sábado, 9 de março de 2002

“A noite escura da humanidade"

“A noite escura da humanidade — Depois de peregrinar por diversos campos de concentração, o prisioneiro A-7713, mais conhecido como Elie Wiesel, escreveu um relato perturbador”, Caderno Idéias, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 9 de março de 2002.

Resenha sobre o livro A noite, de Elie Wiesel.

Não bastam todos os livros já escritos sobre o Holocausto; não bastam todos os filmes, os muitos estudos, as inúmeras entrevistas. Reúnam-se todas as memórias, e mesmo assim não se terá a justa idéia do que foi aquilo. O tema, por certo, é o mesmo: o massacre desajuizado, insano e brutal de algo em torno de seis milhões de seres humanos entre, mais ou menos, 1942 e 1945. As experiências particulares também se assemelham: o abate, afinal, foi em massa, e a maior parte das histórias ocorreu em marchas suicidas pela Europa ou em meio às cercas eletrificadas de Auschwitz-Birkenau, Gleiwitz, Buchenwald, Dachau, Buna Mauthausen, Majdanek e outros — canteiros do inferno onde todas as vítimas, ordenadamente numeradas, comeram do mesmo pão, beberam da mesma sopa, gelaram na mesma neve e morreram das mesmas e bizarras maneiras, três ou quatro, no máximo, a depender da idade e da saúde do prisioneiro. Se cabem aqui os versos de António Ramos Rosa: “Tudo já foi dito / Tudo está por dizer / Tudo está por dizer / No que já foi dito”; se, acerca do Holocausto, tudo, afinal, já foi dito, que se diga, então, acerca do Holocausto, tudo de novo.

Holocausto vem do grego holókauston: “Sacrifício em que a vítima era queimada inteira”, dizem os dicionários. A vítima, ao longo da História, é quase sempre o estrangeiro, porque o estrangeiro representa, para o seu algoz, o inimigo. Nenhum povo foi mais estrangeiro que o judeu, dada a sua condição de desterrado e, por isso, errante. De holocaustos a História dos homens está cheia, é certo, mas o Holocausto judeu guarda uma especificidade: foi concebido, organizado e realizado segundo uma lógica rigorosa que tem o seu ápice na figura dos campos de concentração e extermínio. Quando a xenofobia e o racismo são levados às últimas consequências, e as últimas consequências representam, para o agressor, a consequência natural de um estado de coisas que precisa ser resolvido — qual seja, a manutenção da pureza de uma raça e a eliminação do impuro —, está feito — e imediatamente banalizado — o mal.

Muitos homens não conseguiram fazer outra coisa de suas vidas senão falar desse mal muitas vezes e de muitas maneiras, justamente para que, de algum modo, a vida que tiveram não a tenha mais ninguém. A História, no entanto, dá estranhas voltas e vem armando, em outros lugares e sob outros disfarces e discursos, o mesmo circo de estupidez, indignidade e intolerância em que se transformou a Europa durante a Segunda Grande Guerra. Falam por si os crimes de Slobodan Milosevic contra a humanidade, a humanidade massacrada durante a guerra da Bósnia, na Croácia e no Kosovo — crimes tão importantes quanto os julgados em Nuremberg, semelhantes não no número de vítimas ou na metodologia empregada, mas na natureza da barbárie.

Um desses homens — homens que não conseguiram ficar calados diante da necessidade de se apontar o mal com o dedo — foi o prisioneiro de nº 174.517, o escritor e químico italiano Primo Levi (1919-1987), que, em 1943, então com 24 anos, é capturado pela milícia fascista e vai parar em Auschwitz. Além de um aflitivo e belo testemunho, seu livro É isto um homem? configura a tentativa — vã — de decifrar toda a desrazão daqueles anos. O episódio em que Levi, já como um prisioneiro, teve de ser interrogado por um jovem médico alemão, o dr. Pannwitz, em seu desinfetado e reluzente escritório, compõe um dos momentos dessa tentativa. Estão os dois sentados frente a frente, e o alemão olha enfim para o judeu, o carrasco para a vítima, o médico para o químico, um homem para outro homem: “... a natureza desse olhar, trocado como através do vidro de um aquário entre dois seres que habitam dois meios diferentes, conseguiria explicar a essência da grande loucura do Terceiro Reich”, escreve Levi, que então transforma nas seguintes palavras o olhar do médico: “Esse algo que está na minha frente pertence a um gênero que, obviamente, convém eliminar. Nesse caso específico, deve-se, antes, examinar se ele não contém ainda algum elemento aproveitável” — e também o seu próprio olhar para o alemão que tinha diante de si: “Os olhos azuis e o cabelo loiro são, essencialmente, maus. Nenhuma possibilidade de comunicação”. Levi passou o resto de sua vida a escrever sobre o assunto. Aos 68 anos, não agüentou mais e morreu, com os próprios pés, atirando-se, ao que tudo indica, do alto da escada do prédio onde morava.

