quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A divisão do mundo – Parte I

Já se dividiram as pessoas deste planeta de muitas maneiras, algumas necessárias e produtivas, com consequências benéficas para todos, como, por exemplo, entre pessoas deficientes e não-deficientes e entre pessoas necessitadas de assistência e aquelas que não necessitam, antes prestam a referida assistência — embora haja uma terceira categoria, que é a daquelas que não necessitam de assistência e nem prestam assistência —, e algumas não tão necessárias mas mesmo assim praticadas, como a divisão entre pretos e brancos e amarelos e índios. Há ainda aquelas divisões que são pérfidas, vis, maléficas e escrotas, que são as divisões entre puros e impuros, judeus e não-judeus, hereges e não-hereges, escolhidos e renegados, escravos e senhores, e esta lista, infelizmente, é extensa, embora já tenha sido mais.

Temos ainda, no planeta, os seres humanos divididos entre os carecas e os não-carecas, os homossexuais, os heterossexuais, e os bissexuais, e também os malucos e os não-malucos, as mulheres que gozam muito, as que gozam pouco e as gozadoras, que praticamente não gozam mas se divertem horrores, e ainda os homens que gozam rápido e os que demoram a gozar, e ainda os tântricos, que gozam muitas vezes. Há também os que lêem e os que não lêem, e entre estes os que não lêem porque não sabem e os que não lêem porque não querem; os que trabalham e os que não trabalham, e entre estes os que não trabalham porque não têm trabalho e os que não trabalham porque vivem de juros; e ainda os que fumam e os que não fumam; os que bebem e os que não bebem; os que comem carne vermelha e os que não comem, e antes destes, claro, os que comem e os que não comem, e entre os que não comem estão aqueles que não comem porque acham que comer engorda, os que não comem porque não têm mesmo o que comer e os que comem e vomitam, que é para poderem comer e não engordar.

Creio que esta lista, que beira o caótico, corre o perigo de não ter fim, razão pela qual eu proponho ainda, somente para que fique demonstrado o seu caráter infinito, variado e aleatório, a divisão entre aqueles que fazem ginástica de manhãzinha e aqueles que fazem ginástica à noitinha, entendendo aqui por ginástica qualquer tipo de exercício físico que alcance um ritmo cardiovascular satisfatório e que se prolongue por no mínimo quarenta minutos. Desnecessário dizer que esta divisão inclui, em ambas as categorias manhãzinha e noitinha, os pretos, os brancos e os amarelos (mas não os índios, que os índios têm mais o que fazer), e inclui também os que têm algum dinheiro e os que comem diariamente (vomitando ou não vomitando depois), e entre os que comem inclui tanto os que comem carne vermelha tanto os que não comem, os que bebem e os que não bebem, os que fumam e os que não fumam, podendo incluir os que lêem, mas também os que não lêem, seja porque não sabem, seja porque não querem, embora os que não saibam raramente se encaixarão nas categorias dos que malham, seja de manhãzinha, seja à noitinha, porque malhar significa acreditar que malhar faz bem à saúde, ou seja, significa possuir um nível razoável de informação acerca do assunto, e se, muitas vezes, nem mesmo os que sabem ler estão informados acerca dos benefícios de uma vida esportivamente ativa, imagine os que não sabem ler, os quais estão, infelizmente, em nossa sociedade, excluídos do show. A categoria dos que malham, seja de manhãzinha, seja à noitinha, inclui ainda todos os sexuais, hetero, homo e bi, os que gozam rápido e os que demoram a gozar, e ainda as mulheres que gozam muito, as que gozam pouco e as gozadoras, que praticamente não gozam mas se divertem como o diabo, e ainda os gordos, os ok e os magrelas. Inclui também os que prestam assistência e os que não prestam, mas quase sempre exclui os que necessitam de assistência, considerando que a atividade malhatória, num contexto de carência de recursos de sobrevivência (e de calorias), pode ser, e é, considerada um luxo e um perigo para a saúde (ou para a falta de saúde). Incluirá ainda os não-malucos, mas também os malucos, isto somente se levarmos em conta a relatividade do conceito de maluquice, uma vez que cresce, no mundo, a olhos vistos, entre a categoria dos malucos, a categoria dos chamados malucos por malhação. Se permanecermos na conceituação clássica da loucura e da não-loucura (ver Foucault, A história da loucura), os malucos somente poderão malhar de manhã ou no fim da tarde se a instituição psiquiátrica a que pertencem assim determinar, ou ainda se estiverem na condição de malucos não-detectados, condição que os permitirá frequentar academias de ginástica disfarçados de não-malucos (e as estatísticas nos revelam que não são poucos os casos).

Este início era para ser menos extenso, mas fazer o quê? Se a imaginação dos homens para se dividirem e subdividirem entre si não tem limites? Desenvolverei, na próxima oportunidade os traços de caráter mais marcantes dos seres humanos (uso o termo “seres humanos” bastante à vontade, uma vez que já procedi, nas linhas de cima, a todas as possíveis e delirantes especificações), dos seres humanos, eu dizia, que se incluem tanto na categoria dos que malham de manhãzinha, quanto na dos que malham à noitinha. Veremos o que pensam, o que não pensam, como se comportam em relação a si mesmos e aos outros, como vivem a vida, como comem, como bebem e como terminam, ao fim da noite, o seu dia. Chega de pensar; agora vou malhar.

2 comentários:

Mariela disse...

Isso é que é devaneio, hein Juva??? adorei, hahaha! beijos

Lívia Araújo disse...

Mari, o Juva nem me conhece mas eu adoro os devaneios dele. E tomei um susto de encontrar tantos posts em tão pouco tempo que estive fora.

Oi Juva! Que bom que voltaste!