sábado, 14 de novembro de 2009

Da série: “As crianças falam” - 1

"— Déia, você acredita em vampiro?
— Não.
— E em Deus… você acredita?
— Acredito.
— Se você se encontrasse com Deus, o que é que você pediria?
— Eu pedia pra ele acabá com as coisas que não existem.

(6 anos)"

Historietas retiradas do livro Me dá o teu contente que eu te dou o meu, organizado por Cristina Mattoso, ilustrado pelas crianças da Fundação Síndrome de Down, Campinas, Versus Editora, 2003.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

"Quid pro quo - Parte I: a mesa errada" / "Quid pro quo - Parte II: o tema certo" - "Colóquio Língua Cultura e Identidades"



"Colóquio Língua Cultura e Identidades"
12 e 13 de Novembro de 2009, Sociedade Portuguesa de Autores.

Moderador: Eugénio Lisboa (dia 13).

Com: Mário de Carvalho, Adalberto Alves, Jaime Salazar Sampaio, Carlos Paniágua, Mário Máximo (Portugal), Juva Batella (Brasil), Ana Paula Tavares (Angola), José Luís Hopffer Almada (Cabo Verde), Luís Carlos Patraquim (Moçambique).

"Quid pro quo - Parte I: a mesa errada"

Publiquei o meu primeiro livro aqui em Portugal — e esta frase tem dois sentidos válidos, porque publiquei, pela primeira vez, um livro em Portugal, e ao mesmo tempo esse livro foi o primeiro livro que publiquei, e ponto final. E agora estou um bocadinho, um tantinho de nada, um tamaninho só, quase-famoso — que para famoso ainda falta muito. Em duas semanas dei uma entrevista à televisão, duas entrevistas ao rádio, uma entrevista a um jornal e uma palestra. Não vou dizer que a palestra que dei tinha de durar no máximo dez minutos, porque havia mais gente para falar, mas vou dizer, sim, que era uma mesa de escritores e que eu estava a representar o Brasil.

Foi a comemoração do 60º aniversário da SLP — Sociedade da Língua Portuguesa —, através da realização de um colóquio intitulado Língua, culturas e identidades, que aconteceu no auditório da SPA — Sociedade Portuguesa de Autores. Eu, o escritor Juva Batella, que estava a representar o Brasil, deveria chegar às 16h30m e ocupar o meu lugar na mesa-redonda que era rectangular, diante do meu microfone. Foi o que fiz eu — ou seja, o Brasil. O Brasil chegou um bocadinho antes, às 16h, e ficou sentado assistindo ao debate anterior. Aquilo estava tudo um bocado atrasado, porque já eram 16h40m e a mesa anterior ainda estava a debater “O idioma português como língua filosófica” — um debate comprido e complexo e que o Brasil entendeu mais ou menos. Se ainda fosse o idioma brasileiro como língua filosófica, o Brasil pelo menos entenderia ainda menos. E lá ficou o Brasil, sentado e de braços cruzados.

Aconteceu então, ao final do debate, a chamada e ansiada “pausa para o café”, que faz qualquer português, filosófico ou não, animar-se e levantar-se, e foi nesse momento que o Brasil se levantou de seu berço esplêndido e foi para a pastelaria que ficava ali mesmo na frente da SPA, na própria Rua Gonçalves Crespo, só que do outro lado, e pediu o Brasil uma imperial (um chope, e não há acordo ortográfico que resolva isso, até porque isso não é ortografia; é lexicografia), e bebeu o Brasil aquela imperial com gosto e a pensar no que seria a sua “intervenção”, que é uma palavra que se está a usar muito aqui para substituir a expressão “a sua vez de falar”. O tema proposto para a mesa-redonda que era rectangular e da qual o Brasil, representado pelo seu escritor mais quase-famoso, iria participar intitulava-se, segure-se quem puder: “Os desafios da escrita nos nossos dias. O ato da criação literária: sintoma patológico ou a busca da mente do outro?”.

