quarta-feira, 25 de maio de 2011

"Para acabar de vez com a leitura - Já não preciso de ler uma biblioteca para escrever um livro?"

"Outras Quartas"
25 de Maio de 2011, Chapitô, Lisboa.
"Para acabar de vez com a leitura - Já não preciso de ler uma biblioteca para escrever um livro?".

Mediadora: Rosa Azevedo.
Com: Afonso Cruz, Juva Batella, Sara Figueiredo Costa, entre outros.

"E, no dia seguinte, nenhum editor de nenhuma editora de nenhum lugar do mundo recebeu um original, nenhum jornalista de nenhum jornal escreveu uma linha, nenhum blogue recebeu um único post ou um único comentário. No dia seguinte, nada, em lugar algum do mundo, foi publicado. Nenhuma letra foi levada ao espaço público. Havia começado a greve geral dos escritores e escrevinhadores ou qualquer nome que se lhes dê - a grande greve geral da escrita."

“A escrita constitui um arquipélago na imensidade oceânica da oralidade humana” (George Steiner).

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A língua do Pai Nosso

Inglês contemporâneo: Our father, who is in heaven, may your name be kept holy. May your kingdom come into being. May your will be followed on earth, just as it is in heaven. Give us this day our food for the day. And forgive us our offenses, just as we forgive those who have offended us. And do not bring us to the test. But free us from evil. For the kingdom, the power, and the glory are yours forever. Amen.

Inglês modern (c. 1600):  Our father, which are in heaven, hallowed be thy Name. Thy kingdom come. Thy will be done, on earth, as it is in heaven. Give us this day our daily bread. And forgive us our trespasses, as we forgive those who trespass against us. And lead us not into temptation, but deliver us from evil. For thine is the kingdom, and the power, and the glory, for ever, amen.

Inglês médio (c. 1400): Oure fadir que art in heuenes, halowid be thi name, thi kyngdom come to, be thi wille don in erthe es in heuene, yeue to us this day oure bread ouir other substance, & foryeue to us oure dettis, as we forgeuen to oure dettouris, & lede us not in to temptacion: but delyuer us from yuel, amen.

Inglês antigo (c. 1000): Faeder ure thu the eart on heofonum, si thin nama gehalgod. Tobecume thin rice. Gewurthe in willa on eortban swa swa on heofonum. Urne gedaeghwamlican hlaf syle us to daeg. E forgyf us ure gyltas, swa swa we forgyfath urum gyltedum. And ne gelaed thu us on contnungen, ac alys us of yfele. Sothlice.

Steven Pinker, "A Torre de Babel", in O instinto da linguagem, São Paulo, Martins Fontes, 2002,  p. 316.

sábado, 21 de maio de 2011

Eu línguo, tu línguas, ele língua

Língua:

Devemos ser gratos ao portugueses. Se não fossem eles estaríamos até hoje falando tupi-guarani, uma língua que não entendemos.

O ‘Pois sim’ e o ‘Pois não’ deveriam ser estudados em profundidade pelos nossos políticos devido à louvável peculiaridade de significarem exatamente o contrário do que dizem. Ou não.

O homem é o único animal que possui o génio da palavra. Quanto a nós, brasileiros, também nisso perdemos o bonde. Não falamos nem a língua de Dante, nem a de Goethe, nem a de Shakespeare. E cada vez falamos pior a de Camões.

Quando os eruditos descobriram a língua, ela já estava completamente pronta pelo povo. Os eruditos tiveram apenas de proibir o povo de falar errado.

Só existe uma língua, a falada.

Estão usando a língua como sempre. Mas cada vez usam menos o idioma.

Eu falo italiano melhor do que escrevo inglês. Leio francês melhor do que entendo alemão. Traduzo espanhol melhor do que falo inglês. Escrevo português melhor do que leio italiano. O que, tudo junto, dá a medida de minha ignorância.

Que língua, a nossa! A palavra oxítona é proparoxítona.

O que os olhos não vêem a língua inventa.”

Millôr Fernandes, “Língua”, in Millôr Definitivo: a Bíblia do Caos, São Paulo, LPM, 1994, p. 284-285.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Toca a descer, pá!

“Os deuses tinham condenado Sísifo a empurrar sem descanso um rochedo até ao cume de uma montanha, de onde a pedra caía de novo, em consequência do seu peso. Tinham pensado, com alguma razão, que não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.

(...) As opiniões diferem sobre os motivos que lhe valeram ser o trabalhador inútil dos infernos. Censura-se-lhe, de início, certa leviandade para com os deuses. Revelou os segredos deles. Engina, filha de Asopo, foi raptada por Júpiter. O pai espantou-se com esse desaparecimento e queixou-se dele a Sísifo. Este, que estava ao corrente do rapto, propôs a Asopo contar-lhe o que sabia, com a condição de ele dar água à cidadela de Corinto. Aos raios celestes, preferiu a bênção da água. Por tal foi castigado nos infernos. Homero conta-nos (...) que Sísifo havia acorrentado a Morte. Plutão não pôde suportar o espectáculo de seu império deserto e silencioso. Enviou o deus da guerra, que soltou a morte das mãos do seu vencedor.

