sexta-feira, 19 de setembro de 2008

"Ulisses: uma temporada no inferno"

Andei lendo bastantes livros ultimamente, procurando nos livros um bocado da ação e da aventura que não encontro lá tanto assim aqui em Santo Amaro... E das coisas mais gostosas que há no mundo é terminar um livro e sair andando pela biblioteca da casa à procura do próximo. Fico às vezes um ou dois dias nessa procura, excitadinho, como um menino que acabou de aprender a ler. Vou folheando alguns e dizendo para mim mesmo e para ele, o folheado: “Não, ainda não é o momento para ti, talvez algum dia, quem sabe...”. E recoloco-o no lugar, o preterido, para partir em busca de um outro, com o qual flerto com simpatia, uma simpatia tamanha que quase vejo o livro alvoroçar-se na estante, à espera de ser ele o próximo escolhido, de ser ele a sair daquele aperto cruel da prateleira, cada vez mais apertada, e gozar da liberdade de andar por aí por Santo Amaro, carregado por mim para lá e para cá, acompanhando-me por alguns dias, ora no meu colo, ora na minha mesa, ora no meu carro, ora na rede da minha varanda — aquele que irá, de certeza, toda noite para a cama comigo.

Fiz todo esse caminho de flertar com as estantes, fazer a minha escolha e iniciar com um livro um relacionamento estável (leia-se: ler a criatura de cabo a rabo) em cima dos seguintes títulos, ao longo de 2007: Pelos olhos de Maisie, do Henry James; Bouvard e Pécuchet, do Flaubert; Sábado, do Ian McEwen; Complexo de Portnoy, do Philip Roth; A cidade e as serras, do Eça de Queirós: e Ulisses, do James Joyce. Tenho de me conter porque senão falo de todos — não uma crítica literária coesa, coerente, redondinha, enfim (tarefa assaz trabalhosa), mas uma conversa de mesa de jantar, cheia de “achei isto”, “achei aquilo”, “não gostei disto”, “não gostei daquilo”.

O ritmo de leitura até que não estava mal. Mas quando peguei no Ulisses foi como se o peso às minhas costas duplicasse e a velocidade, assim, caísse. Carregar aquelas 815 páginas para todo canto já foi uma tarefa. Lê-lo foi como deambular pelo inferno com os olhos vendados. A culpa foi da minha mulher, que me disse, justamente quando estava eu nesses passeiozinhos de prateleira e calhou-me de retirar do aperto da letra “J” o famosíssimo e aclamadíssimo romance, do qual, como disse o T. S. Eliot, “jamais escaparemos”. Eu disse ao livro: “Um dia ainda te pego...”, e olhei para ela, que me disse: “Acho que já são horas. És um escritor, és um doutor em Literatura, já são mesmo horas de pegares o Ulisses...”.

Aquilo foi, e ela sabe disso, um desafio. E eu, para impressionar a minha mulher (não se deve perder uma única oportunidade de impressionar uma mulher), disse, valentão: “Está certo. Vou iniciar esta viagem”. Sentei-me e abri a primeira página, excitadíssimo porque eu sabia que iria até o fim e não faria como das outras vezes, em que o abri, li a primeira página, soltei uma risadinha e voltei a fechá-lo, dizendo para mim mesmo: “Não, isto não é para o seu bico...”. Não foi o bico que cresceu; foi o destemor, ou, em outras palavras, foi o livro que diminuiu. Tive de o diminuir, retirando-lhe todo aquele caráter assustador e glorioso.

A tarefa durou sete meses, da primeira à última página. Mas eu, que não sou bobo, entrei no livro munido de algumas armas: as notas explicativas da professora Bernardina, a tradutora; um livro do Nabokov, Aulas de literatura, em que dedica umas boas cem páginas ao Ulisses; um livro do crítico Edmundo Wilson, O castelo de Axel, em que também dedica páginas e páginas a tentar amolecer e domesticar o livro, e mais um sem-número de artigos colhidos na internet. Tenho aqui no blogue, ao lado, um link (Ulysses for Dummies) dedicado ao Ulisses.

Terminei-o enfim, e confesso duas coisas: que houve momentos (vários), em que achei aquilo a coisa mais chata do mundo; e outros (raros, mas de uma intensidade literária total), em que o considerei único, dizendo a mim mesmo que nunca na vida iria encontrar espécime sequer semelhante. Mas por que é que o li? Antes de tudo por se tratar de um fetiche. Depois, por uma questão de curiosidade literária. Este livro está em todas as listas que se fazem dos melhores livros de todos os tempos. Não sei quanto dura este “de todos os tempos”, porque hoje em dia há livros escritos com desconcertante originalidade, não apenas temática mas formal. Gostaria de voltar e esse assunto do Ulisses, com mais vagar. Li-o, afinal, pensando em colocar aqui no blogue algumas coisas ótimas. Li-o como se deve ler um livro de que se gosta: com uma caneta na mão para fazer frente à borracha da memória. 

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

"Os bastidores de um longo artigo"

Eu coloquei aqui no blogue um artigo gigantesco que escrevi sobre a atribuição do Prêmio Camões ao João Ubaldo Ribeiro. Não leia, querida leitora. Também me refiro a você, bem-disposto leitor, mas vou referir aqui somente a leitora, porque acho que acordei querendo imitar o Joaquim Maria (Machado de Assis), e ele, eu sei disso, embora também conversasse com o leitor, preferia mil vezes conversar com a leitora. O Italo Calvino fez coisas parecidas, porém de modo mais radical, no engenhoso e chato Se um viajante numa noite de inverno. Mas já estou eu, leitora minha, fazendo digressões...

Saio do Joaquim Maria e volto ao Luís (de Camões) — digo, ao Ubaldo. O artigo é longo e acadêmico, e escrevi o texto pensando mais naqueles que queiram se aprofundar em assuntos ubáldicos, do que na delicada leitora, que certamente tem mais o que fazer... Eu agora sou especialista em João Ubaldo Ribeiro. Sou também especialista em Campos de Carvalho. Qualquer coisa, estamos aí: é só perguntar, cara leitora, que o especialista responde. Isso é que dá escrever dissertações e teses: a pessoa se torna um especialista.

Tudo começou assim. Eu estava em casa, dormindo no sofá, às 4 da tarde de um domingo. A Clarinha (1 ano e 3 meses, 11 quilos) estava dormindo, a Alice (5 anos, 23 quilos) estava na piscina, e a minha mulher (não digo a idade e nem os quilos), fazendo ginástica. Em outras palavras, eu estava nas nuvens, o que, no meu caso, significa no sofá, com a casa em silêncio, sem mulheres à volta, sem tarefas, sem gritinhos, sem fraldas, sem tombos, sem mamadeiras.

(Eu vivo cercado de mulheres, porque eu só faço mulheres. Um dia desenvolvo este assunto. Outro dia comprei o Ken, que, para quem não sabe, é o namorado da Barbie. Eu já estava sentindo falta de um outro homem dentro de casa há algum tempo. E pensei que o Ken poderia aliviar as coisas para o meu lado – divisão de responsabilidades, creio. Tomei coragem, fui lá e comprei o Ken, dizendo ao vendedor que era para a minha filha (e era!). Hoje, passados nuns meses, confesso que esperava mais do Ken. De todo modo, agora sei que não estou sozinho aqui em casa. Isso, se não incorro em erro, foi uma digressão. Voltemos ao João.)

