sábado, 14 de novembro de 2009

Da série: “As crianças falam” - 1

"— Déia, você acredita em vampiro?
— Não.
— E em Deus… você acredita?
— Acredito.
— Se você se encontrasse com Deus, o que é que você pediria?
— Eu pedia pra ele acabá com as coisas que não existem.

(6 anos)"

Historietas retiradas do livro Me dá o teu contente que eu te dou o meu, organizado por Cristina Mattoso, ilustrado pelas crianças da Fundação Síndrome de Down, Campinas, Versus Editora, 2003.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

"Quid pro quo - Parte I: a mesa errada" / "Quid pro quo - Parte II: o tema certo" - "Colóquio Língua Cultura e Identidades"



"Colóquio Língua Cultura e Identidades"
12 e 13 de Novembro de 2009, Sociedade Portuguesa de Autores.

Moderador: Eugénio Lisboa (dia 13).

Com: Mário de Carvalho, Adalberto Alves, Jaime Salazar Sampaio, Carlos Paniágua, Mário Máximo (Portugal), Juva Batella (Brasil), Ana Paula Tavares (Angola), José Luís Hopffer Almada (Cabo Verde), Luís Carlos Patraquim (Moçambique).

"Quid pro quo - Parte I: a mesa errada"

Publiquei o meu primeiro livro aqui em Portugal — e esta frase tem dois sentidos válidos, porque publiquei, pela primeira vez, um livro em Portugal, e ao mesmo tempo esse livro foi o primeiro livro que publiquei, e ponto final. E agora estou um bocadinho, um tantinho de nada, um tamaninho só, quase-famoso — que para famoso ainda falta muito. Em duas semanas dei uma entrevista à televisão, duas entrevistas ao rádio, uma entrevista a um jornal e uma palestra. Não vou dizer que a palestra que dei tinha de durar no máximo dez minutos, porque havia mais gente para falar, mas vou dizer, sim, que era uma mesa de escritores e que eu estava a representar o Brasil.

Foi a comemoração do 60º aniversário da SLP — Sociedade da Língua Portuguesa —, através da realização de um colóquio intitulado Língua, culturas e identidades, que aconteceu no auditório da SPA — Sociedade Portuguesa de Autores. Eu, o escritor Juva Batella, que estava a representar o Brasil, deveria chegar às 16h30m e ocupar o meu lugar na mesa-redonda que era rectangular, diante do meu microfone. Foi o que fiz eu — ou seja, o Brasil. O Brasil chegou um bocadinho antes, às 16h, e ficou sentado assistindo ao debate anterior. Aquilo estava tudo um bocado atrasado, porque já eram 16h40m e a mesa anterior ainda estava a debater “O idioma português como língua filosófica” — um debate comprido e complexo e que o Brasil entendeu mais ou menos. Se ainda fosse o idioma brasileiro como língua filosófica, o Brasil pelo menos entenderia ainda menos. E lá ficou o Brasil, sentado e de braços cruzados.

Aconteceu então, ao final do debate, a chamada e ansiada “pausa para o café”, que faz qualquer português, filosófico ou não, animar-se e levantar-se, e foi nesse momento que o Brasil se levantou de seu berço esplêndido e foi para a pastelaria que ficava ali mesmo na frente da SPA, na própria Rua Gonçalves Crespo, só que do outro lado, e pediu o Brasil uma imperial (um chope, e não há acordo ortográfico que resolva isso, até porque isso não é ortografia; é lexicografia), e bebeu o Brasil aquela imperial com gosto e a pensar no que seria a sua “intervenção”, que é uma palavra que se está a usar muito aqui para substituir a expressão “a sua vez de falar”. O tema proposto para a mesa-redonda que era rectangular e da qual o Brasil, representado pelo seu escritor mais quase-famoso, iria participar intitulava-se, segure-se quem puder: “Os desafios da escrita nos nossos dias. O ato da criação literária: sintoma patológico ou a busca da mente do outro?”.

O Brasil, depois da imperial, se chegou em alguns momentos a ficar ansioso com a sua “intervenção” que já se avizinhava, já não estava mais. Entrou, impávido colosso, no auditório e cruzou à entrada com o professor Carlos Reis, da Universidade de Coimbra, e o professor Carlos Reis adora o Brasil — não o Brasil que tinha acabado de tomar a imperial, mas o Brasil mesmo, o representado, embora o professor Carlos Reis também tenha simpatia pelo escritor Juva Batella, e tanto isso é verdade que, mal o viu, já avançou, a mão estendida para a frente, e disse, em discurso directo na primeira pessoa: “Tenho muito gosto em vê-lo, meu caro Juva Batella!”. E este, todo prosa (e todo verso também), sorriu de volta, apertou-lhe a mão, num aperto de mão narratológico, disse alguma coisa, mas em indirecto livre (preferências de escritor), apertou também a mão da mulher do professor Carlos Reis, que é do Brasil, da sua parte sulista, e desejaram-se todos, o escritor, o professor e a senhora gaúcha, boa sorte em suas “intervenções”.

Fortalecido pelo aperto de mão do Carlos Reis e ainda por ver que o professor de Coimbra se lembrava muito bem do jovem escritor, pois ele foi o seu quase-co-orientador na sua tese de Doutoramento — e ainda chegaram a tomar cafezinhos juntos na Modern Sound ali de Copacabana, no longínquo Rio de Janeiro do ano de 2004 —, o Brasil, representado por este que escreve, sentou-se finalmente à mesa-redonda que era rectangular, arrumou os papéis da sua “intervenção” e esperou que a presidente da SLP, Dra. Maria Elsa Rodrigues dos Santos, fizesse as apresentações. Mas ela não as fez.

Estava ao meu lado na mesa um professor, o José Luís Pires Laranjeira, mais um outro senhor de bigodes, que não sei quem é, e mais a Dra. Elsa. “E onde estarão os escritores que representarão os demais países?”, pensei. “Onde estarão Mário de Carvalho, Adalberto Alves, Jaime Salazar Sampaio, Carlos Paniágua, Mário Máximo (representando Portugal), e ainda Ana Paula Tavares (Angola), José Luís Hopffer Almada (Cabo Verde) e Luís Carlos Patraquim (Moçambique)?”. Ali à mesa só estava o Brasil, a Dra. Elsa, o outro senhor de bigodes e ainda o professor Pires Laranjeira. “Será que Angola, Moçambique, Cabo Verde e Portugal estavam também na pastelaria, disfarçados, a beber imperiais e a comer pastéis de nata?”

O Pires Laranjeira começou a falar numa velocidade estonteante (porque tudo, afinal, estava muito atrasado), e em dois minutos eu percebi que ele não estava a fazer a sua “intervenção” acerca do tema que eu tanto havia estudado em casa: “Os desafios da escrita nos nossos dias. O ato da criação literária: sintoma patológico ou a busca da mente do outro?”. O Pires laranjeiras estava a analisar a obra do poeta cabo-verdiano Arménio Vieira. “Deve haver algo errado”, pensei. “Será que estou na mesa-redonda errada?” E, quando o Pires Laranjeira fez referência, no meio da sua “intervenção”, ao grande quiproquó havido — do latim quid pro quo: isto por aquilo, uma coisa por outra; logo, uma mesa por outra —, eu tive a certeza de que eu estava mesmo na mesa-redonda errada. “A Dra. Elsa Rodrigues está a me ver aqui sentado, na mesa errada, e não me avisa nada? Estranho…” E eu tive então outra certeza mais horripilante: a certeza de que havia entendido tudo errado; que o meu verdadeiro tema, como representante do Brasil, e porque nesse mundo das artes e das academias e das palestras e dos colóquios e das mesas-redondas tudo o que se almeja e se pretende em termos culturais é justamente integrar e viabilizar tangências e proceder a dialécticas — o meu verdadeiro tema era então, na condição de literato de um país de língua portuguesa, analisar a obra do literato de um outro país de língua portuguesa, e o meu objecto de estudo era precisamente o Arménio Vieira, o que mais poderia ser? E era por isso que a Dra. Elsa Rodrigues estava a me ver ali naquela mesa e não fazia nada: porque ali era de facto o meu lugar, a mesa sobre o Arménio Vieira. Eu havia incorrido num grande equívoco, uma troca de linhas na relação dos participantes e dos temas, e tinha de me safar daquilo. Qual sintoma patológico! O meu tema era o Arménio Vieira! Nossa Senhora dos Sarilhos!

O Pires Laranjeira agora está a agradecer, e todos estão a aplaudir, e eu estou a suar por baixo da primeira camisa, e nos próximos segundos vão me passar o microfone e eu terei então de fazer a minha “intervenção” sob a forma de uma análise da obra do poeta cabo-verdiano Arménio Vieira. Aliviava-me sobremaneira o fato de eu só ter (porque tudo estava um bocado atrasado) dez minutos, e não mais que dez minutos, para dar o meu recado.

