quinta-feira, 1 de janeiro de 2004

Desenhos de Campos de Carvalho 3

Desenhos de Campos de Carvalho, gentilmente cedidos por sua mulher, Lygia Rosa.

Desenhos de Campos de Carvalho 2

Desenhos de Campos de Carvalho, gentilmente cedidos por sua mulher, Lygia Rosa.

Desenhos de Campos de Carvalho 1

Desenhos de Campos de Carvalho, gentilmente cedidos por sua mulher, Lygia Rosa.

O Cruzeiro (Edney Célio Silvestre)

Edney Célio Silvestre, O Cruzeiro, 30 de outubro de 1969.

“Quem tem medo de Campos de Carvalho?”

“Quem tem medo de Campos de Carvalho?”, Revista Argumento, Rio de Janeiro, 2004, v. 5, p. 22-24. (ISSN: 1679-6020)

Quase ninguém. Raras são as histórias da literatura brasileira que falam das histórias do escritor mineiro Campos de Carvalho (1916-1998), raras as antologias em que toma parte, raras as monografias, dissertações e teses. O leitor médio não o conhece, o estudante de letras mal o conhece, muitas livrarias não o possuem e poucos são os sebos que conseguem escondê-lo por algum tempo — o bastante para que um aficionado colecionador, tão raro quanto o exemplar que cobiça, finalmente o descubra e o leve embora para sempre. Trata-se, sem dúvida, de um clássico — mas do qual não se falava há mais de trinta anos.

Durante seu decênio produtivo, 1954 a 1964, Campos de Carvalho fez sucesso, ou seja, foi por seus pares reconhecido e cultuado, ao mesmo tempo em que publicava — e vendia — por duas editoras já nascidas fundamentais dentro de nossa história editorial: José Olympio e Civilização Brasileira. À primeira vista, Campos de Carvalho não passa de um escritor que sabe escrever muito bem. Seu texto desenvolve-se no interior de uma sintaxe tradicional, que se comporta em vários momentos à portuguesa, uma escrita escorreita e um vocabulário invulgar. Esta poética bem falante e cheia dos aromas da “boa literatura” tem, no entanto, um fundo falso, um nervo aberto e uma carga inflamável: a liberdade radical da criação, a crítica constante às verdades estabelecidas e ao uso mediocrizante da linguagem, o humor como produção e diluição da mesma e velha angústia de guerra: a boa e absurda condição humana.

Quem tem medo de Campos de Carvalho? Arrisco: quem consegue sobreviver a uma lua que venha da Ásia, a uma vaca de nariz sutil, a uma chuva imóvel e a um púcaro búlgaro — mais que romances, estados de espírito, fragmentos de filosofia poética. A lua vem da Ásia, publicado em 1956, contará a história de um sujeito que se julga o hóspede de um hotel de luxo, depois o prisioneiro de um campo de trabalhos forçados, para finalmente percebermos tratar-se do interno de um hospício. O texto do livro forma um diário, e a representação de loucura que se vê neste diário não é pouco complexa — é, sim, de tal forma crítica e relativa que não raro nos atira à cara a loucura de nossa própria razão. Ou a parte de morte em nossa própria vida, como é o caso da história de Vaca de nariz sutil — a de um ex-combatente de guerra que tratou com a morte tão de perto que depois não mais teve forças para lidar com a própria existência diária, cercada de morte por todos os lados, exceto por um único. O amor que se descobre em A chuva imóvel está a beirar o incesto. André e Andrea, eternamente separados pela irmandade gêmea, dão feitio ao universo do narrador-personagem, que se mede por duas palavras: introspecção e revolta. O humor levado a sério, às últimas conseqüências, é a tônica de O púcaro búlgaro: um grupo de esquisitos reunidos em um apartamento e envolvidos na organização de uma expedição à Bulgária com vistas a verificar sua real existência. A circunspecção com que os disparates vêm à tona, a galeria dos personagens e o insólito da história em si provocam o alargamento do campo do razoável e a celebração do nonsense. Terminado O púcaro búlgaro, Campos de Carvalho calou-se. Voltou a existir como escritor somente em 1995, quando a editora José Olympio, numa iniciativa finalmente tomada, republicou seus romances num volume único intitulado Obra reunida.


