quinta-feira, 3 de julho de 2008

"Ensaio sobre a surdez... (título mudado por sugestão do meu amigo Mauro Gaspar)"

Minha mulher me disse:

- Você iria gostar de assistir ao encontro do Saramago com a viúva do Borges, a Maria Kodama...

- Onde?

- Na Biblioteca Nacional, em Lisboa.

- Quando?

- Nesta sexta-feira.

- Como?

- Como assim “como?”?!

- Digo, claro. Irei. Será?

Fui. Alguma coisa me dizia que eu não iria entender quase nada. O sr. José Saramago e a dona Maria Kodama iriam ficar conversando na nossa frente, é isso? Em castelhano? E o sr. Saramago? Está a se recuperar de uma pneumonia, acho. Sempre foi difícil entender a dicção do sr. Saramago. Em castelhano, então... Fui.

E me sentei na segunda fileira, porque a primeira estava toda ela reservada. Chegaram. O sr. Saramago, velhinho, amparado, magrinho, mas um arzinho bastante altivo, começou a dizer que iria ler um poema do Borges. Leu. Ninguém ouviu nada.

- Se calhar é o microfone... - disse alguém.

E subiu um senhor ao palco para posicionar o microfone de lado, porque de frente, muito perto, o aparelho produzia na voz do sr. Saramago uns arrotinhos.

- Pronto. Já está - disse o alguém.

E o sr. Saramago releu o poema. Ninguém percebeu nada. Até que sobe a dona Pilar, mulher do sr. Saramago, linda, simpática, enérgica, objetiva, despachada. Foi lá e ajeitou o microfone de frente para a boca do sr. Saramago. E ele:

- Ele estava então certo, mas aquele senhor mudou-o para o lado...

- Deixa-o aqui - disse a dona Pilar, definitiva.

E o sr. Saramago recomeçou do início o poema do Borges. Entendemos só mesmo o início, porque ele, aos pouquinhos, se foi afastando do microfone e olhando para baixo. Alguém disse: “O microfone está a se afastar”. Outro disse: “Não é o microfone; é o Saramago...”. Aplaudimos mesmo assim, com cara de quem havia percebido tudo, porque é sempre bom ouvir um poema, mesmo que seja só o início, e ainda mais do sr. Borges...

O sr. Saramago, em seguida, esperou que a dona Pilar voltasse a ajeitar o microfone, e depois falou para si mesmo uns dez minutos algumas coisas que deviam ser ótimas, porque ele de vez em quando compunha no rosto umas expressões curiosas, que tomavam assim o lugar daquela sua costumeira expressão carrancuda.

O sr. Saramago exercita, depois eu formalizei a coisa na minha cabeça, o chamado mau humor bem-humorado, que consiste em produzir, nos limites do cômico, um mau humor que se torna (daí os limites) quase uma caricatura de si mesmo. E, amparado e protegido por esse mau humor que provoca pequenas gargalhadas, ele pode então, sem o receio de ser chamado de mal-humorado (uma vez que está a produzir gargalhadas...), vociferar contra a televisão, contra a literatura de auto-ajuda, contra a literatura comercial, contra a barulhenta música dos jovens, contra o capitalismo, o socialismo de agora e contra todos os seus inimigos reais ou imaginários. Fechemos o parêntese e passemos a palavra à dona Maria Kodama.

Que falou também muito pouco à vontade diante daquele espezinhante objeto, o microfone, que teve de ser posicionado e reposicionado inúmeras vezes de modo a que fosse capaz de abarcar, reproduzir e amplificar o som da sua voz. Ninguém percebeu nada. Eu digo “ninguém” porque me dei ao trabalho de perscrutar os rostos franzidos à minha volta.

Ela é bonita, doce, meiga, cativante, mas me pareceu, mesmo eu não tendo entendido nada, que não perdi muita coisa. O sr. Saramago, em seguida, pegando no microfone como quem pega numa taça de vinho e a mete à sua frente, à mesa de um jantar, recomeçou a sua pequena “comentação” da obra do sr. Borges, afastando, é claro, a taça de vinho no momento em que começava cada frase. Ele disse algumas coisas que eu não percebi e em seguida comunicou a todos que iria fazer três perguntas à dona Maria Kodama. Fez as duas primeiras, e até hoje eu não sei quais foram, e nem nunca saberei, e em seguida fez a terceira, que, agora digo, foi a única coisa que me fez dizer a mim mesmo, bem mais tarde, à noite, à minha mulher, na cama: “Valeu a pena ter ido só por causa daquela pergunta”.

A pergunta foi (no castelhano saramágico):

- Então, diz-me lá, Maria, como é que o Borges te dizia que te queria? Com que palavras ele te dizia: “Quero-te”?

A resposta? Antes de a dar, a dona Maria Kodama sorriu, depois corou, depois de corar riu, depois corou novamente, riu mais um pouco e de uma maneira mais descontrolada, e ao fim respondeu.

Mas eu não entendi uma única palavra.

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