sábado, 6 de fevereiro de 2010

Instruções (influências)

Preâmbulo às instruções para dormir

Encontre um espaço no chão que tenha um pouco mais do que o seu tamanho em altura e largura. Imagine-se deitado, mas não se deite ainda. É preciso antes imaginar. Para se imaginar a si mesmo deitado, pense numa grande fome e numa grande mesa cheia de comida, e pense também não tanto no que já fez na vida, mas no que ainda pretende fazer. E então, no exato instante em que se sentir cansado e sonolento, imagine-se deitado. Execute, em seguida, as manobras abaixo.

Procure certificar-se de que não será interrompido por alguém que esteja acordado, tire imediatamente os sapatos dos pés, na verdade os pés dos sapatos, pois não é educado deitar-se calçado, ponha-se de joelhos, incline-se para o chão, colocando nele as duas mãos com as palmas para baixo, vire-se de modo a conseguir sentar-se no centro do espaço encontrado ao início desta explicação e comece lentamente a reclinar-se para trás, tendo sempre em mente que o chão é o limite para a sua cabeça. O objetivo desta série de manobras é colocá-lo em posição paralela ao piso e perpendicular às paredes das casas ou às árvores mais bem feitas. Uma vez realmente deitado, procure esticar as pernas e posicionar os braços ao longo do corpo. Relaxe os músculos dos glúteos e do rosto e tire o relógio. Passemos agora às instruções para dormir.

Instruções para dormir

Feche os olhos e não tenha medo, ou seja, não pense naquela aldeia escocesa onde se vendem livros contendo uma página branca perdida ao léu que, uma vez encontrada, mata o leitor às três da tarde e não antes; não pense naquele cantinho recôndito e pouco conhecido de onde se podem ver, numa certa praça romana e em noites de lua cheia, algumas estátuas saindo sozinhas do lugar; não pense nos latidos solitários daquele cão perdido no último farol, plantado no mar e na noite em alguma zona costeira italiana; não pense no caixeiro-viajante que sentiu uma dor funda no pulso esquerdo, tirou o relógio e viu o sangue vir de uma ferida que parecia, sim, uma mordida do outro mundo; procure não pensar em nada disso que leu por aí* e que o impressionou e que justamente agora vem ofuscar-lhe o sono. Apenas feche os olhos e respire devagar. No fundo está a morte, você sabe, mas não tenha medo. Pense somente no que não leu: na árvore soltando as folhas, no barco correndo as águas, na chuva e no vento, juntos, limpando as telhas, no cheiro do pão. Desfranza a testa e comece a adormecer. E não se esqueça de sorrir antes.

O sono é chamado cochilo quando dura dez minutos; sono restaurador, durando de oito a catorze horas; sono profundo, ou valsa lenta, encompridando-se dias a fio e mesmo meses. E se é o caso de precisarmos contar os anos e os séculos, é porque nada mais conta.

* Cortázar e Borges

Um comentário:

Alexandre Pereira disse...

Não tinha notado os trechos de Cortázar e Borges... Abraço.