sábado, 27 de novembro de 2004

"Cartografia carioca é renovada" (sobre "A varredora - Leblon")

RESENDE, Beatriz, "Cartografia carioca é renovada", Caderno Idéias, Jornal do Brasil, 27 de novembro de 2004.

sábado, 13 de novembro de 2004

"Sem medo de Campos de Carvalho"

MILLEN, Mànya; e BERTOL, Rachel, "Sem medo de Campos de Carvalho", "No Prelo", O GloboRio de Janeiro, 13 de novembro de 2004.

segunda-feira, 1 de novembro de 2004

“A varredora – Leblon”

BATELLA, Juva, “A varredora – Leblon”, in: Prosas Cariocas — Uma nova cartografia do Rio de Janeiro (orgs.: IZHAKI, Flávio & MOUTINHO, Marcelo), 1. ed., Rio de Janeiro: Ed. Casa da Palavra, 2004, p. 77-88 (ISBN: 8587220810).

para Rogério Barbosa Lima

E foi então que Riomar se deu conta de que não sabia varrer. Nunca achou que varrer era algo que se pudesse ou não saber. Varrer é um ato da pessoa, dos instintos, pensou Riomar, que não era burro nem desengonçado. Sempre fez, com as mãos muito livres, entenda-se, o diabo. E entendeu que o problema era o tamanho da escova da vassoura. Por ser comprida demais, não prestava para se fazer o montinho, que, para resultar bem feito, tem de ser arrodeado pelos quatro lados com a vassoura. Mas Riomar não acertava, e também não conseguia decidir se caminhava antes ou depois, empurrando a vassoura e andando para a frente ou puxando o montinho para si e andando de costas, correndo o risco de desaparecer nalgum bueiro aberto ao léu, sabe-se lá. O mundo é longo e complexo, pensou Riomar.

Se pudesse, se não estivesse em seu uniforme laranja, novo que só, se não estivesse plantado em plena José Linhares, na esquina com a Conde de Bernadotte, quase em frente à Academia da Cachaça, no meio de todo o mundo, Riomar se agachava diante daquele lixo e, com as mãos muito livres, fazia ali mesmo um belo montinho, esse sim, e, em duas ou três cavadas com a palma, punha tudo direto no carrinho e pronto, seguia para a próxima rua. Mas, pensou, se não estivesse em seu uniforme laranja, se não estivesse bem ali na esquina da Linhares com a Bernadotte, quase em frente à Academia, no meio de todo o mundo, ele não teria que se desfazer daquele montinho, ele sequer teria algo a ver com aquele montinho, ele não teria, afinal, que varrer o quadro de ruas que formava a sua ordem de serviço daquele dia.

Mas ele estava lá, quase em frente ao bar, e no bar conhecia a todos. Riomar trabalhou dois anos no Jobi e sete na Academia da Cachaça; tinha, portanto, boas razões para ter aprendido a fazer, com as mãos, um pouco de tudo, e com excelência. Foram mais de quinze mil caipirinhas magníficas bem executadas e, além de arrumadinhos e escondidinhos, pelo menos uns sessenta mil caprichados pastéis cuja massa Riomar teve de alisar com a mão para em seguida construir adequados montinhos de carne, queijo e só, que o pastel de vento dispensava montinhos; bastava modelar uma barriga, tapar bem hermético e fritar. Ele aprendeu de tudo, mas também se cansou de tudo e precisou variar. Riomar foi ser gari.

