quinta-feira, 1 de janeiro de 2004

"O cão"

“O cão”, Ficções, Rio de Janeiro, ed. 7Letras, 2004, v. 13, p. 16-21. (ISSN: 1415-9775)

Republicado em: “O cão”, in: PENA, Felipe, Geração Subzero: 20 autores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores, 1. ed., Rio de Janeiro, ed. Record, 2012, v. 1, p. 23-28 (ISBN: 9788501099143).

Contaram-me.

Desde que a mais nova se mudou para a casa ao lado e se tornou vizinha da mais velha, as duas nunca trocaram mais que um aceno — o primeiro. Não se falam porque Gisela tem medo de olhar nos olhos de dona Rosinha, de fazer amizade com dona Rosinha, de deixar os portões abertos por engano durante uma conversa com dona Rosinha — e num relance a coisa toda acontecer. A coisa toda, se um dia acontecer, e um dia a coisa toda vai acabar acontecendo, como de fato aconteceu, que a coisa toda não aconteça na frente dela, Gisela, porque não haverá de sua parte qualquer gesto que preste — e nem depois, porque ela também não vai saber como se dirigir à dona Rosinha e nem como pedir desculpas: “A senhora me desculpe, isso não vai acontecer novamente”. E Gisela, com metade de um sorriso, pensou nas suas próprias palavras descabidas: não vai acontecer novamente de os meus dois pastores caçarem, morderem, matarem e engolirem o seu minúsculo poodle, dona Rosinha, e balançou a cabeça, imaginando a cena; a senhora pode ficar sossegada.

Sossegada dona Rosinha era mesmo. Morava naquela casa desde menina, quando era então a menina Rosinha. Hoje a chamam dona Rosinha, ou Rosa, a vizinha. Logo à chegada da moça, tomou todas as iniciativas que se esperam de uma vizinha como dona Rosinha: aproximou-se da bem cuidada cerca viva, território de ambas, afastou um pouquinho a massa de arbustos cerrados, mostrou a cara e acenou para a nova moradora, que estava postada à janela da cozinha e não deu um minuto apareceu à porta. Veio devagar a moça, e veio sorrindo, mas um sorriso que foi encurtando à medida que se aproximava da cerca; foi encurtando e encurtando, até que sumiu de todo quando ela desviou o olhar do minúsculo poodle sentado à entrada da casa, a abanar o rabinho e a olhar para a sua dona, a dona Rosinha. Quando se encostou à cerca, Gisela apertou a mão de dona Rosinha e voltou a olhar para o cachorrinho. Depois murmurou algumas palavras convencionais, gritando-as quando percebeu que dona Rosinha era surda, e sem saber mais o que dizer deu-lhe as costas. Só pensava no dia seguinte, quando seus pastores enfim chegariam, a acompanhar o resto da mudança.

Gisela morava sozinha, trabalhava o dia inteiro e só chegava à casa à noite. Dona Rosinha vivia em casa, saía muito pouco e adorava assistir à televisão em alto volume. À exceção dos finais de semana, em que Gisela passeava os cães de manhã à noite e bem longe de casa, todos os dias eram de tumulto, um tumulto que dona Rosinha não escutava ou ao qual parecia não dar muita atenção. O que acontecia nos jardins das duas casas chegava a divertir um ou outro passante, e nada mais. A principal ocupação dos pacientes pastores era a espreita, a contínua vigilância ao momento exato em que o pequeno poodle de dona Rosinha realizaria as suas poucas saídas diárias de xixi e cocô — as únicas reais oportunidades que tinham os pacientes pastores de tentar ultrapassar a fronteira de arbustos e fazer daquele minúsculo bicho escandaloso uma bolinha, uma bolinha a ser mordida e arranhada até que não mais latisse ou se mexesse. Corriam os três, ao longo da cerca, para cá e para lá, dois de um lado e um do outro, em grandes latidos, e o mais que conseguiam os pastores era enfiar os focinhos e as patas dianteiras pelo meio da moita, sem qualquer sucesso, e cavar alguns pequenos buracos que talvez um dia os conduzissem para o lado de lá da cerca. O poodle, quando não estava às carreiras para cima e para baixo, latia — latia a plenos pulmões, estridente e esperneante. Não tinha medo.

