sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Sentido

Tempo e Presença

Presença: "... facto de alguém existir em algum lugar; existência" (dicionários da vida).

"Tempo": uma coisa complicada e que deve estar sempre entre aspas... (ver Einstein).

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Resumo

"Não existe nada que não exista."

(Do dito popular alemão: Es gibt nichts was es nicht gibt.)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

sábado, 4 de dezembro de 2010

"A cama na porta (formato roteiro)"

CENA 1 – ESCRITÓRIO DO JUVENAL – INT./DIA

JUVENAL
Bom dia, minha senhora.

APARECIDA
Pois não. Aparecida. Em que posso servi-lo?

JUVENAL
No início dessa semana solicitei à prefeitura o favor de me recolherem uma cama muito velha e muito pesada que tenho e que já não quero mais.

APARECIDA
O senhor falou com o Departamento de Recolhas pra levarem a caçamba?

JUVENAL
Falei foi com a senhora mesmo.

APARECIDA
Comigo?

JUVENAL
Sim.

APARECIDA
E então?

JUVENAL
Então eu fiz o que a senhora pediu: na quarta-feira à noite desci com a cama pra rua e deixei junto da grade do prédio, contando que no dia seguinte...

APARECIDA
O Departamento de Recolhas tem muito serviço e...

JUVENAL
A senhora pode me deixa terminar de falar?

APARECIDA
É que... Bom... Pois não. Continue.

JUVENAL
Obrigado.

APARECIDA
De nada.

JUVENAL
... contando que no dia seguinte, conforme a senhora tinha dito, a prefeitura recolheria a cama.

APARECIDA
E isso não foi feito?

JUVENAL
Não.

APARECIDA
Como eu dizia, o Departamento de Recolhas anda muito ocupado, com muito serviço, e...

JUVENAL
Mas eu te dei o meu celular.

APARECIDA
O senhor me deu o seu celular?!

JUVENAL
Dei, porque a senhora pediu. E pediu por quê?

APARECIDA
São as normas.

JUVENAL
E, tendo a senhora o meu celular, por que é que não me ligou avisando que o Departamento de Entulhos...

APARECIDA
... de Recolhas...

JUVENAL
... pois esse departamento, então, não poderia pegar a cama?

APARECIDA
A gente não faz isso. A gente recolhe o entulho quando pode. O Departamento de Recolhas...

JUVENAL
Mas a senhora não me disse, quando a gente falou da primeira vez, que haveria o risco de não recolherem a cama.

APARECIDA
Ô, meu senhor, a gente não tem como saber isso. Mas escuta aqui: qual é o problema afinal?

JUVENAL
Qual é o problema afinal?!

APARECIDA
É. O Departamento de Recolhas vai recolher a sua cama quando der.

JUVENAL
E a cama vai ficar lá esse tempo todo?

APARECIDA
Vai ficar até ser recolhida.

JUVENAL
E a senhora pode me dizer quando é que isso vai acontecer?

APARECIDA
Não posso dizer, porque o Depart...

JUVENAL
... o Departamento de Entulhos anda com muito trabalho.

APARECIDA
... Departamento de Recolhas.

JUVENAL
Como?

APARECIDA
... de Recolhas! O senhor disse “Departamento de Entulhos”. O nome do departamento é, aliás, “Departamento de Recolhas Especiais”.

JUVENAL
Isso não ‘tá certo!

APARECIDA
Mas o nome é esse, meu senhor! Não fui eu que batizei!

JUVENAL
Não, minha senhora! Eu lá quero saber qual o nome certo do seu departamento? O que não ‘tá certo é isso!

APARECIDA
Isso o quê?

JUVENAL
Vocês não avisarem que não poderão fazer o trabalho. Isso é que não ‘tá certo! Vocês tinham o meu celular. Pra quê?

APARECIDA
Pra gente preencher a ficha...

JUVENAL
E pra que serve a ficha?

APARECIDA
Pra guardarmos no nosso banco de dados.

JUVENAL
(Suspiro...)

APARECIDA
O senhor me diga uma coisa: o senhor já não se livrou da cama? Agora a responsabilidade é nossa. Relaxa...

JUVENAL
Mas o fato, minha senhora, é que eu estou tendo problemas com os vizinhos.

