quinta-feira, 9 de dezembro de 2004

Lançamento Quem tem medo de Campos de Carvalho? (convite)


Convite lançamento do livro Quem tem medo de Campos de Carvalho?, 9 de dezembro de 2004.

sábado, 27 de novembro de 2004

"Cartografia carioca é renovada" (sobre "A varredora - Leblon")

RESENDE, Beatriz, "Cartografia carioca é renovada", Caderno Idéias, Jornal do Brasil, 27 de novembro de 2004.

sábado, 13 de novembro de 2004

"Sem medo de Campos de Carvalho"

MILLEN, Mànya; e BERTOL, Rachel, "Sem medo de Campos de Carvalho", "No Prelo", O GloboRio de Janeiro, 13 de novembro de 2004.

segunda-feira, 1 de novembro de 2004

“A varredora – Leblon”

BATELLA, Juva, “A varredora – Leblon”, in: Prosas Cariocas — Uma nova cartografia do Rio de Janeiro (orgs.: IZHAKI, Flávio & MOUTINHO, Marcelo), 1. ed., Rio de Janeiro: Ed. Casa da Palavra, 2004, p. 77-88 (ISBN: 8587220810).

para Rogério Barbosa Lima

E foi então que Riomar se deu conta de que não sabia varrer. Nunca achou que varrer era algo que se pudesse ou não saber. Varrer é um ato da pessoa, dos instintos, pensou Riomar, que não era burro nem desengonçado. Sempre fez, com as mãos muito livres, entenda-se, o diabo. E entendeu que o problema era o tamanho da escova da vassoura. Por ser comprida demais, não prestava para se fazer o montinho, que, para resultar bem feito, tem de ser arrodeado pelos quatro lados com a vassoura. Mas Riomar não acertava, e também não conseguia decidir se caminhava antes ou depois, empurrando a vassoura e andando para a frente ou puxando o montinho para si e andando de costas, correndo o risco de desaparecer nalgum bueiro aberto ao léu, sabe-se lá. O mundo é longo e complexo, pensou Riomar.

Se pudesse, se não estivesse em seu uniforme laranja, novo que só, se não estivesse plantado em plena José Linhares, na esquina com a Conde de Bernadotte, quase em frente à Academia da Cachaça, no meio de todo o mundo, Riomar se agachava diante daquele lixo e, com as mãos muito livres, fazia ali mesmo um belo montinho, esse sim, e, em duas ou três cavadas com a palma, punha tudo direto no carrinho e pronto, seguia para a próxima rua. Mas, pensou, se não estivesse em seu uniforme laranja, se não estivesse bem ali na esquina da Linhares com a Bernadotte, quase em frente à Academia, no meio de todo o mundo, ele não teria que se desfazer daquele montinho, ele sequer teria algo a ver com aquele montinho, ele não teria, afinal, que varrer o quadro de ruas que formava a sua ordem de serviço daquele dia.

Mas ele estava lá, quase em frente ao bar, e no bar conhecia a todos. Riomar trabalhou dois anos no Jobi e sete na Academia da Cachaça; tinha, portanto, boas razões para ter aprendido a fazer, com as mãos, um pouco de tudo, e com excelência. Foram mais de quinze mil caipirinhas magníficas bem executadas e, além de arrumadinhos e escondidinhos, pelo menos uns sessenta mil caprichados pastéis cuja massa Riomar teve de alisar com a mão para em seguida construir adequados montinhos de carne, queijo e só, que o pastel de vento dispensava montinhos; bastava modelar uma barriga, tapar bem hermético e fritar. Ele aprendeu de tudo, mas também se cansou de tudo e precisou variar. Riomar foi ser gari.

