segunda-feira, 1 de outubro de 2012

“Diante do espelho”

9. “Diante do espelho”, Revista Lilica and Tigor, São Paulo, out. 2012 (data aproximada).

A vida é uma coisa que vai acontecendo aos poucos, tim-tim por tim-tim, mas às vezes não é bem assim. O programa em si, apesar de aguardado e vivido como “dia especial”, foi bem prosaico. Dizem, no entanto, que é no vai e vem das ondas desse ir e vir cotidiano que se desvelam as cenas que nos transformam – aquelas que depois, e somente depois, revelam o quanto estávamos a vivenciar, exatamente, o que se chama “a divisão das águas”.

Eu estava desde o café da manhã com a música “O xote das meninas” (Luiz Gonzaga & Zé Dantas, 1953) rebolando dentro da minha cabeça; na verdade, com uma das duas deliciosas interpretações da Marisa Monte, e em especial os primeiros versos: “Mandacaru/ Quando fulora na seca/ É o siná que a chuva chega/ No sertão/ Toda menina que enjoa/ Da boneca/ É siná que o amor/ Já chegou no coração.../ Meia comprida/ Não quer mais sapato baixo/ Vestido bem cintado/ Não quer mais vestir timão...”.

E, a partir do meio da manhã, pensando já no tal programa: o almoço com a minha filha Alice (a Pipoca), com quase 10 anos de idade, e um amigo do coração, que, além de amigo do coração, vem a ser o padrinho da miúda.

Trata-se de um rito: sempre que saímos de Lisboa e vamos para o Rio de Janeiro, reservamos um dia especial para esse prosaico almoço especial, e após o programa a três acontece o programa a dois, que significa um passeio do padrinho com a afilhada, por várias lojas e sem qualquer pressa, para que ele lhe dê, a ela, um presente ao vivo, ali na hora, e por ela escolhido — o presente do padrinho. Assim fazemos há uns anos. Eu acompanho a dupla, mas de longe e proibido de dar pitacos, impedido de me meter: um assunto lá deles, um momento de afeto, intimidade e delicadeza. Às vezes entro numa livraria para sair do mundo. E assim fiz dessa vez, esquecido da vida, metido nas páginas e sem conseguir parar de cantarolar que toda menina que enjoa da boneca é sinal de que o amor já chegou ao coração…

E chegaram os dois à livraria, uma hora depois e com o presente escolhido, comprado e dado. Foi então que percebi o quanto ele estava emocionado; o quanto desejava compartilhar comigo o que viu e sentiu quando a viu e a sentiu, a ela, Alice, diferente e mais mulher (ou mais menina), a escolher enfim o seu presente, que não era uma boneca, como sempre foi, mas algo diferente; e não era apontando o dedo e gritando “Quero esta!”, como sempre foi, mas quieta e concentrada, a passear os dedos tamborilantes entre as saias e os vestidos dependurados; retirando em silêncio as peças prováveis dos cabides; colocando-as à sua frente, também em silêncio, num ensaio de experimentação que incluía virar-se de lado, de frente, de costas, aproximando-se e afastando-se do espelho, num ritmado ir e vir, num atento, lento e intimista mirar-se a si mesma e vendo, não mais a menina-criança que antes víamos, pai e padrinho, mas a menina-mulher que passamos a ver, transformada, diante do espelho.

— E… — disse eu ao padrinho — não há um só remédio em toda a medicina... Ainda bem.

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