quinta-feira, 1 de maio de 2014

“Ponte Aérea Rio-Lisboa”

14. “Ponte Aérea Rio-Lisboa”, Revista Lilica and Tigor, São Paulo, mai. 2014 (data aproximada).

Então perguntei a ela se já havia terminado o banho e se eu poderia ajudá-la com a toalha.

— Eu já tenho set’anos, papá! Já sei secar-me com a toalha!

E eu disse à Clara que sim, que sabia perfeitamente disso: que ela já estava crescida. Tinha, afinal, viajado sozinha de avião: de Portugal para o Brasil.

— E portei-me muito bem, papá. Fiquei sentada o tempo todo. Quer dizer, quase o tempo todo… Houve uma vez em que brinquei às escondidas com a mana…

Arregalei os olhos: “Brincar de esconde-esconde dentro de um avião?!” Perguntei se a aeromoça não tinha dado uma bela bronca nas duas.

— Não, papá. As hospedeiras da TAP até riram. E brincamos também às corridas...
— Brincaram de pique-pega? No avião?!

— Sim, mas paramos. As hospedeiras disseram que deveríamos parar. E eu parei. Já sou crescida… Percebo as coisas.

— O que é que tu percebes, minha filha?

— Percebo que agora moras mesmo de vez no Brasil, e que a mamã vai continuar a morar em Portugal. Mas percebo outras coisas. Percebo que eu e a mana não precisamos de ter um país; podemos ser como certas pessoas que não têm sítio. A palavra que a professora ensinou na escola é “nômade”.

Eu lhe disse que talvez fosse um bocado cedo para ela e a irmã serem pessoas “nômades”.

— Mas eu já tenho set’anos, papá! Se eu e a mana já sabemos viajar de avião sozinhas, já sabemos fazer quase tudo, não é mesmo? Tu mesmo já disseste que andar pelos aeroportos e andar de avião pelo mundo são coisas complicadas de se fazer, e que tens até um amigo que nem tem medo de avião, mas tem medo é de aeroporto, de tão tramado que é. Ora, eu e a mana já entendemos das duas coisas. E eu não tenho medo de aeroporto.

— Vira de costas. Deixa eu secar teu cabelo.

Ela se virou, e eu até estranhei que tenha se virado numa boa, sem dizer que sabia muito bem como secar o cabelo e que não precisava da minha ajuda, uma vez que já tinha sete anos. Mas a criatura estava no meio de um raciocínio:

— Alguns amigos teus, papá, disseram-me que sou tão linda e fofa que eles gostariam de me adotar. Foram praí uns quatro ou cinco que disseram isso…

— Sei… E?...

— E eu pensei, não nos teus amigos, mas em outra coisa. Numa ideia bué gira, numa ideia maneira, como tu dizes aqui no Brasil, estou a tentar falar brasileiro... A ideia é: e se eu e a mana formos adotadas, não pelos teus amigos, mas por uma hospedeira da TAP, ou mesmo duas? Eu e a mana podemos ser como as tais pessoas nômades, e estar sempre a viajar de Lisboa ao Rio, e podemos ver-te sempre, a ti e a mamã, e não morar em sítio algum, nem no Brasil e nem em Portugal. O que é que achas disso?

— …

— Tu não precisas responder agora. Pensa um pouco... E larga meu cabelo, papá. Já sei secar-me sozinha. Já tenho set’anos!

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