O sujeito, para ser gari, tem de ter uma cabeça organizada, muita paciência e alguma memória. Tem de saber decidir, por exemplo, se vai começar do lado ímpar ou do lado par da rua. A melhor varredura é aquela que se faz no sentido contrário ao dos carros, que desse modo podem ser vistos e evitados, principalmente quando chove e faz poça dos lados. Mas uma rua não tem só um lado, pensou Riomar. Possui dois, no mínimo, e no máximo pode ter até oito, como é o caso da Presidente Vargas, onde ele nunca vai querer fazer varredura, não ele. O gerente da administração do departamento de pessoal diz que uma varredura deve começar onde começa a rua e terminar onde a rua termina. “Mas, ora”, começou Riomar nessa mesma manhã em que foi contratado e um pouco antes de vestir o seu uniforme laranja novinho, “o começo de uma rua não começa justamente no lado em que está a pessoa?” “Não”, disse o gerente da administração do departamento de pessoal, “as ruas aqui nesta cidade começam no centro e acabam na periferia ou no mar.” “Mas se eu estiver no...” “Se você estiver no meio de algum bairro e não souber para que lado fica o mar? Olhe para a numeração dos prédios”, disse o gerente da administração do departamento de pessoal, satisfeito que só ele, por estar dando explicações que nunca dera antes, aplicando assim um conhecimento que sempre teve, desde que começou na firma, mas nunca pôde dar porque nunca lhe pediram. E até se surpreendeu com tanta coisa que sabia, e não sabia que sabia, sobre as ruas, os nomes da ruas, os nomes antigos das ruas, e quase todas já tiveram mais de um, e suas histórias, também velhas. “Então, rapaz”, disse ele, “olhe para os números dos prédios, se aprume e tome posição: o lado ímpar deve ficar na sua esquerda. E então na sua frente está o final da rua e atrás de você está o início dela... Já entendeu, né? Agora chega de lero. Tome a sua ordem de serviço, varredura no Leblon, seis ruas. Vamos, vamos!” E anunciou, meio rindo: “Fica dispensado do serviço se me disser o nome da rua mais antiga do bairro. Como não sabe, vá ver se estou lá na esquina!”.

E Riomar foi. E foi então que se deu conta de que não sabia varrer, dando-se conta também, quase que ao mesmo tempo, de que não havia o que varrer. Riomar espichou o pescoço e andou com o olhar um bom trecho da José Linhares, conseguindo enxergar o pedaço que a levava até a Humberto de Campos. Lisa, lisa, uma beleza de se ver, uma porcaria de se varrer. Nunca havia visto uma rua assim, tão vazia de lixo, disse para si mesmo, e coçou a cabeça, sentindo-se também ele, de repente, um pouco vazio, vá explicar. E subiu a rua pela esquerda e desceu pela direita, e foi notando que a Linhares não estava apenas limpa, mas varrida, da Bernadotte à Delfim Moreira. Mundo estranho.
Riomar colocou a pá e a vassoura dentro do carrinho quase vazio e percorreu então todo o itinerário da sua ordem de serviço daquele primeiro dia, uma figura geométrica cujos lados eram Bartolomeu Mitre, Ataulfo de Paiva, José Linhares e Conde de Bernadotte, e mais o que estivesse dentro, ou seja, pedaços da João Lira e da Humberto de Campos. Leve. E o máximo que fez foi fazer questão de catar pelo caminho quatro palitos de picolé, uma folha de agenda e um relógio de pulso de mentirinha. Em meia hora estava de volta ao prédio da firma. “O senhor pode duvidar; pode até não acreditar”, disse Riomar, firme, ao gerente da administração do departamento de pessoal, “mas o meu serviço de hoje já estava todo feito... E não é que as ruas estivessem limpas assim, por estarem. Elas estavam é varridas, o senhor pode ir lá conferir as marcas no chão...” “Não precisa”, falou o homem, com um sorrisinho. E, depois de um bom bocado de silêncio: “Eu não estou duvidando de você, rapaz. Foi a varredora”, e não disse mais nada.

Riomar, na segunda-feira, chegou mais cedo. “Hoje você fica com o miolo pro lado da praia”, disse o gerente da administração do departamento de pessoal, e explicou: “Os lados do retângulo são, preste atenção, Delfim Moreira até Bartolomeu, Bartolomeu até San Martin, San Martin até Carlos Góis, Carlos Góis até Delfim, e tudo o que estiver dentro do retângulo. Mole. Está aqui, tome, guarde no bolso”. E já estava para gritar pelo próximo quando parou, inspecionou Riomar de baixo para cima e perguntou, como se cochichasse: “Você sabia que o Leblon, se a gente parar pra pensar, é, no fundo, uma ilha? Um mar, uma lagoa e dois canais...”. Riomar ia falar alguma coisa, chegou até a abrir a boca, mas depois fechou. “Não entendeu?” “Entendi, sim, é que...” “Então vá, rapaz! Vá catar coquinho na praia!”, e lhe estendeu o papel com a ordem. “É que eu queria saber mais sobre a varredora e...” “O próximo!”