Eu estava deitado no sofá, quando toca o telefone. Era o José Carlos Vasconcelos, editor do JL — Jornal de Letras, Artes e Idéias, aqui de Portugal, jornalista e grande amigo de João Ubaldo. Ele me ligou porque queria saber onde é que andava o João — que é meu tio porque é casado com Berenice, que é irmã de minha mãe. (Não, o Campos de Carvalho não era meu tio...)

O José Carlos me pergunta onde é que anda o João. Eu digo que não sei. E ele anuncia, animado, que o João ganhou o Prêmio Camões. Eu soltei vivas ao telefone. Dei-lhe o número do celular de minha mãe, que lhe daria mais informações acerca do João ou mesmo da Berenice, e já estava quase desligando e sonhando novamente com o meu sofá, quando o José Carlos, já depois de se ter despedido, disse:

“Ó, Juva! Então, não quer escrever algum texto lá para o JL acerca do João?”

Eu concordei imediatamente. Perguntei-lhe quantos caracteres queria. Ele disse:

“Pr’aí uns sete mil.”

Escrevi dezoito mil... E disse adeus ao meu sofá. Quinze minutos depois, eu estava escrevendo o primeiro parágrafo do artigo. Dezessete minutos depois a casa foi invadida por três mulheres cheias de saudades de mim.

Gritei pelo Ken. Ele estava dormindo na caixa de brinquedos, abraçado a sete Barbies.

sábado, 2 de agosto de 2008

“Modos de ser de uma almazinha brasileira”

“Modos de ser de uma almazinha brasileira: o narrador de João Ubaldo Ribeiro e o seu percurso de aprendizagens”, "Prosa e Verso Blog", Jornal O Globo On Line, Rio de Janeiro 2 de agosto de 2008.

O Prêmio Camões foi criado em 1988 pelos governos do Brasil e de Portugal, e o seu oferecimento a um escritor significa o reconhecimento de que, em cada linha que escreveu e publicou, esse escritor contribuiu para que a Língua Portuguesa se tornasse maior, menos óbvia, mais surpreendente. Ganha o escritor, ganha a língua e ganha o leitor — e este é o que mais ganha, porque amplia os terrenos por onde levará a passeio a sua imaginação. O Prêmio, este ano atribuído ao brasileiro João Ubaldo Ribeiro, hoje com 67 anos, significa o reconhecimento do valor de uma obra inteira, o que vale dizer: de uma vida dedicada à literatura. No caso de um escritor conhecido antes de tudo como um romancista, serão os seus romances a razão deste reconhecimento. Ubaldo publicou, ao longo de 34 anos, nove romances. Quem quiser conhecer João Ubaldo Ribeiro terá de os atravessar, e dentro destes romances tentar encontrá-lo.

Uma recente conversa cordialmente divergente entre Mia Couto e José Saramago teve por tema aquilo que se costuma chamar a “marca” de um escritor, o seu “estilo”. Mia Couto, depois de 22 livros, declarou que gostaria de novamente desencontrar o seu próprio estilo e começar de novo, como se estivesse diante do seu primeiro livro. Saramago contestou-o dizendo que a estratégia talvez seja desnecessária e que a “marca”, o “estilo”, estará sempre lá, nas veredas do texto. Isso tudo pode soar a “conversa de escritor”, mas, de todo modo, no caso de Mia Couto e Saramago, a tarefa de identificar, nos seus respectivos romances, a “marca” que têm é quase uma brincadeira de criança. Qualquer leitor familiarizado, numa prova cega entre os dois, diria sem problemas: “Isto é um Saramago; isto é um Mia Couto”.

Diante de um escritor como João Ubaldo Ribeiro, em que não se detecta um estilo formal ou temático explícito a permear os seus romances, há então o quê, à exceção da assinatura, a agrupá-los? Sua obra romanesca é tematicamente sortida, o que tem dado ensejo a múltiplas abordagens, com variados resultados. Deve haver, no entanto, um fio comum, um nó, um centro nervoso, uma “marca” a enlaçar textos tão dessemelhantes.

Será a leitura de Viva o povo brasileiro, considerado o ponto alto da sua literatura, que vai iluminar as análises dos demais livros, anteriores e posteriores a 1984, e nos ajudar a identificar a “marca” do escritor baiano. E será um curioso personagem ubaldiano, batizado, neste romance, de a “almazinha brasileira”, que funcionará como a representação ficcional de um modo de narrar ampla e radicalmente utilizado pelo autor: o discurso indireto livre.

Está entre as mais brilhantes idéias da literatura brasileira a criação de uma almazinha que sobrevoe as inúmeras histórias que compõem um romance e não se identifique de modo restrito com nenhum personagem; antes, de maneiras diversas, consiga ser cada um deles e ao mesmo tempo não ser nenhum, sendo apenas ela mesma, de algum modo única e sozinha. A almazinha que surge às primeiras páginas de Viva o povo... atravessa quatro séculos e algumas gerações, sempre a encarnar em pobres-diabos, índios tupinambás, negrinhas escravas maltratadas ou ainda soldados brasileiros mortos na flor da idade, como foi o caso do pescador e alferes José Francisco Brandão Galvão.

O jovem, atingido pelas balas de algumas embarcações portuguesas, cai morto no cais da Ponta das Baleias, na Baía de Todos os Santos, com um olho furado e o crânio em pedaços. Mas José Francisco, graças às palavras de amor à pátria que teria supostamente proferido à hora da morte, tornou-se, da noite para o dia, um herói da independência, e seu discurso inaudito, peça fervorosamente homenageada, repetida e parodiada.

Neste dia de 1822, a almazinha que habitava o corpo do alferes um segundo antes do passamento afinal se despega, às carreiras, e sobe mais uma vez aos céus, aboletando-se no “Poleiro das Almas”, sítio onde se aboletam as almas enquanto esperam pelo momento de mais uma vez poderem descer e encarnar noutro ser. Permanecendo almas, as almas não aprendem nada; encarnando, aprendem as razões da vida. As almas precisam ser, e cada encarnação de uma alma é um modo de ser. E é essa almazinha brasileira que acaba por ser, ao fim e ao cabo, o mais constante protagonista do caudaloso romance de João Ubaldo. Ela entra e sai das histórias mais diversas, através de encarnações e desencarnações que partem do século XVII e chegam ao XX — quatro séculos de sofrimentos, tiranias e humilhações —, para compor a eloqüente amostra de alguns específicos modos de ser brasileiro.

Quais modos de ser? Do entrelaçamento de todas as histórias do livro e dos cruzamentos familiares verificados ao longo de tantas décadas destacam-se, do quadro ficcional, três personagens. José Francisco, que a posteridade reconhece como o heróico alferes Brandão Galvão, encarnará, com o famoso discurso às gaivotas, a idéia do patriotismo vazio que atravessa o imaginário brasileiro, do povo às elites. Um índio tupinambá, que chamam de Capiroba, habitante da ilha de Itaparica pelos idos de 1647, canibal de gosto exigente e apreciador da carne holandesa, transforma-se na possibilidade de se poder ouvir uma voz sempre silenciada nos relatos da história oficial: a do índio em processo de catequização. E transforma-se também — porque o centro da ação, aqui, é a catequese forçada, uma vez que o índio não se submeteu à conversão — no produto, levado às últimas conseqüências antropofágicas, do que lhe haviam ensinado os padres jesuítas com a celebração da Eucaristia.

