sexta-feira, 26 de outubro de 2007

O primeiro texto curto a gente nunca esquece

Este é o meu primeiro texto curto aqui neste blogue. Vamos ver se consigo. Vou tentar não escrever nada extenso. Vai ser um esforço danado, mas vamos lá ver...

A robusta legião dos meus fiéis leitores gostou da analogia proposta: entre o blogue e um cãozinho a quem se deve alimentar diária ou semanalmente. Se eu tivesse um cãozinho, ele bem que poderia se chamar Blogue. Já que não tenho um cãozinho a quem batizar de Blogue, fico cá com o meu blogue, a quem (quem?) batizo de Cãozinho.

Cãozinho, aliás, é um nome... Não. Deixemos para depois, que isto já está ganhando vastidão.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

"Para que serve um poema?"

Para que serve um poema? "Isto não é pergunta que se faça" é a resposta que se deve dar. Ou então: serve, no mínimo, para ser lido, e tudo o mais que decorrer daí é responsabilidade daquele que lê. Esta pergunta já foi feita pelos espíritos mais toscos e já foi aplicada não só a poemas mas também a romances e outras formas artísticas. A arte, e tudo o que pode ser inserido neste conceito, parece que sempre sofreu esta inquisição imposta pelo pragmatismo mais rasteiro. Não vou aprofundar esse assunto porque não saberia como aprofundar esse assunto sem me meter pelas páginas de alguma História da Literatura e das Artes. Mas vou continuar a brincadeira.

E agora pelo seguinte caminho: para que serve uma máquina? Oh, para muitas coisas – coisas certamente que se localizam para além da máquina. A máquina em si é apenas um meio. A máquina é sempre um meio. Concordo, e basta pensarmos em todas as máquinas que nos rodeiam para conseguirmos localizar, sem dificuldade, aquele objetivo que se situa depois da máquina. O liqüidificador e a máquina de espremer laranjas são um exemplo eloqüente. E paramos por aqui, por favor, que isto está ficando óbvio demais.

E agora? Para que serviu este parágrafo? Para colocar aqui o link de um vídeo que descobri um dia desses – o vídeo que filma uma máquina que não serve para nada a não ser para a vermos funcionar, e lindamente. Depois que a vi funcionando concluí, maravilhado, que aquilo não era uma máquina, mas um delicioso poema que anda pelas próprias pernas. O nome do engenheiro-poeta é Arthur Ganson, e o nome de sua máquina-poema é Wishbone – aquele ossinho da galinha que a gente usa para fazer pedidos. A máquina do Arthur é um poema por várias razões, uma delas, apenas uma delas, é porque utiliza dois materiais: um biológico e outro não biológico, e todo o engenho produz a sensação de que é o ossinho que puxa a máquina – o ossinho caminhante que vai arrastando, a passos de caranguejo, toda aquela engenhoca.

Não dá vontade de escrever uma resenha sobre esse poema-máquina, do mesmo modo como temos vontade de escrever uma resenha sobre um poema-letra? Está abaixo.

Arthur Ganson- Wishbone

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

"A Ovelha Negra"

"Em um país distante existiu faz muitos anos uma Ovelha Negra.

Foi fuzilada.

Um século depois, o rebanho arrependido lhe levantou uma estátua eqüestre que ficou muito bem no parque.

Assim, sucessivamente, cada vez que apareciam ovelhas negras eram rapidamente passadas pelas armas para que as futuras gerações de ovelhas comuns e vulgares pudessem se exercitar também na escultura."