“A gente só vê a varredora se estiver procurando por ela”, disse-lhe o Souza, guardando a sua ordem do dia e escolhendo um carrinho. “Eu mesmo, que me orgulho de já ter varrido a cidade do Rio toda ela, só fui perceber que a varredora existe depois.” “Depois do quê?” “Depois de vir para o Leblon e de passar o que você passou na sexta-feira.” “O que eu passei?” “É, todo o mundo já sabe... Perder as ruas pra ela...” “Perder as ruas pra ela?” “É, parceiro... A ordem do dia...” “Você diz o papel?”, e Riomar apertou o seu contra a perna. “Não, não”, o Souza acabou rindo. “Eu digo o serviço...”, e olhou, franzido, a hora: “Ela varre a rua da pessoa, rouba o serviço da pessoa, e a pessoa fica catando palito...” “E então...” “E então, meu amigo, não fazer o serviço que lhe pagam pra fazer porque uma mulher maluca fez esse serviço todinho pra você, e muito melhor do que você faria, isso, aqui dentro...”, e saiu com o carrinho para a rua, “... é muito, muito chato...”, disse ele, um pouco indignado por estar a explicar o que lhe parecia o óbvio. Riomar olhou mais uma vez para a sua ordem de serviço daquele dia e, sem levantar a cabeça, fez outra pergunta: “E ela, como é?”, mas o Souza já estava longe.

A varredora apareceu naquele fim de tarde. Riomar já tinha varrido, assim assim, todo o seu retângulo; terminava a San Martin quando, próximo à esquina com a Bartolomeu Mitre, estacou. Não poderia, de jeito nenhum, não ser ela aquela mulher alta e muito magra, armada de uma vassoura de piaçava bem velha, quase no osso, ali parada, descalça, na beira do meio-fio, à espera do sinal, e a expressão seriíssima de uma grande responsabilidade nos ombros. Como é que nunca tinha visto a mulher antes?, pensou Riomar, atrapalhando-se com a própria vassoura. E depois pensou também que na verdade sempre a vira. E como é que sempre a vira, se nunca a tinha visto antes? Sempre a vi varrendo, pensou de novo, e nunca havia reparado. E, à distância, pela Bartolomeu Mitre, começou a segui-la.

A varredora parecia imersa num tempo só seu, e andava rápido pela rua Conde de Avelar em direção à Ataulfo. Mudou, de repente, de rumo, embicando à direita pela Campos de Carvalho. “Ela entrou na General San Martin”, observou Riomar. “Tudo isso aí, dona, já está varrido, até a Carlos Góis...”, disse de si para si mesmo, e sorriu. Mas a varredora, que não parecia disposta a varrer e sequer tocava a vassoura no chão, quando chegou à esquina com a Domingos Moutinho, parou, olhou bem para a rua como que para se certificar de que ela permanecia ali, amassou com a mão esquerda a barra da saia e, ansiosa, entrou. “Se for para varrer a João Lira”, pensou Riomar, “entrou à toa...” A varredora tencionava ir por ali até a Ataulfo de Paiva, perto do terreno baldio onde estavam construindo o prédio do novo supermercado Disco, mas mudou de idéia. Assim que viu o campinho de futebol, com os dias contados, freou, virou nos calcanhares e retomou, rápida, o passo da volta. E lá vinha ela, retornando pela outra margem da Domingos Moutinho e olhando compenetrada o chão de areia batida. “Por que é que ela não foi até o fim?”, perguntou-se Riomar, que se escondera atrás de um caminhão até que ela passasse de novo e, saindo da João Lira, caísse novamente e cheia de pressa na San Martin. Feito, lá estava ela novamente e cheia de pressa na Campos de Carvalho e em direção à esquina seguinte, com a rua Acaraí. “A José Linhares também está varrida, dona. O serviço não está essas coisas, eu sei, mas, pelo menos, fui eu que fiz...”, e riu, riu mais de si mesmo do que dela.