Outro que também dedicou todos os anos de sua vida a tentar purgar um único e mais que suficiente ano transcorrido em peregrinação por vários campos de concentração e extermínio foi o prisioneiro de nº A-7713, conhecido como Elie Wiesel — certamente o homem que mais gritou, escreveu e agiu tendo por motor a luta contra o anti-semitismo e, principalmente, contra todos os discursos e interpretações históricas que tendem a minimizar a tragicidade do Holocausto e de suas sequelas não só sobre as subsequentes gerações de judeus como sobre a humanidade inteira. Wiesel tornou-se cidadão americano em 1963; foi nomeado, em 78, presidente do United States Holocaust Memorial Council; escreveu mais de dez livros e recebeu, em 86, o prêmio Nobel da Paz. Um deles, A noite (La nuit), publicado pela primeira vez em 1958 (Les Éditions de Minuit), sai no Brasil, pela Ediouro, com algum atraso, a tradução de Irene Ernest Dias, o afetado prefácio de François Mauriac, prêmio Nobel de Literatura, e um imperdoável erro nos cabeçalhos internos das páginas. A edição portuguesa, com o título Noite, saiu pela Texto Editora, com tradução de Paula Almeida. Nada disso, no entanto, importa. A noite é um livro de memórias que há muito deixou de ser comovente e impressionante, para se tornar necessário — necessário para que se continue a falar de todos aqueles anos de lixo nazi-fascista.

No ano de 1941, Elie Wiesel era ainda um menino religioso e temente a Deus. Durante o dia estudava o Talmude e à noite rezava e chorava de devoção na sinagoga de sua cidade natal, a minúscula Sighet, na Transilvânia, hoje parte da Romênia. Um dia o velho e sábio mendigo da cidade, o bom Mochê Bedel, lhe faz duas perguntas: “Por que você chora quando reza?” e, em seguida: “Por que você reza?” O pequeno Elie perturbou-se e não respondeu. “A partir daquele dia, encontrei-o com frequência”, escreve Wiesel. “Ele me explicava com muita insistência que cada pergunta possuía uma força que a resposta já deixara de ter.”

O mesmo Mochê Bedel, tido como judeu estrangeiro, acabou preso por guardas húngaros, amontoado num vagão de gado e expulso de Sighet. Permaneceu ausente por meses. Quando afinal retornou, fugido da Gestapo, contou sua história: foram obrigados a descer do trem em território polonês e a cavar grandes valas, à beira das quais deveriam, nucas à mostra, posicionar-se para receber o tiro misericordioso. Bebês eram lançados ao alto e faziam as vezes de alvos para as pistolas alemãs. Bedel salvou-se por milagre. Era esta a sua história. Ninguém em Sighet acreditou naquilo, nem mesmo o pequeno Elie, que se perguntava a si mesmo: “Ele [Hitler] aniquilaria um povo inteiro? Exterminaria uma população dispersa por tantos países? Tantos milhões de pessoas! Com que meios? Em pleno século XX!”. E Bedel, olhando-o em silencioso desespero, resolveu calar-se. Bem mais tarde, já em Auschwitz, Wiesel ouviria de um judeu moribundo a seguinte confissão: “Confio em Hitler mais que em qualquer outra pessoa. É o único que manteve suas promessas, todas as suas promessas, ao povo judeu”.