Ao final do dia, e à medida que se aproximava de casa, chegando a pé do trabalho, Gisela sentia o peito apertado e uma vontade danada de fazer xixi. Era do tipo que não perdia a oportunidade de imaginar, sempre que possível, o pior, acreditando ao mesmo tempo, no fundo de sua alma, que o pior nunca haveria de acontecer, justamente porque as coisas nunca aconteciam do modo como as imaginamos. E era essa a sua fórmula: imaginar o pior justamente para que o pior não acontecesse. E lá vinha Gisela pelo caminho, imaginando o seguinte pior, que poderia variar em alguns detalhes, conforme caminhava a sua imaginação, mas era, em essência, o mesmo: ela olhando por cima do portãozinho e vendo a coisa toda, a terra esparramada, a cerca destroçada, o sangue respingado, os pastores dando voltas ao redor do corpinho do poodle da dona Rosinha, e ela, Gisela, tendo que fazer alguma coisa. A vontade de fazer xixi, por mais que fizesse todo o xixi que tinha em si antes, crescia com a ansiedade, que por sua vez também crescia ao ponto máximo quando Gisela estava a dois passos da entrada. Daí conseguia vê-los diante da porta da cozinha, dormindo inocentes, e a vontade de fazer xixi, pronto, sumia. Foi sempre assim, às vezes mais e às vezes menos, e o quotidiano encarregou-se de ir aos poucos enfraquecendo a carga desse sofrimento, que no entanto nunca cessou de todo.

Foi sempre assim, até que um dia não foi mais. Gisela, estrategicamente pessimista, mas no fundo uma otimista incurável, não imaginou que o pior que persistentemente vinha imaginando há semanas, em alguma de suas variantes, poderia de fato realizar-se, porque esse pior imaginado, por mais vivas que fossem as sua cores, só era imaginado porque era provável. Dito de outro modo, Gisela, antes de estrategicamente pessimista e, num segundo olhar, incuravelmente otimista, não passava de uma irremediável realista. E assim, num belo final de tarde de um dia qualquer, Gisela vinha pela calçada, já depois de ter dobrado a última esquina, quando ouviu um bulício incomum. Aproximou-se quase correndo, a bexiga subitamente cheia, olhou por cima do portãozinho e viu a coisa toda: a terra esparramada, a cerca destroçada e os pastores dando voltas ao redor do corpinho do poodle da dona Rosinha. Ela, Gisela, tinha de fazer alguma coisa.

E fez, tão rapidamente e com tal empenho, que, mais tarde, bem mais tarde, madrugada adentro, já na cama, depois de um belo banho, alguma comida e dois copos e meio de vinho, não soube explicar para si mesma como pudera ter feito o que fez e com tanta diligência. Não soube como conseguira tanto sangue frio, como mantivera sem perceber toda a calma do mundo para iniciar a série de pequenas tarefas que agora rememorava com algum orgulho, alguma culpa, algum medo e a muita convicção de que não poderia ter feito diferente. Depois de olhar para os quatro lados para ver se não via ninguém, mandou os pastores às favas, enxotando-os com dois pedacinhos de pau que encontrou junto à terra revirada, pegou com as duas mãos o corpo inerte do poodle, sopesou-o como se sopesam salames e, com um único suspiro, constatou que o bicho já estava morto há algum tempo. O corpinho estava frio e sujo, mas felizmente inteiro e sem um único corte. Meteu-o debaixo do casaco e entrou em casa. Voltou para o jardim, varreu o chão, espalhou e aplainou toda aquela terra denunciadora e entrou. Lavou o cão na pia da cozinha, secou no banheiro e penteou no quarto. Depois de um minucioso exame para certificar-se de que não havia no corpo defunto do bichinho nem um único indício do que de fato acontecera, Gisela esperou que caísse a noite. Enquanto esperava espreitava — não tirava o olho da janela para ver se dona Rosinha por acaso não estaria à cata do cão. Não estava. Nada se mexia, nem mesmo os pastores, nada se ouvia, nem mesmo a televisão do outro lado da cerca. Quando notou que a última mancha de luz na casa de sua vizinha se havia apagado, Gisela, com o poodle novamente escondido no casaco e uma escova no bolso, esgueirou-se para fora, saiu de casa, pulou a cerca viva utilizando as traves do portão como suporte para os pés, deslizou até a pequena escada de três degraus que levava à soleira da porta de entrada da casa de dona Rosinha e lá deitou delicadamente o cãozinho, não sem antes repenteá-lo e lhe dar três amigáveis tapinhas na cabeça, tomando o cuidado de posicionar suas patinhas de modo a que parecesse estar dormindo. Tentou não ficar sentimental diante daquele montinho de morte que acabava de sair de suas mãos, desejou-lhe mentalmente uma boa viagem e desapareceu em segundos. Em dezessete minutos já estava de banho tomado e sentada no sofá com um copo de vinho à boca. Comeu em seguida e, em seguida, foi para a cama, adormecendo sem perceber, para depois, bem depois, madrugada adentro, acordar sobressaltada e lembrar-se — lembrar-se, com algum orgulho, alguma culpa, algum medo e a muita convicção de que não poderia ter feito diferente, de sua diligência, de seu sangue frio e de sua calma. “Pobre cãozinho”, diria à dona Rosinha. “Pelo menos morreu dormindo...”