Foi quando percebeu que, da esquina, a varredora o fitava. Parada, ao lado de sua vassoura, como um cajado, uma bandeira, lá estava ela, mas era como se não estivesse, porque ninguém parecia notar aquela mulher inteiramente esquisita, a manter de pé, sobre as ruas de todo o bairro, um olhar altivo e obstinado. Riomar abaixou a cabeça e fingiu que a coisa não lhe dizia respeito. Encostou o carrinho, pegou a vassoura e, sem qualquer vontade de chegar a lugar algum, começou a formar no chão um montinho imaginário de poeira. Lembrou-se de si mesmo cortando os limões, quebrando os gelos e chacoalhando as misturas; viu-se a si mesmo modelando, para os pastéis, os montinhos de carne, queijo e vento, e foi além, muito além, imaginando-se a si mesmo bem na frente de um grande fogão, só que dentro, bem lá dentro da barriga de sua velha mãe, cozinheira de mão cheia do Astória, do Recreio, do Colúmbia, do Luna, do Look, do Clipper, da Bibi, do La Molle da época do sr. Domenico e de tantos outros restaurantes e botecos do Leblon antigo. Riomar pensou em tudo isso e levantou a cabeça. Lá estava ela, a varredora, na mesma esquina, na mesma posição, com a vassoura ainda em repouso e o mesmo olhar espetado nele.

Era preciso avançar meio quarteirão, atravessar a rua, chegar à esquina e encarar a mulher, suportando-lhe o olhar, e, quem sabe, abordá-la. Riomar guardou vassoura e pá, tomou do carrinho e, mesmo sentindo-se um pouco incomodado diante do montinho imaginário que deixava para trás e bastante ridículo por sentir-se um pouco incomodado, avançou assoviando, como se não fosse com ele. A varredora, imóvel, mantinha de pé a cabeça e a vassoura, e os detalhes de sua figura cresciam a cada passo. Em vinte passos chegaria até ela, pensou Riomar, que pelo canto dos olhos já podia perceber o cabelo branco, bem eriçado e bem alto, uma espécie de uniforme de cozinheira com listras alaranjadas e azuis, ela bem velhinha, velhinha, e um tique nervoso na mão esquerda, os dedos ossudos amarfanhando com alguma raiva a barra do vestido. Riomar, a dez passos dela, atravessou a rua e ainda demorou uns bons segundos contemplando aquele único movimento que se destacava do corpo estático e magro da mulher, agora a três passos dele, antes de respirar fundo e, pisando afinal a esquina da San Martin com José Linhares, erguer os olhos para a varredora.

Que, no entanto e afinal, não olhava para ele, não olhava para nada e tampouco varria; olhava para a frente, para as ruas, para o bairro, através dos prédios, para o mar que não se podia ver, para a lagoa que não se podia ver, para as montanhas que não se podiam ver, e ela via, e para os campos de areia dos terrenos desocupados que há anos não estavam mais lá, próximos àquela esquina da Campos de Carvalho com Acaraí. Riomar, que já havia parado e aberto a boca para falar, retomou o passo um pouco sem graça e, deixando-a para trás, seguiu em frente, em direção à Almirante Guilhem. Ainda estava decidindo se olharia ou não para trás quando sentiu pelo lado um vento, e a varredora a ultrapassá-lo, em boa velocidade, passo obstinado e vassoura em punho. Ia também na direção da Dom Pedrito, chegou a passar pela Francisco Ludolf, e entrou antes, à esquerda, na Francisco Santos.

“Ela entrou na Carlos Góis, e não é para varrer”, concluiu Riomar, tentando acelerar o passo, apesar do tamanho do carrinho, e manter inalterada a distância de meia quadra entre os dois. Deteve-se ainda um instante a olhar com alguma curiosidade aquele homem muito alto e bastante barrigudo a andar para lá e para cá na calçada, as mãos por detrás e os olhos esbugalhados na cara de poucos amigos. Aquele homem é um cuja barriga... Ela chega à esquina com a Ataulfo e pára; começa a amarfanhar a barra da saia, olha para os lados, aperta a vassoura com as mãos e atravessa, mantendo-se na Francisco Santos, agora em direção à esquina seguinte, com a José Ludolf. Ia virar à esquerda, como se estivesse indo para o finalzinho da rua do Sapê, quando dá de cara com o Souza, encarregado de varrer justamente aquele trecho da Humberto de Campos, da Carlos Góis à Bartolomeu. Riomar, bem escondido e de longe, assiste ao encontro: o Souza a gesticular como se desse explicações à varredora, apontando para as quatro esquinas do cruzamento e ainda para a praça Romeiro Neto, a Cobal e as Casas Sendas; a varredora, impassível, também olhando para aqueles lados, embora não vendo nada daquilo, porque seus olhos saltavam sobre as construções e era como se atravessassem o tempo; ela via tão somente a velha e areenta rua do Pau, e para lá fez que se encaminhava, deixando o Souza a gesticular, como se desse explicações.