E, sempre sorrindo, melhor ainda do aqueles pinguins do filme Madagáscar, que estão sempre “a sorrir e acenar”, pensei que eu poderia, na minha “intervenção”, ficar três minutos a agradecer o convite que me foi feito; quatro minutos a falar da importância de eu estar a realizar aquela palestra sobre aquele tema justamente ali naquele sítio, e com aquelas pessoas, e depois mais três minutos a lamentar não ter tido tempo de falar mais sobre o poeta Arménio Vieira, mas que, de todo modo, se a Dra. Elsa Rodrigues me permitir abusar mais um bocadinho da paciência dos senhores, eu poderia ler aqui um dos poemas que considero mais representativos de toda a sua poética, que poderíamos chamar de sócio-erudita — uma poética de desconstrução e ruptura e ao mesmo tempo uma tentativa de reconstrução de uma nova estética; uma estética baseada e alimentada, a cada obra, pela imensa capacidade de síntese e, portanto, de conciliação social, o que pode parecer paradoxal mas não é. E eu pegaria então da mesa um dos livros de que se estava a servir o professor Pires Laranjeira — pegaria o MITOgrafias, que estava ali à minha frente e cuja capa era bonita —, abriria numa página qualquer e, com uma inadmoestável expressão de inteligência e ainda com a testa enrugada, leria, bem devagar, o primeiro poema que me aparecesse aos olhos.

Eu estava já para começar a minha farsa poética quando subitamente o professor Pires Laranjeira se levanta, a Dra. Elsa Rodrigues toma da palavra e chama para a mesa-redonda que era rectangular Portugal e Cabo Verde, diz que o Brasil já estava posicionado e pede desculpas pela ausência de Angola e Moçambique, que não puderam estar presentes. E então eu me vejo novamente recolocado, ao lado do escritor português Mário de Carvalho e do poeta cabo-verdiano José Luís Hopffer Almada. E, mais uma vez, girei uma chave imaginária dentro da minha cabeça, retirando-a do alvo “Arménio Vieira” e reposicionando-a agora para o alvo original: “Os desafios da escrita nos nossos dias. O acto da criação literária: sintoma patológico ou a busca da mente do outro?”. O mundo se havia reconstruído, e eu teria então de fazer a minha “intervenção”.

"Quid pro quo - Parte II: o tema certo"


— Boa tarde a todos. Meu nome é Juva Batella. Eu sou brasileiro, moro em Portugal há cinco anos e estou muito feliz, e por duas razões: a segunda razão é o fato de eu ter conseguido finalmente publicar cá um romance, que se chama O verso da língua e cuja editora é a Presença. A primeira razão é o facto de eu não ter de fazer, neste instante, uma palestra sobre o poeta cabo-verdiano Arménio Vieira, sobre o qual tudo o que sei aprendi mesmo agora, aqui ao lado do professor Pires Laranjeira.

(risos moderados)

— E tudo o que aprendi, tenho a certeza, nunca mais na vida esquecerei. Isto tudo para dizer que estou na mesa certa e tenho sobre o meu colo o tema certo, que vem a ser justamente este: Quais os desafios da escrita nos nossos dias? O acto da criação literária: sintoma patológico ou a busca da mente do outro?

Há dentro deste tema quatro grandes sub-temas: 1) os desafios da escrita no mundo de hoje, 2) o acto da criação literária, ou seja, o acto de se escrever literatura, 3) o sintoma patológico e 4) a busca da mente do outro. É bem verdade que um título como esse também não é menos preocupante; um título como esse pode deixar um sujeito sem dormir pelos dois dias anteriores à sua “intervenção”, embora eu já vá prevenindo os senhores de que não pretendo intervir em nada — antes, pelo contrário, espero que intervenham na minha pequena digressão de modo a me fazerem parar de falar quando acabarem os dez minutos a que tenho direito. Tinha, aliás — porque, estrategicamente, já gastei pelo menos três a fazer piadas.

Em sete minutos, portanto, eu digo que não acredito ser o acto da criação literária um sintoma patológico. Se for assim, poderíamos falar também que, do mesmo modo como o acto de escrita é um sintoma patológico, o ato de tocar piano também o é; o acto de pintar quadros também o é; o acto de dançar e o acto de tocar baixo acústico e de compor música também o são — tomados todos como actos de criação.

O caminho de pensamento e análise que parte da relação entre loucura e arte é um caminho específico e que conduz a descobertas e experiências específicas. Isso não me interessa. A arte não é para mim uma celebração ou uma dignificação da loucura ou uma justificação ou ainda uma compensação para a loucura. Prefiro, antes, debruçar-me sobre o último elemento do nosso tema: o acto da criação literária como a busca da mente do outro. E é aqui neste tema que o nosso título funciona lindamente.

Eu não conheço as outras artes como conheço literatura, mas tenho a convicção de que a literatura instaura desde o seu primeiro acto de escrita a suprema necessidade da decisão acerca do mesmo e do outro. Porque a literatura, de um modo radical, parte sempre do mesmo princípio: o ponto de vista, a necessidade de se escolher um ponto de vista, sempre. Sempre que uma história tem de se contada, esta decisão tem de ser tomada: quem conta, para quem conta, de onde conta, como conta, e por aí seguem as perguntas, cada vez mais específicas.

Quando eu digo “a mente do outro” eu posso querer dizer também o mesmo, porque mesmo que se esteja na própria mente quando se escreve, e mesmo que se escreva sobre si mesmo, este si mesmo, quando é observado pelo si mesmo, se torna inevitavelmente um outro. Quando eu escrevo no papel “eu”, o “eu” que escreve não é o mesmo “eu” que é escrito.

A ciência costuma referir-se à consciência como o fenómeno mais fascinante e mais indescritível que há — “… é impossível explicar o que é, o que faz ou porque se desenvolveu. Nada que foi escrito sobre ela vale a pena ser lido”. Isto disse um psicólogo chamado Stuart Sutherland, citado pelo David Lodge, no seu livro A consciência e o romance, no qual eu muito baseio esta minha “intervenção”.

Mais adiante o próprio David Lodge vai refutar essa ideia, dizendo que “a literatura é um registo da consciência humana, o registo mais rico e abrangente que possuímos. (…) O romance é muito provavelmente o esforço mais bem sucedido do homem para descrever a experiência de seres humanos individuais a moverem-se através do espaço e do tempo”. Nenhuma ciência fez isso melhor do que a literatura.

E a consciência, segundo os cientistas que se debruçam sobre esse fenómeno, tem um carácter eminentemente narrativo. O Sr. António Damásio é um dos que fala disso: “Contar histórias é uma obsessão do cérebro’, diz ele, que ainda defende a ideia da “autoconsciência de si”.

“Autoconsciência de si” pode parecer um pouco redundante, mas não é. Não apenas temos consciência de nós mesmos, como temos consciência de estarmos a ter consciência de nós mesmos. Isso nada mais é do que o trabalho constante da consciência de unificar a nossa imagem de nós mesmos. Se não fizermos isso, perdemos a sanidade e escorregamos para a loucura.

Talvez nesse sentido a literatura seja, então, justamente o oposto: não um sintoma patológico, mas um sintoma de saúde. A consciência, para suportar a si mesma, tem de unificar o ser — o ser que, “na realidade”, não passa de um estilhaço de imagens —, e a literatura faz dessa unificação do ser a sua ficção. Esse si mesmo unificado é a nossa ficção suprema. E é nessa ficção suprema que eu acredito.

— Sr. Juva Batella, o senhor tem 1 minuto para concluir…

— Obrigado.

(tosses e pigarros)

— Quanto aos desafios da escrita nos dias que correm… Os desafios me parecem ser os mesmos desafios da escrita em outros tempos. É claro que se poderá falar aqui na especificidade da nossa pós-modernidade: a velocidade da vida, a tecnologia, os meios de comunicação, a instantaneidade da informação, o mundo digital, o futuro do livro impresso, a superficialidade, ou não, dos relacionamentos no universo da urbanidade, ou, já agora, da pós-urbanidade.

Mas será tudo isso tão decisivo assim, ou não será tudo isso um fenómeno de superfície, e as principais angústias e necessidades humanas continuam sendo as mesmas? E, nesse caso, a literatura continua a ocupar o seu lugar e a se defrontar com o mesmo desafio, que é o velho desafio de sempre: a tentativa de dar sentido a uma existência que a todo segundo perde o sentido diante da ideia e da realidade da morte — ou seja, do si mesmo que é estilhaço e sobre o estilhaço avança.

Obrigado. Boa tarde a todos.


(palmas moderadas)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

“Um Ubaldo azul e errante”

“Um Ubaldo azul e errante”, JL — Jornal de Letras, Artes e Ideias, v. 1020, Lisboa, Portugal, 4 a 17 de nov. 2009, p. 22-23.