Augusto Monterroso, “A Ovelha Negra”, in A ovelha negra e outras fábulas, trad. Millôr Fernandes, Rio de Janeiro, Record, 1983.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

"Bartleby e Companhia - Campos de Carvalho e de Bartlebys"

"Bartleby e Companhia - Campos de Carvalho e de Bartlebys"

Li finalmente o delicioso livro do Enrique Vila-Matas, Bartleby & Companhia, e desde então não deixo de ter na cabeça o personagem do Melville, o próprio Bartleby, sujeito de mistérios esquálidos e personalidade impalpável. Bartleby não faz nada nunca; quando lhe pedem que faça algo, diz que prefere não fazer. Nunca alguém o viu lendo, ou escrevendo, ou bebendo e comendo o que quer que seja, nem indo a lugar algum, ou mesmo vindo de lugar nenhum. Bartleby é visto sempre parado, olhando por uma janela que fica atrás de um biombo, e contemplando, por essa janela, um muro qualquer de tijolos da Wall Street. Bartleby não tem parentes, não tem amigos, nunca se envolveu com outro coração, ninguém sabe a sua idade e nem outras muitas informações que não me ocorrem agora mas que podem dizer algum mínimo que seja acerca de uma pessoa, situando-a no mundo. Bartleby não se situa; é praticamente uma evanescência.

E o que faz o criativíssimo escritor espanhol Enrique Vila-Matas com um personagem que não faz nada, não tem história e não tem problemas; um personagem que, antes e depois de tudo, não evoca nada? Este é o centro nervoso do Bartleby & Companhia, pois ele parte da seguinte idéia: não é que Bartleby, graças à sua postura de testemunha quietinha e comportada do espetáculo do mundo, não evoque nada. Tire-se o “não” e chega-se ao mote do livro. Bartleby evoca nada. Bartleby evoca o Nada e transforma-se, assim, na representação ficcional de um tipo de conduta diante do fenômeno literário: a conduta daqueles que, sendo escritores ou tendo escrito algum livro ou alguns livros ou mesmo não tendo escrito nada nunca, recusam deliberadamente a escrita ou, num plano mais geral, o gesto artístico concreto. Vila-Matas, através do curioso Bartleby, desfila a insólita lista dos chamados “escritores do Não”.

A lista é comprida e povoada de seres, como não poderia deixar de ser, absurdos e surpreendentes; muitos deliciosamente mal-humorados, como é o caso deste Marcel Bénabou, que, numa notinha justificadora intitulada “Por Que Não Escrevi Nenhum Dos Meus Livros”, provavelmente a única coisa que escreveu na vida, já que Vila-Matas o situa entre os chamados ágrafos, diz: “Sobretudo não acredite, leitor, que os livros que não escrevi são puro nada. Pelo contrário (que fique claro de uma vez por todas), estão como em suspensão na literatura universal”.

Há ainda o famoso caso da “desculpa esfarrapada” do escritor Juan Rulfo, que, de tão esfarrapada, se tornou original e razão de relato. “Por que não escreve mais, Rulfo?”, perguntavam-lhe. E Rulfo dizia: “Porque morreu o meu tio Celerino, que era quem me contava as histórias”. E segundo Vila-Matas existiu de fato um Celerino; um tio Celerino que bebia muito e vivia de crismar as crianças da vila, ao mesmo tempo em que ia contando ao sobrinho inúmeros causos. Morto o tio, extinta a fonte, acabadas as histórias.

Há muito tempo que releio o escritor guatemalteco Augusto Monterroso (autor de um livro fundamental em qualquer biblioteca especializada em delícias literárias; e quem não tem deveria agora mesmo parar de ler esta coluna e sair às compras...). O livro chama-se A ovelha negra e outras fábulas, com tradução do Millôr Fernandes e ilustrações do Jaguar (ed. Record). O Monterroso, dizia, escreveu uma fabulazinha intitulada “Por que a raposa é mais sábia” (cuja descrição voltei a encontrar, feliz, justamente no Vila-Matas), e nela conta a história de uma raposa que um dia decidiu ser escritor e escreveu um livro que foi um sucesso tanto de crítica quando de público. Passado um tempo escreveu um segundo livro, melhor ainda que o primeiro. E enfim sossegou o facho, já satisfeita por ter escrito dois livros excelentes. Até que o povo e a crítica começaram a velha ladainha: “O que há de errado com a raposa, que escreveu dois livros e depois parou?”. “Mas eu já publiquei dois livros...”, passou a dizer a raposa, a torto e a direito e com ar de enfado. “E muito bons”, dizia a crítica. “Por isso mesmo você tem de publicar outro.” E a raposa pensava: “Na verdade o que eles querem é que eu escreva um livro ruim; mas, como eu sou a raposa, não vou fazê-lo”. E não fez.