O caminho da varredora, no entanto, não foi o mais curto. Ela seguiu pela José Ludolf, paralela à Ataulfo, cruzando novamente a Francisco Ludolf, a Acaraí e a Domingos Moutinho, mas não entrou, pegando pela direita, no pedaço que iniciava a Conde de Avelar, no finzinho da Sapê; a varredora, muito séria e visivelmente aborrecida por julgar-se, de algum modo, atrasada, preferiu andar reto, em direção ao final do Leblon. Atravessou a Urquiza e a Azevedo Lima, caindo naturalmente na dr. Dias Ferreira, passou pela Miguel Braga e pela Antônio dos Santos, que verificou estarem limpas, entrou na Aristides Espínola balançando com alívio a cabeça, como se confirmasse que a rua continuava mesmo lá, onde a deixara no dia anterior, acenou sorrindo para o garçom bigodudo do Gatão, caminhou, rápida, até a Ataulfo de Paiva e ali, na esquina, bem em frente ao Três Vinte, parou, a olhar e ouvir os bondes que iam e vinham na mão dupla. E foi ali, naquela mesma esquina, bem em frente à Pizzaria Guanabara, que Riomar, suando muito, com as pernas tremendo e alguma dor na mão, decidiu parar com aquela maluquice.

Mas percebeu que a varredora, a menos de cinco metros, olhava, desta vez só para ele, e quase sorria. E, quase sorrindo, movimentou a vassoura longe do chão, trazendo-a para si com o braço, e repetidas vezes, num movimento que pareceu a Riomar um convite. “Para onde?”, pensou. “E para fazer o quê?” Livrou-se do carrinho, deixando-o no canto da calçada, ao lado de um Jipe, e, um pouco sem graça, avançou para ela, que desviou o olhar, abaixou a cabeça e, pegando a vassoura, retomou o andar, descendo a Ataulfo de Paiva, agora em direção ao Jardim de Alá. Riomar, livre do peso, ainda deu alguns passos relutantes, fez menção de atravessar a rua mas sentiu, pela primeira vez na vida, que faltava alguma coisa naquelas suas mãos muito livres. Voltou ao carrinho, pegou, sem saber para quê, a própria vassoura, que era comprida demais, e, mais confiante, até mesmo mais completo, recolocou o pé na rua, em nova e franca perseguição.

Sem olhar para nada, perseguiu a varredora, ou tão somente aquela sua vassoura de piaçava bem velha, quase no osso, da Aristides Espínola à Bartolomeu Mitre. E, obstinado, não reparou, passando pelo Jobi, que o Paiva lhe acenava carrancudo, talvez por causa do... E também não reparou naquela senhora preta e loquaz, gorda e simpática, proprietária descabelada das duas malas escuras, bem grandes e entupidas de panos misteriosos, pouco antes de atravessar a Artigas, aquela senhora que... E Riomar quase derruba, na esquina da Rio-Lisboa e do Talho Capixaba, a velhinha mirrada, a dos largos calções de surfista, a velhinha que sempre pede a alguém que lhe pague um café, embora todos saibam que ela não... Andava a varredora cada vez mais rápido. Tivesse olhado para trás, teria visto Riomar às carreiras, quase em seus calcanhares, e teria visto o Três Vinte se afastando, e todo o final do Leblon a desdobrar-se, silencioso, em suas ruas de areia, paralelepípedo e charretes, como num filme mudo. Mas também ela, atravessando a Azevedo Lima e a Urquiza, não via nada, quando muito o arboreto baixinho da praça dr. Frontin e alguma construção nova a povoar o bairro.


