sábado, 31 de outubro de 2009

"Lançamento de foguetes na Ler Devagar"

Bom. Não posso me queixar de nada. Meu lançamento foi óptimo. A Leonor Xavier e o José Carlos de Vasconcelos, em suas apresentações bem humoradas e inteligentes, me rasgaram ao meio de tantos elogios, e eu fiquei prosa (e verso), e depois eu disse algumas palavras, que aqui vão abaixo. E no dia seguinte saiu esta matéria no Jornal de Negócios aqui de Lisboa (na foto acima). Obrigado a todos os amigos que lá estiveram. Foi dos dias mais importantes para mim desde que por estas incríveis bandas aterrissei.

"Meu nome é Juvenal Batella de Oliveira. Tive de me dividir em dois esta noite, porque a emoção é grande demais para uma só pessoa. Nós dois, eu e o sr. Juva Batella, já fizemos outros lançamentos de livros juntos, mas este aqui é especial porque é o primeiro em aqui em Portugal. A rima foi involuntária. Peço desculpas. Não sou poeta. Sou um académico. Um doutor em Literatura. Escrevo teses. Não sou artista. O artista é o sr. Juva Batella. O mais que faço é estudar literatura, e tenho sido, dentro do possível, um observador quase atento a tudo o que o sr. Batella tem escrito ao longo dos anos.

Falo, então, apenas eu, o Juvenal de Oliveira, até porque o sr. Batella, o artista, está hoje especialmente tímido. Humores dos artistas, que são criaturas assim, instáveis por natureza. Falo eu, também, porque não sou propriamente o autor do livro e tenho, portanto, um olhar mais distanciado.

Mas quero antes de tudo agradecer, em nome do sr. Batella, a todos vocês por estarem aqui hoje. É graças a todos vocês que estamos aqui hoje. É claro que, se o sr. Batella não tivesse escrito um livro, ninguém estaria aqui hoje. Mas, por outro lado, se vocês não estivessem aqui hoje, com o sr. Batella tendo escrito o livro, só estaríamos aqui hoje eu e o sr. Batella, e este último com uma cara não muito boa. E isso não teria a mínima graça.

Quero também agradecer ao José Carlos de Vasconcelos e à Leonor Xavier, que são muito amigos do sr. Batella e estão a acompanhar o trabalho do sr. Batella há muito tempo, por tudo o que disseram aqui. E desde que nós dois, eu e o sr. Batella, viemos morar cá em Portugal, o José Carlos e a Leonor têm estado ambos muito presentes e têm ajudado muito, principalmente ao sr. Batella, que é escritor e, como todo escritor que se preze, precisa muito da ajuda dos amigos.

E, para não me alongar mais, porque nós, os académicos, temos a tendência a um certo alongamento verbal, devo lhes dizer que já li alguns dos livros que o sr. Juva Batella escreveu, mas não li todos, porque tenho mais o que fazer, porque sou um académico e gosto de me debruçar sobre a chamada literatura consagrada, e não sobre a literatura assim mais de vanguarda. Mas este livro, O verso da língua, eu li, até porque foi o primeiro que o sr. Batella escreveu. Li e gosto bastante dele, embora ele seja, para os meus gostos, um bocadinho experimental demais. Não é à toa que está nessa colecção da ed. Presença, chamada LADO B… Há no livro muitas pequenas metalinguagens e, a atravessar toda a história, uma grande metalinguagem. O sr. Batella apropria-se do signo gráfico e ortográfico, e ainda das categorias gramaticais e sintácticas, e os utiliza a todos como personagens. E todos se transformam em sujeitos da escrita e, em intenso diálogo dentro da narrativa, passam a agir segundo a função referencial que exercem no universo da gramática. O sr. Batella faz do código linguístico a sua matéria-prima.

Eu disse a ele, na época em que ele estava lá, debruçado sobre a máquina de escrever Remington que foi do tio dele, que outros escritores já tinham feito coisa semelhante: Umberto Eco, nO nome da Rosa, em 1983; Lawrence Sterne, no Tristram Shandy, em 1760; e ainda alguns franceses. E me lembro que ele me dizia assim, nós estávamos no quarto, ele de cuecas, e ele, sem nem mesmo se dar ao trabalho de levantar os olhos da máquina onde martelava aquelas maluquices com ferocidade: “Eles fizeram, mas não com esta radicalidade…”. Eu na época ri de tamanha ingenuidade académico-literário-linguístico-semântico-simbólica. Pudera, o sr. Batella tinha 24 anos… Mas hoje devo admitir, e aproveito que estamos todos aqui para o fazer publicamente, que ele tinha razão.

E, mesmo que eu não aprecie muito as chamadas experiências literárias radicais, e nem ainda todas aquelas experiências literárias que se auto-proclamam radicais e inéditas, devo admitir que O verso da língua é, sim, um livro bastante interessante e que merece ser lido, mas apenas uma vez, é claro, porque, como disse o meu personal trainer, a vida é curta, a morte é iminente, e, se ler já é difícil, reler é quase impossível, sem falar que há muitas coisas boas para se ler neste mundo para o sujeito se dar ao luxo de reler o que quer que seja…

Obrigado a todos."
Lisboa, 29 de Outubro de 2009

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

"Um romance gramatical"

GASPAR, Eva, "Um romance gramatical", Livro, Jornal de Negócios, Lisboa, 30 de Outubro de 2009.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Lançamento O verso da língua em Lisboa (convite)


Nesta próxima quinta-feira, dia 29 de outubro, estarei publicando cá em Portugal o meu primeiro livro, que foi o primeiro livro que escrevi na vida, em 1994, e publiquei no Brasil em 1995: O verso da língua, agora pela Editorial Presença, na edição 2009.

O lançamento vai ser na Livraria Ler Devagar, que é uma livraria muito simpática e famosa aqui em Lisboa, agora localizada num complexo de galpões chamado LX Factory, no bairro de Alcântara, às 19h.

O lançamento terá a participação da escritora Leonor Xavier e do jornalista José Carlos de Vasconcelos, que farão a apresentação do livro.

Estou feliz.

sábado, 24 de outubro de 2009

O perigo de ser útil

“Na região de Chiang-Shih, no estado de Song, há lindas florestas de plátanos, amoreiras e ciprestes. Acontece que, quando atingem dois ou três palmos de altura, algumas dessas árvores são cortadas para servir de poleiros; das que medem quatro ou cinco palmos, há algumas que são cortadas para fazer estacas; e, das que chegam aos sete e oito palmos, muitas são serradas para tábuas de caixões. Assim, nenhuma destas chegou ao termo natural da sua vida, nem pôde desfrutar, do alto do seu cume, a imagem do mundo para a qual tinha sido criada, e, a meio do seu destino, caiu sob os golpes do machado.

Este é o perigo de se ser útil…”

Ichonang-Tseu