O Brasil, depois da imperial, se chegou em alguns momentos a ficar ansioso com a sua “intervenção” que já se avizinhava, já não estava mais. Entrou, impávido colosso, no auditório e cruzou à entrada com o professor Carlos Reis, da Universidade de Coimbra, e o professor Carlos Reis adora o Brasil — não o Brasil que tinha acabado de tomar a imperial, mas o Brasil mesmo, o representado, embora o professor Carlos Reis também tenha simpatia pelo escritor Juva Batella, e tanto isso é verdade que, mal o viu, já avançou, a mão estendida para a frente, e disse, em discurso directo na primeira pessoa: “Tenho muito gosto em vê-lo, meu caro Juva Batella!”. E este, todo prosa (e todo verso também), sorriu de volta, apertou-lhe a mão, num aperto de mão narratológico, disse alguma coisa, mas em indirecto livre (preferências de escritor), apertou também a mão da mulher do professor Carlos Reis, que é do Brasil, da sua parte sulista, e desejaram-se todos, o escritor, o professor e a senhora gaúcha, boa sorte em suas “intervenções”.

Fortalecido pelo aperto de mão do Carlos Reis e ainda por ver que o professor de Coimbra se lembrava muito bem do jovem escritor, pois ele foi o seu quase-co-orientador na sua tese de Doutoramento — e ainda chegaram a tomar cafezinhos juntos na Modern Sound ali de Copacabana, no longínquo Rio de Janeiro do ano de 2004 —, o Brasil, representado por este que escreve, sentou-se finalmente à mesa-redonda que era rectangular, arrumou os papéis da sua “intervenção” e esperou que a presidente da SLP, Dra. Maria Elsa Rodrigues dos Santos, fizesse as apresentações. Mas ela não as fez.

Estava ao meu lado na mesa um professor, o José Luís Pires Laranjeira, mais um outro senhor de bigodes, que não sei quem é, e mais a Dra. Elsa. “E onde estarão os escritores que representarão os demais países?”, pensei. “Onde estarão Mário de Carvalho, Adalberto Alves, Jaime Salazar Sampaio, Carlos Paniágua, Mário Máximo (representando Portugal), e ainda Ana Paula Tavares (Angola), José Luís Hopffer Almada (Cabo Verde) e Luís Carlos Patraquim (Moçambique)?”. Ali à mesa só estava o Brasil, a Dra. Elsa, o outro senhor de bigodes e ainda o professor Pires Laranjeira. “Será que Angola, Moçambique, Cabo Verde e Portugal estavam também na pastelaria, disfarçados, a beber imperiais e a comer pastéis de nata?”

O Pires Laranjeira começou a falar numa velocidade estonteante (porque tudo, afinal, estava muito atrasado), e em dois minutos eu percebi que ele não estava a fazer a sua “intervenção” acerca do tema que eu tanto havia estudado em casa: “Os desafios da escrita nos nossos dias. O ato da criação literária: sintoma patológico ou a busca da mente do outro?”. O Pires laranjeiras estava a analisar a obra do poeta cabo-verdiano Arménio Vieira. “Deve haver algo errado”, pensei. “Será que estou na mesa-redonda errada?” E, quando o Pires Laranjeira fez referência, no meio da sua “intervenção”, ao grande quiproquó havido — do latim quid pro quo: isto por aquilo, uma coisa por outra; logo, uma mesa por outra —, eu tive a certeza de que eu estava mesmo na mesa-redonda errada. “A Dra. Elsa Rodrigues está a me ver aqui sentado, na mesa errada, e não me avisa nada? Estranho…” E eu tive então outra certeza mais horripilante: a certeza de que havia entendido tudo errado; que o meu verdadeiro tema, como representante do Brasil, e porque nesse mundo das artes e das academias e das palestras e dos colóquios e das mesas-redondas tudo o que se almeja e se pretende em termos culturais é justamente integrar e viabilizar tangências e proceder a dialécticas — o meu verdadeiro tema era então, na condição de literato de um país de língua portuguesa, analisar a obra do literato de um outro país de língua portuguesa, e o meu objecto de estudo era precisamente o Arménio Vieira, o que mais poderia ser? E era por isso que a Dra. Elsa Rodrigues estava a me ver ali naquela mesa e não fazia nada: porque ali era de facto o meu lugar, a mesa sobre o Arménio Vieira. Eu havia incorrido num grande equívoco, uma troca de linhas na relação dos participantes e dos temas, e tinha de me safar daquilo. Qual sintoma patológico! O meu tema era o Arménio Vieira! Nossa Senhora dos Sarilhos!