Conheci-o, e passei a temê-lo, um pouco depois, já em 1997, num dia em que minha mãe me atirou ao colo os seus quatro livros e disse: “Leia isto”. Estava disposto a obedecer, mas antes perguntei a ela se já tinha lido. “Até onde me foi possível.” “Foi possível o quê?” “Até onde me foi possível ler e não enlouquecer”, disse ela. Aquilo me animou. Um ano depois candidatei-me para um curso de mestrado. Feitas as provas, quiseram saber dos meus propósitos. “Vou estudar o Campos de Carvalho”, disse, e quando vi já havia dito o que nem eu mesmo sabia que sabia até o momento. A reação não poderia ter sido melhor. Parabenizaram-me sorrindo, e eu quase posso apostar que por baixo dos sorrisos estavam dizendo, animados, algo como um “até que enfim apareceu um maluco disposto”.

Dado o primeiro passo por acaso, dei, também por acaso, o segundo: arranjei um colega de mestrado, Mauro Gaspar, que se tornou cúmplice, confidente e irmão. Campos de Carvalho tornou-se, de uma hora para outra, tema de trabalho de dois malucos dispostos e, ao mesmo tempo, um importante e esquecido autor a ser temido com toda a coragem que tínhamos. E tínhamos, mas as coincidências envolvendo o meu tema estavam apenas começando a me impressionar.

Em uma belíssima noite, conversei por telefone com uma ex-chefe muito amiga, Fernanda Gurjan, e falei-lhe acerca do mestrado. “E a dissertação?”, perguntou. “Vai ser sobre um escritor mineiro.” “Quem?” “Você não conhece. Aliás, ninguém conhece.” “Você não conhece tanta gente assim, para estar tão convicto de que ninguém o conheça. E então, quem é o seu autor?” “O Campos de Carvalho.” “Campos de Carvalho?” “Não falei que você não conhecia...” “O Walter?” “Walter?!” “O Walter é meu primo!”, disse ela, tentando não gritar. “Ah”, disse eu, e pensei: “Nunca estive tão perto do homem”. Eu estaria mais ainda.

A partir daí, o Campos de Carvalho passou a ser “o Walter”. “Estou tentando encontrar a Lygia Rosa, mulher dele, mas não acho”, disse-me Fernanda, excitadíssima, pelo telefone. “Ela está em algum lugar de São Paulo, e sei que vai se mudar para o Rio. Quero organizar um jantar aqui em casa com você, Lygia e Maria Amélia Mello, gerente editorial da José Olympio.” Eu só sorria.

Enquanto isso eu começava a sair do lugar. Consegui o e-mail de outro primo do Walter, o escritor Mario Prata, que gentilmente me telefonou e se colocou à disposição para tudo o que eu quisesse. Mario Prata publicou alguns artigos nO Estado de S. Paulo que se tornaram responsáveis por tudo o mais que se seguiu; foram a pedra de toque para que hoje estejamos a falar de Campos de Carvalho. Devo mencionar, neste sentido, o escritor Nelson de Oliveira e — como entrevistadores corajosos — o Antonio Prata, filho do Mario, o Pedro Bial e também o Paulo Roberto Pires, que, através de seu trabalho, lograram arrancar de um Campos de Carvalho pouco eloqüente, cansado e triste as poucas palavras que, mesmo assim, conseguiram aproximá-lo de seus antigos e novíssimos leitores.

O jantar com Lygia e Maria Amélia saiu afinal do papel, e para lá nos dirigimos eu e Mauro, a encontrar uma Fernanda Gurjan animadíssima diante de sua mesa de jantar literariamente caracterizada com tudo o que havia na casa sobre Campos de Carvalho. Foi um jantar literário. Lemos trechos dA lua vem da Ásia, da Vaca de nariz sutil, dO púcaro búlgaro, e, não sei bem por quê, coube a mim ler Fernando Pessoa. Alguém me disse: “Escolha um número e abra a página correspondente”. Eu escolhi o treze, dia do meu aniversário e, por coincidência, do de Fernando Pessoa. Abri a página treze daquela edição e dei com um verso cujas palavras principais eu procurava há algum tempo e não encontrava. Trata-se de uma expressão utilizada por Carlos Felipe Moisés em seus comentários à Vaca de nariz sutil. Diz ele, à página 18 da Obra reunida: “... de um lado, o binômio morte-cemitério, de outro, a sugestão — já agora pessoana, ‘cadáver adiado que procria’ — de que há mais mortos fora do que dentro [do cemitério]”. E isto está no décimo e último verso da Quinta Quina, homenagem a D. Sebastião, rei de Portugal, da primeira parte de Mensagem, de Fernando Pessoa. E esse “cadáver adiado que procria” fui encontrá-lo justamente ali naquele jantar, naquela página treze, sem o menor esforço, sem a menor pesquisa, apenas abrindo numa página cujo número, o treze, nas palavras de uma atentíssima Lygia, bem ao meu lado na mesa, era o número preferido do seu marido, Walter Campos de Carvalho, “o Walter”. Temi-o ainda mais.

