terça-feira, 30 de março de 2010

"A visita à avó"

Ele iria visitar a avó porque todo dia de domingo ele visitava a avó, e a avó estava sempre à espera daquela visita, que nem demorava tanto assim, porque ele não aguentava e começava a mexer-se na poltrona e a fazer sinais de que se iria levantar, porque, afinal, já eram horas, ou demorava, sim, porque tudo levava lá o seu tempo, a avó a olhar para ele com um ar tão sorridente e apegado e a fazer as mesmas perguntas de sempre, que eram muitas mas ele não deixava que fossem ainda mais, porque aquilo cansava bastante a sua paciência, e ela, a sua paciência, não era lá muito grande, e lá foi ele, preparado para a velhice da avó, para o esquecimento e as obsessões da avó, que morava perto, e bastavam um autocarro e vinte minutos, e depois mais uns cinquenta minutos sentado em frente à avó, a repetir as mesmas respostas às mesmas perguntas, e a missão estaria cumprida, e somente no domingo seguinte ela, a missão, voltaria a impor-se, porque a mãe sempre lhe dizia tens de visitar a tua avó, eu sei, resmungava ele, e eu visito, e tens sempre, dizia a mãe, porque ela daqui a pouco se vai, eu sei, dizia ele, e não diziam mais nada, e ele pensava que aquilo tudo de nada adiantava, porque a avó, a cada visita de cada domingo, lhe dizia molemente que não se lembrava da última vez que o tinha visto, que ele estava crescido e que ele deveria visitá-la ao menos uma vez por semana, aos domingos, por exemplo, dizia a avó, que é o dia em que se visitam as avós, mas hoje é domingo, avó, dizia ele, suspirando para não se impacientar, e também porque no fundo, e a bem da verdade, também ele não se lembrava das visitas que fazia à avó, todas sempre iguais, meticulosamente iguais umas às outras, das bolachas ao cafezinho, e depois pensava, ao longo da semana, lembrando-se do sorriso aconchegado e satisfeito da avó, que afinal adiantava, sim, porque era ele, era ele o neto preferido, sempre havia sido, e sempre haveria de ser, e se tem de ser será, disse ele, respirando um bocadinho mais fundo e saltando do autocarro e atravessando as ruas e dizendo bom dia ao porteiro, que não respondeu e nunca responderia, e apertando o botão do elevador e subindo aquilo tudo e atravessando aquele corredor longo de prédio antigo, todo ladeado de portas com avôs e avós dentro, na espera sempre sentada das visitas dos netos que não existem e dos netos que não visitam, e até mesmo dos netos que visitam e que mal vão embora sentem, também indo embora, as lembranças das suas visitas, mas ele mesmo assim visitava, sempre, todo domingo, e assim ia pensando, enquanto vencia, andando devagar, o longo corredor ao fim do qual lá estava, como se numa cabeceira de mesa comprida de castelo abandonado, a porta da avó, cuja campainha ele tocou, sabendo que iria esperar uns dois minutos até que ela se desse conta de que a campainha havia tocado, esperar que ela se perguntasse repetidas vezes e em voz baixa e resmungante quem é que afinal estaria a tocar, se ela não recebe visitas há mais de dez anos, esperar que ela finalmente, naquele passinho miúdo e arrastado, vencesse o também longo corredor das casas de avós e chegasse enfim à porta, girando, devagar, todos os trincos e retirando, devagar, todas as correntinhas, sim, tudo isso, mas daquela vez ele não teve de esperar nem mesmo alguns segundos, porque ele mal tocou a campainha e a porta se abriu rápida, brusca, porque já estava destrancada, e se abriu e com uma velocidade impossível para uma avó, e quando a porta se abriu ele viu, parado à sua frente e ocupando todo o vão da porta, um homem enorme e com uma barba enorme e preta, que olhou para ele, ali, do lado de fora, apertou os olhos, inclinou a cabeça para o lado e disse Hi, e depois sorriu, e ele pensou na avó, e onde por Deus estaria a avó, e chegou a olhar para o número acima da porta, a ver se não se tinha enganado de porta, mas não, não tinha, e olhou para aquela barriga enorme daquele homem enorme, e chegou mesmo a arriscar um olhar que conseguisse passar por cima dos ombros largos daquele barbudo à sua frente, um olhar que, saltando aqueles ombros, encontrasse enfim a avó, ou ao menos o que havia restado da avó, os chamados restos de avó, mas não olhou por cima de ombro nenhum, porque o barbudo repetiu o Hi e mais uma vez sorriu, e foi então que ele se deu conta de que ali, ao fim do corredor que levava à porta da avó, debaixo do umbral da porta da avó, na casa da avó que ele visitava todo santo e morno domingo, estava o actor Robert de Niro.

E depois, alguns minutos depois, é que ele foi entender o porquê de estar ali, na casa da sua avó, o Robert de Niro. Mas aí já era tarde. O susto já o tinha marcado para sempre, e daquela visita, daquela, ele nunca mais se esqueceria.

Que boa Ikea!

