segunda-feira, 28 de abril de 2008

"O sutil nariz da vaca"

A literatura de Campos de Carvalho jorrou, colorida e intensa, de 1941 a 1964. Depois, como se o autor, com um golpe de mão, tivesse simplesmente fechado uma torneira, parou. E tudo à volta cessou, e daquela fonte não saiu mais nada, e daquela estranha água nenhum dos poucos leitores que àquela altura já se tinham viciado conseguiu um só gole. Campos de Carvalho parou de escrever, em seguida parou de falar, e bem depois, em 1998, morreu. Há pouco menos de vinte anos é que as histórias de literatura, antologias, monografias, dissertações, teses e editoras deram pela sua falta.

Vaca de nariz sutil (1961) é o seu segundo romance, depois de A lua vem da Ásia (1956). “Escrevi-o aos prantos”, disse Campos de Carvalho numa entrevista. Se quisermos incluir os dois livros que o autor não quis que figurassem na sua obra reunida, Banda forra e Tribo, será então o quarto - uma chuva imóvel e um púcaro búlgaro completam o quadro. E aqui termina a obra completa de um tão insólito quanto excelente escritor.

O insólito e excelente Vaca de nariz sutil e os demais títulos que formam a sua literatura encontram-se escondidos nas histórias, só ganhando sentido ao longo da leitura. O narrador deste romance sombrio e existencialista, um ex-combatente de guerra que não diz (ou esqueceu) o seu nome, começou a observar as vacas quando estava em meio aos campos por onde se arrastavam os exércitos. Assistir-lhes ao pasto calmo, o olhar baixo e sábio, foi uma experiência que o marcou e que teve a sua culminância diante de um quadro do pintor francês Jean Dubuffet, intitulado justamente La vache au nez subtil: “... assim se chamava o quadro, e em vão tenho eu procurado uma vaca assim entre as vacas e sobretudo entre os homens”.

Mas a vida entre os homens não tem mais qualquer sentido para o nosso ex-combatente. Chegado da guerra mais morto do que vivo, este “cadáver adiado”, na expressão de Fernando Pessoa, refugia-se numa pensão e, arrastando-se de madrugada pelos corredores, passa a viver a vida dos outros, espiando pelo buraco das fechaduras os segredos e as canalhices alheias. A sua solidão, imensa solidão, envolve-o como um nevoeiro. Sob o mesmo nevoeiro o leitor poderá escutar os ecos de um outro livro, cujo narrador, o soldado Ferdinand, de Viagem ao fim da noite, de Céline, também é, à sua maneira, zombeteiro, antipatriótico e anarquista.

No entanto, ao contrário de Céline, por cuja biografia pairou a sombra do anti-semitismo, Campos de Carvalho zombou de tudo o que lhe pareceu estúpido e cruel, fazendo da vida de cada um de seus narradores, em cada um de seus livros, um poema onde se pode ler, sem atenuantes, o absurdo. Vaca de nariz sutil ficará em nossa lembrança como um romance inteiramente dedicado a combater o absurdo da guerra através do exercício obstinado da memória – a única companheira possível numa viagem cujo fim é a noite.

4ª capa

“Onde o senhor dorme? No Hotel Terminus. Mas aqui não há nenhum Hotel Terminus. É o que o senhor pensa.

Passava das onze, chovia; imperceptivelmente fomos caminhando até o portão do cemitério. Aqui fico — disse-me, estendendo a mão fria: Boa noite! Não sou supersticioso mas confesso que foi, como direi? um tanto ou quanto, como direi... Tinha a sensação de que ainda trazia presa à minha aquela mão, quando liguei o comutador e entrei no quarto. Tolice! — eu repetia com o cigarro no canto da boca, também ele frio e apagado. Tanta filosofia, para isto!”

domingo, 6 de abril de 2008

Em busca do amor perdido (capa)

Em busca do amor perdido, São Paulo, Editora Girafinha, 2008, 121p. (ISBN: 9788599520680)

sábado, 5 de abril de 2008

Chamada - Prosa e Verso, O Globo

Chamada capa, Caderno Prosa e Verso, O Globo, 5 de abril de 2008.

"História com gosto de algodão-doce"

ALINE, Ronize, "História com gosto de algodão-doce", Prosa e Verso, O GloboRio de Janeiro, 5 de abril de 2008.

terça-feira, 1 de abril de 2008

"Os dois faróis altos"

Bem sei que este blogue está paradinho de dar dó. Bem sei. O culpado sou eu, que agora me meti a escrever um novo livro e obcequei. Sempre que me sento, sento para ver se não me esqueço da história que me deu na veneta escrever. Sempre que me sento, sento tenso, preocupado em acender os dois faróis altos que tenho na cabeça; faróis altos que talvez permitam que eu enxergue praí uns bons metros à frente do que estou escrevendo. Se não enxergar, fico escrevendo às cegas. Escrever às cegas tem lá a sua graça e às vezes é produtivo que nem lhe digo, mas o sujeito tem de ter coragem e sangue frio para saber que aquelas 50 ou 100 páginas talvez não dêem em nada. E haja tranqüilidade para escrever 50 ou 100 páginas e depois dizer: “Isto não funcionou. Vou jogar fora...”. Com tanta coisa no mundo para se ler e para se ouvir e para se assistir, e para se escrever, como é possível não ficar ansioso? Como?