Principalmente depois do que me aconteceu na Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Eu estava lá, na seção de periódicos microfilmados, à cata de um importantíssimo artigo de Sérgio Milliet acerca dA lua vem da Ásia, publicado no dia 4 de fevereiro de 1957. A moça encarregada entregou-me um rolo contendo os microfilmes dO Estado de S. Paulo, do dia 1º ao dia 15 de fevereiro. Eu precisava muito daquela crítica, e por isso permaneci obsedado diante daquela tela verde-musgo, a rodar as manivelas e a ver passarem diante de mim todas aquelas minúsculas páginas, pensando no tamanho da lupa que teria de arranjar para conseguir ler as letrinhas que me esperavam. Já estava no final da edição do dia 3 de fevereiro, ansioso pela edição do dia 4 e, portanto, ansioso para chegar ao caderno cultural onde certamente estava o artigo do Sérgio Milliet, quando me dei conta de que, dentro daquele rolinho de filmes, o dia seguinte ao 3 de fevereiro de 1957 era, inexplicavelmente, o dia 5... A microfilmagem havia pulado, por razões incognoscíveis, a edição do dia 4... Perguntei à moça encarregada se aquilo era possível e mesmo permitido, e ela disse: “Sim, erro de microfilmagem, nada a fazer”. Mas eu já estava com a cabeça longe, a remoer corajosamente os meus medos.

A última e mais importante coincidência a atravessar o meu caminho aconteceu alguns meses depois daquele jantar, quando eu e Mauro fomos convidados por Lygia para um vinho em sua casa. “Onde ela mora?”, perguntei a ele, que me foi apanhar de carro e já havia ido lá antes. “Em Copacabana”, disse. Entramos em uma rua e eu quis saber se era aquela a rua da Lygia. “É. Por quê?” “Porque é mais uma coincidência que me aparece.” “Qual?” Mas eu não cheguei a responder. Quando paramos em frente ao prédio, resmunguei: “É aqui, Mauro? Não pode ser...”. “Por que não?” E eu: “Qual o andar da Lygia?”. Mas ele estava ocupado em nos identificar junto ao porteiro. “Diga a ela: Juva e Mauro.” Mas o porteiro, cumprimentando-me com simpatia, dispensou com a mão as identificações e pediu que subíssemos. “Você o conhece?”, perguntou o Mauro, já no elevador. Mas eu queria era saber o andar da Lygia. Paramos logo no primeiro. “É aqui”, disse ele. “Ah...”, disse eu. “Ah, o quê?” “Você não vai acreditar, Mauro. A coincidência de que lhe havia falado quando entramos nesta rua é maior do que eu imaginava.” “Diga.” E antes que tocássemos a campainha eu disse a ele; disse que Lygia Rosa, mulher de Campos de Carvalho, era vizinha de porta de minha mãe, Telma, que um dia me atirou ao colo a Obra reunida e disse: “Leia isto”.


Quem tem medo de Campos de Carvalho? Ora... Campos de Carvalho levou o absurdo às últimas conseqüências. Ser surrealista foi a sua maneira de manter acesa uma crítica constante sobre a sociedade, e Campos de Carvalho sempre se definiu um autor surrealista. Mas o que é isso? Fui aos poucos compreendendo que essa definição, como quase toda definição, constituía um ponto de partida, e não de chegada. Borges disse que só podemos definir algo quando nada soubermos a respeito desse algo. Eu nada sabia acerca de Campos de Carvalho, e tudo o que me aparecia à frente me dizia que ele era um escritor surrealista.

Há, no entanto, duas maneiras de se entender isso: a primeira, compreendendo-se o surrealismo em seu sentido mais corriqueiro, como um conjunto de atos, palavras e idéias que dêem conta de algo que está de certo modo deslocado, fora do real, do comum, do razoável, do verossímil e do sensato. O efeito produzido por tudo o que esteja ligado a este sentido tem o humor como fator constituinte. O tipo de surrealismo que lemos em O púcaro búlgaro e as situações mais corriqueiras de A lua vem da Ásia são ótimos exemplos e demonstram a exploração de uma espécie de absurdo qualquer.