Supsuescafobia

Medo da IKEA

Este pode ser um medo minúsculo em termos de números absolutos de acometidos, mas é terrivelmente forte quando ataca. É cruel, mas também afeta a memória. A supsuescafobia faz os acometidos se esquecerem de que têm a doença, processo que, acredita-se, é bem parecido ao que acontece com a mãe que se esquece das dores do parto a ponto de pensar: “Vamos fazer tudo de novo!”. Os supsuescafóbicos só têm uma leve noção de que algo está errado quando voltam à loja e estão percorrendo o caminho predeterminado, com lápis pequenininhos e trenas nas mãos, dizendo coisas como: “Você tem mais estantes Tantufas? E guarda-roupas Seilá?”. A fobia se revela com força total quando o acometido passa pelo balcão de ofertas e de repente vê aquelas filas do caixa que dão voltas em torno de si mesmas, cada uma com não menos de cem pessoas com carrinhos do tamanho de empilhadeiras, cheios de mobílias para encher quartos inteiros. Neste ponto, o supsuescafóbico vai provavelmente largar o carrinho e fugir para o Café Ikea, para afogar suas mágoas em salgadinhos gordurosos e suco roxo bem doce.

(de supellex, mobília; suescere, acostumar-se a)”

Você tem medo de quê? — Fobias modernas, trad. Ana Ban, São Paulo, Globo, 2008, p. 185.

sábado, 27 de março de 2010

O menino que guardava as palavras na barriga (capa)

O menino que guardava as palavras na barriga, São Paulo, Editora Girafinha, 2006, 53p. (ISBN: 0859952030)

"Sem falar nos motorista italianos..."


"Umersermofobia

Medo de conversar com motoristas de táxi

Para um umersermofóbico, o trajecto de táxi perfeito se dá em silêncio absoluto. Eles temem muitas coisas relativas a conversar com um motorista de táxi, mas, principalmente, o tom da conversa (…). Os acometidos sabem que a conversa não vai a lugar nenhum: ela pertence a um vácuo. Preferem ficar olhando pela janela, ajustar o cinto de segurança ou, para fazer o tempo passar, tentar decifrar qual é a relação entre a velocidade do carro e as mudanças de número no taxímetro. Alguns umersermofóbicos temem a conversa porque, inexplicavelmente, se sentem compelidos a partilhar informação demais (…). Os médicos já se perguntaram se a preocupação a respeito do tamanho da gorjeta está relacionada ao problema, mas, até agora, a conexão não foi comprovada. (Coincidentemente — e percebo que isso é revelar informação demais — o autor é umersermofóbico. Tendo dito isso, até onde ele sabe, é o único que passa seus trajectos a bordo de um táxi tentando imaginar como o taxista é em casa, se insiste em colocar a cadeira na frente da esposa e conversar com ela por cima do ombro).

(de: umerus, ombro; sermo, conversa)"

Você tem medo de quê? — Fobias modernas, trad. Ana Ban, São Paulo, Globo, 2008, p. 189-190.

sexta-feira, 26 de março de 2010

E de sílaba a sílaba...


No dia 25 de Abril, no CCB, será apresentada a ópera infantil As palavras na barriga, baseada num livrinho que escrevi para os miúdos - O menino que guardava as palavras na barriga (ed. Girafinha, São Paulo, Brasil, 2006).

quinta-feira, 25 de março de 2010

Cesariny & Jorge de Sena

Assistindo (em aconchegado contexto...) ao documentário Autografia, filme de Miguel Gonçalves Mendes sobre o Mário Cesariny, diverti-me, lá pelas tantas, com o Cesariny a inventar palavras e, por sua vez, a se divertir bastante com isso. E lembrei-me deste poema do português Jorge de Sena (1919-1978).


“Pandemos — Soneto 1 a Afrodite Anadiómena”

"Dentífona apriuna a veste iguana
de que se escalca auroma e tentavela.
Como superta e buritânea amela
se palquitonará transcendia inana!

Que vúlcios defuratos, que inumana
sussúrica donstália penicela
às trícotas relesta demiquela,
fissivirão boíneos, ó primana!

Dentívolos palpículos, baissai!
Lingâmicos dolins, refucarai!
Por manivornas contumai a veste!

E, quando prolifarem as sangrárias,
lambidonai tutílicos anárias,
tão placitantos como o pedipeste."

quarta-feira, 24 de março de 2010

Desinvenção

"Se Deus não existisse, tinha de ser inventado. Muito bem. E se existisse?"

Augusto Monterroso, El Heraldo, "Agnósticos de aldeia", Aforismos, citações etc., in O resto é silêncio, Lisboa, Oficina do Livro, 2007, p. 146.

domingo, 21 de março de 2010

Yes

"What is a rehearsal? It is only a labor of memory, of cognition. A rehearsal is not music! A rehearsal is the sum of countless "noes". "Not so fast!", "not over the bassoon!", "not so loud!", "not so lifeless!", "not like that!". "No, no, no!" How many "noes" are there? Trillions! How many "yeses"? Only one!"

Sergiu Celibidache (1912-1996, regente romeno)

terça-feira, 16 de março de 2010

"Quando somente as palav incompl tec a manh seguin ao..."

"Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2


E se encorpando em tela, entre todos,

se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão."

"Tecendo a manhã", João Cabral de Melo Neto

segunda-feira, 1 de março de 2010

Tratado sintético-poético acerca do alcance e da velocidade dos beijos

"With one soft kiss a thousand furlongs ere
With spur we beat an acre."

Shakespeare, "Winter´s Tale", Act I, Scene II.