APARECIDA
Com os vizinhos?!

JUVENAL
Sim, com o vizinhos, porque alguns ficaram indignados vendo uma cama do lado de fora do prédio, e começaram a colocar pedaços da cama junto da minha porta daqui de cima, da porta do meu apartamento!

APARECIDA
Mas os seus vizinhos têm que entender que isso não se faz!

JUVENAL
Sim, isso não se faz, mas eles não sabem que eu contactei a prefeitura pra solicitar que vocês retirassem a cama!

APARECIDA
Mas o senhor têm que dizer isso a eles!

JUVENAL
Dizer?! A eles?!

APARECIDA
Aos seus vizinhos!

JUVENAL
Eles são muitos, eu moro num prédio com quatro blocos! São mais de oitenta vizinhos! E o ato de protesto é anônimo! Eu não sei quem é que ‘tá colocando pedaços da cama junto da minha porta!

APARECIDA
Mas os seus vizinhos têm que entender que o senhor não fez nada de errado!

JUVENAL
Eu concordo. Mas e daí? Minha Nossa Senhora da Inocência!

APARECIDA
Eles têm que saber que o senhor fez tudo como deve ser feito, e que agora a responsabilidade é nossa!

JUVENAL
E quando é que vocês vão arcar com essa responsabilidade? Nossa Senhora da Responsabilidade!

APARECIDA
Eu não lhe posso dizer, porque o Departamen...

JUVENAL
... de Entulhos...

APARECIDA
... de Recolhas Especiais...

JUVENAL
O que for! Mas a senhora já disse isso... E o que é que eu faço então?

APARECIDA
O senhor tem que conversar com os seus vizinhos, no sentido de que percebam...

JUVENAL
Eu não sei quem são eles, minha senhora. Eu passo o dia fora de casa, tenho mais o que fazer do que ficar conversando com vizinhos pra que eles saibam que eu fiz a coisa certa e que a prefeitura é que não fez o que me disse que iria fazer.

APARECIDA
Como?

JUVENAL
Vocês não fizeram o trabalho que deveriam ter feito!

APARECIDA
Meu senhor, a gente faz o que dá pra fazer!

JUVENAL
Não, não fazem!

APARECIDA
Não fazemos?!

JUVENAL
Não, não fazem! Se fizessem, ligavam pro meu celular pra dizer que não iriam poder pegar a cama, e eu então improvisava uma solução!

APARECIDA
Ah! Isso a gente não faz...

JUVENAL
E por que é que pedem o celular da pessoa?

APARECIDA
São as normas. Já lhe disse.

JUVENAL
Sei, pra preencher a ficha... E agora?

APARECIDA
Agora o quê?

JUVENAL
O que é que eu faço? E se a cama inteira aparecer hoje no fim do dia junto da minha porta?

APARECIDA
Os seus vizinhos não estão agindo de modo sensato! O senhor tem que conversar com eles no sentido de...

JUVENAL
Eu não quero conversar com os meus vizinhos! Eu não quero falar com os meus vizinhos! Eu não gosto dos meus vizinhos! E eu não quero que gostem de mim! Eu quero, sim, é que a prefeitura recolha essa cama hoje, sem falta!

APARECIDA
Meu senhor... Eu vou instruir o supervisor do Departamento de Entulhos...

JUVENAL
A senhora não me disse que o nome é Departamento de Recolhas?

APARECIDA
O senhor me confundiu. O senhor me confundiu! De todo modo, instruir o supervisor no sentido de...

JUVENAL
... de darem prioridade à minha cama.

APARECIDA
Não, senhor. No sentido de ligarem pro seu celular pra lhe avisarem caso não seja possível recolher a sua cama. De todo modo, os seus vizinhos têm que saber de uma vez por todas que...

JUVENAL
Minha senhora...

APARECIDA
... entender que isso não se faz... Os seus vizinhos...

JUVENAL
Se a senhora quiser conversar com eles...

APARECIDA
Eu?!

JUVENAL
Bom dia, minha senhora.

APARECIDA
Bom dia, meu senhor.