A segunda maneira de se entender a intimidade de Campos de Carvalho com o surrealismo vai levar-nos ao surrealismo como uma atitude diante da existência. Neste segundo sentido, o que é ser surrealista? É, antes de tudo, não conceber uma arte que esteja apartada da vida e uma vida que não tenha em si, do começo ao fim, um projeto artístico. Campos de Carvalho é surrealista porque teve consciência de que seu trabalho circulava em meio a uma sociedade mediocrizada, atomizada e afundada em seu amor ao dinheiro. Ser surrealista é trabalhar com a palavra do modo com Campos de Carvalho trabalhava: dando a palavra aos poetas, às crianças e aos loucos — os únicos que não têm medo de Campos de Carvalho.

"O cão"

“O cão”, Ficções, Rio de Janeiro, ed. 7Letras, 2004, v. 13, p. 16-21. (ISSN: 1415-9775)

Republicado em: “O cão”, in: PENA, Felipe, Geração Subzero: 20 autores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores, 1. ed., Rio de Janeiro, ed. Record, 2012, v. 1, p. 23-28 (ISBN: 9788501099143).

Contaram-me.

Desde que a mais nova se mudou para a casa ao lado e se tornou vizinha da mais velha, as duas nunca trocaram mais que um aceno — o primeiro. Não se falam porque Gisela tem medo de olhar nos olhos de dona Rosinha, de fazer amizade com dona Rosinha, de deixar os portões abertos por engano durante uma conversa com dona Rosinha — e num relance a coisa toda acontecer. A coisa toda, se um dia acontecer, e um dia a coisa toda vai acabar acontecendo, como de fato aconteceu, que a coisa toda não aconteça na frente dela, Gisela, porque não haverá de sua parte qualquer gesto que preste — e nem depois, porque ela também não vai saber como se dirigir à dona Rosinha e nem como pedir desculpas: “A senhora me desculpe, isso não vai acontecer novamente”. E Gisela, com metade de um sorriso, pensou nas suas próprias palavras descabidas: não vai acontecer novamente de os meus dois pastores caçarem, morderem, matarem e engolirem o seu minúsculo poodle, dona Rosinha, e balançou a cabeça, imaginando a cena; a senhora pode ficar sossegada.

Sossegada dona Rosinha era mesmo. Morava naquela casa desde menina, quando era então a menina Rosinha. Hoje a chamam dona Rosinha, ou Rosa, a vizinha. Logo à chegada da moça, tomou todas as iniciativas que se esperam de uma vizinha como dona Rosinha: aproximou-se da bem cuidada cerca viva, território de ambas, afastou um pouquinho a massa de arbustos cerrados, mostrou a cara e acenou para a nova moradora, que estava postada à janela da cozinha e não deu um minuto apareceu à porta. Veio devagar a moça, e veio sorrindo, mas um sorriso que foi encurtando à medida que se aproximava da cerca; foi encurtando e encurtando, até que sumiu de todo quando ela desviou o olhar do minúsculo poodle sentado à entrada da casa, a abanar o rabinho e a olhar para a sua dona, a dona Rosinha. Quando se encostou à cerca, Gisela apertou a mão de dona Rosinha e voltou a olhar para o cachorrinho. Depois murmurou algumas palavras convencionais, gritando-as quando percebeu que dona Rosinha era surda, e sem saber mais o que dizer deu-lhe as costas. Só pensava no dia seguinte, quando seus pastores enfim chegariam, a acompanhar o resto da mudança.