O sujeito, para ser gari, tem de ter uma cabeça organizada, muita paciência e alguma memória. Tem de saber decidir, por exemplo, se vai começar do lado ímpar ou do lado par da rua. A melhor varredura é aquela que se faz no sentido contrário ao dos carros, que desse modo podem ser vistos e evitados, principalmente quando chove e faz poça dos lados. Mas uma rua não tem só um lado, pensou Riomar. Possui dois, no mínimo, e no máximo pode ter até oito, como é o caso da Presidente Vargas, onde ele nunca vai querer fazer varredura, não ele. O gerente da administração do departamento de pessoal diz que uma varredura deve começar onde começa a rua e terminar onde a rua termina. “Mas, ora”, começou Riomar nessa mesma manhã em que foi contratado e um pouco antes de vestir o seu uniforme laranja novinho, “o começo de uma rua não começa justamente no lado em que está a pessoa?” “Não”, disse o gerente da administração do departamento de pessoal, “as ruas aqui nesta cidade começam no centro e acabam na periferia ou no mar.” “Mas se eu estiver no...” “Se você estiver no meio de algum bairro e não souber para que lado fica o mar? Olhe para a numeração dos prédios”, disse o gerente da administração do departamento de pessoal, satisfeito que só ele, por estar dando explicações que nunca dera antes, aplicando assim um conhecimento que sempre teve, desde que começou na firma, mas nunca pôde dar porque nunca lhe pediram. E até se surpreendeu com tanta coisa que sabia, e não sabia que sabia, sobre as ruas, os nomes da ruas, os nomes antigos das ruas, e quase todas já tiveram mais de um, e suas histórias, também velhas. “Então, rapaz”, disse ele, “olhe para os números dos prédios, se aprume e tome posição: o lado ímpar deve ficar na sua esquerda. E então na sua frente está o final da rua e atrás de você está o início dela... Já entendeu, né? Agora chega de lero. Tome a sua ordem de serviço, varredura no Leblon, seis ruas. Vamos, vamos!” E anunciou, meio rindo: “Fica dispensado do serviço se me disser o nome da rua mais antiga do bairro. Como não sabe, vá ver se estou lá na esquina!”.

E Riomar foi. E foi então que se deu conta de que não sabia varrer, dando-se conta também, quase que ao mesmo tempo, de que não havia o que varrer. Riomar espichou o pescoço e andou com o olhar um bom trecho da José Linhares, conseguindo enxergar o pedaço que a levava até a Humberto de Campos. Lisa, lisa, uma beleza de se ver, uma porcaria de se varrer. Nunca havia visto uma rua assim, tão vazia de lixo, disse para si mesmo, e coçou a cabeça, sentindo-se também ele, de repente, um pouco vazio, vá explicar. E subiu a rua pela esquerda e desceu pela direita, e foi notando que a Linhares não estava apenas limpa, mas varrida, da Bernadotte à Delfim Moreira. Mundo estranho.
Riomar colocou a pá e a vassoura dentro do carrinho quase vazio e percorreu então todo o itinerário da sua ordem de serviço daquele primeiro dia, uma figura geométrica cujos lados eram Bartolomeu Mitre, Ataulfo de Paiva, José Linhares e Conde de Bernadotte, e mais o que estivesse dentro, ou seja, pedaços da João Lira e da Humberto de Campos. Leve. E o máximo que fez foi fazer questão de catar pelo caminho quatro palitos de picolé, uma folha de agenda e um relógio de pulso de mentirinha. Em meia hora estava de volta ao prédio da firma. “O senhor pode duvidar; pode até não acreditar”, disse Riomar, firme, ao gerente da administração do departamento de pessoal, “mas o meu serviço de hoje já estava todo feito... E não é que as ruas estivessem limpas assim, por estarem. Elas estavam é varridas, o senhor pode ir lá conferir as marcas no chão...” “Não precisa”, falou o homem, com um sorrisinho. E, depois de um bom bocado de silêncio: “Eu não estou duvidando de você, rapaz. Foi a varredora”, e não disse mais nada.

Riomar, na segunda-feira, chegou mais cedo. “Hoje você fica com o miolo pro lado da praia”, disse o gerente da administração do departamento de pessoal, e explicou: “Os lados do retângulo são, preste atenção, Delfim Moreira até Bartolomeu, Bartolomeu até San Martin, San Martin até Carlos Góis, Carlos Góis até Delfim, e tudo o que estiver dentro do retângulo. Mole. Está aqui, tome, guarde no bolso”. E já estava para gritar pelo próximo quando parou, inspecionou Riomar de baixo para cima e perguntou, como se cochichasse: “Você sabia que o Leblon, se a gente parar pra pensar, é, no fundo, uma ilha? Um mar, uma lagoa e dois canais...”. Riomar ia falar alguma coisa, chegou até a abrir a boca, mas depois fechou. “Não entendeu?” “Entendi, sim, é que...” “Então vá, rapaz! Vá catar coquinho na praia!”, e lhe estendeu o papel com a ordem. “É que eu queria saber mais sobre a varredora e...” “O próximo!”

