quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

“A minha arte é uma espécie de pacto” - "Correntes d'Escritas"

"Correntes d'Escritas"
23 a 26 de Fevereiro de 2011, Póvoa de Varzim.

Dia 24: “A minha arte é uma espécie de pacto”.
Moderador: Rui Zink.
Com: David Toscana, Juva Batella, Luís Represas, Manuel Jorge Marmelo, Mário Lúcio Sousa e Ricardo Romero.

"A escrita corrente de Póvoa - Parte 1 (Lourdes Castro)"

Lourdes Castro, Rua da Olaria

O pardal do campo descobre muitos lugares para uma casa
a poucos metros de mim
mundos sobrepostos transitam, preenchem o silêncio
e para o ânimo deles
quem não se levantaria?

A minha arte é uma espécie de pacto:
não distingo as áreas selvagens das cultivadas
e elas não distinguem a minha sombra
da minha luz

(José Tolentino Mendonça)

"A escrita corrente de Póvoa - Parte 2"

- Mas não é a linha 3?

- Mudou.

- Mas está lá no quadro…

- Mudou, e se o senhor não correr vai perder o comboio.

Só me faltava esta agora, pensei, pensando que, pelo menos, vou ter um bom início de registo da minha não-ida a Póvoa de Varzim. “Escritor de primeira viagem perde o comboio e não vai às Correntes de Escrita. Esses brasileiros…” Parei de me meter em questionamentos como um escritor existencialista faria, respirei fundo como um escritor de suspense respiraria e corri como um escritor de livros de acção correria para chegar enfim ao carro número 1 da linha 1 do comboio para o Porto. E vi com prazer que se tratava de um vagão de primeira classe, com jornais e bebidas. Tive direito, como todo vagão de primeira classe que se preze, de ser acompanhado por um distinto senhor a ler um livro em francês. E dormi, embalado pelos sacolejos ferroviários.

Ainda observei com atenção os demais passageiros para ver se algum tinha cara de escritor, ou conversa de escritor, mas não reconheci ninguém. Este – ter ou não uma cara de escritor - é um assunto longo e polémico. Nenhum tinha cara de escritor ou mesmo conversa de escritor, mas eu sabia que uma boa parte era formada por escritores.

Em Campanhã, já estava uma simpática senhora a esperar os convidados.

- Juva Batella?

- Como é que a senhora sabe?

- o Juva não se parece com ninguém, e eu tenho aqui todas as fotos.

E eu pensei: deve ser o chapéu. Acompanhei-a, acompanhado dos demais, e entrámos num autocarro, e ganhámos as auto-estradas. A meio do caminho, a simpática senhora sentou-se ao meu lado e me contou todas as suas viagens pelo mundo. Ficámos nisso um bom tempo, rimos muito e ela me perguntou se eu iria a alguma escola falar aos jovens, e eu disse que sim, e que o tema era este:

Procuro a palavra,
a de sílabas de luz,
que inteira nos revelaria.
Impossivelmente, busco
a nunca encontrada.
Embrionária e prisioneira,
dorme para todo o sempre
no seu ovo de silêncio.
("Busca", do livro A maresia e o sargaço dos dias, p. 71, de Luísa Dacosta)

Depois eu lhe disse que contaria aos jovens a história e a maneira de viver do povo Dogon (este assunto me persegue). Contei-lhe uma das crenças dos Dogon, e ela abriu os olhos, brilhando-os, e me disse que nunca mais na vida iria esquecer-se disso. Como eu poderia ficar mais feliz?

Depois do banho sentei-me à mesa para jantar, e na minha mesa estavam o Manuel Rui, que me disse ser veterano de todas as Correntes, a Alice, mulher do Manuel, a Raquel Ochoa, escritora portuguesa, e o Ricardo Romero, escritor argentino. Conversámos sem parar, e eu aos poucos vou me lembrando do que é que falámos, ou melhor, do que é que não falámos, porque de tudo se falou. Depois do jantar, de muito vinho e de muitas Imperiais, declamei, na chamada Sessão Declamatória, uns poemas de improviso numa mesa de poetas, e aqui estou, no quarto do hotel, a escrever isto e a tentar conviver bem com a sensação persistente de que há muito mais o que dizer, mas o sono chegou.