Gisela morava sozinha, trabalhava o dia inteiro e só chegava à casa à noite. Dona Rosinha vivia em casa, saía muito pouco e adorava assistir à televisão em alto volume. À exceção dos finais de semana, em que Gisela passeava os cães de manhã à noite e bem longe de casa, todos os dias eram de tumulto, um tumulto que dona Rosinha não escutava ou ao qual parecia não dar muita atenção. O que acontecia nos jardins das duas casas chegava a divertir um ou outro passante, e nada mais. A principal ocupação dos pacientes pastores era a espreita, a contínua vigilância ao momento exato em que o pequeno poodle de dona Rosinha realizaria as suas poucas saídas diárias de xixi e cocô — as únicas reais oportunidades que tinham os pacientes pastores de tentar ultrapassar a fronteira de arbustos e fazer daquele minúsculo bicho escandaloso uma bolinha, uma bolinha a ser mordida e arranhada até que não mais latisse ou se mexesse. Corriam os três, ao longo da cerca, para cá e para lá, dois de um lado e um do outro, em grandes latidos, e o mais que conseguiam os pastores era enfiar os focinhos e as patas dianteiras pelo meio da moita, sem qualquer sucesso, e cavar alguns pequenos buracos que talvez um dia os conduzissem para o lado de lá da cerca. O poodle, quando não estava às carreiras para cima e para baixo, latia — latia a plenos pulmões, estridente e esperneante. Não tinha medo.

Ao final do dia, e à medida que se aproximava de casa, chegando a pé do trabalho, Gisela sentia o peito apertado e uma vontade danada de fazer xixi. Era do tipo que não perdia a oportunidade de imaginar, sempre que possível, o pior, acreditando ao mesmo tempo, no fundo de sua alma, que o pior nunca haveria de acontecer, justamente porque as coisas nunca aconteciam do modo como as imaginamos. E era essa a sua fórmula: imaginar o pior justamente para que o pior não acontecesse. E lá vinha Gisela pelo caminho, imaginando o seguinte pior, que poderia variar em alguns detalhes, conforme caminhava a sua imaginação, mas era, em essência, o mesmo: ela olhando por cima do portãozinho e vendo a coisa toda, a terra esparramada, a cerca destroçada, o sangue respingado, os pastores dando voltas ao redor do corpinho do poodle da dona Rosinha, e ela, Gisela, tendo que fazer alguma coisa. A vontade de fazer xixi, por mais que fizesse todo o xixi que tinha em si antes, crescia com a ansiedade, que por sua vez também crescia ao ponto máximo quando Gisela estava a dois passos da entrada. Daí conseguia vê-los diante da porta da cozinha, dormindo inocentes, e a vontade de fazer xixi, pronto, sumia. Foi sempre assim, às vezes mais e às vezes menos, e o quotidiano encarregou-se de ir aos poucos enfraquecendo a carga desse sofrimento, que no entanto nunca cessou de todo.

Foi sempre assim, até que um dia não foi mais. Gisela, estrategicamente pessimista, mas no fundo uma otimista incurável, não imaginou que o pior que persistentemente vinha imaginando há semanas, em alguma de suas variantes, poderia de fato realizar-se, porque esse pior imaginado, por mais vivas que fossem as sua cores, só era imaginado porque era provável. Dito de outro modo, Gisela, antes de estrategicamente pessimista e, num segundo olhar, incuravelmente otimista, não passava de uma irremediável realista. E assim, num belo final de tarde de um dia qualquer, Gisela vinha pela calçada, já depois de ter dobrado a última esquina, quando ouviu um bulício incomum. Aproximou-se quase correndo, a bexiga subitamente cheia, olhou por cima do portãozinho e viu a coisa toda: a terra esparramada, a cerca destroçada e os pastores dando voltas ao redor do corpinho do poodle da dona Rosinha. Ela, Gisela, tinha de fazer alguma coisa.