Caía a tarde quando a varredora, na esquina com a Conde de Avelar, virou à esquerda e desceu, em direção à rua do Sapê. Caía a tarde quando Riomar, esbaforido, também dobrou à esquerda, entrando na Bartolomeu, e seguiu, como se fosse para a Gávea. Em minutos estavam os dois na Conde de Bernadotte, de vassoura em riste, lado a lado, parados e em silêncio, como se à espera de que um ou outro tomasse a iniciativa, e Riomar foi o primeiro. Tocou o chão com a vassoura, pegou o impulso inicial e começou a varrer algum lixo de folhas, mas a varredora o interrompeu. Estendeu-lhe a sua própria vassoura, a de piaçava bem velha e quase no osso, e Riomar, relutante, aceitou, passando-lhe então a outra, bem mais comprida. E seguiram varrendo os dois, no mesmo passo, quase a encostarem-se, o mesmo lixo de folhas, por toda a velha rua do Pau. A varredora, olhando para a frente, via os contornos da Praia do Pinto e alguma luz de fogueira na linha da Lagoa. Riomar, olhando para o lado e querendo ver como se varre, não viu que, afinal, varria, e como nunca. As folhas, tocadas pela vassoura velha, desapareciam debaixo da noite.

terça-feira, 15 de junho de 2004

"O Universitário e o Livro"

Cristiane Costa, "Livro em debate", Informe Idéias, Jornal do Brasil, 12 de junho de 2004.

"O Universitário e o Livro"
14 a 18 de junho de 2004, PUC-Rio.
Palestras sobre mercado editorial, entrevistas com novos escritores e uma feira de livros.

Com: Jorge Viveiros de Castro (7Letras), Alberto Schprejer (Relume-Dumará), Rui Campos (livreiro), João Paulo Cuenca, Juva Batella e Simone Campos (autores) e Ana Maria Santeiro (agente literária).

Batella, Juva. "Autor inédito: como ser publicado".

quarta-feira, 28 de abril de 2004

Confissões de um pai doméstico: croniquinhas para Pipoca (capa)

Confissões de um pai doméstico: croniquinhas para Pipoca, São Paulo, Editora Planeta, 2003, 111p. (ISBN: 85747970)

terça-feira, 27 de abril de 2004

Confissões de um pai doméstico (Claudia Bebê)

Claudia Bebê, 27 de abril de 2004.

domingo, 25 de abril de 2004

Confissões de um pai doméstico, Juva Batella, Sem Censura, com Leda Nagle


Programa "Sem Censura", com Leda Nagle, sobre o livro Confissões de um pai doméstico.

sábado, 24 de abril de 2004

Confissões de um pai doméstico, Juva Batella, Jogo Aberto, da Univ. Veiga de Almeida, partes 1 e 2




Entrevista ao programa Jogo Aberto, da Universidade Veiga de Almeida, sobre o livro Confissões de um pai doméstico: croniquinhas para Pipoca.

sábado, 28 de fevereiro de 2004

"Mais do simples crônicas"

DIAS, Darcy Ladeiras, "Mais do simples crônicas", Caderno Idéias, Jornal do BrasilRio de Janeiro, 28 de fevereiro de 2004.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2004

"Os superpais"

SILVA, Chico; e RODRIGUES, Greice, "Os superpais", "Comportamento - Sociedade", IstoÉ, 11 de fevereiro de 2004.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2004

Desenhos de Campos de Carvalho 3

Desenhos de Campos de Carvalho, gentilmente cedidos por sua mulher, Lygia Rosa.

Desenhos de Campos de Carvalho 2

Desenhos de Campos de Carvalho, gentilmente cedidos por sua mulher, Lygia Rosa.

Desenhos de Campos de Carvalho 1

Desenhos de Campos de Carvalho, gentilmente cedidos por sua mulher, Lygia Rosa.

O Cruzeiro (Edney Célio Silvestre)

Edney Célio Silvestre, O Cruzeiro, 30 de outubro de 1969.

“Quem tem medo de Campos de Carvalho?”

“Quem tem medo de Campos de Carvalho?”, Revista Argumento, Rio de Janeiro, 2004, v. 5, p. 22-24. (ISSN: 1679-6020)

Quase ninguém. Raras são as histórias da literatura brasileira que falam das histórias do escritor mineiro Campos de Carvalho (1916-1998), raras as antologias em que toma parte, raras as monografias, dissertações e teses. O leitor médio não o conhece, o estudante de letras mal o conhece, muitas livrarias não o possuem e poucos são os sebos que conseguem escondê-lo por algum tempo — o bastante para que um aficionado colecionador, tão raro quanto o exemplar que cobiça, finalmente o descubra e o leve embora para sempre. Trata-se, sem dúvida, de um clássico — mas do qual não se falava há mais de trinta anos.