"A escrita corrente de Póvoa - Parte 3: a minha arte (não) é uma espécie de pacto"

Convidaram-me, há alguns anos, para participar de uma mesa-redonda cujo tema era “O autor inédito”. Como havia outros participantes que, pela idade e pelo currículo, estavam bastante longe da condição de jovens escritores, ainda por cima inéditos; eram antes intelectuais de peso, nome e renome, deduzi sem esforço que o papel de autor inédito, naquela mesa, não cabia a mais ninguém, senão ao pobre de mim. Comecei a ficar nervoso uns dias antes, mas pensava, para a minha tranquilidade, que a presença do Juva Batella, 30 e poucos anos, ali, seria praticamente ilustrativa, tal como se eu fosse um espécime colhido ao acaso em meio a um cardume de seres semelhantes ao pobre de mim: os jovens escritores brasileiros em início de ofício. Todos na mesa usarão da palavra, debaterão com paixão e lucidez o tema proposto, mas ali, naquele debatedouro, apenas eu não teria esse encargo. Sou, afinal, como se fosse o autor inédito, pensei; aquele de quem se falará. E me preparei para não falar nada, no máximo uma ou outra expressão de aturdimento, às vezes de desamparo.

É verdade que eu disse imediatamente às simpáticas senhoras que me convidaram para a mesa-redonda que eu não era mais um autor inédito, tendo publicado, na época, alguns livros e alguns artigos, nenhum poema de amor ainda, mas nunca se sabe, mas as simpáticas senhoras me bateram às costas: “Mas já foi autor inédito! E, além do mais, é um jovem autor! É de coisas assim que precisamos!”. Eu gostei mais daquele “jovem autor” do que do “coisas assim”, e passei o dia todo vendo a mim mesmo não mais que uma “coisa assim”, ansiosa e atordoada. No dia marcado, entretanto, e como sou cumpridor dos meus compromissos, me enchi de brios e fui. Cheguei a sonhar, um dia antes, que o meu lugar não seria à mesa, mas na mesa mesmo, e dentro de um aquário ovalado e transparente, por onde me veriam, não falando, que uma “coisa assim” não fala, mas a soltar lá as minhas bolhas: o autor inédito.

E por que é que eu estou a falar em autor inédito se o meu desafio hoje, aqui, é “A minha arte é uma espécie de pacto”? O que faço com isso? Então, entregam-nos um verso e dizem: é este o seu tema. Vire-se. E passamos agora eu, o David, o Luís, o Manuel, o Mário, o Ricardo e, de certa forma, também o Rui a ser este verso? O que faço com isso? Perguntas.

Quem diz isso é o poeta, ou a voz poética do poema? Há ali um eu, já que há ali um possessivo. Quando o poeta diz: a minha arte, está a referir-se à sua arte, dele mesmo, José Tolentino Mendonça, ou a referir-se à arte poética, ou ainda a todas as artes? Ele está a falar em nome de quem? Está a falar em nome de alguém? Em seguida temos: a minha arte é. É o quê? É possível ou produtivo dizermos o que uma arte é o que quer que seja? Uma arte pode ser alguma coisa de modo tão categórico? Ou uma arte não são muitas coisas? E, com o complemento “uma espécie de”, este modo categórico não perderia a força? Uma “espécie de pacto”? O que é uma “espécie de pacto”? É um pacto? É um quase-pacto? Ou seja, é às vezes um pacto, e às vezes não? Ou é um pacto, sim, mas um tipo específico de pacto? E o que é um pacto? É um contrato? Um acordo? E, se é um acordo, quais são as partes envolvidas nesse acordo?

Nem todos os pactos são o mesmo pacto. “A minha arte é uma espécie de pacto.” Qual espécie de pacto? Dentro de um estudo de uma jurista brasileira chamada Judith Martins-Costa, peguei o seguinte: os tipos de pacto na história do contrato. Temos o pacto-obediência, quase um pacto-lei, entre Deus, Adão e Eva, pelo qual se ajustou a obediência à regra da insciência em troca do bem-viver no Paraíso. Em seguida iniciou-se a fértil dinastia dos pactos-aliança, como entre Eva e a Serpente, entre Noé e Deus. Há, ainda, o pacto instituinte, como o ajustado entre Deus e Moisés, resultando nas Tábuas da Lei. Há ainda um pacto de alienação, nos Faustos anteriores ao de Goethe, e o pacto de liberação, na obra goetheana. Temos ainda o pacto de união, que precede o pacto de sujeição, consistindo numa espécie de condição preliminar para se obter a paz entre os homens graças à entrada do Estado e do Direito como um terceiro elemento regulador. Temos ainda o pacto de associação, que levará ao moderno contratualismo. Qual dessas espécies de pacto será “a minha arte”?