E fez, tão rapidamente e com tal empenho, que, mais tarde, bem mais tarde, madrugada adentro, já na cama, depois de um belo banho, alguma comida e dois copos e meio de vinho, não soube explicar para si mesma como pudera ter feito o que fez e com tanta diligência. Não soube como conseguira tanto sangue frio, como mantivera sem perceber toda a calma do mundo para iniciar a série de pequenas tarefas que agora rememorava com algum orgulho, alguma culpa, algum medo e a muita convicção de que não poderia ter feito diferente. Depois de olhar para os quatro lados para ver se não via ninguém, mandou os pastores às favas, enxotando-os com dois pedacinhos de pau que encontrou junto à terra revirada, pegou com as duas mãos o corpo inerte do poodle, sopesou-o como se sopesam salames e, com um único suspiro, constatou que o bicho já estava morto há algum tempo. O corpinho estava frio e sujo, mas felizmente inteiro e sem um único corte. Meteu-o debaixo do casaco e entrou em casa. Voltou para o jardim, varreu o chão, espalhou e aplainou toda aquela terra denunciadora e entrou. Lavou o cão na pia da cozinha, secou no banheiro e penteou no quarto. Depois de um minucioso exame para certificar-se de que não havia no corpo defunto do bichinho nem um único indício do que de fato acontecera, Gisela esperou que caísse a noite. Enquanto esperava espreitava — não tirava o olho da janela para ver se dona Rosinha por acaso não estaria à cata do cão. Não estava. Nada se mexia, nem mesmo os pastores, nada se ouvia, nem mesmo a televisão do outro lado da cerca. Quando notou que a última mancha de luz na casa de sua vizinha se havia apagado, Gisela, com o poodle novamente escondido no casaco e uma escova no bolso, esgueirou-se para fora, saiu de casa, pulou a cerca viva utilizando as traves do portão como suporte para os pés, deslizou até a pequena escada de três degraus que levava à soleira da porta de entrada da casa de dona Rosinha e lá deitou delicadamente o cãozinho, não sem antes repenteá-lo e lhe dar três amigáveis tapinhas na cabeça, tomando o cuidado de posicionar suas patinhas de modo a que parecesse estar dormindo. Tentou não ficar sentimental diante daquele montinho de morte que acabava de sair de suas mãos, desejou-lhe mentalmente uma boa viagem e desapareceu em segundos. Em dezessete minutos já estava de banho tomado e sentada no sofá com um copo de vinho à boca. Comeu em seguida e, em seguida, foi para a cama, adormecendo sem perceber, para depois, bem depois, madrugada adentro, acordar sobressaltada e lembrar-se — lembrar-se, com algum orgulho, alguma culpa, algum medo e a muita convicção de que não poderia ter feito diferente, de sua diligência, de seu sangue frio e de sua calma. “Pobre cãozinho”, diria à dona Rosinha. “Pelo menos morreu dormindo...”


Passaram-se os dias, e sempre, ao final da tarde, e à medida que se aproximava de casa, chegando a pé do trabalho, Gisela sentia o peito apertado e uma vontade danada de fazer xixi só de imaginar que poderia encontrar-se casualmente com dona Rosinha e esta lhe perguntar se por acaso sabia a querida Gisela das razões da morte de seu pequenucho — ou, ainda, utilizando-se a estratégia de sempre imaginar o pior, encontrar-se com dona Rosinha e esta, com o dedo em riste, aos berros e aos prantos, lhe atirar à cara a terrível acusação. Mas nada disso acontecia. Gisela, desde o lamentável acidente com o cãozinho — que no dia seguinte à tarde já não estava mais onde o tinha deixado, ali à porta, a dormir —, nunca mais encontrou, sequer viu ou ouviu falar de dona Rosinha. Era como se dona Rosinha tivesse deixado de existir, só existindo a casa e seu silêncio. E assim foi, até que um dia não foi mais. Num belo final de uma tarde qualquer, Gisela vinha pela calçada, já depois de ter dobrado a última esquina, quando viu a vizinha do lado de lá da casa de dona Rosinha. Como era mesmo o nome dela? Não ia lembrar de jeito nenhum. E ela vem sorrindo — sinal de que vai falar, não apenas menear a cabeça, mas falar. Mas falar de quê, se as duas nunca trocaram mais que um ou outro barulhinho de bom dia e como vai?

— Eu vou bem, e a senhora?

— Vou bem, minha filha, vou bem. A Rosa é que...

— O que houve com a dona Rosinha?

— A menina não soube o que aconteceu?

— Não.

— Foi internada...

— Nossa! Mas o que houve?

— A pobre sofreu um ataque dos nervos e está internada.

— Por quê? O que houve?

— Não fala com ninguém, olha para as paredes...

— Mas por quê? Por quê?

— Você conheceu o cachorrinho dela?

— Conheci, conheci.

— Bom, o cachorrinho dela morreu.

— Morreu? Puxa... Ela deve ter ficado mesmo muito abalada...

— Com a morte dele?! Não, não. Ele estava velho...

— Mas então...

— Ela ficou abalada com o que aconteceu depois.

— O que aconteceu depois?! Depois do quê?

— Bom, o cãozinho morreu. Até aí, tudo bem, todos nós um dia morreremos... Fazer o quê? E ela fez o que tinha de fazer: enterrou o bichinho no jardim, pôs até uns pauzinhos em cruz no montinho, realizou lá uma cerimoniazinha de adeus, e foi dormir. No dia seguinte, acorda, abre a porta da entrada para pegar o jornal, e o que vê? A menina não vai acreditar...