O tempo passa. Em 1944, chegam à cidadezinha algumas péssimas notícias: a tomada do poder pelo partido fascista e a entrada consentida de tropas alemãs em território húngaro. Em seguida às notícias, os alemães. Os judeus de Sighet, cheios de boa fé, receberam em suas casas soldados e oficiais e tiveram deles uma boa impressão: “Um oficial alemão morava no prédio em frente a nossa casa. Estava ocupando um quarto na casa dos Kahn. Diziam que era um homem encantador: calmo, simpático e educado. Três dias depois de instalado, trouxera uma caixa de chocolate para a senhora Kahn”. O clima na cidade, no entanto, foi escurecendo. Instaurou-se o toque de recolher, formaram-se dois guetos, lacraram-se as janelas e ficaram os judeus trancafiados em blocos. Alguns dias depois, os notáveis da comunidade, entre eles o pai de Elie, compareceram diante dos oficiais e saíram de lá com a notícia final, uma palavrinha de nada, e tanto estrago: deportação. A cidade foi esvaziada, e as famílias, socadas em vagões de gado rumo a um destino completamente ignorado, estavam atônitas: os judeus de Sighet não haviam sido avisados; ainda não tinham ouvido falar em campos de concentração, em crematórios, chaminés e câmaras de gás. “Eu os avisei...”, disse o mendigo Mochê Bedel à porta da casa dos Wiesel, pouco antes de fugir para sempre.

O pequeno Elie desembarca com a família em Birkenau, separa-se para sempre da mãe e das irmãs, consegue permanecer ao lado do pai, perde o nome e torna-se o preso nº A-7713. No mesmo dia da chegada, diante de um caminhão abarrotado de bebês amontoados e vivos, prontos para a queima, Elie Wiesel, com algo em torno de quinze anos, perde finalmente sua já fissurada fé e desata a acusá-Lo: “... por que eu O bendiria? (...) Porque Ele tinha feito queimar milhares de crianças naquelas valas? Porque Ele fazia funcionar seis crematórios dia e noite, nos dias de Sabá e nos dias de festa?”.

Desse ponto em diante, sua vida no campo, sempre ao lado de seu pai, seria igual às vidas de todos os que ali estavam, dia-a-dia esperando a noite, mês a mês esperando a morte. Estiveram pai e filho em Birkenau, Auschwitz, Buna, Gleiwitz e Buchenwald, e nessas filiais do inferno viram tudo o que pode ser visto de mais sórdido e, como o lado de lá de uma mesma moeda, de mais belo na natureza humana. Não há neste livro de memórias, contudo, digressões filosóficas ou literárias propriamente ditas. Há apenas o relato, curto e seco, de um corpo em um campo de concentração: “Eu era um corpo. Talvez menos ainda: um estômago faminto. Só o estômago sentia o tempo passar”.

Não se está aqui, portanto, a discutir literatura, mas um discurso de denúncia — uma pequena grande verdade que teve de ganhar a forma de livro para poder permanecer dentro do tempo; um homem a dizer a outros: olhem aqui, eu vivi isto e precisei escrever para poder aguentar o tranco. Àqueles que consideram esse assunto já esgotado e, mais ainda, explorado o suficiente, sugiro os versos de António Ramos Rosa e essa pequena hipótese: e se cada sobrevivente de um campo de concentração tivesse feito o mesmo: escrito o seu testemunho? Seriam desconsiderados por serem muitos? Admitindo-se a verdade individual de cada um desses hipotéticos relatos, inseridos no relato maior que foi a Segunda Guerra, como então descartar um único relato que seja? E como justificar a decisão? Por não ser “literário” o bastante? Por ser um testemunho raivoso e incorformado? Por ser piegas e sentimentalóide? Por ser autocomiserativo? Por ser mais uma pequena contribuição para o que vem sendo chamado de “a Indústria do Holocausto”? — nome do polêmico livro do historiador Norman Finkelstein, para quem, em resumidas linhas, o Holocausto se tornou uma indústria bastante eficiente e explorada à larga pela elite judaica americana, com um olho na questão árabe e na possibilidade de extorquir dinheiro de empresas alemãs e outro olho nas supostas e gordas contas bancárias das vítimas do massacre. Não. Nenhum relato poderia ser desconsiderado, e com cada um deles teríamos de conviver, porque todos, em sua verdade básica, têm o mesmo direito de se constituírem como memória coletiva e todos flutuam, legítimos, à mesma margem da História.