O Pires Laranjeira agora está a agradecer, e todos estão a aplaudir, e eu estou a suar por baixo da primeira camisa, e nos próximos segundos vão me passar o microfone e eu terei então de fazer a minha “intervenção” sob a forma de uma análise da obra do poeta cabo-verdiano Arménio Vieira. Aliviava-me sobremaneira o fato de eu só ter (porque tudo estava um bocado atrasado) dez minutos, e não mais que dez minutos, para dar o meu recado.

E, sempre sorrindo, melhor ainda do aqueles pinguins do filme Madagáscar, que estão sempre “a sorrir e acenar”, pensei que eu poderia, na minha “intervenção”, ficar três minutos a agradecer o convite que me foi feito; quatro minutos a falar da importância de eu estar a realizar aquela palestra sobre aquele tema justamente ali naquele sítio, e com aquelas pessoas, e depois mais três minutos a lamentar não ter tido tempo de falar mais sobre o poeta Arménio Vieira, mas que, de todo modo, se a Dra. Elsa Rodrigues me permitir abusar mais um bocadinho da paciência dos senhores, eu poderia ler aqui um dos poemas que considero mais representativos de toda a sua poética, que poderíamos chamar de sócio-erudita — uma poética de desconstrução e ruptura e ao mesmo tempo uma tentativa de reconstrução de uma nova estética; uma estética baseada e alimentada, a cada obra, pela imensa capacidade de síntese e, portanto, de conciliação social, o que pode parecer paradoxal mas não é. E eu pegaria então da mesa um dos livros de que se estava a servir o professor Pires Laranjeira — pegaria o MITOgrafias, que estava ali à minha frente e cuja capa era bonita —, abriria numa página qualquer e, com uma inadmoestável expressão de inteligência e ainda com a testa enrugada, leria, bem devagar, o primeiro poema que me aparecesse aos olhos.

Eu estava já para começar a minha farsa poética quando subitamente o professor Pires Laranjeira se levanta, a Dra. Elsa Rodrigues toma da palavra e chama para a mesa-redonda que era rectangular Portugal e Cabo Verde, diz que o Brasil já estava posicionado e pede desculpas pela ausência de Angola e Moçambique, que não puderam estar presentes. E então eu me vejo novamente recolocado, ao lado do escritor português Mário de Carvalho e do poeta cabo-verdiano José Luís Hopffer Almada. E, mais uma vez, girei uma chave imaginária dentro da minha cabeça, retirando-a do alvo “Arménio Vieira” e reposicionando-a agora para o alvo original: “Os desafios da escrita nos nossos dias. O acto da criação literária: sintoma patológico ou a busca da mente do outro?”. O mundo se havia reconstruído, e eu teria então de fazer a minha “intervenção”.

"Quid pro quo - Parte II: o tema certo"


— Boa tarde a todos. Meu nome é Juva Batella. Eu sou brasileiro, moro em Portugal há cinco anos e estou muito feliz, e por duas razões: a segunda razão é o fato de eu ter conseguido finalmente publicar cá um romance, que se chama O verso da língua e cuja editora é a Presença. A primeira razão é o facto de eu não ter de fazer, neste instante, uma palestra sobre o poeta cabo-verdiano Arménio Vieira, sobre o qual tudo o que sei aprendi mesmo agora, aqui ao lado do professor Pires Laranjeira.

(risos moderados)

— E tudo o que aprendi, tenho a certeza, nunca mais na vida esquecerei. Isto tudo para dizer que estou na mesa certa e tenho sobre o meu colo o tema certo, que vem a ser justamente este: Quais os desafios da escrita nos nossos dias? O acto da criação literária: sintoma patológico ou a busca da mente do outro?