Diz-se ainda que, estando Sísifo quase a morrer, quis, imprudentemente, pôs à prova o amor de sua mulher. Ordenou-lhe que lançasse o seu corpo, sem sepultura, para o meio da praça pública. Sísifo encontrou-se nos infernos. E aí, irritado com uma desobediência tão contrária ao amor humano, obteve de Plutão licença para voltar à terra e castigar a mulher. Mas, quando viu de novo o rosto deste mundo, sentiu inebriadamente a água e o sol, as pedras quentes e o mar, não quis regressar à sombra infernal. Os chamamentos, as cóleras e os avisos de nada serviram. Ainda viveu muitos anos diante da curva do golfo, do mar resplandecente e dos sorrisos da terra. Foi necessário uma ordem dos deuses. Mercúrio veio pegar no audacioso pela gola e, roubando-os às alegrias, levou-o à força para os infernos, onde o seu rochedo já estava pronto.

Já todos compreenderam que Sísifo é o herói absurdo. (...) O seu desprezo pelos deuses, o seu ódio à morte e a sua paixão pela vida valeram-lhe esse suplício indizível em que o seu ser se emprega em nada terminar. (...) Não nos dizem nada sobre Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste, vê-se simplesmente todo o esforço de um corpo tenso, que se esforça por erguer a enorme pedra, rolá-la e ajudá-la a levar a cabo uma subida cem rezes recomeçada; vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de um ombro que recebe o choque dessa massa coberta de barro, de um pé que a escora, os braços que de novo empurram, a segurança bem humana de duas mãos cheias de terra. No termo desse longo esforço, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, a finalidade está atingida. Sísifo vê então a pedra resvalar em poucos instantes para esse mundo inferior de onde será preciso trazê-la de novo para os cimos. E desce outra vez à planície.

É durante este regresso, esta pausa, que Sísifo me interessa. (...) Essa hora que é como uma respiração e que regressa com tanta certeza como a sua desgraça, essa hora é a da consciência. (...)

Se este mito é trágico, é porque o seu herói é consciente. Onde estaria, com efeito, a sua tortura se a cada passo a esperança de conseguir o ajudasse? Sísifo, proletários dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão da sua miserável condição: é nela que ele pensa durante a sua descida.”

Albert Camus, O mito de Sísifo, trad. Urbano Tavares Rodrigues e Ana de Freitas, Lisboa, Livros do Brasil-Lisboa, s/d, p. 147-149.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O ganho da perda — ou a teoria do assassino a lavar a loiça

“Marcel Mauss narra um costume dos habitantes da Oceania que pode, num certo sentido, ser considerado o gérmen de uma nova moral: o assassino deve morar na casa da vítima e substituir o morto.

Bertolt Brecht conta a história de um estudante de filosofia (discípulo excelente de Simmel) que, por responsabilidade familiar, se transforma num bem sucedido homem de negócios. Na velhice, dedica-se por fim a escrever um tratado de moral, mas quando o termina esquece-o num trem. Recomeça o trabalho e incorpora o acaso como o fundamento de seu sistema ético. Fazer da perda o princípio de reestruturação de todo o sistema é (segundo Brecht) uma lição metodológica que só se pode aprender no mundo dos negócios.”

Ricardo Piglia, “A citação privada”, in O laboratório do escritor, trad. Josely Vianna Baptista, São Paulo, Iluminuras, 1994, p. 61.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Ele, o gato Ulisses

terça-feira, 17 de maio de 2011

"A memória do (no) corpo"

“Simone Weil (...) aponta a voz feminina como oposta à tradição escrita: o arquivo da memória se construía no corpo da mulher em oposição à escrita, ligada, desde sua origem, às técnicas do estado, à comunicação religiosa, aos cálculos agrários. O relato feminino (Sherazade) resiste aos ditames do rei."

Ricardo Piglia, "A citação privada", in O laboratório do escritor, São Paulo, Iluminuras, 1994, p. 63.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Humano, demasiado humano

Desenho de Karina Kuschnir
A cidade de Ulisses, urbana, demasiadamente urbana, e ainda outros tantos e bonitos modos de ver pessoas.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"Encontro Literário Lusófono da Trofa 2011"

"Encontro Literário Lusófono da Trofa 2011"
7 a 14 de Maio de 2011, Casa da Cultura da Trofa.

Dia 13: "Encontro Lusófono de Literatura Infanto-Juvenil".
Com: José Fanha e Juva Batella.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Shandy

Para se pertencer à sociedade secreta dos alegres, volúveis e malucos:

"... espírito inovador, sexualidade extrema, ausência de grandes propósitos, nomadismo infatigável, tensa convivência com a figura do duplo, simpatia pela negritude, o culto da arte da insolência."

Enrique Vila-Matas, História abreviada da literatura portátil, trad. José Agostinho Baptista, colecção "o imaginário", vol. 33, Lisboa, Assírio & Alvim, 1997, p. 15.

Nunca é tarde. Entra-se fácil. Difícil é sair.