sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

"A cama na porta (formato prosa)"

— Bom dia, minha senhora.
— Pois não. Amanda. Em que posso servi-lo?
— Eu, no início desta semana, solicitei à Câmara o favor de me recolherem uma cama muito velha e muito pesada que tenho e que já não quero mais.
— O senhor falou com o Departamento de Recolhas?
— Sim, e falei mesmo com a senhora.
— Comigo?
— Sim.
— E então?
— E então eu fiz o que a senhora me pediu: na quarta-feira à noite desci com a cama para a rua e depositei-a junto ao prédio, contando que no dia seguinte...
— O Departamento de Recolhas tem muito serviço e...
— A senhora me deixa terminar o que tenho a dizer?
— É que... Pois não. Continue.
— Obrigado.
— Pois.
— ... contando que no dia seguinte, conforme a senhora me havia dito, a Câmara recolheria a cama.
— E isso não foi feito?
— Não.
— Pois, como eu dizia, o Departamento de Recolhas anda muito ocupado, com muito serviço.
— Mas eu lhe dei o meu contacto.
— O senhor deu-me o seu contacto?
— Dei, porque a senhora pediu. E pediu por quê?
— São as normas.
— E, tendo a senhora o meu contacto, por que é que não me ligou a avisar que o Departamento de Entulhos...
— ... Recolhas...
— ... pois esse departamento, então, não poderia pegar a cama?
— Não fazemos isso. Recolhemos o entulho quando podemos fazê-lo. O Departamento de Recolhas...
— Mas a senhora não me disse, quando falámos pela primeira vez, que haveria a possibilidade de não recolherem a cama.
— Ó, meu senhor, não temos como saber isso. Mas eu não estou a perceber qual é o problema afinal.
— Qual o problema?
— Sim. O Departamento de Recolhas vai recolher a sua cama quando puder fazê-lo.
— E a cama vai ficar lá esse tempo todo?
— Vai ficar até ser recolhida.
— E a senhora pode me dizer quando é que isso vai acontecer?
— Não posso dizê-lo, porque o Depart...
— ... o Departamento de Entulhos anda com muito trabalho.
— ... de Recolhas.
— Como?
— De Recolhas. O senhor disse Departamento de Entulhos. O nome do departamento é, aliás, Departamento de Recolhas Especiais.
— Isto não está certo.
— Mas o nome é esse, meu senhor!
— Não, minha senhora, eu quero lá saber qual o nome certo do seu departamento? O que não está certo é isso.
— Isso o quê?
— Vocês não avisarem que não poderão fazer o trabalho. Isso é que não está certo. Vocês tinham o meu contacto. Para quê?
— Para preenchermos a ficha.
— E para que serve a ficha?
— Para guardarmos no nosso banco de dados.
— (Suspiro...)
— O senhor me diga uma coisa: o senhor já não se livrou da cama? Agora a responsabilidade é nossa.
— Mas o facto, minha senhora, é que eu estou a ter problemas com os vizinhos.
— Com os vizinhos?
— Sim, com o vizinhos, porque alguns ficaram indignados ao ver uma cama ao lado do prédio, e começaram a colocar pedaços da cama junto à minha porta.
— Mas os seus vizinhos têm de entender que isso não se faz!
— Sim, isso não se faz, mas eles não sabem que eu contactei a Câmara.
— Mas o senhor têm de dizer isso a eles!
— Dizer?! A eles?!
— Aos seus vizinhos.
— Eles são muitos, e o acto de protesto é anónimo. Eu não sei quem é que está a colocar pedaços da cama junto à minha porta.
— Mas os seus vizinhos têm de entender que o senhor não fez nada de errado!
— Eu concordo. E daí?
— Eles têm de saber que o senhor fez tudo como deve ser feito, e que agora a responsabilidade é nossa!
— E quando é que os senhores vão arcar com essa responsabilidade?
— Eu não lhe posso dizer, porque o Departamen...
— ... de Entulhos...
— ... de Recolhas Especiais...
— O que for... Mas a senhora já disse isso. E o que eu faço então?
— O senhor tem de conversar com os seus vizinhos, no sentido de que percebam...
— Eu não sei quem são eles, minha senhora. Eu passo o dia todo fora de casa, tenho mais o que fazer do que ficar a conversar com os meus vizinhos no sentido de os fazer entender o que quer que seja, ou que eu fiz a coisa certa e que a Câmara é que não fez o que me disse que iria fazer.
— Como?
— Vocês não fizeram o trabalho que deveriam ter feito.
— Meu senhor, nós fazemos o nosso trabalho na medida do possível!
— Não, não fazem.
— Não fazemos?!
— Não não fazem. A medida do possível incluiria telefonarem para o meu número a me alertar que não iriam poder pegar a cama, e eu então improvisaria uma solução.
— Isso não fazemos.
— E por que é que pedem o meu contacto?
— São as normas. Já lhe disse.
— Sei, a ficha... E agora?
— Agora o quê?
— O que eu faço? E se a cama inteira aparecer hoje ao fim do dia junto à minha porta?
— Os seus vizinhos não estão a agir de modo sensato! O senhor tem de conversar com eles no sentido de...
— Eu não quero conversar com os meus vizinhos! Eu não quero falar com os meus vizinhos! Eu não gosto dos meus vizinhos! E eu não quero que gostem de mim! Eu quero, sim, é que a Câmara recolha esta cama hoje, sem falta!
— Meu senhor... Sim, eu vou instruir o supervisor do Departamento de Entulhos...
— A senhora não me disse que o nome é Departamento de Recolhas Especiais?
— O senhor me confundiu. O senhor está a me confundir! De todo modo, instruir o supervisor no sentido de...
— ... de darem prioridade à minha cama.
— Sim, senhor. Mas, de todo modo, os seus vizinhos têm de saber de uma vez por todas que...
— Muito obrigado, minha senhora. A senhora tenha um óptimo dia.
— ... entender que isso não se faz... Os seus vizinhos...
— Se a senhora quiser conversar com eles...
— Eu?!
— Bom dia, minha senhora.
— Bom dia, meu senhor.

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