sexta-feira, 16 de novembro de 2007

"O cimo da montanha mágica"

"O cimo da montanha mágica"

Um bosque oculto, a liberdade de não ler, uma coisa chamada A montanha mágica, e de que modo um grande debate consegue prenunciar o Horror. Em seguida, um duelo a pistola; em seguida, o surpreendente desfecho; em seguida, a Europa em cacos.

Isto não passa do espanto de um leitor que deseja compartilhar com outros um momento de felicidade narrativa. É o que em geral acontece quando se lê uma coisa que depois fica esquecida na lembrança, embora grudada e guardada nalgum canto da cabeça: o tempo passa, e sempre que se ouve falar daquilo que se leu, a coisa guardada mostra a sua cara. Esta semana mostraram-me as suas caras um bosque oculto, longe alguns quilômetros do sanatório Berghof, cenário principal e quase único de uma coisa escrita pelo Thomas Mann e chamada por ele A montanha mágica, e também, a tomar lugar no tal bosque oculto, um duelo entre dois homens, um duelo com pistola, talvez um dos mais inusitados e inesquecíveis duelos com que a literatura já desafiou os seus leitores.

Como a vontade de assuntar o duelo e contar o que sucedeu é bastante maior do que a consideração que se deveria ter por aqueles que ainda não leram mas pretendem ler ou por aqueles que estão lendo e desejam continuar a ler a festa literária que é A montanha mágica, fica aqui reafirmado o óbvio: a liberdade que tem o leitor de fugir para bem longe; o direito que tem o leitor de não ler o que está lendo agora. Dou a sugestão, por outro lado, como quem dá de ombros, talvez por não acreditar que alguma festa efetivamente se estrague quando são antecipados momentos importantes de romances que estão pelo meio — à exceção dos policiais, sim, mas não é este o caso.

O caso, aqui, é outro. A montanha mágica, romance publicado em 1924, aponta para uma Europa imediatamente anterior à explosão da Primeira Guerra; uma Europa que pode ser representada em parte, em sua parte mais fina e chique, pelo seleto grupo dos personagens que vivem hospedados nas elevadas regiões de Davos, nos Alpes suíços, entre os limites bastante amplos da propriedade pertencente ao sanatório Berghof, para tuberculosos. Toda a ação do livro se concentra nestas elevações, e estas elevações não permanecem soberanas e onipresentes, por quase todo o romance, à toa; estão ali para servir de contraste à vida burguesa e frívola da planície; para servir de contraste à perfídia dos momentos finais da história — momentos finais que esmagam e engolem, literalmente, o protagonista, Hans Castorp, jovem engenheiro de Hamburgo. Castorp vai para Berghof visitar o seu primo Joachim, pretendendo permanecer no sanatório, como visita, não mais que três semanas. Permanece sete anos.

Sete anos nas alturas permanece o jovem Hans Castorp, que, protagonista que é de um romance tido como exemplo eloqüente da categoria dos Bildungsroman, ou romance de formação, cresce e também se eleva como personagem, ganhando conhecimento de si e do mundo que o envolve. Acompanhamos o desenvolvimento não só da doença que Hans Castorp descobre oculta em seu peito mas também de suas aptidões filosóficas e morais, de seus gostos e devaneios literários e, principalmente, de sua inabalável vontade de aprender com quem sabia e podia lhe ensinar. Chegamos aí, não ao seu primo Joachim, tenente enfermiço e embrutecido pela tuberculose galopante, homem de alcances encurtados e unicamente absorvido pelas singelezas concretas da vida quotidiana e por sua aptidão para a obediência militar, mas a dois outros homens, também habitantes do elevado sanatório Berghof e suas redondezas: Lodovico Settembrini, que já lá estava quando chega Castorp, e o novato Leo Naphta, que surge mais tarde, pelo meio do livro, sendo apresentado formalmente ao leitor na página 415. Em suas mãos e sobre as palavras que trocam entre si estes dois homens é que se desenvolve o debate intelectual que constitui o centro nervoso desta coisa explosiva chamada A montanha mágica.

E o que é que tanto debatem Settembrini e Naphta? Estamos diante de dois homens informados, cultos e magistralmente versados na arte do parlatório, ou, dito de outro modo, duas criaturas de incorrigível espírito discursivo. O primeiro, um humanista, racionalista, classicista, escritor e biógrafo; o segundo, professor de línguas antigas, pequeno, magro, feio como o diabo, mas de uns olhos cinza-claros e de uma elegância no vestir que deixavam em desvantagem o alto e desengonçado Settembrini. É descabida a tentativa de se resumir um décimo que seja das querelas acadêmico-filosófico-religiosas havidas entre Lodovico Settembrini e Leo Naphta - cuja discussão, entre os vai-e-vens do quotidiano um pouco abestalhado do sanatório Berghof, dura quinhentas páginas compostas com intercalações de alguma ação. É descabida, sim, mas tentadora para um incauto resumidor. Eis então um resumo dos assuntos sobre os quais viviam discutindo o Settembrini e o Naphta. Tomemos água, e tomemos fôlego. Serão dez rounds a preceder o duelo final.