Resenha sobre o livro O albatroz azul, de João Ubaldo Ribeiro, ed. Edições Nelson de Matos.

Se o novelo da trama que se desvencilha em O albatroz azul é curto, com poucos personagens decisivos, pouca acção, quase nenhuma referência relevante a acontecimentos históricos e apenas dois registos temporais, que não se misturam — uma economia romanesca incomum na prosa de João Ubaldo Ribeiro —, o seu narrador, no entanto, continua irresistivelmente atrevido, altivo e potente no manejo manhoso de todos os pontos de vista que uma história nos pode dar.

E se a história que começa a descortinar-se diante do leitor é a do nascimento de um menino que inventou de se virar para cima na hora decisiva e assim criou dificuldades para sair, produzindo angústias no pai, suores na parteira, quase morrendo ele mesmo e ainda matando a mãe, a história que arranca a partir daí, terminado o parto, que resulta afinal bem-sucedido, obra dos santos, não é a do miúdo que nasceu com o rabo voltado para a lua cheia, mas a do seu avô — não a narrativa do início de uma trajectória, mas o atento acompanhamento do que seria o final de uma vida longa.

E é com atenção que o narrador começa a acompanhar Tertuliano Jaburu, o seu protagonista, às voltas com o nascimento do seu primeiro neto homem numa casa que o miúdo terá de dividir com as suas nove irmãs, pois o pai, Saturnino Bororó, é sujeito que pertence ao grupo dos “machos modelares sob todos os aspectos, do juízo e postura à aparelhagem frontal”, mas que no entanto produzem “gala feminil”. Já não mais, uma vez que Saturnino agora fez filho homem, e finalmente, embora ninguém ainda saiba do feito e nem do feto e todos sejam capazes de jurar que o bebé vem como mulher — a décima mulher. Somente o avô Tertuliano é que sabe ser o bebé homem, e só sabe porque um dia, parado à toa no Largo da Quitanda, ouviu um sopro — “um sopro que recebeu no ouvido, sem atinar de onde, e que lhe fez o peito palpitar”; um sopro que lhe cochichou, entre muitos resmungos ininteligíveis, que o mundo ganharia um nascente macho.

E assim foi. Se houve complicações, se o menino não descia, se estava caracterizado o chamado “entalamento”, porque a criança não vinha de cabeça; vinha de rabo, a barlavento — “desenlace trabalhoso e dificílimo em qualquer parte, até mesmo nas mais famosas maternidades e nas mãos dos mais trombeteados doutores, munidos dos mais moderníssimos aparelhos norte-americanos” —, se quase se configura, afinal, naquela manhãzinha de sol na Denodada Vila de Itaparica, uma verdadeira troca de lugares entre a vida e a morte, também houve ali, na mesma proporção e ao mesmo tempo, a fagulha de perspicácia e graça que atingiu o avô Tertuliano, que percebeu, enquanto conversava com um amigo ao pé da porta, e no instante em que levantou os olhos para o céu, que a lua se tinha tornado cheia. Tornou-se cheia durante a noite anterior e agora ali estava, redondíssima e visível, mesmo com o sol subindo entre as nuvens. Era preciso avisar a parteira. “Cadê Altina, era preciso dar uma mão a ela e contribuir para não se vir a cometer o pecado irremissível de perder a ocasião raríssima que agora só faltava falar para chamar a atenção, uma verdadeira sorte grande da loteria federal em dia de feriado nacional, a maior pule de todas as possíveis!” E assim foi.

Raymundo Penaforte, o primeiro neto homem de Tertuliano Jaburu, nasceu bem e com os pezinhos apontados para baixo. Foi passado pela parteira, ainda gosmento, para as mãos do avô e rapidamente içado para o alto, para diante da janela do quarto que dava de frente para aquela lua cheia. E Tertuliano, com todo o cuidado, segurando o pequeno pelos tornozelos e amparando a sua nuquinha, fez a única coisa que tinha de fazer: ostentou “à lua cheia propiciatória o cu do neto, para que fosse iluminado pelos raios benfazejos que para sempre marcariam a trajetória de quem é dessa forma apresentado”.

Ainda estamos no capítulo terceiro, e praticamente não ouviremos mais senão duas ou três menções a este neto homem, que, ao contrário de todas as expectativas, não voltará à cena do narrado, porque a cena do narrado pertence ao avô. É Tertuliano Jaburu quem está na mira do foco do narrador; é nele que mora a alma do livro, e também a sua densidade, a sua razão de ser e, principalmente, a sua melancolia. Os demais personagens, se ali estão — e se o narrador se dá ao trabalho de os caracterizar com a robustez, a riqueza lexical e a desenvoltura barroca da sua prosa —, é para servirem de estímulo e mote para o que se vai desencavar das angústias e recordações de Tertuliano.

A narrativa inteira é como se transcorresse unicamente dentro da cabeça deste avô, que começa a ouvir vozes um pouco antes do nascimento do neto, inicia uma série de rememorações purgativas sobre a própria infância e avança pela segunda metade do livro anunciando alegremente a todos os amigos que encontra pelos caminhos que está prestes a morrer de uma hora para outra para poder começar uma outra vida o quanto antes.

Tal mudança no modo de olhar para a frente e para trás da própria existência talvez se deva às coisas nebulosas que lhe disse o seu amigo Nestor Gato Preto, “deste modo apelidado por ser mais retinto que uma broxa besuntada de piche e ter os olhos tão azuis que brilhavam no escuro, flutuando acima dos dentes”. Gato Preto, após o despejamento do neto de Tertuliano, jogou as suas cartas, consultou os seus santos e notou que pegada ao nome de Tertuliano não havia uma vida, como sempre há uma vida pegada em todos os nomes levados à consulta dos santos — como se Tertuliano Jaburu, já velho e dez vezes avô, não tivesse efectivamente vivido, até àquele momento, uma vida como deve ser.

Aquilo o transtornou ao ponto de ele, olhos húmidos e queixo tremido, começar a rememorar a sua infância, toda ela marcada por cinismos, dissimulações e um complicado amor ao pai. São as histórias da família de Tertuliano, a começar pelo seu avô e chegando ao seu pai, que ocupam o miolo do romance e constituem os seus momentos de mais acção. João Ubaldo narra com agilidade e competência linguística a transtornada história de Nuno Miguel Botelho Gomes, pai de Juvenal Peixoto do Amaral Viana Botelho Gomes, pai de Tertuliano Botelho Gomes, ou Tertuliano Jaburu — um português “que chegou à Bahia com uma mão na frente e outra atrás, mas de moço de quitanda logo subiu a quitandeiro e num triz a merceeiro, sem demora a armazeneiro, atacadista, atravessador, importador e distribuidor e adiante só seguiu ladeira acima, com labuta sem trégua, ladinice, avareza, mão fechada, coração de pedra, confiança em ninguém, palavra sempre cumprida e nem com sonhos perdendo tempo, a não ser que fosse sonho com negócios e dinheiro”.

O romance inicia com esta segunda história o que se chama de uma “narrativa encaixada”. Deixamos de lado o dia-a-dia amansado de Tertuliano e caímos no redemoinho da história de seu avô Nuno Miguel, que, bem casado, rico e já com o filho Juvenal nascido, assiste no Brasil à morte da mulher naquele que teria sido o seu segundo parto. Desesperançado, volta para Portugal, deixando o primogénito lá mesmo na Bahia, aos cuidados da madrinha, também viúva, e passa a relacionar-se com o filho apenas por carta. Juvenal cresce, tornando-se um homem com qualidades, e continua a viver na casa da madrinha, amancebado agora com as suas duas filhas, Catarina e Albina, sendo esta última a mãe de Tertuliano. Juvenal vive bem no Brasil, bonito, endinheirado, respeitado e mimado, em nenhum momento passando pela sua cabeça que precisaria de optar por uma das duas camas que lhe abrigam o corpanzil, até o dia em que chega uma carta do pai, Nuno Miguel, lá de Portugal, com uma notícia-bomba. Não se contará a aqui o assombroso desenvolvimento dos fatos que levarão Juvenal a ter de optar entre Albina e Catarina, e nem de que modo insólito e cruel esta opção afectará para sempre a vida de seu filho.

Embora quem relembre o avô e o pai seja o nosso Tertuliano Jaburu, não é ele que nos contará tudo isso, porque se contasse começaria a chorar e nunca mais pararia. Quem conta a história é o grande personagem da ficção ubaldiana — o narrador, que, tal como um maestro, vai controlando a entrada e a saída dos personagens, bem como aquilo que pensam e dizem, unicamente através do manejo do discurso indirecto livre, recurso que João Ubaldo Ribeiro, narrador de mão cheia, sabe utilizar como poucos, no que se configura uma verdadeira arte de contar histórias, e isso a um tal ponto que os personagens só em raros momentos ganham direito a um travessão de discurso directo.