Há dentro deste tema quatro grandes sub-temas: 1) os desafios da escrita no mundo de hoje, 2) o acto da criação literária, ou seja, o acto de se escrever literatura, 3) o sintoma patológico e 4) a busca da mente do outro. É bem verdade que um título como esse também não é menos preocupante; um título como esse pode deixar um sujeito sem dormir pelos dois dias anteriores à sua “intervenção”, embora eu já vá prevenindo os senhores de que não pretendo intervir em nada — antes, pelo contrário, espero que intervenham na minha pequena digressão de modo a me fazerem parar de falar quando acabarem os dez minutos a que tenho direito. Tinha, aliás — porque, estrategicamente, já gastei pelo menos três a fazer piadas.

Em sete minutos, portanto, eu digo que não acredito ser o acto da criação literária um sintoma patológico. Se for assim, poderíamos falar também que, do mesmo modo como o acto de escrita é um sintoma patológico, o ato de tocar piano também o é; o acto de pintar quadros também o é; o acto de dançar e o acto de tocar baixo acústico e de compor música também o são — tomados todos como actos de criação.

O caminho de pensamento e análise que parte da relação entre loucura e arte é um caminho específico e que conduz a descobertas e experiências específicas. Isso não me interessa. A arte não é para mim uma celebração ou uma dignificação da loucura ou uma justificação ou ainda uma compensação para a loucura. Prefiro, antes, debruçar-me sobre o último elemento do nosso tema: o acto da criação literária como a busca da mente do outro. E é aqui neste tema que o nosso título funciona lindamente.

Eu não conheço as outras artes como conheço literatura, mas tenho a convicção de que a literatura instaura desde o seu primeiro acto de escrita a suprema necessidade da decisão acerca do mesmo e do outro. Porque a literatura, de um modo radical, parte sempre do mesmo princípio: o ponto de vista, a necessidade de se escolher um ponto de vista, sempre. Sempre que uma história tem de se contada, esta decisão tem de ser tomada: quem conta, para quem conta, de onde conta, como conta, e por aí seguem as perguntas, cada vez mais específicas.

Quando eu digo “a mente do outro” eu posso querer dizer também o mesmo, porque mesmo que se esteja na própria mente quando se escreve, e mesmo que se escreva sobre si mesmo, este si mesmo, quando é observado pelo si mesmo, se torna inevitavelmente um outro. Quando eu escrevo no papel “eu”, o “eu” que escreve não é o mesmo “eu” que é escrito.

A ciência costuma referir-se à consciência como o fenómeno mais fascinante e mais indescritível que há — “… é impossível explicar o que é, o que faz ou porque se desenvolveu. Nada que foi escrito sobre ela vale a pena ser lido”. Isto disse um psicólogo chamado Stuart Sutherland, citado pelo David Lodge, no seu livro A consciência e o romance, no qual eu muito baseio esta minha “intervenção”.

Mais adiante o próprio David Lodge vai refutar essa ideia, dizendo que “a literatura é um registo da consciência humana, o registo mais rico e abrangente que possuímos. (…) O romance é muito provavelmente o esforço mais bem sucedido do homem para descrever a experiência de seres humanos individuais a moverem-se através do espaço e do tempo”. Nenhuma ciência fez isso melhor do que a literatura.

E a consciência, segundo os cientistas que se debruçam sobre esse fenómeno, tem um carácter eminentemente narrativo. O Sr. António Damásio é um dos que fala disso: “Contar histórias é uma obsessão do cérebro’, diz ele, que ainda defende a ideia da “autoconsciência de si”.

“Autoconsciência de si” pode parecer um pouco redundante, mas não é. Não apenas temos consciência de nós mesmos, como temos consciência de estarmos a ter consciência de nós mesmos. Isso nada mais é do que o trabalho constante da consciência de unificar a nossa imagem de nós mesmos. Se não fizermos isso, perdemos a sanidade e escorregamos para a loucura.