A terceira encarnação da almazinha brasileira recairá sobre uma mulher. A jovem guerrilheira Maria da Fé — personagem possuidora da mais poderosa biografia do livro — parece constituir uma vontade do autor de que seja ela, das três, a mais apropriada encarnação da alma do povo brasileiro — almazinha inquieta e indecisa, é verdade, mas possuidora de um grande desejo de ser. Os três personagens carregam por toda a vida, habitando-lhes as entranhas, a almazinha brasileira que constitui o ser do romance; e carregam também, agora nos ombros, a responsabilidade de constituírem, cada um à sua maneira, uma tentativa de representação da assim chamada “identidade nacional”.

Essa almazinha é então estes três personagens, e não é nenhum deles, sendo apenas ela mesma e igual apenas a si mesma. Essa almazinha é uma resposta à nossa busca pela “marca” do autor, na medida em que esse insólito personagem funciona como uma representação ficcional, portanto interna à obra, de uma outra coisa, esta, sim, constituinte e fundante do universo romanesco: o narrador. A natureza do narrador na obra de João Ubaldo Ribeiro é a mesma da almazinha voadora: errática e ambígua quanto à sua identidade.

João Ubaldo leva às últimas conseqüências, como poucos escritores o fazem, o discurso indireto livre, que se apresenta, na sua narrativa, com uma radicalidade joyceana. E quais são estas “últimas conseqüências”? São graves. O que se espera de um narrador? Que conheça a história que vai contar. Mas o narrador ubaldiano, que não consegue mover-se e falar senão como se move e fala o personagem que está incorporando, não conhece a história que deveria contar, salvo nos raríssimos momentos em que não está “incorporando” algum personagem.

Assim como a alma, que necessita encarnar para aprender, o trabalho do narrador vai desenrolar-se ao longo de um determinado percurso de vida — a sua vida de narrador ao longo dos romances de João Ubaldo. De Setembro não tem sentido, de 1968, a Diário do farol, publicado 34 anos mais tarde, vislumbra-se um caminho, linear no tempo, de progressiva e nítida abertura, que parte do personagem ensimesmado e avança em direção a uma nova condição — condição que inclui os relacionamentos desse personagem com os grupos sociais que direta ou indiretamente o envolvem, cada vez maiores e mais complexos.

Assim é que o seu primeiro romance, Setembro não tem sentido, se concentra na figura de Orlando, fechado em seu quarto e em si mesmo e demonstrando angústia e falta de perspectiva. Este romance tem a velocidade e a criatividade de um livro no qual claramente se inspira: O retrato do artista quando jovem, de James Joyce.

O facho da narrativa começa lentamente a abrir-se para o mundo no romance seguinte, Sargento Getúlio, de 1971. O narrador apresenta-se aqui em primeira pessoa, o próprio sargento, e por todo o livro o que faz é falar, não apenas de si, mas do que faz na vida: ser sargento, ser um empregado de seu chefe e ser portador de uma missão: levar um preso tido por comunista de um lugar para outro. Sargento Getúlio foi traduzido para o inglês pelo próprio Ubaldo e inspirou um estupendo e premiado filme homônimo, do diretor brasileiro Hermano Penna, com o ator Lima Duarte no papel principal. Observamos, neste segundo romance, um narrador não apenas preocupado com o lugar que ocupa dentro de si mesmo, mas também com aquilo que ele próprio espera de si em conformidade com a sua situação perante “o chefe”. Trata-se de Getúlio diante de sua missão e Getúlio diante de si mesmo. Não há à sua volta nenhum grupo social a que pertença; há apenas ele, Getúlio, o desgarrado. A narrativa e o leitor estão encarcerados na mente de Getúlio.

Oito anos mais tarde chega ao público o romance Vila Real (1979). O personagem Argemiro torna-se ao longo da história um líder natural para o seu povo, um homem pouco preocupado consigo mesmo e dolorosamente comprometido com os valores e os problemas da sua comunidade. Toda a narrativa se mantém encaixada na terceira pessoa, usando e abusando, no entanto, do discurso indireto livre, para dar conta do universo subjetivo de Argemiro, contraposto às agruras objetivas do povo de Argemiro, uma comunidade rural situada na região da Jurupema, ameaçada de todos os lados por outros povos inimigos. Não há aqui uma perspectiva nacional; não há perspectiva outra senão a da comunidade. Não se fala de Brasil; fala-se da região da Jurupema. O diâmetro do facho narrativo não ultrapassa as cercanias de Vila Real. O facho, no entanto, abriu-se um pouco mais. Já se pode ver que a área iluminada pelo narrador ultrapassa em muito os interesses particulares dos protagonistas, não mais fechados em seus quartos ou preocupados apenas em cumprir uma ordem e se manter em paz consigo próprios.

Com o romance Viva o povo brasileiro (1984), João Ubaldo, a começar pelo título, que não fala de um homem, Getúlio, nem de uma vila, a Real, mas de um povo, o brasileiro, dá mostras de avançar e ampliar sensivelmente o facho de interesses e o universo temático de seu narrador. O grupo social de que se fala agora é outro, ou são vários: o povo brasileiro como um todo e cada uma das suas partes: pretos e brancos, e dentro dos brancos os portugueses, holandeses, alemães e ingleses, e dentro dos pretos os de vários tipos e origens, e entre eles todos os pardos, mulatos, cafuzos e mamelucos.

Tudo isso está concentrado e representado pela gente de um mesmo lugar, que é o seu universo por excelência: o Recôncavo Baiano. Os rudimentos de uma idéia de pátria acabam por envolver todos os personagens e relativizar seus projetos particulares em nome de uma causa maior, de âmbito nacional. Foi a partir de Viva o povo... que se começou a falar, acerca da obra de Ubaldo, da necessidade cultural, espelhada na literatura, de se contornar com mais nitidez o que se convencionou chamar de “a questão da identidade nacional”.

O romance seguinte, O sorriso do lagarto, de 1989, cujo protagonista é um cientista, inaugura um nova direção no grupo de temas do escritor. Mesmo passando-se em Itaparica, o livro não tem como preocupação contar a história desta ilha baiana e de seu povo. O narrador ilumina seus personagens com um assunto de responsabilidade internacional e alça-os à condição não mais de representantes de um povo do Recôncavo Baiano ou do Brasil, mas de uma idéia de humanidade. Embora a narrativa mantenha muitas das características da prosa de João Ubaldo Ribeiro, o foco do livro é antes o seu tema que a sua forma ou sua ambientação, razão pela qual a história poderia passar-se, grosso modo, em qualquer lugar de razoável urbanidade. Os alvos dO sorriso do lagarto são a ciência, a engenharia genética, as conseqüências sociais do mau uso da tecnologia e a suposta presença de uma idéia universalista do mal nas condutas humanas.