O albatroz azul é o décimo romance de João Ubaldo Ribeiro, escritor nascido na Ilha de Itaparica, Bahia, em 1941, e que está hoje com 68 anos. Pode-se dizer que este é o seu romance mais introspectivo e triste. Tertuliano é um homem triste; a vida de Tertuliano é, na sua maior parte, também triste, e de uma tristeza serena e constante, sendo os seus momentos menos tristes ironicamente aqueles em que passa a acreditar que irá morrer dali a pouco, anunciando assim a boa nova aos amigos; a história de seus antepassados é triste; e não poderia ser senão triste o tom do narrador, uma vez que está quase todo o tempo em focalização interna com Tertuliano — um narrador que só não fala mais da morte e da velhice porque tem uma história de vida para contar, ou um romance para escrever.

Sim, é claro que é tudo ficção, e a arte de narrar é a arte de fingir, e o poeta é (finge ser) um fingidor. Isso já se sabe, mas a ficção de João Ubaldo Ribeiro está longe de permanecer incontaminada pelos sopros do biografismo. Ele não está o tempo todo a criar somente a partir do que os seus atentos e etnográficos olhos captam, como um observador da cultura e dos homens confortavelmente posicionado do lado de fora da página. Não. Além de lançar mão dos contextos itaparicano, baiano e sergipano — que lhe são autobiográficos por excelência —, Ubaldo põe para falar e pensar, em todos os seus romances, sem excepção, personagens que funcionam como um canal de expressão das suas opiniões pessoais sobre muitos temas e ainda das suas mais íntimas maneiras de olhar para o mundo que o engole — expressas publicamente em entrevistas e artigos para a imprensa.

Mas o leitor, neste romance, conhecerá um novo Ubaldo, agora às voltas com um novo tema, que é o velho tema, o tema de sempre, o tema de todo dia, que é o próprio fim, uma das maneiras de se falar da própria vida. E por que é que o livro se chama, então, O albatroz azul? Não é só porque há uma borboleta da ordem dos lepidópteros, da classe dos hexápodes, do filo dos artrópodes, da família dos Pieridae e que se chama justamente Blue Albatross… Também não é porque o albatroz é considerado, segundo as mais tristes lendas do mar, a encarnação da alma dos marinheiros mortos… Há outra razão, e a resposta está no fim — porque é no fim, já disse alguém, que todos nós morreremos.

Trecho 1:

“… Tertuliano se despediu com novo abraço e ainda falou alguns instantes com Gustavo e Natálio, que não aparentaram haver estranhado nada da conversa havida na frente deles. Pelo contrário, Natálio, muito compenetrado, disse que entendia tudo perfeitamente e endossava o que falara Nascimento, no compreendido e no não tão bem compreendido. Não somente isso, mas teria muito prazer em comparecer ao funeral, seria uma honra, contassem com ele do velório à missa de trigésimo dia, os amigos e admiradores não podiam faltar naquela hora. Tertuliano já sabia a data exata do passamento? Não sabia? Bem, não fazia diferença. Quando acontecesse, estaria a postos, no que foi secundado por Gustavo, que apertou a mão de Tertuliano demoradamente. Nunca desfrutara de maior aproximação com Seu Tertuliano, mas sempre o tivera em alta conta, pelo seu belo comportamento e invejável equilíbrio. Agora surgia outro motivo para inveja, qual seja morte tão bem organizada e encaixada, ideal de todos e apanágio de pouquíssimos, até mesmo entre os membros das irmandades da Boa Morte pelo mundo afora. Também estaria no funeral com muito gosto e orgulho, até porque uma das boas coisas de sua vida, de que sempre se orgulharia, fora ter conhecido Seu Tertuliano e com ele várias vezes convivido.”

Trecho 2:

“Assim contemplada do Jardim, a enchente da maré engana os olhos e a mente, na hora em que o sol já invade tudo o que se descortina, esbatendo tons de açafrão reluzente entre as folhas das amendoeiras, as ameias da Fortaleza e os contornos das nuvens. Muitas embarcações vão aproveitando o empuxo da correnteza e bordejam o lado fronteiro no prumo da Ilha, embora grande parte já de longe talhe derrota para os portos de dentro do Recôncavo e outra parte aproe afora depois de costear a leste, o velame alvo ou ocre pálido panejando contra o azul-escuro das águas mais fundas da baía. Ajuntamentos de mariscadores bulindo lá e cá como formigões vagarosos, curvados sobre a areia ou de joelhos em crateras de lama almiscarada, estalos e gorgolejos borbotando todo o tempo do vasto baixio que se funde com o horizonte, a maresia robustecida pelo sargaço amontoado ao pé do cais — e a enchente igual a um bicho engatilhado, que finge dormir mas está de bote armado, pressentida apenas no ronco do marulho longínquo. Quem não aprendeu, nada percebe. Por isso daí a pouco se surpreende e não raro se intimida com a água em roldão repentino sobre a areia dura, encobrindo-a como um lençol estendido às pressas, o mar alastrado passando a emoldurar o mundo e tomando posse da paisagem e dos ares. Desde cedo, os mais velhos procuram mostrar aos novatos na vida que nada resiste ao poder circunspecto da maré, a qual não faz alarde nem estardalhaço, mas ignora o que lhe esteja à frente e cumpre infalivelmente o seu curso, lição que, se levada em conta, conduz a uma existência bem menos inquieta do que ela sempre procura ser.”

sábado, 31 de outubro de 2009

"Lançamento de foguetes na Ler Devagar"

Bom. Não posso me queixar de nada. Meu lançamento foi óptimo. A Leonor Xavier e o José Carlos de Vasconcelos, em suas apresentações bem humoradas e inteligentes, me rasgaram ao meio de tantos elogios, e eu fiquei prosa (e verso), e depois eu disse algumas palavras, que aqui vão abaixo. E no dia seguinte saiu esta matéria no Jornal de Negócios aqui de Lisboa (na foto acima). Obrigado a todos os amigos que lá estiveram. Foi dos dias mais importantes para mim desde que por estas incríveis bandas aterrissei.

"Meu nome é Juvenal Batella de Oliveira. Tive de me dividir em dois esta noite, porque a emoção é grande demais para uma só pessoa. Nós dois, eu e o sr. Juva Batella, já fizemos outros lançamentos de livros juntos, mas este aqui é especial porque é o primeiro em aqui em Portugal. A rima foi involuntária. Peço desculpas. Não sou poeta. Sou um académico. Um doutor em Literatura. Escrevo teses. Não sou artista. O artista é o sr. Juva Batella. O mais que faço é estudar literatura, e tenho sido, dentro do possível, um observador quase atento a tudo o que o sr. Batella tem escrito ao longo dos anos.

Falo, então, apenas eu, o Juvenal de Oliveira, até porque o sr. Batella, o artista, está hoje especialmente tímido. Humores dos artistas, que são criaturas assim, instáveis por natureza. Falo eu, também, porque não sou propriamente o autor do livro e tenho, portanto, um olhar mais distanciado.

Mas quero antes de tudo agradecer, em nome do sr. Batella, a todos vocês por estarem aqui hoje. É graças a todos vocês que estamos aqui hoje. É claro que, se o sr. Batella não tivesse escrito um livro, ninguém estaria aqui hoje. Mas, por outro lado, se vocês não estivessem aqui hoje, com o sr. Batella tendo escrito o livro, só estaríamos aqui hoje eu e o sr. Batella, e este último com uma cara não muito boa. E isso não teria a mínima graça.

Quero também agradecer ao José Carlos de Vasconcelos e à Leonor Xavier, que são muito amigos do sr. Batella e estão a acompanhar o trabalho do sr. Batella há muito tempo, por tudo o que disseram aqui. E desde que nós dois, eu e o sr. Batella, viemos morar cá em Portugal, o José Carlos e a Leonor têm estado ambos muito presentes e têm ajudado muito, principalmente ao sr. Batella, que é escritor e, como todo escritor que se preze, precisa muito da ajuda dos amigos.

E, para não me alongar mais, porque nós, os académicos, temos a tendência a um certo alongamento verbal, devo lhes dizer que já li alguns dos livros que o sr. Juva Batella escreveu, mas não li todos, porque tenho mais o que fazer, porque sou um académico e gosto de me debruçar sobre a chamada literatura consagrada, e não sobre a literatura assim mais de vanguarda. Mas este livro, O verso da língua, eu li, até porque foi o primeiro que o sr. Batella escreveu. Li e gosto bastante dele, embora ele seja, para os meus gostos, um bocadinho experimental demais. Não é à toa que está nessa colecção da ed. Presença, chamada LADO B… Há no livro muitas pequenas metalinguagens e, a atravessar toda a história, uma grande metalinguagem. O sr. Batella apropria-se do signo gráfico e ortográfico, e ainda das categorias gramaticais e sintácticas, e os utiliza a todos como personagens. E todos se transformam em sujeitos da escrita e, em intenso diálogo dentro da narrativa, passam a agir segundo a função referencial que exercem no universo da gramática. O sr. Batella faz do código linguístico a sua matéria-prima.