Talvez nesse sentido a literatura seja, então, justamente o oposto: não um sintoma patológico, mas um sintoma de saúde. A consciência, para suportar a si mesma, tem de unificar o ser — o ser que, “na realidade”, não passa de um estilhaço de imagens —, e a literatura faz dessa unificação do ser a sua ficção. Esse si mesmo unificado é a nossa ficção suprema. E é nessa ficção suprema que eu acredito.

— Sr. Juva Batella, o senhor tem 1 minuto para concluir…

— Obrigado.

(tosses e pigarros)

— Quanto aos desafios da escrita nos dias que correm… Os desafios me parecem ser os mesmos desafios da escrita em outros tempos. É claro que se poderá falar aqui na especificidade da nossa pós-modernidade: a velocidade da vida, a tecnologia, os meios de comunicação, a instantaneidade da informação, o mundo digital, o futuro do livro impresso, a superficialidade, ou não, dos relacionamentos no universo da urbanidade, ou, já agora, da pós-urbanidade.

Mas será tudo isso tão decisivo assim, ou não será tudo isso um fenómeno de superfície, e as principais angústias e necessidades humanas continuam sendo as mesmas? E, nesse caso, a literatura continua a ocupar o seu lugar e a se defrontar com o mesmo desafio, que é o velho desafio de sempre: a tentativa de dar sentido a uma existência que a todo segundo perde o sentido diante da ideia e da realidade da morte — ou seja, do si mesmo que é estilhaço e sobre o estilhaço avança.

Obrigado. Boa tarde a todos.


(palmas moderadas)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

“Um Ubaldo azul e errante”

“Um Ubaldo azul e errante”, JL — Jornal de Letras, Artes e Ideias, v. 1020, Lisboa, Portugal, 4 a 17 de nov. 2009, p. 22-23.

Resenha sobre o livro O albatroz azul, de João Ubaldo Ribeiro, ed. Edições Nelson de Matos.

Se o novelo da trama que se desvencilha em O albatroz azul é curto, com poucos personagens decisivos, pouca acção, quase nenhuma referência relevante a acontecimentos históricos e apenas dois registos temporais, que não se misturam — uma economia romanesca incomum na prosa de João Ubaldo Ribeiro —, o seu narrador, no entanto, continua irresistivelmente atrevido, altivo e potente no manejo manhoso de todos os pontos de vista que uma história nos pode dar.

E se a história que começa a descortinar-se diante do leitor é a do nascimento de um menino que inventou de se virar para cima na hora decisiva e assim criou dificuldades para sair, produzindo angústias no pai, suores na parteira, quase morrendo ele mesmo e ainda matando a mãe, a história que arranca a partir daí, terminado o parto, que resulta afinal bem-sucedido, obra dos santos, não é a do miúdo que nasceu com o rabo voltado para a lua cheia, mas a do seu avô — não a narrativa do início de uma trajectória, mas o atento acompanhamento do que seria o final de uma vida longa.

E é com atenção que o narrador começa a acompanhar Tertuliano Jaburu, o seu protagonista, às voltas com o nascimento do seu primeiro neto homem numa casa que o miúdo terá de dividir com as suas nove irmãs, pois o pai, Saturnino Bororó, é sujeito que pertence ao grupo dos “machos modelares sob todos os aspectos, do juízo e postura à aparelhagem frontal”, mas que no entanto produzem “gala feminil”. Já não mais, uma vez que Saturnino agora fez filho homem, e finalmente, embora ninguém ainda saiba do feito e nem do feto e todos sejam capazes de jurar que o bebé vem como mulher — a décima mulher. Somente o avô Tertuliano é que sabe ser o bebé homem, e só sabe porque um dia, parado à toa no Largo da Quitanda, ouviu um sopro — “um sopro que recebeu no ouvido, sem atinar de onde, e que lhe fez o peito palpitar”; um sopro que lhe cochichou, entre muitos resmungos ininteligíveis, que o mundo ganharia um nascente macho.