No romance que se lhe segue, O feitiço da ilha do Pavão (1997), esse facho narrativo, que começou com o indivíduo e chegou à humanidade, realiza agora a sua abertura mais radical: através do tempo histórico, para afirmar uma dilatação não apenas do seu ambiente ficcional, mas do raio de ação de uma liberdade humana sem precedentes. O facho dilata-se para dentro do tempo, não como em Viva o povo..., que cobre quatro séculos da história brasileira, comendo-a pelas bordas, mas através da exploração radical de uma espécie de leque de possibilidades — à semelhança da cauda de um pavão. Para tanto, parte do seguinte ponto, banal e simples: a História está todo o tempo a ser alterada em seu futuro pelos atos cometidos no presente. O feitiço..., no entanto, não pára aí; utiliza-se da metáfora da viagem no tempo para dar conta da idéia de que a História também pode ser alterada retrospectivamente. Um outro modo de se dizer que o passado pode ser reinventado, sim, a depender do caminho interpretativo que se percorra.

Como se viu, o facho narrativo de Ubaldo foi se abrindo, de 1968 a 1997, e o seu narrador, a cada abertura, se foi tornando mais e mais comprometido com algo que o ultrapassa. Os romances Miséria e grandeza do amor de Benedita (2000) e A casa dos Budas ditosos (1999) não se encaixam na idéia do facho; enveredam por um desvio face à linearidade observada nos seis livros anteriores. São romances escritos em função de encomendas específicas: A casa dos Budas ditosos, para a série “Plenos Pecados”, da editora brasileira Objetiva; e Miséria e grandeza do amor de Benedita, inserida no projeto da editora Nova Fronteira de criação do primeiro e-book brasileiro.

Em 2002, com a publicação de Diário do farol, o autor regressa ao ponto de partida: o quarto fechado, onde o facho parece se estreitar novamente para os limites do indivíduo ensimesmado, mas na verdade se amplia. O protagonista do Diário..., dentro do seu quarto, talvez o quarto de uma instituição psiquiátrica, dispõe-se a forjar a sua biografia, com paciência e detalhes. O facho volta a dirigir-se ao indivíduo, mas se amplia para dentro do universo infinito das memórias de infância, do inconsciente e da loucura.

Esta gradual abertura para universos mais amplos e complexos obriga o narrador de Ubaldo a “encarnar” em mais vidas e comprometer-se com problemas cada vez menos particulares. Ao longo do facho, que é sempre outro e mais amplo, já não são um ou dois, mas uma grande comunidade de personagens a chamar para si esse narrador. Talvez seja esta a “marca” do autor na obra de João Ubaldo Ribeiro — este narrador sem cabeça, que está lá e não está, que nos prende a cada página e, tal como uma almazinha voadora, será sempre aquilo que nos escapa.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

“Uma almazinha brasileira”

“Uma almazinha brasileira”, JL — Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, Portugal, 30 de Julho a 12 de Agosto de 2008, p. 4-6.

O Prêmio Camões foi criado em 1988 pelos governos do Brasil e de Portugal, e o seu oferecimento a um escritor significa o reconhecimento de que, em cada linha que escreveu e publicou, esse escritor contribuiu para que a Língua Portuguesa se tornasse maior, menos óbvia, mais surpreendente. Ganha o escritor, ganha a língua e ganha o leitor — e este é o que mais ganha, porque amplia os terrenos por onde levará a passeio a sua imaginação. O Prêmio, este ano atribuído ao brasileiro João Ubaldo Ribeiro, hoje com 67 anos, significa o reconhecimento do valor de uma obra inteira, o que vale dizer: de uma vida dedicada à literatura. No caso de um escritor conhecido antes de tudo como um romancista, serão os seus romances a razão deste reconhecimento. Ubaldo publicou, ao longo de 34 anos, nove romances. Quem quiser conhecer João Ubaldo Ribeiro terá de os atravessar, e dentro destes romances tentar encontrá-lo.

Uma recente conversa cordialmente divergente entre Mia Couto e José Saramago teve por tema aquilo que se costuma chamar a “marca” de um escritor, o seu “estilo”. Mia Couto, depois de 22 livros, declarou que gostaria de novamente desencontrar o seu próprio estilo e começar de novo, como se estivesse diante do seu primeiro livro. Saramago contestou-o dizendo que a estratégia talvez seja desnecessária e que a “marca”, o “estilo”, estará sempre lá, nas veredas do texto. Isso tudo pode soar a “conversa de escritor”, mas, de todo modo, no caso de Mia Couto e Saramago, a tarefa de identificar, nos seus respectivos romances, a “marca” que têm é quase uma brincadeira de criança. Qualquer leitor familiarizado, numa prova cega entre os dois, diria sem problemas: “Isto é um Saramago; isto é um Mia Couto”.

Diante de um escritor como João Ubaldo Ribeiro, em que não se detecta um estilo formal ou temático explícito a permear os seus romances, há então o quê, à exceção da assinatura, a agrupá-los? Sua obra romanesca é tematicamente sortida, o que tem dado ensejo a múltiplas abordagens, com variados resultados. Deve haver, no entanto, um fio comum, um nó, um centro nervoso, uma “marca” a enlaçar textos tão dessemelhantes.

Será a leitura de Viva o povo brasileiro, considerado o ponto alto da sua literatura, que vai iluminar as análises dos demais livros, anteriores e posteriores a 1984, e nos ajudar a identificar a “marca” do escritor baiano. E será um curioso personagem ubaldiano, batizado, neste romance, de a “almazinha brasileira”, que funcionará como a representação ficcional de um modo de narrar ampla e radicalmente utilizado pelo autor: o discurso indireto livre.

Está entre as mais brilhantes idéias da literatura brasileira a criação de uma almazinha que sobrevoe as inúmeras histórias que compõem um romance e não se identifique de modo restrito com nenhum personagem; antes, de maneiras diversas, consiga ser cada um deles e ao mesmo tempo não ser nenhum, sendo apenas ela mesma, de algum modo única e sozinha. A almazinha que surge às primeiras páginas de Viva o povo... atravessa quatro séculos e algumas gerações, sempre a encarnar em pobres-diabos, índios tupinambás, negrinhas escravas maltratadas ou ainda soldados brasileiros mortos na flor da idade, como foi o caso do pescador e alferes José Francisco Brandão Galvão.

O jovem, atingido pelas balas de algumas embarcações portuguesas, cai morto no cais da Ponta das Baleias, na Baía de Todos os Santos, com um olho furado e o crânio em pedaços. Mas José Francisco, graças às palavras de amor à pátria que teria supostamente proferido à hora da morte, tornou-se, da noite para o dia, um herói da independência, e seu discurso inaudito, peça fervorosamente homenageada, repetida e parodiada.

Neste dia de 1822, a almazinha que habitava o corpo do alferes um segundo antes do passamento afinal se despega, às carreiras, e sobe mais uma vez aos céus, aboletando-se no “Poleiro das Almas”, sítio onde se aboletam as almas enquanto esperam pelo momento de mais uma vez poderem descer e encarnar noutro ser. Permanecendo almas, as almas não aprendem nada; encarnando, aprendem as razões da vida. As almas precisam ser, e cada encarnação de uma alma é um modo de ser. E é essa almazinha brasileira que acaba por ser, ao fim e ao cabo, o mais constante protagonista do caudaloso romance de João Ubaldo. Ela entra e sai das histórias mais diversas, através de encarnações e desencarnações que partem do século XVII e chegam ao XX — quatro séculos de sofrimentos, tiranias e humilhações —, para compor a eloqüente amostra de alguns específicos modos de ser brasileiro.

