domingo, 1 de agosto de 2010

“Pai para toda obra”

1. “Pai para toda obra" ("O nascimento do pai doméstico"), Revista Lilica and Tigor, São Paulo, ago. 2010 (data aproximada).*

É-se pai de um bebê de um segundo para o outro, e dizer isto não é cair em redundância. Antes de ser “pai de um bebê”, um sujeito é, no máximo, “pai de uma barriga” que cresce e se arredonda. Aquela barriga não é apenas uma barriga, sabe-se disso, mas pouco mais se sabe. Uma barriga sempre será, para um pai, uma abstração. As mães vão tornando-se mães aos bocadinhos, mês a mês e a cada pequeno chute daqueles seres tão minúsculos e ao mesmo tempo bem maiores, bem maiores do que o mundo em que se vive e a História que se atravessa.

E, um dia, a barriga, num átimo, deixa de ser barriga, e o sujeito torna-se pai. E é tudo tão rápido que todas as águas se misturam, as da barriga e as dos olhos, que, estupefactos, assistem àquele que seria o segundo nascimento, porque o nascimento mesmo, o primeiro, ninguém sabe quando é que se dá, só os bebês e as mães. O segundo, embora ainda privado, é mais público, e desse os pais participam, e cada vez mais.

De “pai de uma barriga” para “pai de um bebê”, é inevitável que o sujeito, trabalhando em casa, entre na condição de “pai doméstico”, a categoria de pai que mede o seu quotidiano em quotas — de leite, arrotos, fraldas e choros. É o chamado “pai pra toda obra”. E eu, como “pai doméstico”, fiz de tudo. Só dar o peito é que não dei. Fiz camas e compras, lavei louças e mamadeiras e troquei fraldas como ninguém, batendo o recorde nacional para a “categoria um”, com 17 segundos para uma troca completa, e ficando em terceiro lugar na “categoria dois” (bem mais complexa), com 28 segundos.

Além de fazer de tudo, ainda fiz uma tese de Doutorado, começando o meu batente às 7 da manhã, com tapinhas nas costas da Pipoca, à espera paciente de um arrotinho libertador, que me liberaria então para iniciar uma sessão de leitura, usando o olho direito, de algum teórico da literatura, ao mesmo tempo em que, com o esquerdo, vigiava a pequena para que não se virasse no berço e ficasse de barriga para baixo. O resto da manhã alongava-se até à hora do almoço, quando, a seguir a uma nova quota de leite, eu me punha novamente a implorar por um arrotinho, depois do qual ela dormia a sesta e durante a qual eu despencava ao seu lado, exausto, não tanto dos meandros da semântica, da semiótica e da hermenêutica, mas dos Desafios e das Grandes Questões que me propunha a Pipoca, a interpretar criticamente o mundo, ali do seu bercinho.

Ao fim da tarde lá ia eu, a passear com a Pipoca pelo Leblon, digo, pelos corredores da Livraria Argumento, onde me punha a pesquisar os livros de “teoria”, não de “teoria literária”, claro está, mas aqueles que contivessem a palavra “bebê” no título — sempre em busca de uma orientação, um padrão, uma forma de bem lidar com a minha nova condição: a condição de “pai doméstico”.

* Juva Batella nasceu no dia 13 de junho de 1970. Aprendeu a andar em 1971, a falar em 1972, a nadar em 1976 e a andar de bicicleta, sem as rodinhas laterais, em 1980. Escreveu o primeiro caderno de caligrafia em 1976 (inédito). É doutor em literatura brasileira e autor dos seguintes livros: O verso da língua (Revan, 1995; e Editorial Presença, Lisboa, 2009); o livro de contos A cabine & O trânsito (7Letras, 2002), tendo sido um dos contos, “A cabine”, adaptado pela TV Globo para a série “Brava Gente”, com Antônio Fagundes e Marília Pêra; o livro de crônicas Confissões de um pai doméstico (Planeta, 2003); e o livro Quem tem medo de Campos de Carvalho? (7Letras, 2004). Dedica-se também à literatura infanto-juvenil, e para este público tem publicados, pela editora Girafinha, os títulos O menino que guardava as palavras na barriga (2006), Em busca do amor perdido (2007) e O labirinto da cabeça da Matilde (também de 2007). Juva é pai de duas meninas: a Alice, com 7 anos; e a Clara, com 3; mora atualmente em Lisboa, dorme bem e quase não chora.

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