E, se quisermos continuar, agora por outra via, devemos recorrer a pedaços do poema? Temos, é claro, o resto do poema, sempre teremos o resto do poema. Posso usá-lo? Será isto fazer batota? Aqui, pelo que já percebi, eu posso tudo. Só não posso ficar em silêncio.

“A minha arte é uma espécie de pacto / não distingo as áreas selvagens das cultivadas / e elas não distinguem a minha sombra / da minha luz”. O que são as áreas selvagens? São o incognoscível, aquilo que é bruto e não foi ainda manipulado, a possibilidade da originalidade radical? O que são as áreas cultivadas? São os campos iluminados onde a possibilidade artística surge de modo previsível, esteticamente previsível? São as citações, as intertextualidades, são o que foi feito e em cima do qual muito pode ser feito e tem sido feito? É a História da Arte e o que pode ser feito, artisticamente, a partir dela? Agora, do outro lado do espectro, ou seja, se estávamos a falar do mundo fora de mim — as áreas cultivadas e as selvagens —, falemos agora do mundo dentro de mim, ou do poeta: a minha sombra e a minha luz. Os lados obscuros e luminosos do meu escorregadio eu? É da relação entre esses quatro elementos — zonas cultivadas e selvagens, minha sombra e minha luz — que nasce a minha arte, que é a minha espécie de pacto?

O que tem a artista Lourdes Castro a ver com isso? A Lourdes Castro, que, nas suas próprias palavras, tirou “as sombras da sombra”; a Lourdes Castro, que pintou sombras, retratou sombras, contornou sombras, sempre em contraste com a luz, com o branco e com as cores. Vemos ali na pintura da Lourdes Castro as luzes e as sombras. Ambas estão desenhadas e têm os seus limites. Estão ao alcance do olhar. A Lourdes Castro fazia, sim, uma distinção entre luz e sombras, e sem esta distinção a sua arte não teria sentido, e só funcionou por causa desta distinção, claríssima, por causa deste pacto entre luz e sombra. Isto, sim, um pacto. Quando o poeta diz que não faz uma distinção entre as zonas cultivadas e as zonas selvagens, o que ele quer dizer? Se não há distinção, não há pacto, muito menos “uma espécie de pacto”. Para que haja pacto, são necessárias duas ou mais partes, distintas. Mas o poeta faz uma distinção, sim, na medida em que as nomeia, chamando-as pelos seus nomes.

Mas a Lourdes Castro, aqui, é um detalhe, ela não está no verso; ela está no título. A única coisa que temos é a assertiva “a minha arte é uma espécie de pacto”. Mais nada. Mas para quem? Para o José, o Tolentino Mendonça? Ou para mim, que aqui estou tendo de lidar com este verso-tema. O José sentou-se e escreveu o seu verso, e se lhe pedissem que fizesse uma digressão acerca deste verso, ele sensatamente responderia: tudo o que eu precisava dizer e queria dizer está lá, no poema. O poema diz tudo; eu não digo nada, ou melhor, eu digo o poema, eu sou o poema, e teríamos de nos dar por satisfeitos.

Mas, aqui, em Póvoa de Varzim, onde a escrita povoa Póvoa, temos um encontro entre escritores e poetas. Será então que se espera de um escritor ou de um poeta que fale de si? Será que tive, então, a sorte de pegar um verso, como tema, que esteja na primeira pessoa, não direi narrativa, que isto não é narrativa, mas na primeira pessoa poética, de modo que possa ser eu a dizer, em uníssono com o poeta, que “a minha arte é uma espécie de pacto”? A minha arte, a arte do Juva Batella? Então, o que poderei dizer acerca disso?

Digo que a minha arte não é uma espécie de pacto — nem goetheano, nem hobbesiano, nem jurídico, nem poético —, e muito menos um pacto simplesmente, mas uma guerrinha ridícula e espezinhante, entre dois seres que não existem mas eu sei que existem, e se vocês não os veem é porque não os podem ver e é também porque vocês todos são criaturas de sorte que têm mais o que fazer. Tenho aqui aos meus lados, o lado de cá e o lado de cá, o grande Juva e o pequeno Juva, ou Juvão e o Juvinha, como queiram.