* * *

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

"A cama na porta (formato prosa)"

— Bom dia, minha senhora.
— Pois não. Amanda. Em que posso servi-lo?
— Eu, no início desta semana, solicitei à Câmara o favor de me recolherem uma cama muito velha e muito pesada que tenho e que já não quero mais.
— O senhor falou com o Departamento de Recolhas?
— Sim, e falei mesmo com a senhora.
— Comigo?
— Sim.
— E então?
— E então eu fiz o que a senhora me pediu: na quarta-feira à noite desci com a cama para a rua e depositei-a junto ao prédio, contando que no dia seguinte...
— O Departamento de Recolhas tem muito serviço e...
— A senhora me deixa terminar o que tenho a dizer?
— É que... Pois não. Continue.
— Obrigado.
— Pois.
— ... contando que no dia seguinte, conforme a senhora me havia dito, a Câmara recolheria a cama.
— E isso não foi feito?
— Não.
— Pois, como eu dizia, o Departamento de Recolhas anda muito ocupado, com muito serviço.
— Mas eu lhe dei o meu contacto.
— O senhor deu-me o seu contacto?
— Dei, porque a senhora pediu. E pediu por quê?
— São as normas.
— E, tendo a senhora o meu contacto, por que é que não me ligou a avisar que o Departamento de Entulhos...
— ... Recolhas...
— ... pois esse departamento, então, não poderia pegar a cama?
— Não fazemos isso. Recolhemos o entulho quando podemos fazê-lo. O Departamento de Recolhas...
— Mas a senhora não me disse, quando falámos pela primeira vez, que haveria a possibilidade de não recolherem a cama.
— Ó, meu senhor, não temos como saber isso. Mas eu não estou a perceber qual é o problema afinal.
— Qual o problema?
— Sim. O Departamento de Recolhas vai recolher a sua cama quando puder fazê-lo.
— E a cama vai ficar lá esse tempo todo?
— Vai ficar até ser recolhida.
— E a senhora pode me dizer quando é que isso vai acontecer?
— Não posso dizê-lo, porque o Depart...
— ... o Departamento de Entulhos anda com muito trabalho.
— ... de Recolhas.
— Como?
— De Recolhas. O senhor disse Departamento de Entulhos. O nome do departamento é, aliás, Departamento de Recolhas Especiais.
— Isto não está certo.
— Mas o nome é esse, meu senhor!
— Não, minha senhora, eu quero lá saber qual o nome certo do seu departamento? O que não está certo é isso.
— Isso o quê?
— Vocês não avisarem que não poderão fazer o trabalho. Isso é que não está certo. Vocês tinham o meu contacto. Para quê?
— Para preenchermos a ficha.
— E para que serve a ficha?
— Para guardarmos no nosso banco de dados.
— (Suspiro...)
— O senhor me diga uma coisa: o senhor já não se livrou da cama? Agora a responsabilidade é nossa.
— Mas o facto, minha senhora, é que eu estou a ter problemas com os vizinhos.
— Com os vizinhos?
— Sim, com o vizinhos, porque alguns ficaram indignados ao ver uma cama ao lado do prédio, e começaram a colocar pedaços da cama junto à minha porta.
— Mas os seus vizinhos têm de entender que isso não se faz!
— Sim, isso não se faz, mas eles não sabem que eu contactei a Câmara.
— Mas o senhor têm de dizer isso a eles!
— Dizer?! A eles?!
— Aos seus vizinhos.
— Eles são muitos, e o acto de protesto é anónimo. Eu não sei quem é que está a colocar pedaços da cama junto à minha porta.
— Mas os seus vizinhos têm de entender que o senhor não fez nada de errado!
— Eu concordo. E daí?
— Eles têm de saber que o senhor fez tudo como deve ser feito, e que agora a responsabilidade é nossa!
— E quando é que os senhores vão arcar com essa responsabilidade?
— Eu não lhe posso dizer, porque o Departamen...
— ... de Entulhos...
— ... de Recolhas Especiais...
— O que for... Mas a senhora já disse isso. E o que eu faço então?
— O senhor tem de conversar com os seus vizinhos, no sentido de que percebam...
— Eu não sei quem são eles, minha senhora. Eu passo o dia todo fora de casa, tenho mais o que fazer do que ficar a conversar com os meus vizinhos no sentido de os fazer entender o que quer que seja, ou que eu fiz a coisa certa e que a Câmara é que não fez o que me disse que iria fazer.
— Como?
— Vocês não fizeram o trabalho que deveriam ter feito.
— Meu senhor, nós fazemos o nosso trabalho na medida do possível!
— Não, não fazem.
— Não fazemos?!
— Não não fazem. A medida do possível incluiria telefonarem para o meu número a me alertar que não iriam poder pegar a cama, e eu então improvisaria uma solução.
— Isso não fazemos.
— E por que é que pedem o meu contacto?
— São as normas. Já lhe disse.
— Sei, a ficha... E agora?
— Agora o quê?
— O que eu faço? E se a cama inteira aparecer hoje ao fim do dia junto à minha porta?
— Os seus vizinhos não estão a agir de modo sensato! O senhor tem de conversar com eles no sentido de...
— Eu não quero conversar com os meus vizinhos! Eu não quero falar com os meus vizinhos! Eu não gosto dos meus vizinhos! E eu não quero que gostem de mim! Eu quero, sim, é que a Câmara recolha esta cama hoje, sem falta!
— Meu senhor... Sim, eu vou instruir o supervisor do Departamento de Entulhos...
— A senhora não me disse que o nome é Departamento de Recolhas Especiais?
— O senhor me confundiu. O senhor está a me confundir! De todo modo, instruir o supervisor no sentido de...
— ... de darem prioridade à minha cama.
— Sim, senhor. Mas, de todo modo, os seus vizinhos têm de saber de uma vez por todas que...
— Muito obrigado, minha senhora. A senhora tenha um óptimo dia.
— ... entender que isso não se faz... Os seus vizinhos...
— Se a senhora quiser conversar com eles...
— Eu?!
— Bom dia, minha senhora.
— Bom dia, meu senhor.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