Eu disse a ele, na época em que ele estava lá, debruçado sobre a máquina de escrever Remington que foi do tio dele, que outros escritores já tinham feito coisa semelhante: Umberto Eco, nO nome da Rosa, em 1983; Lawrence Sterne, no Tristram Shandy, em 1760; e ainda alguns franceses. E me lembro que ele me dizia assim, nós estávamos no quarto, ele de cuecas, e ele, sem nem mesmo se dar ao trabalho de levantar os olhos da máquina onde martelava aquelas maluquices com ferocidade: “Eles fizeram, mas não com esta radicalidade…”. Eu na época ri de tamanha ingenuidade académico-literário-linguístico-semântico-simbólica. Pudera, o sr. Batella tinha 24 anos… Mas hoje devo admitir, e aproveito que estamos todos aqui para o fazer publicamente, que ele tinha razão.

E, mesmo que eu não aprecie muito as chamadas experiências literárias radicais, e nem ainda todas aquelas experiências literárias que se auto-proclamam radicais e inéditas, devo admitir que O verso da língua é, sim, um livro bastante interessante e que merece ser lido, mas apenas uma vez, é claro, porque, como disse o meu personal trainer, a vida é curta, a morte é iminente, e, se ler já é difícil, reler é quase impossível, sem falar que há muitas coisas boas para se ler neste mundo para o sujeito se dar ao luxo de reler o que quer que seja…

Obrigado a todos."
Lisboa, 29 de Outubro de 2009

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

"Um romance gramatical"

GASPAR, Eva, "Um romance gramatical", Livro, Jornal de Negócios, Lisboa, 30 de Outubro de 2009.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Lançamento O verso da língua em Lisboa (convite)


Nesta próxima quinta-feira, dia 29 de outubro, estarei publicando cá em Portugal o meu primeiro livro, que foi o primeiro livro que escrevi na vida, em 1994, e publiquei no Brasil em 1995: O verso da língua, agora pela Editorial Presença, na edição 2009.

O lançamento vai ser na Livraria Ler Devagar, que é uma livraria muito simpática e famosa aqui em Lisboa, agora localizada num complexo de galpões chamado LX Factory, no bairro de Alcântara, às 19h.

O lançamento terá a participação da escritora Leonor Xavier e do jornalista José Carlos de Vasconcelos, que farão a apresentação do livro.

Estou feliz.

sábado, 24 de outubro de 2009

O perigo de ser útil

“Na região de Chiang-Shih, no estado de Song, há lindas florestas de plátanos, amoreiras e ciprestes. Acontece que, quando atingem dois ou três palmos de altura, algumas dessas árvores são cortadas para servir de poleiros; das que medem quatro ou cinco palmos, há algumas que são cortadas para fazer estacas; e, das que chegam aos sete e oito palmos, muitas são serradas para tábuas de caixões. Assim, nenhuma destas chegou ao termo natural da sua vida, nem pôde desfrutar, do alto do seu cume, a imagem do mundo para a qual tinha sido criada, e, a meio do seu destino, caiu sob os golpes do machado.

Este é o perigo de se ser útil…”

Ichonang-Tseu

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Nota - Blog O Cantinho do Bookoholic

O Cantinho do Bookoholic (layout antigo do site), 15 de Setembro de 2009, em:
http://leitura-constante.blogspot.com.br/2009/09/o-verso-da-lingua-de-juva-batella.html

Nota - Blog Leitura das Marias

Leitura das Marias, 15 de Setembro de 2009, em:
http://leiturasdasmarias.blogspot.com.br/

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Nota - Blog Marcador de Livros

Marcador de Livros, 14 de setembro de 2009, em:
http://marcadordelivros.blogspot.com.br/

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

"Acordos Ortográficos de ontem e de hoje"

Acordos Ortográficos de ontem e de hoje:
fonétikos versus etymologicos — ou a questão das consoantes caladas

Estamos acordados? Sim, estamos acordados no sentido de que fizemos um acordo e portanto todos os oito países da CPLP — Comunidade dos Países de Língua Portuguesa — deverão aplicar o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Estamos acordados? Talvez não. O acordo aprovado talvez não seja tão benéfico, especialmente para Portugal e os demais países da CPLP que têm as características fonéticas do português europeu.

O assunto do acordo ortográfico invadiu a minha imaginação lá pelos idos de 1992-93, quando a discussão no Brasil estava quente em função do que se tinha acordado e assinado em 1990. Nessa época tive a ideia de escrever um livro com um mote animista e com um pano de fundo ligado ao chamado Projecto de Unificação Ortográfica para a Língua Portuguesa. E publiquei então o meu primeiro romance, O verso da língua, onde discuto, em meio às dobras de uma história fantástico-animista, a boa e a má ideia de realizarmos mais um acordo ortográfico. O meu ponto de vista, até então, era o de um jovem brasileiro, e isto tanto é verdade que por todo o romance a questão está focalizada nas vantagens e nas desvantagens, para o Brasil, de um acordo ortográfico. Não pensava em Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe (os PALOP: Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), e nem em Portugal e Timor Leste (que, junto com os de cima e mais o Brasil, e retirando-se a Guiné Equatorial, formam a CPLP). Pensava no Brasil, e a minha relação com o tema acabava aí. Dei uma meia dúzia de amadoras entrevistas à época do lançamento do livro e esqueci o assunto, e quase todo o mundo esqueceu o assunto, e por um bom tempo, em relação ao que se debateu em 1986 e se assinou em 1990, não houve, no Brasil, nenhum fato novo; e nenhum facto novo também em Portugal.

Não me lembro exactamente, à época em que publiquei O verso da língua, se eu era a favor ou contra o acordo. Era, provavelmente, contra. Hoje, no entanto, esta polaridade, a meu ver, não faz tanto sentido. Não consigo ser veementemente contra e nem veementemente a favor. Não acredito que uma pessoa possa posicionar-se simplesmente a favor ou contra um acordo ortográfico. Um acordo ortográfico não é um tema que exija uma posição ideológica estanque, da mesma maneira como o são, por exemplo, a pena de morte e o aborto, em relação aos quais uma pessoa, em geral, se posiciona a favor ou contra, sendo bastante difícil sustentar, aqui nestes casos, uma posição relativa. E por que, quanto a um acordo ortográfico, o insustentável é justamente a posição absoluta? Porque um acordo ortográfico não é um tema que se deva repudiar ou aceitar em bloco; é um tema que se deve discutir e negociar, ponto a ponto — sem falar que um acordo ortográfico não tem o mesmo grau de conseqüência (por que é que eu insisto em usar o trema?) prática e filosófica que têm os temas da pena de morte e do aborto — embora tenha, isso sim, consequência pedagógica e económica (fica estranho sem o trema, mas a pessoa se acostuma a tudo nesta vida...). Em outras palavras, um acordo ortográfico é um tema bem menos importante, é um tema que passa ao largo, ou deveria passar ao largo, de qualquer ideologia. Trata-se de um tema técnico.

Um acordo ortográfico significa sempre uma reforma ortográfica, pelo menos para um dos lados acordados (embora a inversa não seja verdadeira), e uma postura ideologicamente contrária à ideia de reforma ortográfica teria necessariamente de ler com bons olhos a hipótese de a nossa língua não ter sofrido, na sua história, vários processos de simplificação ortográfica. E como era a nossa língua portuguesa nos seus primórdios, que muitos autores apontam como sendo o século XII — época em que a língua portuguesa era bebé? Era mais fonética do que etimológica, ou seja, os estudos produzidos valorizavam, em suas tentativas ortográficas, justamente a fonética em detrimento da etimologia.

Pudera! Ainda não havia uma ortografia consolidada… Escrevia-se ao deus-dará, da maneira que soasse melhor, e o importante era ter bom ouvido, e competente era o escriba que conseguisse passar para um nível ortográfico um sistema fonético por sua vez ainda incipiente. Era a ortografia de base fonética, de acordo com a qual uma letra não pronunciada não deveria ser grafada. Era o tempo dos homens sem “H” maiúsculo e nem minúsculo... E esse tempo passa. Do século XII ao XVI cresce a preocupação com a arte de se escrever correctamente; as línguas românicas, a partir do século XV, em decorrência de eventos históricos os mais variados, aumentam a sua influência sobre os falares; os fonemas do latim se modificam; novos fonemas surgem e inúmeras gramáticas ortográficas começam a ser produzidas porque começam a ser necessárias. Entre elas citam-se a obra de Fernão de Oliveira, Grammatica da Lingoagem Portugueza, de 1536; e a Grammatica da Lingua Portuguesa, de João de Barros, de 1540.