Todos, não obstante, poderiam e deveriam ser criticados e analisados a partir de sua maior ou menor capacidade de compreensão da natureza humana. Em outras palavras: sua medida da tolerância diante do perigo da intolerância desmedida. Se o ódio é necessário e às vezes inevitável, porque ele é, afinal, humano e, no caso de judeus e alemães, circulou à farta e reciprocamente, que ele tenha, então, o seu alvo individualmente determinado. O ódio cego, o ódio inespecífico dirigido às coletividades sem rosto ou às chamadas “raças”, sejam elas de que cor forem, é uma das piores facetas do preconceito e constituiu uma das motivações centrais para a campanha ariana, que, em sua sandice, dividiu a humanidade em dois grupos: um puro, descendente dos árias, os mais antigos antepassados da família indo-européia, e um impuro, não-ariano, de ascendência judaica, sem falar nos sub-grupos de negros, ciganos, amarelos e homossexuais. Tanto o prisioneiro de nº A-7713 quanto o de nº 174.517, batizados Eliezer Wiesel e Primo Levi, ambos detidos em Auschwitz no ano de 1944 e prováveis vizinhos nas filas do refeitório ou do dormitório, não caíram, em seus lúcidos relatos, no erro tentador da intolerância e do ódio coletivo. “A ação humana só pode ser julgada individualmente, caso a caso”, escreve Primo Levi, para quem os alemães como grupo, tão distantes, tão altivos, tão intocáveis, acabaram por se tornar, à sua maneira, inodiáveis.

Em janeiro de 1945, o pai de Elie Wiesel morre de completa inanição em Buchenwald. O relato de A noite pára neste episódio. Em abril do mesmo ano, Elie Wiesel volta a ser um homem livre e, como um homem livre, sai com as próprias pernas do inferno, abandonando o campo. Três anos depois está em Paris, a trabalhar como jornalista e a estudar literatura, filosofia e psicologia na Sorbonne. Em 1954, dá-se conta de que o campo de extermínio não o abandonara. Começa, então, estimulado por Mauriac, a escrever sobre o Holocausto. A partir daí não conseguiu fazer outra coisa de sua vida senão falar desse mal — muitas vezes e de muitas maneiras.

Trecho:

“Um dia em que voltávamos do trabalho, vimos três forcas erguidas na praça da chamada (...). Chamada. S.S. nos cercando, metralhadoras apontadas: a cerimônia tradicional. Três condenados acorrentados — e, entre eles, o pequeno pipel, o anjo de olhos tristes.

Os S.S. pareciam mais preocupados, mais inquietos do que de costume. Enforcar uma criança diante de milhares de espectadores não era uma coisa qualquer. O chefe do campo leu a sentença. Todos os olhos estavam pregados no menino. Ele estava lívido, quase calmo, mordendo os lábios. (...)

Os três condenados subiram em suas cadeiras. Os três pescoços foram introduzidos nos nós corrediços ao mesmo tempo.

— Viva a liberdade! gritaram os dois adultos.

O pequeno, calado.

— Onde está o bom Deus, onde ele está? alguém perguntou atrás de mim.

A um sinal do chefe do campo, as três cadeiras foram derrubadas.

Silêncio absoluto em todo o campo. No horizonte, o sol estava se pondo.

(...) Quanto a nós, estávamos chorando. (...)

E começou o desfile. Os dois adultos não viviam mais. (...) Mas a terceira corda não estava imóvel: tão leve, o menino ainda vivia...

Por mais de meia hora ele ficou assim, lutando entre a vida e a morte, agonizando sob nossos olhos. E tínhamos que olhá-lo bem de frente. Ainda estava vivo quando eu passei diante dele. Sua língua ainda estava vermelha; seus olhos, ainda não apagados.

Atrás de mim, ouvi o mesmo homem perguntar:

— E então, onde está Deus?

E senti em mim uma voz que lhe respondia:

— Onde ele está? Ei-lo — está aqui nesta forca.” (p. 90-91, edição brasileira)

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