terça-feira, 13 de abril de 2010

"48"

Assisti no dia 10 de Abril ao documentário “48”, da realizadora Susana de Sousa Dias, que conheci num jantar. O filme teve estreia mundial no Doc-Lisboa 2009, ganhou o Grande Prémio du Cinema du Réel 2010, em Paris, e foi exibido agora no Panorama — 4ª Mostra do Documentário Português —, na sala 3 do Cinema São Jorge.

Quando conheci a Susana, ela me falou deste trabalho em dez linhas de conversa. O filme dedica-se a expor os depoimentos de alguns presos políticos do período de 48 anos de ditadura em Portugal. E para isso se valeu das fotografias que conseguiu encontrar, em arquivos do Estado, das vítimas do Império Salazarista — fotografias tiradas pela PIDE, de frente, de lado e de meio perfil, dos jovens cidadãos portugueses que tinham acabado de ser presos, na hora mesma em que entraram na prisão e sem a menor ideia sobre se iriam ser libertados em duas horas, em duas semanas ou em dez anos. Há ainda imagens do rosto do preso após alguns anos de encarceramento; e outras, do que restou daquele rosto no momento em que a pessoa era enfim libertada com algumas singelas e gritadas palavras, do tipo: “O senhor, ou a senhora, está livre. Vá à vida. Arrume as suas coisas e volte para casa”, como se tudo aquilo, ficar ali preso algumas horas, alguns meses ou alguns anos, fosse tudo a mesma coisa e desse tudo no mesmo.

A forma utilizada pela Susana no “48” foi a mais simples, a mais directa, a mais desprovida de cinematografismos, e por isso mesmo a mais impactante. O filme abre-se ao espectador com uma fotografia muito escura que começa lentamente a ganhar luzes e a revelar o rosto que ali está e que toma todo o ecrã. Uma imagem parada, uma foto em preto e branco tirada há muitos anos e sem qualquer identificação. E percebemos em seguida os sinais, apenas sonoros, de uma presença — a presença de uma pessoa que está ali mas que não aparece, provavelmente a olhar para aquela fotografia no momento da gravação do seu testemunho. A sua voz, em off, é a voz daquela mesma pessoa que foi fotografada, passados todos esses anos, a comentar, hoje e livremente, o que sente e o que recorda quando vê a sua própria imagem no instante em que foi presa pela PIDE. Às vezes uma outra fotografia, da mesma pessoa, entra no lugar da anterior, num movimento lento em que as duas imagens começam sobrepostas e uma vai indo embora para que a imagem seguinte ocupe sozinha todo o ecrã. E a voz em off do próprio fotografado continua o seu depoimento. A mudança de imagem coincide em muitos momentos com uma subtil mudança no rumo das lembranças, e são estes os momentos em que a edição e a montagem do “48” revelam toda a sua sensibilidade.

Um espaço de tempo um pouco maior, com o ecrã em preto, indica que vamos passar para uma outra imagem de um outro preso político, e um novo registo de som inicia-se em off, na maioria dos casos com um voz bastante emocionada a comentar a imagem de si mesma que está a ver. A nova imagem revela-nos um novo rosto, e esse rosto ainda pouco nos diz, mas quando a voz em off começa a se fazer ouvir, ao princípio com hesitações e depois mais desenvolta, a voz de um senhor ou uma senhora, hoje já velhinhos, a olhar para a sua própria fotografia de décadas atrás, somos atirados, sem nenhuma protecção, no interior de uma história absurda de violência e violação desmesurada de direitos humanos.

São ao todo, segundo vi nos créditos finais e se não me engano, dezasseis depoimentos, e os últimos deles, de presos políticos de origem africana e cujas informações foram destruídas, não apresentam fotografia alguma. A maioria dos depoimentos é de mulheres, e são estes os mais impactantes, os mais objectivos e os que menos estão preocupados em criar qualquer tipo de artifício comovedor. Os depoimentos masculinos, de modo subtil, mas ainda assim perceptível, são mais adjectivados e ainda enredados numa qualquer necessidade de dramatização. Há um único momento de humor em todo o filme. E tão tensa é a experiência visual e sonora do conjunto que aquele momento único funciona como uma potente válvula de escape. Toda a plateia, nesta parte, riu com força e alívio, descarregando uma tensão que em nenhum outro instante consegue dissipar-se. As palavras não são exactamente essas, mas o principal está aqui: “Eu estava em casa quando bateram à porta. Era a PIDE. Aquele devia ser um dia menos movimentado, em que estavam a fazer poucas prisões, porque entraram comigo foi num eléctrico para me levar preso. E ainda quiseram que eu pagasse o bilhete! E eu disse: ‘Era só o que faltava! Estou a ser preso e ainda querem que eu pague o bilhete!’”.

Todo o resto era muito dramático, mas foi impossível não rirmos com aquele rompante de indignação. Os depoimentos seguintes foram muito tristes e impressionantes, com referências pouco detalhadas a torturas de todo tipo, envolvendo o arrancar de unhas, surras, torturas do sono, torturas em que não se deixa a pessoa se sentar e nem abaixar os braços, em que não se deixa a pessoa utilizar a casa de banho durante dias, obrigando-a a ali permanecer e a se limpar com as próprias roupas, e mais não avanço nessa descrição porque ela não é, aqui, necessária.

Tenho informações básicas, de cunho histórico, do que foi a ditadura salazarista, mas nada disso se compara à experiência que vivi assistindo a este documentário bem feito e corajoso. “48” é dos trabalhos cinematográficos em que melhor se aplica a já tão usada e gasta ideia de que se trata de uma obra que fala por si. “48” fala por si; e fala por si porque deixa a fala oprimida correr livre e assim expressar-se com uma verdade e uma sinceridade que nunca presenciei. Não há banda sonora de espécie alguma a nos conduzir para qualquer estado de espírito, a edição e a montagem não buscam qualquer originalidade, e por isso se revelam brilhantes, e as imagens do passado — material “morto” num arquivo público — estão ali agora ressuscitadas, à nossa frente; ressuscitadas graças ao facto de terem estado também à frente de todos aqueles que gravaram e nos legaram o seu testemunho, ou seja, que voltaram a ter a coragem de colar àquelas fotografias do passado as suas vozes — vozes, agora, da actualidade. Isto é História no seu grau mais potente.

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