“A gente só vê a varredora se estiver procurando por ela”, disse-lhe o Souza, guardando a sua ordem do dia e escolhendo um carrinho. “Eu mesmo, que me orgulho de já ter varrido a cidade do Rio toda ela, só fui perceber que a varredora existe depois.” “Depois do quê?” “Depois de vir para o Leblon e de passar o que você passou na sexta-feira.” “O que eu passei?” “É, todo o mundo já sabe... Perder as ruas pra ela...” “Perder as ruas pra ela?” “É, parceiro... A ordem do dia...” “Você diz o papel?”, e Riomar apertou o seu contra a perna. “Não, não”, o Souza acabou rindo. “Eu digo o serviço...”, e olhou, franzido, a hora: “Ela varre a rua da pessoa, rouba o serviço da pessoa, e a pessoa fica catando palito...” “E então...” “E então, meu amigo, não fazer o serviço que lhe pagam pra fazer porque uma mulher maluca fez esse serviço todinho pra você, e muito melhor do que você faria, isso, aqui dentro...”, e saiu com o carrinho para a rua, “... é muito, muito chato...”, disse ele, um pouco indignado por estar a explicar o que lhe parecia o óbvio. Riomar olhou mais uma vez para a sua ordem de serviço daquele dia e, sem levantar a cabeça, fez outra pergunta: “E ela, como é?”, mas o Souza já estava longe.

A varredora apareceu naquele fim de tarde. Riomar já tinha varrido, assim assim, todo o seu retângulo; terminava a San Martin quando, próximo à esquina com a Bartolomeu Mitre, estacou. Não poderia, de jeito nenhum, não ser ela aquela mulher alta e muito magra, armada de uma vassoura de piaçava bem velha, quase no osso, ali parada, descalça, na beira do meio-fio, à espera do sinal, e a expressão seriíssima de uma grande responsabilidade nos ombros. Como é que nunca tinha visto a mulher antes?, pensou Riomar, atrapalhando-se com a própria vassoura. E depois pensou também que na verdade sempre a vira. E como é que sempre a vira, se nunca a tinha visto antes? Sempre a vi varrendo, pensou de novo, e nunca havia reparado. E, à distância, pela Bartolomeu Mitre, começou a segui-la.

A varredora parecia imersa num tempo só seu, e andava rápido pela rua Conde de Avelar em direção à Ataulfo. Mudou, de repente, de rumo, embicando à direita pela Campos de Carvalho. “Ela entrou na General San Martin”, observou Riomar. “Tudo isso aí, dona, já está varrido, até a Carlos Góis...”, disse de si para si mesmo, e sorriu. Mas a varredora, que não parecia disposta a varrer e sequer tocava a vassoura no chão, quando chegou à esquina com a Domingos Moutinho, parou, olhou bem para a rua como que para se certificar de que ela permanecia ali, amassou com a mão esquerda a barra da saia e, ansiosa, entrou. “Se for para varrer a João Lira”, pensou Riomar, “entrou à toa...” A varredora tencionava ir por ali até a Ataulfo de Paiva, perto do terreno baldio onde estavam construindo o prédio do novo supermercado Disco, mas mudou de idéia. Assim que viu o campinho de futebol, com os dias contados, freou, virou nos calcanhares e retomou, rápida, o passo da volta. E lá vinha ela, retornando pela outra margem da Domingos Moutinho e olhando compenetrada o chão de areia batida. “Por que é que ela não foi até o fim?”, perguntou-se Riomar, que se escondera atrás de um caminhão até que ela passasse de novo e, saindo da João Lira, caísse novamente e cheia de pressa na San Martin. Feito, lá estava ela novamente e cheia de pressa na Campos de Carvalho e em direção à esquina seguinte, com a rua Acaraí. “A José Linhares também está varrida, dona. O serviço não está essas coisas, eu sei, mas, pelo menos, fui eu que fiz...”, e riu, riu mais de si mesmo do que dela.

Foi quando percebeu que, da esquina, a varredora o fitava. Parada, ao lado de sua vassoura, como um cajado, uma bandeira, lá estava ela, mas era como se não estivesse, porque ninguém parecia notar aquela mulher inteiramente esquisita, a manter de pé, sobre as ruas de todo o bairro, um olhar altivo e obstinado. Riomar abaixou a cabeça e fingiu que a coisa não lhe dizia respeito. Encostou o carrinho, pegou a vassoura e, sem qualquer vontade de chegar a lugar algum, começou a formar no chão um montinho imaginário de poeira. Lembrou-se de si mesmo cortando os limões, quebrando os gelos e chacoalhando as misturas; viu-se a si mesmo modelando, para os pastéis, os montinhos de carne, queijo e vento, e foi além, muito além, imaginando-se a si mesmo bem na frente de um grande fogão, só que dentro, bem lá dentro da barriga de sua velha mãe, cozinheira de mão cheia do Astória, do Recreio, do Colúmbia, do Luna, do Look, do Clipper, da Bibi, do La Molle da época do sr. Domenico e de tantos outros restaurantes e botecos do Leblon antigo. Riomar pensou em tudo isso e levantou a cabeça. Lá estava ela, a varredora, na mesma esquina, na mesma posição, com a vassoura ainda em repouso e o mesmo olhar espetado nele.

