

Arnaldo Antunes

Ou então: tudo ao contrário

“Terceiro: em nenhuma circunstância eaqueças o célebre dictum: na literatura não há nada escrito.

(…)

Sexto: aproveita todas as desvantagens, como a insónia, a prisão ou a pobreza; a primeira fez Baudelaire; a segunda, Pellico; e a terceira, todos os meus amigos escritores; evita, pois, dormir com Homero, ter a vida tranquila de um Byron ou ganhar tanto como Bloy.

Sétimo: não persigas o êxito. O êxito acabou com Cervantes, tão bom novelista até ao Quixote. Ainda que o êxito seja sempre inevitável, procura um bom fracasso de vez em quando para que os teus amigos se entristeçam.

(…)

Décimo: tenta dizer as coisas de modo que o leitor sinta sempre que no fundo é tanto ou mais inteligente do que tu. De vez em quando tenta que efectivamente o seja; mas para conseguir isso terás de ser mais inteligente do que ele.”

Augusto Monterroso, “Decálogo do escritor”, in O resto é silêncio, Lisboa, Oficina do Livro, 2007, p. 115-116

quinta-feira, 16 de junho de 2011

"Bloomsday"

Let´s Joyce.

Sim, o final da história

“Entraram no quarto, despiram-se e o que estava escrito que aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.”

José Saramago, As intermitências da morte, Lisboa, Editorial Caminho, 2005, p. 214.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

iBúqui-se yourself

Hoje, no Bartô do Chapitô, às 22h, este motivo de briga - os livros -, e todos os ecos que produz. Com ou sem nuvens, a vista da ponte, dali do bar, é sempre bonita.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Uma carta para Borges

"Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Genebra, 14 de junho de 1986

Nova York, 13 de Junho de 1996

Caro Borges,

(…) Lamento ter de dizer a você que os livros hoje são tidos como uma espécie ameaçada. Por livros, refiro-me também às condições de leitura que tornam possível a literatura e seus efeitos na alma. Em breve, nos dizem, invocaremos em “telas-livro” quaisquer “textos” que quisermos e poderemos alterar seu aspecto, fazer perguntas a eles, “interagir”. Quando os livros se tornarem textos com que “interagiremos” segundo o critério da utilidade, a palavra escrita terá se transformado simplesmente em mais um aspecto da nossa realidade televisual regida pela publicidade. Esse é o glorioso futuro que está sendo criado e prometido para nós, como algo mais “democrático”. É claro, isso significa nada menos que a morte da interioridade — e do livro.

Para essa transição, não haverá nenhuma necessidade de uma grande conflagração. Os bárbaros não precisam queimar os livros. O tigre está na biblioteca. Caro Borges, por favor compreenda que não me dá nenhum prazer queixar-me. Mas a quem melhor que você poderiam ser endereçadas tais queixas sobre o destino dos livros — da própria leitura? (Borges, faz dez anos!) Tudo o que quero dizer é que sentimos sua falta. Eu sinto sua falta. Você continua a ser importante. A era em que estamos entrando agora, este século XXI, porá a alma à prova de maneiras novas. Mas, esteja certo, alguns de nós não abandonaremos a Grande Biblioteca. E você continuará a ser o nosso patrono e o nosso herói.

Susan"

Susan Sontag, "Uma carta para Borges, in Questão de ênfase, trad. Rubens Figueiredo, São Paulo, Companhia das Letras, 2005, p. 151.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

"Palavras cruzadas”

5. "Palavras cruzadas” (“A arte de ouvir – e pedir mais”), Revista Lilica and Tigor, São Paulo, jun. 2011 (data aproximada).

Sim, das coisas mais divertidas quando saio um bocadinho aqui da minha vida lisboeta e dou um pulo no Rio de Janeiro é entrar num táxi com a Alice e a Clara, as minhas duas miúdas, de 9 e 4 anos, e deixá-las falar; é entrar num elevador cheio e deixá-las falar; numa fila longa, e deixá-las falar. É deixá-las falar.

A Alice, que veio para Portugal com dois anos, é já uma portuguesinha, e a Clara, que nasceu cá, mais ainda. A entonação e o vocabulário portugueses só não ficam encantadores quando temos à frente um português careca, bigodudo e barrigudo, com o conhecido e insubstituível lápis-atrás-da-orelha, e a cheirar a peixe, a jornal, carne de porco e bacalhau, e a dizer “pá!” a cada três frases, “pois” para cada pergunta e “se calhar” a cada minuto. Quando temos duas menininhas tão-lindas-que-chega-até-a-dar-nervoso-de-tão-lindas, a vontade é de ouvir quieto, sorrir e pedir mais. (Esta apreciação estética acerca das minhas filhas é isenta, posso garantir-vos.)