E depois? Se tomarmos como base o período do preciosismo barroco, com a necessidade do português de fazer frente ao castelhano, e ainda o período do Renascimento, o mesmo Renascimento que redescobriu a antiguidade clássica e que releu e revalorizou os gregos e os latinos, encontraremos uma língua portuguesa cuja grafia estava agora, ao contrário, mais etimológica do que fonética, como se as palavras tivessem de carregar às costas uma mochila abarrotada de informação genética. Por quê? Veremos que a ortografia também quis participar da festa renascentista, redecorando as palavras, vestindo as palavras com penduricalhos e adereços gregos e latinos. E o que se observou no fim da festa foi um ortografia toda ela voltada para o carácter histórico da palavra, a chamada ortografia etimológica, ou seja, a manutenção, e por vezes a incorporação, de partículas do grego e principalmente do latim, considerado então um modelo de perfeição linguística. Tais figuras nós conhecemos de “ouvir ler” por aí: os conjuntos ph, ch, th e rh, como em pharmacia, que é a mais famosa, e ainda lythografia, philosophia, ethnologia, theatro, archaico; as consoantes duplas, como em fallar (verbo) e elle (pronome); as letras não pronunciadas, como em esculptura, astma, character; a inclusão do y, como em crystallino, lyceo, typoia, lyrio — e muitas outras grafias que surgem, hoje, aos nossos olhos, como artigos de museu, para não dizer bizarrices ortográficas. Na festa renascentista só não entrou a fonética. Esta fase é chamada pelo Antônio Houaiss de “pseudo-etimológica” e, segundo ele, vai até 1904 (A nova ortografia da língua portuguesa, São Paulo, Ática, 1991, p. 11). Vejam-se, como belos exemplos, estes lamentos etimológicos:


“Na palavra lagryma, (...) a forma do y é lacrymal; estabelece a harmonia entre a sua expressão gráfica ou plástica e a sua expressão psicológica; substituir-lhe o y pelo i é ofender as regras da Estética.

(...)

Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério... Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformá-lo numa superfície banal.

(...)

A palavra Phantasma, por exemplo, escrita com F perde todo o seu aspecto espectral e misterioso; Theologia, escrita só com T, perde o seu sinal de transcendência divina. (Teixeira de PASCOAES, A Águia, citado por Francisco Álvaro GOMES, O acordo ortográfico, Porto, Porto Editora e Edições Lúmen, 2008, p. 10 e 98).”

Estes dois momentos históricos, o fonético e o etimológico, acontecidos sucessivamente mas também simultaneamente, foram vividos pelos falantes da língua sem a formalização de nenhuma reforma ortográfica. Mas não faltaram tentativas. Em 1666, um sujeito chamado Bento Pereira publicou o seu Regras geraes, breves e comprehensivas da melhor ortografia, com que se podem evitar erros no escrever da língua latina e portugueza. Em 1734, publicou-se, de autoria de João Morais de Madureira Feijó, uma obra considerada modelar: a Orthographia ou Arte de escrever e pronunciar com acerto a Lingua Portugueza para uso do excellentissimo Duque de Lafoens. Em 1766 foi a vez do Fr. Bernardo de Jesus Maria, com a sua Grammatica philosophica e orthographia racional da língua portugueza. Estas duas artes de “escrever e pronunciar com acerto” virão a ser desenvolvidas com detalhes em 1822, na Grammatica Philosophica de Jerónimo Soares Barbosa, que assim as define: “D'estas duas considerações sobre o physico dos vocabulos nasceram as duas partes mais antigas da Grammatica. Uma de boa pronunciação e leitura, chamada Orthoepia, e outra da sua boa escriptura, chamada Orthographia” (p. V e VII, citado, bem como grande parte dos títulos aqui referidos, por Maria Helena Mira MATEUS, Sobre a natureza fonológica da ortografia portuguesa, p. 3 e 4, em: ). Repare-se na dupla ortografia da própria palavra “ortografia” no título de 1666 e nos de 1734 e 1766, e já se poderá ter uma ideia das querelas e confusões em cena.

Nada comparado, no entanto, à grande querela que teria lugar no século XIX e que voltaria a dividir o mundo ortográfico entre etimológicos e fonéticos, só que desta vez com ambos os lados a cobiçar os louros da oficialidade. Segundo a visão etimológica, a divisão era entre sensatos e vândalos; no modo de ver dos fonéticos, entre conservadores caturros e cientistas inovadores e bem formados. A disputa pode ser ilustrada com as famosas rixas entre Cândido de Figueiredo e José Leite de Vasconcellos, como nos conta, e muito bem, Maria Helena Mira Mateus:

“Cândido de Figueiredo, em 1891, refere a Tosquia de um grammatico dedicada aos filologos mirandezes, aos criticos extremenhos e aos boticarios de Palmella, a que responde Leite de Vasconcellos, no mesmo ano, com O Gralho depenado. Replica às “Caturrices” philologicas do sr. Candido de Figueiredo, que, por sua vez, triplica no ano seguinte com O golpe de misericordia. Execução litteraria de Zé Filólogo Leite de Vasconcellos, accusado de varios delitos contra a grammatica, o bom senso e a salubridade publica. (...)

Mas o que se discutia então? Os mais conservadores (como o ‘caturra’ Cândido de Figueiredo, que luta pelo bom uso) são acusados de “subserviência aos clássicos, censura de barbarismos e preferência do literatismo em prejuízo da ciência” enquanto os filólogos (como o ‘Zé Filólogo’ Leite de Vasconcellos) são acusados de “delitos contra a gramática, o bom senso e a salubridade pública” (op. cit., p. 5).”

Se a posição dos etimológicos soa, nos seus extremos, pomposa, a dos fonéticos pode tornar-se uma caricatura — a caricatura de uma língua quase que totalmente fonética, ou, para usarmos uma expressão que beira o absurdo, uma “ortografia fonética”. E temos de ficar aliviados diante do fato de que as propostas mais radicais não vingaram. Em 1853, J. A. de Sousa publica Escritura repentina. Nova tentativa de revolução orthographica. Em 1866, Francisco Xavier Calheiros divulga o seu Escripta sem letras ou novo systema d'escripta syllabica. Isto sem falar nos vários livros de Barbosa Leão, que publica anonimamente, em 1875, as suas Consideraçõis sobre a Ortografia Portugueza, onde defende o sistema “um som uma grafia”. Todos estes títulos foram elencados por Maria Helena Mira Mateus (op. cit.), que ainda nos dá de presente um delicioso caso que ela mesma retirou do elegante blogue O céu sobre Lisboa [http://o-ceu-sobre-lisboa.blogspot.com/2004/08/demanda-da-ortografia-portu-guesa-que.html.] O caso é o seguinte pedaço de uma estrofe de Camões...

“Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram”

... sob o que seria a visão fonética de Piero Gato, que publica no Brasil, em 1920, a sua Ortografia fonetica da lingua luzo-brasileira, segundo a qual a referida estrofe poderia ser assim escrita:

“Cecem do çabiu gregu e do troianu
As navegaçõis grandes kê fizeram,
Kale-ce de Alexandru i de Trajanu
A fama das vitorias kê tiveram”

Nada disso deu certo. Grafia e som são os extremos da corda linguística. Podem ser equilibrados, mas não podem ser confundidos, já que a primeira tende à permanência; e o segundo, à variação. Como escreveu um sr. chamado Óscar Lopes, citado pela Maria Helena Mira Mateus,

“... não é possível uma grafia puramente sónica, nem mesmo restrita a um registo muito selecto, o que equivaleria a um espectrograma; e não é possível uma grafia etimológica integrativa de toda a tradição cultural (as escritas europeias mais tradicionais, as do Francês e do Inglês, baseiam-se nas respectivas fases de normativização, nos séculos XV-XVI). (Óscar LOPES, in Ivo CASTRO, Inês DUARTE e Isabel LEIRIA, A Demanda da Ortografia Portuguesa: Comentários do Acordo Ortográfico de 1986 e subsídios para a compreensão da Questão que se lhe seguiu, Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1987, citado por Maria Helena Mira MATEUS, op. cit., p. 7-8).”