Era preciso avançar meio quarteirão, atravessar a rua, chegar à esquina e encarar a mulher, suportando-lhe o olhar, e, quem sabe, abordá-la. Riomar guardou vassoura e pá, tomou do carrinho e, mesmo sentindo-se um pouco incomodado diante do montinho imaginário que deixava para trás e bastante ridículo por sentir-se um pouco incomodado, avançou assoviando, como se não fosse com ele. A varredora, imóvel, mantinha de pé a cabeça e a vassoura, e os detalhes de sua figura cresciam a cada passo. Em vinte passos chegaria até ela, pensou Riomar, que pelo canto dos olhos já podia perceber o cabelo branco, bem eriçado e bem alto, uma espécie de uniforme de cozinheira com listras alaranjadas e azuis, ela bem velhinha, velhinha, e um tique nervoso na mão esquerda, os dedos ossudos amarfanhando com alguma raiva a barra do vestido. Riomar, a dez passos dela, atravessou a rua e ainda demorou uns bons segundos contemplando aquele único movimento que se destacava do corpo estático e magro da mulher, agora a três passos dele, antes de respirar fundo e, pisando afinal a esquina da San Martin com José Linhares, erguer os olhos para a varredora.

Que, no entanto e afinal, não olhava para ele, não olhava para nada e tampouco varria; olhava para a frente, para as ruas, para o bairro, através dos prédios, para o mar que não se podia ver, para a lagoa que não se podia ver, para as montanhas que não se podiam ver, e ela via, e para os campos de areia dos terrenos desocupados que há anos não estavam mais lá, próximos àquela esquina da Campos de Carvalho com Acaraí. Riomar, que já havia parado e aberto a boca para falar, retomou o passo um pouco sem graça e, deixando-a para trás, seguiu em frente, em direção à Almirante Guilhem. Ainda estava decidindo se olharia ou não para trás quando sentiu pelo lado um vento, e a varredora a ultrapassá-lo, em boa velocidade, passo obstinado e vassoura em punho. Ia também na direção da Dom Pedrito, chegou a passar pela Francisco Ludolf, e entrou antes, à esquerda, na Francisco Santos.

“Ela entrou na Carlos Góis, e não é para varrer”, concluiu Riomar, tentando acelerar o passo, apesar do tamanho do carrinho, e manter inalterada a distância de meia quadra entre os dois. Deteve-se ainda um instante a olhar com alguma curiosidade aquele homem muito alto e bastante barrigudo a andar para lá e para cá na calçada, as mãos por detrás e os olhos esbugalhados na cara de poucos amigos. Aquele homem é um cuja barriga... Ela chega à esquina com a Ataulfo e pára; começa a amarfanhar a barra da saia, olha para os lados, aperta a vassoura com as mãos e atravessa, mantendo-se na Francisco Santos, agora em direção à esquina seguinte, com a José Ludolf. Ia virar à esquerda, como se estivesse indo para o finalzinho da rua do Sapê, quando dá de cara com o Souza, encarregado de varrer justamente aquele trecho da Humberto de Campos, da Carlos Góis à Bartolomeu. Riomar, bem escondido e de longe, assiste ao encontro: o Souza a gesticular como se desse explicações à varredora, apontando para as quatro esquinas do cruzamento e ainda para a praça Romeiro Neto, a Cobal e as Casas Sendas; a varredora, impassível, também olhando para aqueles lados, embora não vendo nada daquilo, porque seus olhos saltavam sobre as construções e era como se atravessassem o tempo; ela via tão somente a velha e areenta rua do Pau, e para lá fez que se encaminhava, deixando o Souza a gesticular, como se desse explicações.