As meninas e eu entramos no táxi. Sem querer bati com a porta no braço da Alice, e ela: “Ó, papá, magoaste-me!”. Eu disse: “Hã?”, e ela: “Com a porta. Magoaste-me com a porta do carro!”. A Clarinha, para ela: “A culpa é tua! Foste parva!”. “Não se dizem nomes às pessoas”, rebate a Alice. “É feio!” “Portem-se bem!”, digo às duas. O motorista, diante daquela discussão, arqueia as sobrancelhas, tem vontade de rir mas ouve quieto, e depois apenas sorri. E pede mais.

Entramos num elevador cheio de gente séria e muda. A Clarinha, olhando para cima, pergunta-me: “Papá, estou a portar-me bem? Vou ganhar um rebuçado hoje, como prometeste?”. E todos no elevador se mexem e sorriem. E eu, para puxar mais falas: “Disseste o quê, filha? Não percebi”. E a Alice para mim: “Não percebeste?”, e em seguida para a irmã, sob o total silêncio sorridente do grupo à volta: “Deixa estar, mana. O papá hoje está mesmo despistado! Estás a portar-te muito bem, e vais ganhar o teu rebuçado, sim. O papá não falta com a palavra”. Muitos sorriem, e alguns pedem mais.

“Papá, esta bicha não anda!”, diz-me a Alice, passados cinco minutos na fila da pipoca para o cinema. Os pais e as crianças à frente viram-se e nos deitam olhos curiosos. A Clarinha aproveita: “Papá, os miúdos aqui no Brasil não têm rabinho, pois não?”. As crianças atrás de nós viram-se, riem e apontam. “Não, filha. Eles têm bundinha, ou bum-bum.” “Pois eu prefiro ter rabinho do que bundinha”, diz ela, muito séria. Risadas por todo lado, e a Clarinha, que não gosta que riam dela, revida: “Tem piada…”. “O que é que tem piada, filha?” “Como os miúdos aqui no Brasil falam papá e mamã.” “Como é que falam?”, pergunto às duas. E elas dizem, com uma entonação brasileira, alto o suficiente para serem ouvidas e olhando para as crianças à volta com ares desafiantes: “Paiê! Manhê!”, e desatam a rir. Mais risadas por todo lado. E a Alice, para todos, num ímpeto de desinibição: “O que é que se passa convosco?”. Diante daquele convosco dito por uma miúda de nove anos, os adultos ao nosso redor puxam conversa, sempre sorrindo, e pedem mais. E nós? Nós damos mais.

Da impressionância da precisão

“Já que usei a expressão “antiga como o tempo” [as old as time], devo citar outro verso (…). (…) Achei-o citado por Kipling num livro seu não muito memorável, chamado From sea to sea: “A rose-red city, half as old as Time” [Uma cidade rubro-rósea, com a metade da idade do tempo]. Tivesse o poeta escrito “A rose-red city, as old as Time”, não teria escrito absolutamente nada. Mas “half as old as Time” empresta uma espécie de precisão mágica — a mesma espécie de precisão mágica obtida por aquela estranha e corriqueira expressão inglesa “I will love you forever and a day”. “Para sempre” significa “por um tempo muito longo”, mas é abstrato demais para empolgar a imaginação.

Temos a mesma espécie de truque (…) no título daquele livro famoso, as Mil e uma noites. Pois “as mil noites” significam para a imaginação “as muitas noites”, tal como “quarenta” costumava significar “muitos” no século XVII. “When forty winters shall besiege thy brow” [Quando quarenta invernos assediaram teu semblante], escreve Shakespeare; e penso na trivial expressão inglesa “forty winks” exprimindo “uma soneca”. Pois “quarenta” significa “muitos”. E temos aqui as “mil e uma noites” — tal como “a rose-red city” e a fabulosa precisão de “half as old as Time”, que fazem o tempo, é claro, parecer ainda mais longo.”

Jorge Luis Borges, “A metáfora”, in Esse ofício do verso, org. Calin-Andrei Mihailescu, trad. José Marcos Macedo, São Paulo, Companhia das Letras, 2000, p. 44-45.