O grande Juva, ou Juvão, aqui à minha esquerda (os lados esquerda e direita são aleatórios, e não políticos), é uma cara-metade bonachona, brincalhona, tolerante, benévola e filosoficamente preguiçosa (eu diria pseudo-filosoficamente preguiçosa), que gosta de mim, me admira e já está bastante satisfeito com o facto de eu ter publicado nove livros, ter um romance no prelo, estar a fazer um pós-doutoramento, ter escrito uma meia dúzia de contos, uma meia dúzia de artigos académicos e ser ainda um gajo simpático, de boa índole, generoso e modesto (a modéstia é uma das minhas inúmeras qualidades, e o grande Juva sabe disso).

O pequeno Juva, ou Juvinha, não gosta de mim, é mal-humorado, acha que eu trabalho pouco e me divirto mais do que recomendariam a prudência e a sensatez e acredita firmemente que eu só escrevi nove livros porque calhou, porque no fundo ele acha que eu ainda não escrevi nenhum de verdade, um romance como deve ser.

O pequeno Juva tem lá as suas teorias sobre a arte, a literatura, os pactos que se estabelecem entre o autor e si mesmo, ou entre o autor e as suas zonas de sombra e luz. O pequeno Juva acredita, por exemplo, que todo autor e todo poeta, por mais livros que tenham publicado, serão sempre autores inéditos. O autor está sempre escrevendo como se fosse a primeira vez, e sempre sozinho, e não há pacto algum entre as possíveis partes de si mesmo. Há apenas briga. Se há acordo, há concessão. Se há concessão, não há arte.

Podemos pensar, por exemplo, na condição do autor inédito, como eu falei no início — no sentido comum, um sujeito que nunca publicou nada e se senta para tentar escrever uma coisa que quer que seja publicada. Ele quer, portanto, deixar de ser o que se chama de “autor inédito” e passar a ser o que se chama de “autor publicado”. Quando enfim consegue publicar o que escreveu, ou seja, dar a cara a tapa, joga-se no mundo e se transforma em coisa pública, e este sujeito deixa então de ser o que se chama de “autor inédito” e passa a ser o que se chama de “autor publicado”.

Para o pequeno Juva, não. O conceito de autor já contém implícito o qualificativo de inédito. O termo “autor inédito” é, portanto, uma redundância. Se é autor, é inédito, porque a condição de ser inédito é intrínseca ao ato de escrever. No ato da escrita, todo autor é inédito, porque se sentirá inédito, e se sentará para escrever, sempre, como se fosse aquela a primeira vez.

É bem verdade que, quando eu era inédito mesmo, no sentido vulgar da palavra, tentei deixar de ser inédito. E deixei de frescuras e me sentei para escrever. E então escrevi, assim, como quem não quer nada. Escrevi para saber o que é que escreveria caso escrevesse. E, como quem não quer nada, publiquei. “Não sou mais autor inédito”, pensei. Depois, quando já não era autor inédito, no sentido comum que temos da palavra, sentei para escrever o meu segundo livro acreditando que era, então, um autor publicado, e não mais um autor inédito. (Mas eu era, pior dos piores, “autor de um livro só”, o que era ainda bem pior do que ser autor inédito.)

Para o pequeno Juva aqui ao meu lado (o Grande Juva já pegou no sono com todo esse meu blá-blá-blá); para o pequeno Juva eu sou e sempre serei um autor inédito, apesar de ter publicado livros. Sou um autor inédito porque sempre que me sento para escrever algo de novo é como se nunca tivesse publicado nada na vida, como se fosse um aventureiro. Eu usei a palavra “aventureiro” de propósito, pensando nos sentidos potentes da palavra. Se a literatura é uma aventura, quem escreve se debruça, antes de tudo, sobre uma aventura, ou seja, sobre um risco, sobre uma situação onde não há possibilidade alguma de pacto nem de acerto. Uma pessoa que nunca tenha publicado um livro, que não seja, portanto, o que se chama de “autor publicado”, talvez viva essa aventura de um modo mais intenso e livre, porque não carregará às costas qualquer título ou passado literário público, por menor e irrelevante que seja. Um autor que acredita na condição de autor publicado, infelizmente e em muitos casos, mete na cabeça um série de minigâncias idiotas, compromissos literários inexistentes e responsabilidades para com algum tipo de expectativa cuja origem está na figura abstrata de um leitor ou de um “mercado”, e pronto: está montado o quadro para esse sujeito meter os pés pelas mãos, sentar-se, ficar hora e meia pensando na Literatura com Maiúsculas e sair da cadeira com nada mais que a cicatriz de uma picada.