"Sargento Getúlio: o dragão Manjaléu" - "Apresentação do romance Sargento Getúlio" (Lisboa)


"Apresentação do romance Sargento Getúlio"
30 de Novembro de 2010, Livraria Buchholz, Lisboa.

"Sargento Getúlio: o dragão Manjaléu" (com a apresentação do filme de Hermano Penna).

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

"O espelho de papel"

Para quem é que escrevo? Quem é que sou e onde é que estou enquanto escrevo? Penso num menino em mim que me lê enquanto escrevo? E esse menino sou eu? Como é que faço para o reconhecer ou saber que sou eu? Daqui, de onde acredito que o vejo, posso chegar a ele, ao que pensa e ao que gostaria de ler? Se esse menino sou eu, posso voltar a ser novamente esse menino no instante em que escrevo, ou a distância no tempo nos tornará sempre distantes? Se consigo vê-lo, vejo-o com que olhos? Os de hoje, a olhar para um menino que fui, ou os olhos de ontem, de modo a que esse menino consiga olhar para si próprio e assim escrever, (des)escrevendo-se a si mesmo?

Enquanto não conseguir responder a tudo isso, não escreverei. E só conseguirei responder a tudo isso se escrever.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Narcisos

"in time of daffodils (who know
the goal of living is to grow)
forgetting why, remember how

in time of lilacs who proclaim
the aim of waking is to dream,
remember so (forgetting seem)

in time of roses (who amaze
our now and here with paradise
forgetting if, remember yes)

in time of allsweet things beyond
whatever mind may comprehend,
remember seek (forgetting find)

and in a mistery to be
(when time from time shall set us free)
forgetting me, remember me"

e. e. cummings

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

"Quadrinha de Santo António"

SANTO ANTÓNIO DE PÁDUA
Foi em Pádua que morreu.
Para nós é de Lisboa,
Porque em Lisboa nasceu.

Nasceu em 15 de Agosto.
Seu nome de pia é Fernando.
Morreu em 13 de Junho,
O nome de António levando.

Em 13 de Junho Lisboa
Uma outra pessoa abençoa.
Um outro Fernando nascia,
E uns versos à toa tecia.

Não curou nenhuma pessoa,
Não ganhou nenhuma coroa.
Mas fez das tripas coração.
A poesia na palma da mão.

Foi enfim cancioneiro
O Fernando António Pessoa;
E padroeiro o primeiro:
SANTO ANTÓNIO DE LISBOA.