1. Settembrini abomina o sedentarismo que impera inoperante naquele sanatório, abomina a imobilidade, o ócio e a contemplação desinteressada do devir; elogia o trabalho, a razão e o empreendedorismo da espécie humana. Naphta torce a boca e cita uma espécie de hierarquia da perfeição, cujo ponto mais baixo é o moinho, ou seja, o local de trabalho, e o ponto mais elevado, o leito do repouso e mesmo a doença, que tem o condão de levar o homem ao encontro de si mesmo.

2. Settembrini ri, nervoso e horrorizado; Naphta lembra-o de que é na cama que se dá a contemplação isolativa do homem em sua união com Deus; é na cama que têm lugar os grandes arrependimentos e tomadas de consciência, porque é através da doença, que na cama ganha vulto, que o homem se torna mais humano. Ser homem, diz Naphta, é ser doente, porque o simples fato de estar doente é o que o torna homem. O homem destaca-se da natureza, e o que o distingue dela é uma coisa chamada Espírito. E é no Espírito que se baseia a dignidade do homem.

3. Settembrini, de olhos arregalados, acusa Naphta de praticar uma hierarquia orientalóide, que condena toda a atividade e apregoa o ócio e mesmo a enfermidade do corpo. É com estes argumentos, pergunta-lhe Settembrini, que espera convencer os jovens a se deixarem conduzir pelo espírito e nele depositarem a fé? É assim, declarando que a doença e a morte são nobres, ao passo que a saúde e a vida, aviltantes, que espera servir à humanidade? E se todos cessassem de agir?, pergunta-lhe o italiano, pasmado. Haveria no mundo a mais perfeita calma, sim, é verdade, mas também não haveria mais nada.

4. E a mística ocidental?, pergunta-lhe Naphta, de supetão. Que mística ocidental, professor? Ora, a mística ocidental, segundo a qual toda ação representa um erro, já que a tentação de agir ofende a Deus, que é o Único que deve, na Sua perfeição, agir. Não, não, meu caro Settembrini, continua Naphta. A possibilidade da salvação espiritual através do repouso e da não-ação é uma possibilidade que está diluída entre todos os homens, não só entre os orientais.

5. Settembrini dá dois pulinhos no chão e lembra que cabem ao homem ocidental a razão, a análise, a ação e o progresso, e não a cama, onde se espreguiça o monge. Já que o senhor falou no monge, interrompe Naphta, recordo-lhe que é ao monge que se deve a cultura do solo europeu, sem a qual Itália, França e Alemanha não passariam de um grande brejo fedorento e cheio de moscas. Se houve na nossa história trabalhadores dignos desse nome, eles foram os monges, complementa Naphta, inflando disfarçadamente o peito.

6. E diz Settembrini, de enfiada, que o professor não estava fazendo mais nada senão concordar com os valores e a necessidade do trabalho. E era mesmo o que Naphta queria ouvir, porque logo em seguida disse que o trabalho do monge não tinha finalidade senão em si mesmo, ou seja, não era uma válvula de escape e nem mesmo uma maneira de enriquecimento material ou de mecanismo para a eclosão do progresso no mundo. Era, prosseguiu Naphta, com orgulho, um exercício ascético, uma forma de salvação, um escudo contra as demandas da carne e da sensualidade.

7. Deste ponto acabaram caindo inevitavelmente na figura do militar, que, para Settembrini, se revelava insustentável do ponto de vista espiritual, já que é, diz ele, meramente formal, sem conteúdo, já que se alista em suas fileiras tanto por uma causa quanto por outra. Vamos enobrecer o soldado, sim, provoca ainda o italiano, quando soubermos por qual causa ele realmente se bate. Não, diz, Naphta, o simples fato de que se bate por algo é o que o torna nobre, muito mais nobre do que a concepção positiva e pragmática que tem o burguês, não só da vida, mas das ciências e do Universo.

8. O italiano empertigou-se. O que há de errado com as ciências e o Universo, senhor Naphta? Estão, por acaso, equivocados? Naphta riu, e chocou Settembrini, deixando-o de queixo caído, com a exposição da sua idéia de que o Século das Luzes e a nova astronomia não fizeram mais do que destruir o magnífico cenário onde Deus e o Diabo disputavam a posse da criatura humana, por ambos almejada. Esse cenário, prosseguiu Naphta, rindo com seriedade, acabou sendo transformado num insignificante, obscuro e passageiro planetazinho chamado Terra. Esta é a história do fim da grandiosidade do homem no Universo.