E assim foi. Se houve complicações, se o menino não descia, se estava caracterizado o chamado “entalamento”, porque a criança não vinha de cabeça; vinha de rabo, a barlavento — “desenlace trabalhoso e dificílimo em qualquer parte, até mesmo nas mais famosas maternidades e nas mãos dos mais trombeteados doutores, munidos dos mais moderníssimos aparelhos norte-americanos” —, se quase se configura, afinal, naquela manhãzinha de sol na Denodada Vila de Itaparica, uma verdadeira troca de lugares entre a vida e a morte, também houve ali, na mesma proporção e ao mesmo tempo, a fagulha de perspicácia e graça que atingiu o avô Tertuliano, que percebeu, enquanto conversava com um amigo ao pé da porta, e no instante em que levantou os olhos para o céu, que a lua se tinha tornado cheia. Tornou-se cheia durante a noite anterior e agora ali estava, redondíssima e visível, mesmo com o sol subindo entre as nuvens. Era preciso avisar a parteira. “Cadê Altina, era preciso dar uma mão a ela e contribuir para não se vir a cometer o pecado irremissível de perder a ocasião raríssima que agora só faltava falar para chamar a atenção, uma verdadeira sorte grande da loteria federal em dia de feriado nacional, a maior pule de todas as possíveis!” E assim foi.

Raymundo Penaforte, o primeiro neto homem de Tertuliano Jaburu, nasceu bem e com os pezinhos apontados para baixo. Foi passado pela parteira, ainda gosmento, para as mãos do avô e rapidamente içado para o alto, para diante da janela do quarto que dava de frente para aquela lua cheia. E Tertuliano, com todo o cuidado, segurando o pequeno pelos tornozelos e amparando a sua nuquinha, fez a única coisa que tinha de fazer: ostentou “à lua cheia propiciatória o cu do neto, para que fosse iluminado pelos raios benfazejos que para sempre marcariam a trajetória de quem é dessa forma apresentado”.

Ainda estamos no capítulo terceiro, e praticamente não ouviremos mais senão duas ou três menções a este neto homem, que, ao contrário de todas as expectativas, não voltará à cena do narrado, porque a cena do narrado pertence ao avô. É Tertuliano Jaburu quem está na mira do foco do narrador; é nele que mora a alma do livro, e também a sua densidade, a sua razão de ser e, principalmente, a sua melancolia. Os demais personagens, se ali estão — e se o narrador se dá ao trabalho de os caracterizar com a robustez, a riqueza lexical e a desenvoltura barroca da sua prosa —, é para servirem de estímulo e mote para o que se vai desencavar das angústias e recordações de Tertuliano.

A narrativa inteira é como se transcorresse unicamente dentro da cabeça deste avô, que começa a ouvir vozes um pouco antes do nascimento do neto, inicia uma série de rememorações purgativas sobre a própria infância e avança pela segunda metade do livro anunciando alegremente a todos os amigos que encontra pelos caminhos que está prestes a morrer de uma hora para outra para poder começar uma outra vida o quanto antes.

Tal mudança no modo de olhar para a frente e para trás da própria existência talvez se deva às coisas nebulosas que lhe disse o seu amigo Nestor Gato Preto, “deste modo apelidado por ser mais retinto que uma broxa besuntada de piche e ter os olhos tão azuis que brilhavam no escuro, flutuando acima dos dentes”. Gato Preto, após o despejamento do neto de Tertuliano, jogou as suas cartas, consultou os seus santos e notou que pegada ao nome de Tertuliano não havia uma vida, como sempre há uma vida pegada em todos os nomes levados à consulta dos santos — como se Tertuliano Jaburu, já velho e dez vezes avô, não tivesse efectivamente vivido, até àquele momento, uma vida como deve ser.

