domingo, 1 de janeiro de 2012

“Dormir é preciso”

7. “Dormir é preciso” (“Ensinar a dormir é preciso”), Revista Lilica and Tigor, São Paulo, jan. 2012 (data aproximada).

Lembro-me como se fosse hoje da noite em que, voltando de uma festa, quando ainda morávamos no Rio, encontramos eu e a minha então mulher o nosso vizinho, às quatro da manhã, a passear na pracinha ali do Leblon com o seu carrinho de bebê. Olhei para ela: “Estranho um sujeito passear com o bebê a esta hora…”. E, ainda embalados com as caipirinhas que tomamos e as música que dançamos, rimos a risada que riem os casais sem filhos.

Passados os anos, e já nascida a Pipoca (também chamada de Alice), entendemos o que é que significa um bebê acordar no meio da noite e não voltar a dormir — um bebê com mais de dez meses, entenda-se, que é a idade em que as crianças se dão conta de que dormir significa ficar longe dos pais. E sentimos isto na pele. A Pipoca adormecia com um de nós dois no quarto. E, se acordava no meio da noite e não via aquele com quem ela pegou no sono, chorava. “Onde está o papai, se estava aqui na hora em que fui dormir?” E lá ia o papai voltar a adormecer a criatura. Se acordasse novamente, novamente ia o papai adormecer a criatura. Quando a criatura em questão se acostumava a pegar no sono no carrinho, por exemplo (o caso do vizinho do Leblon), o sujeito tinha de voltar a adormecê-la no carinho. E eu sei de histórias de crianças que só pegam no sono embaladas pelo motor do carro, e no meio da madrugada lá ia o pai a passear de carro com a criatura… Adormecido o ser, carregava-o o pai para casa e para o berço.

Até que, fatigados, adquirimos o livro Nana, neném (ed. Martins Fontes). A tese é simples: do mesmo modo como ensinamos os nossos bebês a grunhir, a cair e a comer, devemos, também, ensinar os miúdos a dormir; ensinar os miúdos a conciliar o sono sozinhos, sem a nossa presença debruçada sobre o berço, a fazer “Nãna, nãna, nãna…”, enquanto passamos os dedinhos sobre a testa. Fazemos isso, em geral, durante vinte, quarenta minutos, até que as criaturinhas apaguem, e só depois que apagam é que saímos do quarto, mal disfarçando um sorriso e a alegria que experimentamos diante da possibilidade real de algumas horas de sossego total. “A criatura pegou no sono afinal?”, pergunta a mulher. “A criatura pegou no sono afinal!”, anuncia o homem, que avança, cheio de pensamentos, para a mulher, que finge que foge.

Aplicado o método, que foi sofrido e quase tortuoso — uma semana a aplicar uma tabela crescente de minutos, ao fim dos quais entrávamos no quarto para lhe dizer que estávamos ali, que a amávamos, mas que ela deveria dormir sozinha, e ela a suar e a chorar, desesperada, os olhos brilhando, a boiar em lágrimas; uma semana de choros e ranger de dentes (de leite) contrapostos à convicção de que aquilo era para o bem dela e de todos —, ensinamos, enfim, a Pipoca a conciliar o sono sem papai e mamãe no quarto.

As vantagens do método são óbvias: a última situação que a criança vive antes de pegar no sono envolve apenas o berço, onde ela está sozinha, uma chupeta e o seu ursinho amarelo (pode ser vermelho). Se ela acorda ao longo da noite (e as crianças acordam muitas vezes ao longo da noite; acordam e voltam a dormir segundos depois), a situação que encontra é a mesma que deixou ao cair no sono: a solidão do berço, a chupeta e o ursinho amarelo (pode ser cor-de-laranja). As crianças que caem no sono com os pais debruçados sobre o berço, quando acordam e não vêem os pais, protestam, porque querem a reprodução do mesmo contexto, e aí: Nossa Senhora das Noites Mal Dormidas, Nossa Senhora do Mau Humor, Nossa Senhora dos Dias Mal Vividos.

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