Passaram-se os dias, e sempre, ao final da tarde, e à medida que se aproximava de casa, chegando a pé do trabalho, Gisela sentia o peito apertado e uma vontade danada de fazer xixi só de imaginar que poderia encontrar-se casualmente com dona Rosinha e esta lhe perguntar se por acaso sabia a querida Gisela das razões da morte de seu pequenucho — ou, ainda, utilizando-se a estratégia de sempre imaginar o pior, encontrar-se com dona Rosinha e esta, com o dedo em riste, aos berros e aos prantos, lhe atirar à cara a terrível acusação. Mas nada disso acontecia. Gisela, desde o lamentável acidente com o cãozinho — que no dia seguinte à tarde já não estava mais onde o tinha deixado, ali à porta, a dormir —, nunca mais encontrou, sequer viu ou ouviu falar de dona Rosinha. Era como se dona Rosinha tivesse deixado de existir, só existindo a casa e seu silêncio. E assim foi, até que um dia não foi mais. Num belo final de uma tarde qualquer, Gisela vinha pela calçada, já depois de ter dobrado a última esquina, quando viu a vizinha do lado de lá da casa de dona Rosinha. Como era mesmo o nome dela? Não ia lembrar de jeito nenhum. E ela vem sorrindo — sinal de que vai falar, não apenas menear a cabeça, mas falar. Mas falar de quê, se as duas nunca trocaram mais que um ou outro barulhinho de bom dia e como vai?

— Eu vou bem, e a senhora?

— Vou bem, minha filha, vou bem. A Rosa é que...

— O que houve com a dona Rosinha?

— A menina não soube o que aconteceu?

— Não.

— Foi internada...

— Nossa! Mas o que houve?

— A pobre sofreu um ataque dos nervos e está internada.

— Por quê? O que houve?

— Não fala com ninguém, olha para as paredes...

— Mas por quê? Por quê?

— Você conheceu o cachorrinho dela?

— Conheci, conheci.

— Bom, o cachorrinho dela morreu.

— Morreu? Puxa... Ela deve ter ficado mesmo muito abalada...

— Com a morte dele?! Não, não. Ele estava velho...

— Mas então...

— Ela ficou abalada com o que aconteceu depois.

— O que aconteceu depois?! Depois do quê?

— Bom, o cãozinho morreu. Até aí, tudo bem, todos nós um dia morreremos... Fazer o quê? E ela fez o que tinha de fazer: enterrou o bichinho no jardim, pôs até uns pauzinhos em cruz no montinho, realizou lá uma cerimoniazinha de adeus, e foi dormir. No dia seguinte, acorda, abre a porta da entrada para pegar o jornal, e o que vê? A menina não vai acreditar...

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