Quais modos de ser? Do entrelaçamento de todas as histórias do livro e dos cruzamentos familiares verificados ao longo de tantas décadas destacam-se, do quadro ficcional, três personagens. José Francisco, que a posteridade reconhece como o heróico alferes Brandão Galvão, encarnará, com o famoso discurso às gaivotas, a idéia do patriotismo vazio que atravessa o imaginário brasileiro, do povo às elites. Um índio tupinambá, que chamam de Capiroba, habitante da ilha de Itaparica pelos idos de 1647, canibal de gosto exigente e apreciador da carne holandesa, transforma-se na possibilidade de se poder ouvir uma voz sempre silenciada nos relatos da história oficial: a do índio em processo de catequização. E transforma-se também — porque o centro da ação, aqui, é a catequese forçada, uma vez que o índio não se submeteu à conversão — no produto, levado às últimas conseqüências antropofágicas, do que lhe haviam ensinado os padres jesuítas com a celebração da Eucaristia.

A terceira encarnação da almazinha brasileira recairá sobre uma mulher. A jovem guerrilheira Maria da Fé — personagem possuidora da mais poderosa biografia do livro — parece constituir uma vontade do autor de que seja ela, das três, a mais apropriada encarnação da alma do povo brasileiro — almazinha inquieta e indecisa, é verdade, mas possuidora de um grande desejo de ser. Os três personagens carregam por toda a vida, habitando-lhes as entranhas, a almazinha brasileira que constitui o ser do romance; e carregam também, agora nos ombros, a responsabilidade de constituírem, cada um à sua maneira, uma tentativa de representação da assim chamada “identidade nacional”. Esta ideia foi brilhantemente desenvolvida pela professora brasileira Eneida Leal Cunha, em sua tese intitulada Estampas do Imaginário.[1]

Essa almazinha é então estes três personagens, e não é nenhum deles, sendo apenas ela mesma e igual apenas a si mesma. Essa almazinha é uma resposta à nossa busca pela “marca” do autor, na medida em que esse insólito personagem funciona como uma representação ficcional, portanto interna à obra, de uma outra coisa, esta, sim, constituinte e fundante do universo romanesco: o narrador. A natureza do narrador na obra de João Ubaldo Ribeiro é a mesma da almazinha voadora: errática e ambígua quanto à sua identidade.

João Ubaldo leva às últimas conseqüências, como poucos escritores o fazem, o discurso indireto livre, que se apresenta, na sua narrativa, com uma radicalidade joyceana. E quais são estas “últimas conseqüências”? São graves. O que se espera de um narrador? Que conheça a história que vai contar. Mas o narrador ubaldiano, que não consegue mover-se e falar senão como se move e fala o personagem que está incorporando, não conhece a história que deveria contar, salvo nos raríssimos momentos em que não está “incorporando” algum personagem.

Assim como a alma, que necessita encarnar para aprender, o trabalho do narrador vai desenrolar-se ao longo de um determinado percurso de vida — a sua vida de narrador ao longo dos romances de João Ubaldo. De Setembro não tem sentido, de 1968, a Diário do farol, publicado 34 anos mais tarde, vislumbra-se um caminho, linear no tempo, de progressiva e nítida abertura, que parte do personagem ensimesmado e avança em direção a uma nova condição — condição que inclui os relacionamentos desse personagem com os grupos sociais que direta ou indiretamente o envolvem, cada vez maiores e mais complexos.

Assim é que o seu primeiro romance, Setembro não tem sentido, se concentra na figura de Orlando, fechado em seu quarto e em si mesmo e demonstrando angústia e falta de perspectiva. Este romance tem a velocidade e a criatividade de um livro no qual claramente se inspira: O retrato do artista quando jovem, de James Joyce.

O facho da narrativa começa lentamente a abrir-se para o mundo no romance seguinte, Sargento Getúlio, de 1971. O narrador apresenta-se aqui em primeira pessoa, o próprio sargento, e por todo o livro o que faz é falar, não apenas de si, mas do que faz na vida: ser sargento, ser um empregado de seu chefe e ser portador de uma missão: levar um preso tido por comunista de um lugar para outro. Sargento Getúlio foi traduzido para o inglês pelo próprio Ubaldo e inspirou um estupendo e premiado filme homônimo, do diretor brasileiro Hermano Penna, com o ator Lima Duarte no papel principal. Observamos, neste segundo romance, um narrador não apenas preocupado com o lugar que ocupa dentro de si mesmo, mas também com aquilo que ele próprio espera de si em conformidade com a sua situação perante “o chefe”. Trata-se de Getúlio diante de sua missão e Getúlio diante de si mesmo. Não há à sua volta nenhum grupo social a que pertença; há apenas ele, Getúlio, o desgarrado. A narrativa e o leitor estão encarcerados na mente de Getúlio.

Oito anos mais tarde chega ao público o romance Vila Real (1979). O personagem Argemiro torna-se ao longo da história um líder natural para o seu povo, um homem pouco preocupado consigo mesmo e dolorosamente comprometido com os valores e os problemas da sua comunidade. Toda a narrativa se mantém encaixada na terceira pessoa, usando e abusando, no entanto, do discurso indireto livre, para dar conta do universo subjetivo de Argemiro, contraposto às agruras objetivas do povo de Argemiro, uma comunidade rural situada na região da Jurupema, ameaçada de todos os lados por outros povos inimigos. Não há aqui uma perspectiva nacional; não há perspectiva outra senão a da comunidade. Não se fala de Brasil; fala-se da região da Jurupema. O diâmetro do facho narrativo não ultrapassa as cercanias de Vila Real. O facho, no entanto, abriu-se um pouco mais. Já se pode ver que a área iluminada pelo narrador ultrapassa em muito os interesses particulares dos protagonistas, não mais fechados em seus quartos ou preocupados apenas em cumprir uma ordem e se manter em paz consigo próprios.

Com o romance Viva o povo brasileiro (1984), João Ubaldo, a começar pelo título, que não fala de um homem, Getúlio, nem de uma vila, a Real, mas de um povo, o brasileiro, dá mostras de avançar e ampliar sensivelmente o facho de interesses e o universo temático de seu narrador. O grupo social de que se fala agora é outro, ou são vários: o povo brasileiro como um todo e cada uma das suas partes: pretos e brancos, e dentro dos brancos os portugueses, holandeses, alemães e ingleses, e dentro dos pretos os de vários tipos e origens, e entre eles todos os pardos, mulatos, cafuzos e mamelucos.

Tudo isso está concentrado e representado pela gente de um mesmo lugar, que é o seu universo por excelência: o Recôncavo Baiano. Os rudimentos de uma idéia de pátria acabam por envolver todos os personagens e relativizar seus projetos particulares em nome de uma causa maior, de âmbito nacional. Foi a partir de Viva o povo... que se começou a falar, acerca da obra de Ubaldo, da necessidade cultural, espelhada na literatura, de se contornar com mais nitidez o que se convencionou chamar de “a questão da identidade nacional”.