9. O senhor, pelos vistos, disse-lhe Settembrini, com as mão na cabeça, insiste mesmo em sua condição de jesuíta tardio, não? E a ciência, e a teoria heliocêntrica, senhor Leo Naphta? O senhor está defendendo aqui uma espécie de retorno do geocentrismo? Isto é quase humor! E o conhecimento puro, onde fica? O progresso? A tecnologia? Dessa vez foi Naphta que colocou as mãos na cabeça. Conhecimento puro?! O senhor está falando de conhecimento puro? Meu caro Settembrini, quanta ingenuidade! Recordo para o senhor as palavras de Santo Agostinho: “Creio, para que possa conhecer”. A fé é o órgão do conhecimento por excelência. A fé. Uma humanidade, continua Naphta, que não reconhece não poder ser verdadeiro nas ciências naturais o que é falso na filosofia não é humanidade. Verdadeiro é o que convém ao homem.

10. Protesto!, gritou Settembrini. Não proteste, disse-lhe Naphta, e fechou a discussão esboçando um resumo da ópera. Eu sugiro que empreguemos a lógica, disse o jesuíta ao italiano. Ou a Escolástica tem razão, e o mundo é finito quanto ao tempo e ao espaço. Então a divindade é transcendental, existe oposição entre Deus e o mundo, o homem é um ser dualista, e o seu grande problema é lidar com o antagonismo entre o físico e o metafísico. O resto é secundário. Ou então, segue Naphta, o tal do conhecimento puro que o senhor advoga descobriu enfim a verdade e temos outro quadro: o universo é infinito, não há mundo transcendental, não há dualismo, porque o além se acha absorvido pelo aquém, desaparecendo também a oposição entre Deus e a natureza, e o homem, nesse caso, não se angustia com o seu dualismo, porque não há mais dualismo, havendo tão-somente uma personalidade harmoniosa e una. O conflito, agora, passa a ser outro, e nesse ponto da sua história aparecem o Estado e a lei moral, e blá-blá-blá, sabemos o final dessa lenga-lenga, senhor Settembrini, e em que é que vão dar os tais sentimentos nobres que o senhor tanto proclama: a Liberdade, a Democracia, o Estado de Direito, a Ciência, as Luzes, a Razão e o Esclarecimento. Em quê?, pergunta-lhe o italiano. Numa nova versão do Terror, responde-lhe Naphta.

A discussão prossegue livro adentro, e em determinado ponto, diante de uma explosão de cólera de Settembrini, Naphta o convida a ponderar o que disse. O italiano nega-se, e o jesuíta desafia-o então para um duelo. Eu estou no seu caminho, disse-lhe Naphta, e o senhor está no meu. Liqüidemos a diferença num lugar adequado. Settembrini, humanista que é, defensor implacável dos valores e da vida, teoricamente reprova, sim, o duelo, como reprova o militarismo e a guerra, mas como homem de brios e honra não o recusa.

As exigências de Naphta, que as tinha como direito, já que era ele o ofendido, incluíam ser o duelo a pistola e deverem os duelistas afastar-se cinco passos de distância, trocando, se necessário, três balas. Settembrini aceita tudo, e diz a um amigo que não tentará matar Leo Naphta. Vou me expor à bala dele, e isso é tudo o que a honra pode exigir de mim, fique sossegado.

Chega o dia do duelo, penetram no bosque os dois homens e mais outros, que serviriam de árbitro e acompanhantes. Olham-se, cumprimentam-se, afastam-se os duelistas cinco passos e esperam pelo sinal. Dado o sinal, avançam um para o outro, as pistolas apontadas para a frente, os olhares cruzados. No terceiro passo Settembrini, muito sério, levanta ainda mais o braço, aponta a pistola para cima e atira para o alto do céu. O som do tiro ressoa múltiplas vezes por todas aquelas elevadas montanhas suíças, enchendo todo o vale de vibrações.

Naphta olha indignado para Settembrini: o senhor atirou para o alto! Eu atiro para onde quero!, diz-lhe o italiano. Atire de novo, ordena-lhe Naphta. Nem pensar, diz-lhe Settembrini. Agora é a vez do senhor, e o italiano ergueu os olhos para o céu, à espera do tiro do outro, que certamente o mataria. Leo Naphta olha para ele e diz apenas isso: Covarde!, e, levantando a pistola de modo surpreendente, aponta-a para si mesmo, dá um tiro na própria cabeça, cambaleia, faz uma brusca meia-volta e cai, com a cara na neve.

Infelice!, grita Settembrini. Che cosa fai, per l’amor di Dio?

Alguns anos depois, a nova versão do Terror, de que falou Leo Naphta, que não pôde vivê-lo, embora o tenha intuído, explodiu, fazendo cacos das palavras e dos ideais de Settembrini. Hans Castorp teve de descer a montanha mágica e alistar-se. Era o trovão, explodindo a Europa.

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