Logo depois de terminar de ler o Bartleby & Companhia percebi que eu seria capaz de me atrever a apontar uma grande ausência na lista proposta pelo Vila-Matas (que afinal não menciona nenhum escritor do Brasil, embora mencione de Portugal). Na verdade duas ausências notáveis: Raduan Nassar, que escreveu dois livros e mais um de contos, parou de escrever, seguindo o exemplo da raposa, e foi cuidar de suas galinhas (a raposa também, à sua maneira...); e, o que me interessa mais, o escritor Campos de Carvalho, que veio ao mundo em 1916, escreveu quatro ótimos livros de 1956 a 1964, ficou sem escrever uma única linha durante 34 anos e morreu em 1998, praticamente desconhecido. Graças a um lento trabalho levado adiante há algum tempo pela editora José Olympio e por três incansáveis e talentosos bulgarófilos chamados Mário Prata, Nelson de Oliveira e Carlos Felipe Moisés, o nosso Campos de Carvalho foi reeditado, virou moda, objeto de estudo e peça de teatro. Os títulos A lua vem da Ásia e O púcaro búlgaro (peça pensada e montada pelo Aderbal Freire Filho) já fazem parte, para o leitor médio (ou para o leitor um pouco mais curioso que o leitor médio), do vasto universo dos títulos vagamente familiares. “É claro que a lua vem da Ásia!”, disse-me um dia um estudante de letras, nos pilotis da PUC do Rio, fascinado, comovido e para sempre convertido em fiel leitor de Campos de Carvalho. “De onde mais poderia vir a lua? Hã?”, perguntou-me ainda, levantando, brilhantes e úmidos, os olhos do livro. Concordei rápido, despedi-me rápido e saí dali voando. Campos de Carvalho fascina especialmente os loucos, as crianças e os poetas.

E por que Campos de Carvalho não escreveu mais? Porque não quis ou porque não teve de onde tirar mais um livro? “Eu abandonei por completo a literatura, por razões que não quero contar, porque me faz lembrar de tudo. Não quero mais lembranças”, disse ele numa entrevista para o Marcelo Resende (Folha de S. Paulo, 29 out. 1996). É verdade que o Bartleby do Melville, apropriado pelo Vila-Matas, mais pertence ao altivo exército dos que “preferem não escrever” do que ao encabulado grupo dos que “não conseguem sair do Capítulo 1 ou mesmo do título”. Mas é verdade, também, que essas fronteiras se destinam menos à esfera privada do que à pública, na qual se pode apregoar, sim, e com charme bartlebyano, a própria renúncia (voluntarista) à literatura. 

Não é bem o caso do Campos de Carvalho, que ainda tentou algumas missões depois dO púcaro búlgaro, seu último livro. Tentou títulos como Maquinação da máquina, Especulação sem espelho, ou Maquinação sem máquina, Especulação sem espelho, Mosaico com Moisés, ou Mosaico sem Moisés, e estes, também estéreis: Concerto no ovo e/ou De novo no ovo, e ainda Maravilha no País das Alices e, por fim, O vaso noturno. Disse numa entrevista a Edney Silvestre, para a revista O Cruzeiro, em 1969: “... o título do livro que estou escrevendo no momento (...), assim como a 4ª Sinfonia de Charles Ivens exige a presença de três maestros para ser bem interpretada, assim também penso que esse meu novo livro, para ser bem compreendido, deva ser lido simultaneamente por três leitores”.

Não foi lido por nenhum.