O romance seguinte, O sorriso do lagarto, de 1989, cujo protagonista é um cientista, inaugura um nova direção no grupo de temas do escritor. Mesmo passando-se em Itaparica, o livro não tem como preocupação contar a história desta ilha baiana e de seu povo. O narrador ilumina seus personagens com um assunto de responsabilidade internacional e alça-os à condição não mais de representantes de um povo do Recôncavo Baiano ou do Brasil, mas de uma idéia de humanidade. Embora a narrativa mantenha muitas das características da prosa de João Ubaldo Ribeiro, o foco do livro é antes o seu tema que a sua forma ou sua ambientação, razão pela qual a história poderia passar-se, grosso modo, em qualquer lugar de razoável urbanidade. Os alvos dO sorriso do lagarto são a ciência, a engenharia genética, as conseqüências sociais do mau uso da tecnologia e a suposta presença de uma idéia universalista do mal nas condutas humanas.

No romance que se lhe segue, O feitiço da ilha do Pavão (1997), esse facho narrativo, que começou com o indivíduo e chegou à humanidade, realiza agora a sua abertura mais radical: através do tempo histórico, para afirmar uma dilatação não apenas do seu ambiente ficcional, mas do raio de ação de uma liberdade humana sem precedentes. O facho dilata-se para dentro do tempo, não como em Viva o povo..., que cobre quatro séculos da história brasileira, comendo-a pelas bordas, mas através da exploração radical de uma espécie de leque de possibilidades — à semelhança da cauda de um pavão. Para tanto, parte do seguinte ponto, banal e simples: a História está todo o tempo a ser alterada em seu futuro pelos atos cometidos no presente. O feitiço..., no entanto, não pára aí; utiliza-se da metáfora da viagem no tempo para dar conta da idéia de que a História também pode ser alterada retrospectivamente. Um outro modo de se dizer que o passado pode ser reinventado, sim, a depender do caminho interpretativo que se percorra.

Como se viu, o facho narrativo de Ubaldo foi se abrindo, de 1968 a 1997, e o seu narrador, a cada abertura, se foi tornando mais e mais comprometido com algo que o ultrapassa. Os romances Miséria e grandeza do amor de Benedita (2000) e A casa dos Budas ditosos (1999) não se encaixam na idéia do facho; enveredam por um desvio face à linearidade observada nos seis livros anteriores. São romances escritos em função de encomendas específicas: A casa dos Budas ditosos, para a série “Plenos Pecados”, da editora brasileira Objetiva; e Miséria e grandeza do amor de Benedita, inserida no projeto da editora Nova Fronteira de criação do primeiro e-book brasileiro.

Em 2002, com a publicação de Diário do farol, o autor regressa ao ponto de partida: o quarto fechado, onde o facho parece se estreitar novamente para os limites do indivíduo ensimesmado, mas na verdade se amplia. O protagonista do Diário..., dentro do seu quarto, talvez o quarto de uma instituição psiquiátrica, dispõe-se a forjar a sua biografia, com paciência e detalhes. O facho volta a dirigir-se ao indivíduo, mas se amplia para dentro do universo infinito das memórias de infância, do inconsciente e da loucura.

Esta gradual abertura para universos mais amplos e complexos obriga o narrador de Ubaldo a “encarnar” em mais vidas e comprometer-se com problemas cada vez menos particulares. Ao longo do facho, que é sempre outro e mais amplo, já não são um ou dois, mas uma grande comunidade de personagens a chamar para si esse narrador. Talvez seja esta a “marca” do autor na obra de João Ubaldo Ribeiro — este narrador sem cabeça, que está lá e não está, que nos prende a cada página e, tal como uma almazinha voadora, será sempre aquilo que nos escapa.

Juva Batella

Escritor, doutor em Literatura Brasileira pela PUC-Rio e autor da tese Este lado para dentro — ficção, confissão e disfarce em João Ubaldo Ribeiro, Rio de Janeiro, 2006.







[1] Cunha, Eneida Leal. Estampas do imaginário — literatura, cultura, história e identidade. Departamento de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, PUC-Rio. Rio de Janeiro, Abr. 1993. Orient. Affonso Romano de Sant’Anna.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

"Ensaio sobre a surdez... (título mudado por sugestão do meu amigo Mauro Gaspar)"

Minha mulher me disse:

- Você iria gostar de assistir ao encontro do Saramago com a viúva do Borges, a Maria Kodama...

- Onde?

- Na Biblioteca Nacional, em Lisboa.

- Quando?

- Nesta sexta-feira.

- Como?

- Como assim “como?”?!

- Digo, claro. Irei. Será?

Fui. Alguma coisa me dizia que eu não iria entender quase nada. O sr. José Saramago e a dona Maria Kodama iriam ficar conversando na nossa frente, é isso? Em castelhano? E o sr. Saramago? Está a se recuperar de uma pneumonia, acho. Sempre foi difícil entender a dicção do sr. Saramago. Em castelhano, então... Fui.

E me sentei na segunda fileira, porque a primeira estava toda ela reservada. Chegaram. O sr. Saramago, velhinho, amparado, magrinho, mas um arzinho bastante altivo, começou a dizer que iria ler um poema do Borges. Leu. Ninguém ouviu nada.

- Se calhar é o microfone... - disse alguém.

E subiu um senhor ao palco para posicionar o microfone de lado, porque de frente, muito perto, o aparelho produzia na voz do sr. Saramago uns arrotinhos.

- Pronto. Já está - disse o alguém.

E o sr. Saramago releu o poema. Ninguém percebeu nada. Até que sobe a dona Pilar, mulher do sr. Saramago, linda, simpática, enérgica, objetiva, despachada. Foi lá e ajeitou o microfone de frente para a boca do sr. Saramago. E ele:

- Ele estava então certo, mas aquele senhor mudou-o para o lado...

- Deixa-o aqui - disse a dona Pilar, definitiva.

E o sr. Saramago recomeçou do início o poema do Borges. Entendemos só mesmo o início, porque ele, aos pouquinhos, se foi afastando do microfone e olhando para baixo. Alguém disse: “O microfone está a se afastar”. Outro disse: “Não é o microfone; é o Saramago...”. Aplaudimos mesmo assim, com cara de quem havia percebido tudo, porque é sempre bom ouvir um poema, mesmo que seja só o início, e ainda mais do sr. Borges...

O sr. Saramago, em seguida, esperou que a dona Pilar voltasse a ajeitar o microfone, e depois falou para si mesmo uns dez minutos algumas coisas que deviam ser ótimas, porque ele de vez em quando compunha no rosto umas expressões curiosas, que tomavam assim o lugar daquela sua costumeira expressão carrancuda.

O sr. Saramago exercita, depois eu formalizei a coisa na minha cabeça, o chamado mau humor bem-humorado, que consiste em produzir, nos limites do cômico, um mau humor que se torna (daí os limites) quase uma caricatura de si mesmo. E, amparado e protegido por esse mau humor que provoca pequenas gargalhadas, ele pode então, sem o receio de ser chamado de mal-humorado (uma vez que está a produzir gargalhadas...), vociferar contra a televisão, contra a literatura de auto-ajuda, contra a literatura comercial, contra a barulhenta música dos jovens, contra o capitalismo, o socialismo de agora e contra todos os seus inimigos reais ou imaginários. Fechemos o parêntese e passemos a palavra à dona Maria Kodama.

Que falou também muito pouco à vontade diante daquele espezinhante objeto, o microfone, que teve de ser posicionado e reposicionado inúmeras vezes de modo a que fosse capaz de abarcar, reproduzir e amplificar o som da sua voz. Ninguém percebeu nada. Eu digo “ninguém” porque me dei ao trabalho de perscrutar os rostos franzidos à minha volta.