Talvez seja o caso de fazermos sempre como a Marguerite Duras, como eu disse há pouco: “Escrever para saber o que escreveríamos se escrevêssemos...” — uma forma de se evitar que caiamos na armadilha do conceito de “autor publicado”, que é um conceito vazio. Se o autor publicado acredita nessa sua condição de autor publicado, sempre que se sentar para escrever o segundo livro estará diante da seguinte situação dramática e patética: sentirá que o seu segundo livro está sendo escrito por um autor que não é o mesmo que escreveu o primeiro livro. São escritos, nesta encenação, por autores diferentes (quem escreve o segundo livro é o “autor publicado” que se sente como tal e sofre, não raro, da moléstia da dupla personalidade, uma vez que ele pode ser também o amofinado “autor de um livro só”, ao passo que quem escreve o primeiro livro é simplesmente, e nada mais, o “autor inédito”, ou seja, o sujeito em risco, o verdadeiro aventureiro, aquele que não pactua com nada e com ninguém, aquele que não tem nada a perder). Só que o autor publicado não sabe que no fundo ele é, e sempre será, o autor inédito. Se não viver a sua eterna condição de autor inédito, não escreve mais nada.

De minha parte, na hora em que me sento para escrever, faço de tudo para me sentir, o mais verdadeiramente possível, um autor inédito, sempre; um autor inédito que não tem a menor chance de pactuar com nada, porque é um aventureiro dedicado a descobrir, com espanto e delícia, qual a travessura que faria, caso a fizesse.

A minha arte torna-se então uma espécie de pacto que não acontece, como o pacto que não acontece entre o Burro e a Flauta que protagonizam a fábula do guatemalteco Augusto Monterroso, e que eu vou contar a vocês agora.

“Tirada en el campo estaba desde hacía tiempo una Flauta que ya nadie tocaba, hasta que un día un Burro que paseaba por ahí resopló fuerte sobre ella haciéndola producir el sonido más dulce de su vida, es decir, de la vida del Burro y de la Flauta.

Incapaces de comprender lo que había pasado, pues la racionalidad no era su fuerte y ambos creían en la racionalidad, se separaron presurosos, avergonzados de lo mejor que el uno y el otro habían hecho durante su triste existencia.”

Cada coisa escrita que acontece será sempre o som mais belo e mais doce. E, como todo som que se preza, ele soa e acaba; acontece, e depois morre, e teremos de tentar produzi-lo novamente, sempre, como se nunca antes o tivéssemos feito, como se fosse, sempre, a primeira vez. Não há pacto, meus amigos.

Obrigado.

"A escrita corrente de Póvoa - Parte 4: onde estamos"

Hoje o dia foi cheio. Puseram-nos para trabalhar de verdade. Às 11h houve a sessão oficial de abertura do encontro, e isso deveria ter vindo em maiúsculas. Não vou falar dos discursos de que não gostei porque senão não paro, mas falarei, sim, do cativante discurso do Eduardo Lourenço, que começou por dizer que mal consegue representar a si próprio, quanto mais representar um movimento como este das Correntes d´Escritas, e ele foi longe, como sempre, e também do magnífico discurso do sr. Álvaro Laborinho Lúcio, às 15h30m, no Auditório Municipal, que acabei por aplaudir de pé e comovido. Ali não havia ressentimentos, não havia simplismos, não havia generalizações. Foi um discurso em homenagem à tolerância e à poesia. Eu gostaria de comentar, mas não vou, e por outra razão: porque foi bom demais. E não há, diante de discursos assim, qualquer possibilidade de resumo ou breve exposição. Foi um momento especial destas Correntes d´Escritas.

Já percebi que este pequeno projecto de fazer um diariozinho desta experiência em Póvoa só pode funcionar a posteriori, porque durante todo o dia passamos de um lado para o outro a debater coisas e a comentar coisas e a declamar coisas, e, quando chegamos ao quarto do hotel, já não há forças. No mais, a malta diverte-se, e, quando chegamos ao hotel, à noite, depois do jantar, começamos, no bar, a beber e a falar de sexo e álcool, fingindo que estamos a falar de literatura, e de vez em quando, para disfarçar, atiramos para a mesa um Henry Miller ou um Bocage.

Embora muito, muito cansados, estamos, nas palavras do Manuel Rui, melhores do que Deus, porque ninguém nunca sabe onde Deus está, já que ele está em todos os lugares, e nós, escritores das Correntes d´Escritas, sabemos muito bem onde estamos: estamos em Póvoa de Varzim.


2 comentários:

R disse...

bom começo :)

e para além de mote de conferências, jtm é um mundo de ideias boas. quase dá para esquecer que é padre ;)

Juva Batella disse...

; )
Um beijo,
J