terça-feira, 1 de janeiro de 2013

“Dona Saudade”

10. “Dona Saudade” (“A Dona Saudade manda lembranças”), Revista Lilica and Tigor, São Paulo, jan. 2013 (data aproximada).

Quando terminar de escrever isto, terei escrito sobre o futuro, e, escrevendo sobre este meu futuro próximo, estarei já inundado de saudade – uma saudade que bravamente antecipo, sentindo-a como se já a sentisse há muito tempo. E creio que morar em Portugal por oito anos tem a ver com isto, fazendo de mim o que já sou pela metade, um português, ao menos nas questões principais da existência: a saudade, a forma de se defender da saudade e a alegria à mesa diante de peixe e vinho barato. Não falarei aqui da alegria à mesa diante de peixe e vinho barato, mas da saudade e da forma de se defender da saudade.

E é por isso que já começo a sentir saudade das minhas duas piolhas – Alice e Clara – antes mesmo de estar longe delas; antes mesmo de pegar o avião, sair de Portugal e voltar a morar no Brasil depois de oito anos em Lisboa. Como bom brasileiro que sou, e ótimo carioca, transformo-me em português e sofro duas vezes mais e alguns meses antes – sofro antes do instante em que começarei de fato a sofrer. De saudade. E assim, já tendo sofrido tanto, e convencido de que não será possível sofrer mais, enfrentarei a saudade real preparado e fortalecido pelo duplo sofrimento anterior, como se o cara – digo, o gajo – já conhecesse de tempos idos essa senhora de ares melancólicos e olhos sempre um pouco úmidos e que atende pelo nome de Saudade.

O português já nasce sentindo saudade, ou melhor, a sentir saudade, e não sabe bem de quê, e atravessa o mar da vida à procura da razão de sua saudade. Se morre de morte morrida (e não “de susto, de bala ou vício”), é porque, bem investigada a causa mortis, morreu, pois, de saudade.

– Como assim, papá? O que queres dizer com isto? Disseste que vais passar mais tempo no Brasil do que em Portugal. É isso? – pergunta a mais velha.

– Pois é, minha linda. Portugal está num momento difícil, e o papai não arranja trabalho aqui, e por isso vou arranjar uns trabalhos lá, e…

– Então vais trabalhar no Brasil?

– Sim, de certo modo, digamos… É como se… bom, é como disse a vocês duas…

E a mais novinha ali, parada, com um pastel de nata a ocupar toda a boca.

… – como disse a vocês duas: vou passar mais tempo no Brasil do que em Portugal. Vou trabalhar no Brasil.

– Isso quer dizer que… E nós?...

E a mais miudinha, conseguindo finalmente engolir o pastel de nata, diz: – … quer dizer, mana, que o papá vai morar no Brasil, mas só para trabalhar, porque à noite, toda noite, ele vem morar em Portugal pra nos dar um beijinho na testa, contar uma história da vaca amarela que deu um pum e acabou-se a história, e dormir ao pé de nós, não é, papá?

Não soube responder. Vou perguntar àquela senhora, a dona Saudade.

– Quem deu o pum – corrigiu a mais velha, impaciente, salvando a pátria – foi a vaca Vitória.

E assim acabou-se a história.

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