Aquilo o transtornou ao ponto de ele, olhos húmidos e queixo tremido, começar a rememorar a sua infância, toda ela marcada por cinismos, dissimulações e um complicado amor ao pai. São as histórias da família de Tertuliano, a começar pelo seu avô e chegando ao seu pai, que ocupam o miolo do romance e constituem os seus momentos de mais acção. João Ubaldo narra com agilidade e competência linguística a transtornada história de Nuno Miguel Botelho Gomes, pai de Juvenal Peixoto do Amaral Viana Botelho Gomes, pai de Tertuliano Botelho Gomes, ou Tertuliano Jaburu — um português “que chegou à Bahia com uma mão na frente e outra atrás, mas de moço de quitanda logo subiu a quitandeiro e num triz a merceeiro, sem demora a armazeneiro, atacadista, atravessador, importador e distribuidor e adiante só seguiu ladeira acima, com labuta sem trégua, ladinice, avareza, mão fechada, coração de pedra, confiança em ninguém, palavra sempre cumprida e nem com sonhos perdendo tempo, a não ser que fosse sonho com negócios e dinheiro”.

O romance inicia com esta segunda história o que se chama de uma “narrativa encaixada”. Deixamos de lado o dia-a-dia amansado de Tertuliano e caímos no redemoinho da história de seu avô Nuno Miguel, que, bem casado, rico e já com o filho Juvenal nascido, assiste no Brasil à morte da mulher naquele que teria sido o seu segundo parto. Desesperançado, volta para Portugal, deixando o primogénito lá mesmo na Bahia, aos cuidados da madrinha, também viúva, e passa a relacionar-se com o filho apenas por carta. Juvenal cresce, tornando-se um homem com qualidades, e continua a viver na casa da madrinha, amancebado agora com as suas duas filhas, Catarina e Albina, sendo esta última a mãe de Tertuliano. Juvenal vive bem no Brasil, bonito, endinheirado, respeitado e mimado, em nenhum momento passando pela sua cabeça que precisaria de optar por uma das duas camas que lhe abrigam o corpanzil, até o dia em que chega uma carta do pai, Nuno Miguel, lá de Portugal, com uma notícia-bomba. Não se contará a aqui o assombroso desenvolvimento dos fatos que levarão Juvenal a ter de optar entre Albina e Catarina, e nem de que modo insólito e cruel esta opção afectará para sempre a vida de seu filho.

Embora quem relembre o avô e o pai seja o nosso Tertuliano Jaburu, não é ele que nos contará tudo isso, porque se contasse começaria a chorar e nunca mais pararia. Quem conta a história é o grande personagem da ficção ubaldiana — o narrador, que, tal como um maestro, vai controlando a entrada e a saída dos personagens, bem como aquilo que pensam e dizem, unicamente através do manejo do discurso indirecto livre, recurso que João Ubaldo Ribeiro, narrador de mão cheia, sabe utilizar como poucos, no que se configura uma verdadeira arte de contar histórias, e isso a um tal ponto que os personagens só em raros momentos ganham direito a um travessão de discurso directo.

O albatroz azul é o décimo romance de João Ubaldo Ribeiro, escritor nascido na Ilha de Itaparica, Bahia, em 1941, e que está hoje com 68 anos. Pode-se dizer que este é o seu romance mais introspectivo e triste. Tertuliano é um homem triste; a vida de Tertuliano é, na sua maior parte, também triste, e de uma tristeza serena e constante, sendo os seus momentos menos tristes ironicamente aqueles em que passa a acreditar que irá morrer dali a pouco, anunciando assim a boa nova aos amigos; a história de seus antepassados é triste; e não poderia ser senão triste o tom do narrador, uma vez que está quase todo o tempo em focalização interna com Tertuliano — um narrador que só não fala mais da morte e da velhice porque tem uma história de vida para contar, ou um romance para escrever.

Sim, é claro que é tudo ficção, e a arte de narrar é a arte de fingir, e o poeta é (finge ser) um fingidor. Isso já se sabe, mas a ficção de João Ubaldo Ribeiro está longe de permanecer incontaminada pelos sopros do biografismo. Ele não está o tempo todo a criar somente a partir do que os seus atentos e etnográficos olhos captam, como um observador da cultura e dos homens confortavelmente posicionado do lado de fora da página. Não. Além de lançar mão dos contextos itaparicano, baiano e sergipano — que lhe são autobiográficos por excelência —, Ubaldo põe para falar e pensar, em todos os seus romances, sem excepção, personagens que funcionam como um canal de expressão das suas opiniões pessoais sobre muitos temas e ainda das suas mais íntimas maneiras de olhar para o mundo que o engole — expressas publicamente em entrevistas e artigos para a imprensa.