Ela é bonita, doce, meiga, cativante, mas me pareceu, mesmo eu não tendo entendido nada, que não perdi muita coisa. O sr. Saramago, em seguida, pegando no microfone como quem pega numa taça de vinho e a mete à sua frente, à mesa de um jantar, recomeçou a sua pequena “comentação” da obra do sr. Borges, afastando, é claro, a taça de vinho no momento em que começava cada frase. Ele disse algumas coisas que eu não percebi e em seguida comunicou a todos que iria fazer três perguntas à dona Maria Kodama. Fez as duas primeiras, e até hoje eu não sei quais foram, e nem nunca saberei, e em seguida fez a terceira, que, agora digo, foi a única coisa que me fez dizer a mim mesmo, bem mais tarde, à noite, à minha mulher, na cama: “Valeu a pena ter ido só por causa daquela pergunta”.

A pergunta foi (no castelhano saramágico):

- Então, diz-me lá, Maria, como é que o Borges te dizia que te queria? Com que palavras ele te dizia: “Quero-te”?

A resposta? Antes de a dar, a dona Maria Kodama sorriu, depois corou, depois de corar riu, depois corou novamente, riu mais um pouco e de uma maneira mais descontrolada, e ao fim respondeu.

Mas eu não entendi uma única palavra.

terça-feira, 24 de junho de 2008

"Eis que o leitor..."

Bom, cheguei esta manhã para dar uma olhada aqui no blogue... Já faz tanto tempo que não venho aqui, e eis que estava lá um sujeito na porta do blogue, à minha espera.

— Bom dia. O senhor é o Juva?

— Sou eu mesmo. Bom dia.

— É o senhor que supostamente seria aquele da blague, a “blague do Juva”, não é isso?

— É isso mesmo — respondo. — E o senhor é quem?

— Eu sou quem?! Quem o senhor acha que eu sou?

— Bom. Um leitor, talvez.

— Pois é isso mesmo. Sou um leitor.

— Bom dia, eu sou o...

— Eu sei quem o senhor é. O senhor é o autor do blogue, ou, pelo menos, deveria ser...

— OK, OK. Já percebi — disse eu, sentindo o peso da culpa.

— Já percebeu? E percebeu o quê?

— Já faz um bom tempo que não apareço por aqui. Deve ser por isso que o senhor está me olhando assim com essa cara feia...

— E imagino que o senhor deva ter alguma boa razão para ter sumido assim por tanto tempo... Imagino.

— Eu não sei bem se devo me sentir assim tão culpado... Não fiz mal a ninguém. Apenas parei por um tempo e...

— Não fez mal a ninguém?! O senhor coloca um blogue no ar, começa a contar nesse blogue histórias as mais variadas sobre a sua vidinha aí em Portugal, aliás, uma vidinha bastante sem graça essa que o senhor tem, não é mesmo? Convenhamos... Mas, de todo modo, o senhor consegue tirar dessa vidinha sem graça algumas boas histórias que até têm lá a sua graça. Aliás, têm bastante graça, e eu tenho um fraco por histórias engraçadas, hum..., eu até criei um termo para definir as suas histórias: histórias hilário-banais. O senhor é bastante bom nisso: em nos contar histórias hilário-banais.

— Obrigado — e corei. — O senhor falou no plural: em nos contar histórias hilário-banais. O senhor sabe de mais gente que vem, ou melhor, que vinha aqui?

— Sim. Havia aí uma data de gente. Pelo menos aqui de Lisboa eu cheguei a conhecer dois e meio.

— Dois leitores e meio? Não entendo...

— Eram duas leitoras: duas senhoras ali do Chiado, e um senhor que só lia até à metade.

— Ah...

— Mas o senhor me desconcentrou. Eu estava a dizer que o senhor então coloca o seu blogue no ar, nos diverte a todos com a estupenda banalidade da sua vida, dá-nos de vez em quando uns bons bocados de boa literatura. Refiro-me não à do senhor, é claro, que eu não sei se o senhor é ou não um literato, mas à literatura dos outros, que o senhor compila, ou compilava, no seu blogue. E, de repente, o senhor some, desaparece, abala, como se diz no Alentejo, deixando-nos na mão, a dar com os narizes na porta...

— O senhor está falando como se eu os tivesse abandonado, deixando-os órfãos. Eu não estava propriamente responsável por vocês... Há muitos blogues no mundo, e...

— Então não?! Então não estava?! A pessoa acostuma-se a todos os dias fazer algumas coisas sempre da mesma maneira. E todos os dias cá vinha eu: saía para navegar e vinha cá ao sítio onde está ancorado o seu blogue, e dizia a mim mesmo: “Vamos lá ver o que é que aquele gajo lá de Santo Amaro escreveu sobre a vida besta que ele leva. Aquilo tem piada”, dizia eu a mim mesmo. “Aquilo tem sempre alguma piada, por mais banal que seja a coisa...”. Eu então vim cá, num determinado dia, ao seu blogue, e pum!, dei com o nariz na porta. Voltei no dia seguinte. Pum! Dei com o nariz na porta do blogue. Pensei: “O gajo deve estar doente. Ou então não tem acontecido mesmo nada nada na vida dele, e nem com isso ele conseguiu escrever uma história. A criatividade de um vivente tem mesmo limites...”. Mas eu não desisti, e vim cá todo santo dia para ver que nada havia.

— Pois.

— Pois?! É só isto que o senhor tem a dizer. Pois?! Já viu como é que isto aqui está? Está imundo! O senhor não põe aqui os pés há quanto tempo?

— Desde do dia 1º de abril de 2008...

— E ainda por cima escolheu este dia... E escreveu lá que o blogue andava paradinho, e coisa e tal. E que havia tanta coisa no mundo para se ler e para se ouvir e para se assistir, e para se escrever, que não era possível não ficar ansioso... E depois o senhor não escreveu mais nada! Desde o dia 1º de abril! E nós estamos no dia 24 de junho! Francamente!

— O senhor tem razão...

— Pois é claro quem tenho razão!

— Mas eu também tenho lás as minhas razões...

— E quais são elas? Creio que, como seu leitor, tenho o direito de saber...

— Bom, estou a escrever um livro, e estou nas fases finais, e isto está tomando todo o tempo e...

— Todo o tempo?!

— Sim. Todo o tempo. Por quê?

— O senhor tem tempo para tomar banho?

— Tenho. Em dez ou quinze minutos eu tomo um banho.

— Pois então deixe de tomar banho pelo menos uma vez por semana e dedique estes dez ou quinze minutos do seu preciso tempo para escrever cá para nós uma notinha qualquer, um alô, um poeminha, qualquer coisa que seja...

— Isso me parece um exagero e...

— O senhor não se diz um escritor? Um escritor não é uma coisa assim à toa, não é mesmo? Há de haver alma nesta história de ser um escritor... Deixar de tomar banho um dia não me parece assim tão dramático... Há escritores que se trancaram nos seus quartos e ficaram dias sem comer e sem dormir e sem conversar com ninguém, num isolamento bastante invulgar, somente para estarem totalmente entregues à sua arte. Eu estou a pedir ao senhor, em meu nome e no nome das duas senhoras de Lisboa e ainda daquele senhor que só lê até à metade, que o senhor se dedique com um pouco mais de disciplina ao seu blogue...