O caminho da varredora, no entanto, não foi o mais curto. Ela seguiu pela José Ludolf, paralela à Ataulfo, cruzando novamente a Francisco Ludolf, a Acaraí e a Domingos Moutinho, mas não entrou, pegando pela direita, no pedaço que iniciava a Conde de Avelar, no finzinho da Sapê; a varredora, muito séria e visivelmente aborrecida por julgar-se, de algum modo, atrasada, preferiu andar reto, em direção ao final do Leblon. Atravessou a Urquiza e a Azevedo Lima, caindo naturalmente na dr. Dias Ferreira, passou pela Miguel Braga e pela Antônio dos Santos, que verificou estarem limpas, entrou na Aristides Espínola balançando com alívio a cabeça, como se confirmasse que a rua continuava mesmo lá, onde a deixara no dia anterior, acenou sorrindo para o garçom bigodudo do Gatão, caminhou, rápida, até a Ataulfo de Paiva e ali, na esquina, bem em frente ao Três Vinte, parou, a olhar e ouvir os bondes que iam e vinham na mão dupla. E foi ali, naquela mesma esquina, bem em frente à Pizzaria Guanabara, que Riomar, suando muito, com as pernas tremendo e alguma dor na mão, decidiu parar com aquela maluquice.

Mas percebeu que a varredora, a menos de cinco metros, olhava, desta vez só para ele, e quase sorria. E, quase sorrindo, movimentou a vassoura longe do chão, trazendo-a para si com o braço, e repetidas vezes, num movimento que pareceu a Riomar um convite. “Para onde?”, pensou. “E para fazer o quê?” Livrou-se do carrinho, deixando-o no canto da calçada, ao lado de um Jipe, e, um pouco sem graça, avançou para ela, que desviou o olhar, abaixou a cabeça e, pegando a vassoura, retomou o andar, descendo a Ataulfo de Paiva, agora em direção ao Jardim de Alá. Riomar, livre do peso, ainda deu alguns passos relutantes, fez menção de atravessar a rua mas sentiu, pela primeira vez na vida, que faltava alguma coisa naquelas suas mãos muito livres. Voltou ao carrinho, pegou, sem saber para quê, a própria vassoura, que era comprida demais, e, mais confiante, até mesmo mais completo, recolocou o pé na rua, em nova e franca perseguição.

Sem olhar para nada, perseguiu a varredora, ou tão somente aquela sua vassoura de piaçava bem velha, quase no osso, da Aristides Espínola à Bartolomeu Mitre. E, obstinado, não reparou, passando pelo Jobi, que o Paiva lhe acenava carrancudo, talvez por causa do... E também não reparou naquela senhora preta e loquaz, gorda e simpática, proprietária descabelada das duas malas escuras, bem grandes e entupidas de panos misteriosos, pouco antes de atravessar a Artigas, aquela senhora que... E Riomar quase derruba, na esquina da Rio-Lisboa e do Talho Capixaba, a velhinha mirrada, a dos largos calções de surfista, a velhinha que sempre pede a alguém que lhe pague um café, embora todos saibam que ela não... Andava a varredora cada vez mais rápido. Tivesse olhado para trás, teria visto Riomar às carreiras, quase em seus calcanhares, e teria visto o Três Vinte se afastando, e todo o final do Leblon a desdobrar-se, silencioso, em suas ruas de areia, paralelepípedo e charretes, como num filme mudo. Mas também ela, atravessando a Azevedo Lima e a Urquiza, não via nada, quando muito o arboreto baixinho da praça dr. Frontin e alguma construção nova a povoar o bairro.


Caía a tarde quando a varredora, na esquina com a Conde de Avelar, virou à esquerda e desceu, em direção à rua do Sapê. Caía a tarde quando Riomar, esbaforido, também dobrou à esquerda, entrando na Bartolomeu, e seguiu, como se fosse para a Gávea. Em minutos estavam os dois na Conde de Bernadotte, de vassoura em riste, lado a lado, parados e em silêncio, como se à espera de que um ou outro tomasse a iniciativa, e Riomar foi o primeiro. Tocou o chão com a vassoura, pegou o impulso inicial e começou a varrer algum lixo de folhas, mas a varredora o interrompeu. Estendeu-lhe a sua própria vassoura, a de piaçava bem velha e quase no osso, e Riomar, relutante, aceitou, passando-lhe então a outra, bem mais comprida. E seguiram varrendo os dois, no mesmo passo, quase a encostarem-se, o mesmo lixo de folhas, por toda a velha rua do Pau. A varredora, olhando para a frente, via os contornos da Praia do Pinto e alguma luz de fogueira na linha da Lagoa. Riomar, olhando para o lado e querendo ver como se varre, não viu que, afinal, varria, e como nunca. As folhas, tocadas pela vassoura velha, desapareciam debaixo da noite.