Mas o leitor, neste romance, conhecerá um novo Ubaldo, agora às voltas com um novo tema, que é o velho tema, o tema de sempre, o tema de todo dia, que é o próprio fim, uma das maneiras de se falar da própria vida. E por que é que o livro se chama, então, O albatroz azul? Não é só porque há uma borboleta da ordem dos lepidópteros, da classe dos hexápodes, do filo dos artrópodes, da família dos Pieridae e que se chama justamente Blue Albatross… Também não é porque o albatroz é considerado, segundo as mais tristes lendas do mar, a encarnação da alma dos marinheiros mortos… Há outra razão, e a resposta está no fim — porque é no fim, já disse alguém, que todos nós morreremos.

Trecho 1:

“… Tertuliano se despediu com novo abraço e ainda falou alguns instantes com Gustavo e Natálio, que não aparentaram haver estranhado nada da conversa havida na frente deles. Pelo contrário, Natálio, muito compenetrado, disse que entendia tudo perfeitamente e endossava o que falara Nascimento, no compreendido e no não tão bem compreendido. Não somente isso, mas teria muito prazer em comparecer ao funeral, seria uma honra, contassem com ele do velório à missa de trigésimo dia, os amigos e admiradores não podiam faltar naquela hora. Tertuliano já sabia a data exata do passamento? Não sabia? Bem, não fazia diferença. Quando acontecesse, estaria a postos, no que foi secundado por Gustavo, que apertou a mão de Tertuliano demoradamente. Nunca desfrutara de maior aproximação com Seu Tertuliano, mas sempre o tivera em alta conta, pelo seu belo comportamento e invejável equilíbrio. Agora surgia outro motivo para inveja, qual seja morte tão bem organizada e encaixada, ideal de todos e apanágio de pouquíssimos, até mesmo entre os membros das irmandades da Boa Morte pelo mundo afora. Também estaria no funeral com muito gosto e orgulho, até porque uma das boas coisas de sua vida, de que sempre se orgulharia, fora ter conhecido Seu Tertuliano e com ele várias vezes convivido.”

Trecho 2:

“Assim contemplada do Jardim, a enchente da maré engana os olhos e a mente, na hora em que o sol já invade tudo o que se descortina, esbatendo tons de açafrão reluzente entre as folhas das amendoeiras, as ameias da Fortaleza e os contornos das nuvens. Muitas embarcações vão aproveitando o empuxo da correnteza e bordejam o lado fronteiro no prumo da Ilha, embora grande parte já de longe talhe derrota para os portos de dentro do Recôncavo e outra parte aproe afora depois de costear a leste, o velame alvo ou ocre pálido panejando contra o azul-escuro das águas mais fundas da baía. Ajuntamentos de mariscadores bulindo lá e cá como formigões vagarosos, curvados sobre a areia ou de joelhos em crateras de lama almiscarada, estalos e gorgolejos borbotando todo o tempo do vasto baixio que se funde com o horizonte, a maresia robustecida pelo sargaço amontoado ao pé do cais — e a enchente igual a um bicho engatilhado, que finge dormir mas está de bote armado, pressentida apenas no ronco do marulho longínquo. Quem não aprendeu, nada percebe. Por isso daí a pouco se surpreende e não raro se intimida com a água em roldão repentino sobre a areia dura, encobrindo-a como um lençol estendido às pressas, o mar alastrado passando a emoldurar o mundo e tomando posse da paisagem e dos ares. Desde cedo, os mais velhos procuram mostrar aos novatos na vida que nada resiste ao poder circunspecto da maré, a qual não faz alarde nem estardalhaço, mas ignora o que lhe esteja à frente e cumpre infalivelmente o seu curso, lição que, se levada em conta, conduz a uma existência bem menos inquieta do que ela sempre procura ser.”