— Vou tentar. É que, como eu disse, estou escrevendo um livro e...

— E o senhor vai sacrificar um banho por semana, ou uma de suas “natações” diárias, para meter aqui dentro uma notinha qualquer.

— Sei...

— O senhor não tem feito nada ultimamente? Nada que mereça um comentário qualquer? Mas que diabo de vida o senhor tem? Não lhe acontece nada? A sua filhinha mais nova, a miúda de 1 ano de idade... Como é mesmo o nome dela?

— Clarinha.

— A Clarinha já começou a andar?

— Já. Já começou...

— E então? Ela cai muito?

— Caía mais no início. Agora cai menos. Mas ainda leva uns tombos.

— Escreva sobre isso.

— Mas isso é por demais banal. Isso acontece com todo o mundo!

— O senhor está a se referir a todos que tenham 1 ano de idade...

— Claro, claro...

— E o senhor acha que as outras coisas que o senhor escreveu não acontecem com todo o mundo? O senhor se acha muito especial?

— Não, não! Nem um pouco especial. Muito pelo contrário! Não vejo quem é que se interessaria, fora a família, imagino..., em saber que a Clarinha caía muito no início, mas agora cai menos, embora ainda leve lá alguns tombos... Aliás, a coisa é mesmo engraçada, porque ela cai de bunda, a fralda amortece o tombo, e ela ri. O senhor precisava ver... A Clarinha é especial...

— Viu? Viu como o senhor, se for bem cutucado, pode escrever sobre o que quer que seja? O mundo é vasto, sr. Juva! Há sempre alguém que pode se interessar pelo que quer que seja...

— É...

— Fale mais da Clarinha. Ela já come com sal?

— Agora começamos com o sal, aos pouquinhos...

— E dorme bem?

— Ô, eu até escrevi sobre isso aqui no blogue. Veja, está ali, na parede do dia 1º de Fevereiro de 2008.

— Estou a ver... “Nana, neném” — ou A Nossa Senhora do Método”.

— Isso mesmo. A Clarinha dorme 12 horas à noite; 2 horas no meio da manhã e duas horas no meio da tarde. Aliás, é porque ela está dormindo que eu estou aqui. Decidi dar um pulinho até aqui. Já fazia tanto tempo... Se eu soubesse que iria encontrar um leitor aqui...

— Se soubesse, não vinha, certo?

— Não, não. Se soubesse, vinha até com algum textinho, um poeminha, uma notinha...

— E o que mais o senhor tem feito, além de tomar banho, nadar, cuidar da Clarinha e escrever o seu novo livro? Tem ido a Lisboa?

— Fui outro dia à Biblioteca Nacional...

— Fazer o quê?

— Olhe que isto até dava uma notinha para o blogue! Fui assistir a um encontro-debate com o sr. Saramago e a sra. Maria Kodama, a viúva do sr. Borges.

— … E não lhe ocorreu, sr. Juva, escrever sobre isso?

— Não.

— Estou chocado!

— Bom, vou escrever sobre isso então. Vou tentar. Agora preciso ir, porque a Clarinha está acordando... Foi um prazer conhecê-lo. Hum... Como se chama?

— Heitor.

— Heitor, o leitor. O leitor Heitor... Interessante...

— Esta associação é velha...

— Desculpe.

— Tudo bem. Também preciso ir. Tenho outros blogues para visitar... Então, sr. Juva? O senhor promete que vai tentar estar mais presente aqui neste blogue?

— Não prometo nada.

— Isto já é alguma coisa. Passar bem.

— Adeus, sr. Heitor!

segunda-feira, 28 de abril de 2008

"O sutil nariz da vaca"

A literatura de Campos de Carvalho jorrou, colorida e intensa, de 1941 a 1964. Depois, como se o autor, com um golpe de mão, tivesse simplesmente fechado uma torneira, parou. E tudo à volta cessou, e daquela fonte não saiu mais nada, e daquela estranha água nenhum dos poucos leitores que àquela altura já se tinham viciado conseguiu um só gole. Campos de Carvalho parou de escrever, em seguida parou de falar, e bem depois, em 1998, morreu. Há pouco menos de vinte anos é que as histórias de literatura, antologias, monografias, dissertações, teses e editoras deram pela sua falta.

Vaca de nariz sutil (1961) é o seu segundo romance, depois de A lua vem da Ásia (1956). “Escrevi-o aos prantos”, disse Campos de Carvalho numa entrevista. Se quisermos incluir os dois livros que o autor não quis que figurassem na sua obra reunida, Banda forra e Tribo, será então o quarto - uma chuva imóvel e um púcaro búlgaro completam o quadro. E aqui termina a obra completa de um tão insólito quanto excelente escritor.

O insólito e excelente Vaca de nariz sutil e os demais títulos que formam a sua literatura encontram-se escondidos nas histórias, só ganhando sentido ao longo da leitura. O narrador deste romance sombrio e existencialista, um ex-combatente de guerra que não diz (ou esqueceu) o seu nome, começou a observar as vacas quando estava em meio aos campos por onde se arrastavam os exércitos. Assistir-lhes ao pasto calmo, o olhar baixo e sábio, foi uma experiência que o marcou e que teve a sua culminância diante de um quadro do pintor francês Jean Dubuffet, intitulado justamente La vache au nez subtil: “... assim se chamava o quadro, e em vão tenho eu procurado uma vaca assim entre as vacas e sobretudo entre os homens”.

Mas a vida entre os homens não tem mais qualquer sentido para o nosso ex-combatente. Chegado da guerra mais morto do que vivo, este “cadáver adiado”, na expressão de Fernando Pessoa, refugia-se numa pensão e, arrastando-se de madrugada pelos corredores, passa a viver a vida dos outros, espiando pelo buraco das fechaduras os segredos e as canalhices alheias. A sua solidão, imensa solidão, envolve-o como um nevoeiro. Sob o mesmo nevoeiro o leitor poderá escutar os ecos de um outro livro, cujo narrador, o soldado Ferdinand, de Viagem ao fim da noite, de Céline, também é, à sua maneira, zombeteiro, antipatriótico e anarquista.

No entanto, ao contrário de Céline, por cuja biografia pairou a sombra do anti-semitismo, Campos de Carvalho zombou de tudo o que lhe pareceu estúpido e cruel, fazendo da vida de cada um de seus narradores, em cada um de seus livros, um poema onde se pode ler, sem atenuantes, o absurdo. Vaca de nariz sutil ficará em nossa lembrança como um romance inteiramente dedicado a combater o absurdo da guerra através do exercício obstinado da memória – a única companheira possível numa viagem cujo fim é a noite.

4ª capa

“Onde o senhor dorme? No Hotel Terminus. Mas aqui não há nenhum Hotel Terminus. É o que o senhor pensa.

Passava das onze, chovia; imperceptivelmente fomos caminhando até o portão do cemitério. Aqui fico — disse-me, estendendo a mão fria: Boa noite! Não sou supersticioso mas confesso que foi, como direi? um tanto ou quanto, como direi... Tinha a sensação de que ainda trazia presa à minha aquela mão, quando liguei o comutador e entrei no quarto. Tolice! — eu repetia com o cigarro no canto da boca, também ele frio e apagado. Tanta filosofia, para isto!”