Terminada a fase pseudo-etimológica, começam os gabinetes, no século XX, a funcionar a pleno vapor e a produzir tentativas de uniformização e pacificação da velha querela entre a fonética, a etimologia e a esquizofrenia ortográfica. Começa a chamada “fase simplificada” da língua. Começa em 1904, em Portugal, com o trabalho infatigável de Gonçalves Viana no seu importante livro Ortografia Nacional: Simplificação e Unificação Sistemática das Ortografias Portuguesas. E foi tão importante e bem feito que significou a pedra de toque para a reforma ortográfica que, sete anos depois, mudaria de forma radical a cara do português. E o que fez o Gonçalves Viana? Deitou abaixo os penduricalhos gregos ch (que soava como k), th, ph, rh e y. Deitou abaixo as consoantes duplas, à excepção do rr e do ss. Deitou abaixo as chamadas “consoantes mudas”, mas deitou abaixo somente as efectivamente mudas, ou seja, as que não alteravam a pronúncia da vogal antecedente, como sancto e septe, por exemplo. E, por fim, como se isso tudo não bastasse, o sr. Gonçalves Viana ainda colocou ordem no caos que era a acentuação gráfica.

No Brasil, entretanto, os processos de simplificação correram num ritmo diferente e à custa de muitos desencontros com o português europeu. Em 1907 a Academia Brasileira de Letras já estava empenhada em reformar a ortografia, e encabeçava o movimento a figura de Medeiros e Albuquerque, mas somente em 1915 é que decide harmonizar-se com o que já ocorria em Portugal. O passo, porém, não foi dado, e a Academia Brasileira, em 1919, muda de ideia e volta atrás. Em 1924, as duas Academias — de Ciências de Lisboa e Brasileira de Letras — sentam-se novamente à mesa para uma nova tentativa de jogar “Palavras Cruzadas”, desta vez sem brigas... E em 1931 finalmente aprovam um Acordo Ortográfico — mas ninguém o põe em prática. Ao invés disso, em 1943, os senhores doutores de lá e cá redigem um Formulário Ortográfico na primeira “Convenção Ortográfica entre Brasil e Portugal”. Isto foi um passo para o que viria a seguir, que foi o bastante elogiado Acordo Ortográfico de 1945, que se tornou lei em Portugal mas... não foi aceito pelo governo brasileiro, que continuou a escrever os seus papéis baseado no Formulário Ortográfico de 1943. E o descompasso continuou, com Portugal, na verdade, bem mais “reformador” do que o Brasil, uma vez que já estava na sua segunda mudança: a Reforma de 1911, bem mais radical; e o Acordo de 1945, aplicado unilateralmente. Em 1971 é a vez do Brasil, que realiza pequenas mudanças; e, em 1973, Portugal. Cada um a fazer as suas alterações, e todas, pelo menos, caminhando no sentido da diminuição das diferenças e da simplificação ortográfica. Em 1975, sentam-se os estudiosos à mesa para um novo acordo, que elaboram, mas os governos não aprovam. E somente onze anos depois, por iniciativa do presidente brasileiro José Sarney, os então sete países que falam português voltam a reunir-se, e apresentam o Memorando Sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Em 1990 é a vez da Academia de Ciências de Lisboa, que convoca novo encontro, e elabora, junto com o Brasil, a base do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Era para entrar em vigor em 94, mas o assunto perdeu o vigor por causa de mais idas e vindas, e em 1996 o documento é ratificado apenas por Portugal, Brasil e Cabo Verde, e isso não era suficiente para a sua efectivação. Oito anos depois reúnem-se os ministro da Educação da CPLP, em Fortaleza, para a inclusão de Timor-Leste e ainda para a alteração no número mínimo de assinaturas, de modo a que uma ratificação de três membros fosse o bastante. (O português Vasco Graça Moura, em seu livro Acordo Ortográfico: a perspectiva do desastre, Lisboa: Alêtheia Editores, 2008, tece importantes considerações sobre a inconstitucionalidade, do ponto de vista do Direito português, deste Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo.) Em 2008, o tão debatido e folheado Acordo Ortográfico de 1990 é finalmente aprovado, com as assinaturas, afinal, de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Brasil e Portugal (informações retiradas do site: ).

O assunto, agora, é lei — e é mais real e quotidiano no Brasil do que em Portugal, porque os portugueses agora é que começaram a digestão de um assunto que os brasileiros estão terminando de digerir, e acho até que o fizeram com surpreendente velocidade. O quinhão de cada um, é bem verdade, foi diferente. Com o Acordo Ortográfico de 1990 aprovado, o Brasil terá, segundo o que li, aproximadamente 0,5% das suas palavras alteradas, ao passo que os portugueses terão de reaprender a escrever 1,5%. Não, isto não é muito, e eu aqui faço parelha com o que diz ironicamente o Vasco Graça Moura, um infatigável opositor disto que ele chama de “grande trapalhada”: o absurdo é pensarmos que a alteração ortográfica deste bocadinho é que vai “assegurar a unidade da língua”, como argumentam os defensores do acordo. “Se as alterações que introduz são muitas, é gravíssimo; se são mínimas, não se vislumbra a sua utilidade”, escreveu (“O Acordo e as evidências”, op. cit., p. 30). O que importa, na verdade, não é a forma das palavras do ponto de vista estético. O que importa são as consequências do Acordo na maneira de se pronunciarem as palavras. E neste quesito os portugueses é que levaram a pior.

De todos os textos que li sobre o assunto, aqui em Portugal, o Breve parecer sobre a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990, de João Andrade Peres, foi dos que mais me motivou e me convenceu. E após a sua leitura senti vontade então de escrever eu mesmo estas linhas sobre o assunto. O texto de Andrade Peres não é uma investida deblaterada contra as bases do Acordo de 1990. Antes, pelo contrário, o autor mostra-se sempre simpático à intenção simplificadora que está por trás de toda ideia de reforma ortográfica — reforma ortográfica efectivamente bem feita.

Não tenho nada a opor a reformas ortográficas que visem a simplicidade, a clareza e o carácter sistémico da escrita. Pessoalmente, abomino ler em ortografia anterior à reforma de 1911, (…). Fico sempre grato à lei da República que livrou a língua portuguesa do que hoje sinto como ganga pesada e inútil, resultante da etimologia — em certos casos penalizada por opções de transliteração do grego, via latim, que davam conta de subtis variações do consonantismo grego que nem o latim nem a romanidade importaram — e ainda do carácter assistemático da grafia portuguesa até ao século XX. Sem a mudança, talvez convivesse bem com o que agora me repugna, mas, educado depois dela, só posso achar a nova escrita mais simples (mais “limpa” e “leve”, por isso mais bela) e, num plano técnico, mais orgânica e de mais fácil aprendizagem (em: , p. 1).

Mas o texto de Andrade Peres é, sim, segundo ele mesmo diz, a sua tentativa de exigir, como cidadão e como linguista — e ele é professor catedrático de Linguística Geral e Românica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa —, que as reformas se pautem por critérios rigorosos, e não foi isto o que ocorreu com o que se elaborou em 1990. Dos três aspectos negativos apontados pelo professor, eu exponho o primeiro e o terceiro: (1) a grafia opcional e (3) a eliminação das consoantes (ditas) mudas. O segundo ponto, relativo à acentuação de algumas formas verbais no presente e no pretérito perfeito do indicativo da primeira pessoa do plural (jantamos agora / jantámos ontem), foi reformulado pelo item 4o da Base IX do Acordo Ortográfico (ou, segundo outra edição que tenho, do Evanildo Bechara, pela letra c) do primeiro Adendo ao item 3o da Base IX do Acordo), que assim diz:

“É facultativo assinalar com acento agudo as formas verbais de pretérito perfeito do indicativo, do tipo amámos, louvámos, para as distinguir das correspondentes formas do presente do indicativo (amamos, louvamos), já que o timbre da vogal tónica/tônica é aberto naquele caso em certas variantes do português (em: ).”

Este segundo ponto — que deixou de ser um problema porque admite a grafia utilizada actualmente pelo português europeu, que na pronúncia abre a vogal na forma do pretérito perfeito — transformou-se na verdade num outro problema, caindo então no item (1) apontado pelo professor Andrade Peres, a saber: a grafia opcional.

Tanto o português brasileiro quanto o europeu e o africano possuem um número razoável de palavras que admitem dupla ortografia, mas o que o Acordo Ortográfico de 1990 fez foi aumentar substancialmente este número. O caso das formas verbais da primeira pessoa do plural do pretérito perfeito é um deles. Antes do Acordo não havia, para o português, a opção de não acentuar esta conjugação. Agora há. Antes do acordo não havia, para o brasileiro, a opção de acentuar esta conjugação. Agora há. E o mesmo se dá com outros casos. O próprio professor Francisco Álvaro Gomes, considerado um importante defensor do Acordo de 1990, admite, em seu livro O Acordo Ortográfico, que o substancial aumento de casos de dupla ortografia poderia ter sido evitado: “António/Antônio, oxigénio/oxigênio e outros pares poderiam ser superados, como demonstraremos no ponto 13. Todavia, não é correcto afirmar-se que a língua portuguesa não tinha já situações de grafia dupla”, diz o professor. E não deixam de ser curiosas as alternativas sugeridas por ele no referido ponto 13:

“No que respeita ao caso particular de decisão de 1988 (institucionalização da divergência António/Antônio, académico/acadêmico...), várias poderiam ter sido as alternativas:

2.1. Supressão dos acentos (opção defendida em 1986 e que, como se sabe, foi largamente contestada, embora não com uma argumentação de solidez histórica (...)).
2.2. Institucionalização dessa diferença que vem, aliás, consagrar alguma indeterminação (não gráfica, mas fonética) que existe dentro da própria norma lusitana.

(...)

2.3. Anular, na língua portuguesa, os acentos agudo (´) e circunflexo (^), uma vez que nem sempre eles correspondem à abertura ou ao fechamento do timbre — difícil (aqui marca apenas a sílaba tónica, não o timbre), têm (não fecha a vogal) —, substituindo-os por outro sinal que marcasse a sílaba tónica (poderia ser o sinal “longo” latino (-), e que corresponde à efectiva prática de um número significativo de utentes do código escrito).”

Considero um erro não se ter optado definitivamente pela solução do item 2.2. (e creio que os itens 2.1. e 2.3. dispensam comentários...) de um modo tal que ficasse respeitada a tendência geral da fonética de cada região, ou seja, em regiões onde existe uma efectiva abertura vocálica (em quase todo o Portugal), a palavra académico seria assim escrita. E no território brasileiro, especialmente, seríamos acadêmicos à nossa maneira. (E eu não conheço as características fonéticas do português falado nos outros seis países em questão, e ainda na Guiné Equatorial e em Goa, e, pelos vistos, nem os arquitectos do Acordo conhecem, pois, como bem observou o Vasco Graça Moura, “Está-se nas tintas para os países africanos (…). [O Acordo] Não se preocupa minimamente com o facto de as pronúncias africanas não estarem bem estudadas”, “Parte de África”, op. cit., p. 74).

Acredito que só assim, com a institucionalização das diferenças de modo exclusivo (e não de modo inclusivo, como foi feito), a própria ideia que está por trás de um acordo ortográfico — a ideia da estabilidade ortográfica — fica mantida. Vejamos o que diz o texto do Acordo, item 3º da Base XI: Da acentuação gráfica das palavras proparoxítonas:

“3º) Levam acento agudo ou acento circunflexo as palavras proparoxítonas, reais ou aparentes, cujas vogais tónicas/tônicas grafadas “e” ou “o” estão em final de sílaba e são seguidas das consoantes nasais grafadas “m” ou “n”, conforme o seu timbre é, respectivamente, aberto ou fechado nas pronúncias cultas da língua: académico/acadêmico, anatómico/anatômico, cénico/cênico, cómodo/cômodo, fenómeno/ fenômeno, género/gênero, topónimo/topônimo; Amazónia/Amazônia, António/Antônio, blasfémia/blasfêmia, fémea/fêmea, gémeo/gêmeo, génio/gênio, ténue/tênue.”

Observe-se que o próprio texto do Acordo já se encontra escrito sob a bizarrice da dupla ortografia aplicada de modo inclusivo (no grifo acima, e em outros textos já vi assim escrito: tó[ô]nicas ou tô[ó]nicas), quase como se não quisesse melindrar os acadêmicos de um lado e os académicos de outro, sejam eles Antônios ou Antónios. Segundo, portanto, o texto do Acordo, nas palavras do professor Andrade Peres,

“... dois alunos portugueses, em Portugal (ou brasileiros, no Brasil etc.), sentados lado a lado, ou dois professores em salas contíguas seriam livres de usar a seu bel-prazer as grafias alternativas. Em última análise, é deixada ao livre-arbítrio de cada cidadão a escolha da grafia, pondo-se em causa a função da língua escrita como factor de coesão social (Breve parecer sobre a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990, op. cit., p. 2).”

O terceiro ponto, e o mais relevante, é a consequência, para os portugueses, da eliminação das consoantes ditas mudas — uma consequência que se vai sentir com mais evidência nas gerações seguintes, porque os falantes de hoje já têm estabelecida uma certa pronúncia, em grande parte sustentada pela presença de determinadas consoantes cuja função é justamente evitar, ou refrear, o fechamento vocálico. O fechamento de algumas vogais em algumas palavras é uma tendência do português europeu, e o professor Andrade Peres dá como exemplos acção, actor, baptismo, perspectiva, lectivo, selecção, aspecto, objecto. As vogais que antecedem as consoantes que o Acordo de 1990 limou, não fosse a presença destas senhoras discretas e aparentemente mudas, seriam pronunciadas de modo fechado. Seriam, não. Serão, porque a partir de agora, e cada vez mais, as vogais lusitanas irão encolher.

“… o português europeu se está a tornar uma língua dificilmente inteligível na oralidade, sobretudo para interlocutores não nativos, devido ao fechamento das vogais. Demonstração clara desta situação progressiva é o facto de um falante de castelhano entender bem o português escrito, mas não o falado, ao passo que os portugueses entendem com grande facilidade a oralidade castelhana, toda assente num vocalismo aberto; o mesmo se passa quando se confrontam falantes de português europeu e de português brasileiro; os primeiros entendem os segundos (…), mas a inversa não é verdadeira, chegando-se ao ponto de no Brasil só se poder ver um filme português se legendado. Conhecido este panorama, tudo o que contribua para o fechamento das vogais no português europeu afectará negativamente esta variante da língua portuguesa (Breve parecer…, op. cit., p. 4).”

O professor Andrade Peres ainda elenca mais três consequências do desaparecimento das consoantes “mudas”: (1) o aumento dos casos de homofonia (palavras com mesmo som), e isto acontecerá, por exemplo, em Portugal, com as palavras recepção e intersecção, que, sem as consoantes, soarão como recessão e intercessão; (2) o aumento dos casos em que se verificará a desagregação de palavras da mesma família, saindo as consoantes não pronunciadas de algumas e ficando as pronunciadas de outras, descaracterizando-se assim as séries, como é o caso de egípcio/ Egipto; espectador/espectáculo; secção/sector/intersecção; assepsia/asséptico/anti-séptico; e, por fim, o aumento dos casos de homografia (mesma grafia), como se verá nos exemplos de acto e ato (de atar); cacto e cato (de catar); corrector e corretor (de corretagem); facto e fato — e quando alguém em Portugal disser: “Não gosto de fatos novos”, não saberemos se está a falar com um psicanalista ou com um alfaiate.

“… não é difícil concluir que o único objectivo real de toda a negociação do Acordo, repito, o único objectivo real de toda a negociação do Acordo foi o dessa supressão das consoantes ditas mudas ou não articuladas (Vasco Graça Moura, “Acordo Ortográfico: a perspectiva do desastre” — Intervenção na Assembleia da República, em 7.4.2008”, op. cit, p. 104).”

Sim, não fossem as reformas ortográficas, ainda estávamos tropeçando em penduricalhos latinos e gregos, ou, por outra, ainda emaranhados em inúmeras “maneiras correctas” de se escrever e pronunciar o que quer que fosse. Ser contra a ideia de que foi necessário, para a língua portuguesa, realizar as reformas ortográficas que se realizaram, porque esta língua passou por muitas mudanças, é ser a favor, senão de uma philosophia, pelo menos de uma lythografia bastante archaica.

Ser, no entanto, contrário às muitas bases deste Acordo Ortográfico de 1990 não significa defender arcaísmos, não significa ser conservador, ou estar na equipa dos etimológicos. Significa apenas que gostamos da língua portuguesa tal como está escrita, tanto do lado português, como do brasileiro, como dos PALOP e ainda de Timor Leste e Goa. Significa que consideramos razoáveis e praticáveis as ortografias vigentes nos oito países da CPLP e nos seis PALOP, porque os capítulos ortográficos que merecem algumas alterações são poucos e poderiam ser realizados de forma autónoma, sem prejuízo para o corpo da língua. Significa, como consequência, que entendemos a palavra acordo, antes de tudo, como a aceitação das diferenças, ou seja, a concordância em tratar como legítimas todas as diferenças, de modo a que cada elemento envolvido se veja reconhecido naquilo em que é diferente e ao mesmo tempo se sinta fazendo parte de um sistema que contempla a todos. Misturar as diferenças num caldo comum e impor a todos os países uma igualdade que é o fruto desconjuntado de eliminações e acréscimos para todos os lados, só para se dizer, afinal, que não existem mais divergências e todos escreverão, a partir de agora, da mesma maneira (como se as nossas grandes diferenças fossem ortográficas, e não lexicais e sintácticas) — isto não é fazer acordo; é bater martelo.

Referências bibliográficas:

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BECHARA, Evanildo. A nova ortografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
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MOURA, Vasco Graça. Acordo Ortográfico: a perspectiva do desastre, Lisboa: Alêtheia Editores, 2008.

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