Durante seu decênio produtivo, 1954 a 1964, Campos de Carvalho fez sucesso, ou seja, foi por seus pares reconhecido e cultuado, ao mesmo tempo em que publicava — e vendia — por duas editoras já nascidas fundamentais dentro de nossa história editorial: José Olympio e Civilização Brasileira. À primeira vista, Campos de Carvalho não passa de um escritor que sabe escrever muito bem. Seu texto desenvolve-se no interior de uma sintaxe tradicional, que se comporta em vários momentos à portuguesa, uma escrita escorreita e um vocabulário invulgar. Esta poética bem falante e cheia dos aromas da “boa literatura” tem, no entanto, um fundo falso, um nervo aberto e uma carga inflamável: a liberdade radical da criação, a crítica constante às verdades estabelecidas e ao uso mediocrizante da linguagem, o humor como produção e diluição da mesma e velha angústia de guerra: a boa e absurda condição humana.

Quem tem medo de Campos de Carvalho? Arrisco: quem consegue sobreviver a uma lua que venha da Ásia, a uma vaca de nariz sutil, a uma chuva imóvel e a um púcaro búlgaro — mais que romances, estados de espírito, fragmentos de filosofia poética. A lua vem da Ásia, publicado em 1956, contará a história de um sujeito que se julga o hóspede de um hotel de luxo, depois o prisioneiro de um campo de trabalhos forçados, para finalmente percebermos tratar-se do interno de um hospício. O texto do livro forma um diário, e a representação de loucura que se vê neste diário não é pouco complexa — é, sim, de tal forma crítica e relativa que não raro nos atira à cara a loucura de nossa própria razão. Ou a parte de morte em nossa própria vida, como é o caso da história de Vaca de nariz sutil — a de um ex-combatente de guerra que tratou com a morte tão de perto que depois não mais teve forças para lidar com a própria existência diária, cercada de morte por todos os lados, exceto por um único. O amor que se descobre em A chuva imóvel está a beirar o incesto. André e Andrea, eternamente separados pela irmandade gêmea, dão feitio ao universo do narrador-personagem, que se mede por duas palavras: introspecção e revolta. O humor levado a sério, às últimas conseqüências, é a tônica de O púcaro búlgaro: um grupo de esquisitos reunidos em um apartamento e envolvidos na organização de uma expedição à Bulgária com vistas a verificar sua real existência. A circunspecção com que os disparates vêm à tona, a galeria dos personagens e o insólito da história em si provocam o alargamento do campo do razoável e a celebração do nonsense. Terminado O púcaro búlgaro, Campos de Carvalho calou-se. Voltou a existir como escritor somente em 1995, quando a editora José Olympio, numa iniciativa finalmente tomada, republicou seus romances num volume único intitulado Obra reunida.


Conheci-o, e passei a temê-lo, um pouco depois, já em 1997, num dia em que minha mãe me atirou ao colo os seus quatro livros e disse: “Leia isto”. Estava disposto a obedecer, mas antes perguntei a ela se já tinha lido. “Até onde me foi possível.” “Foi possível o quê?” “Até onde me foi possível ler e não enlouquecer”, disse ela. Aquilo me animou. Um ano depois candidatei-me para um curso de mestrado. Feitas as provas, quiseram saber dos meus propósitos. “Vou estudar o Campos de Carvalho”, disse, e quando vi já havia dito o que nem eu mesmo sabia que sabia até o momento. A reação não poderia ter sido melhor. Parabenizaram-me sorrindo, e eu quase posso apostar que por baixo dos sorrisos estavam dizendo, animados, algo como um “até que enfim apareceu um maluco disposto”.

Dado o primeiro passo por acaso, dei, também por acaso, o segundo: arranjei um colega de mestrado, Mauro Gaspar, que se tornou cúmplice, confidente e irmão. Campos de Carvalho tornou-se, de uma hora para outra, tema de trabalho de dois malucos dispostos e, ao mesmo tempo, um importante e esquecido autor a ser temido com toda a coragem que tínhamos. E tínhamos, mas as coincidências envolvendo o meu tema estavam apenas começando a me impressionar.

Em uma belíssima noite, conversei por telefone com uma ex-chefe muito amiga, Fernanda Gurjan, e falei-lhe acerca do mestrado. “E a dissertação?”, perguntou. “Vai ser sobre um escritor mineiro.” “Quem?” “Você não conhece. Aliás, ninguém conhece.” “Você não conhece tanta gente assim, para estar tão convicto de que ninguém o conheça. E então, quem é o seu autor?” “O Campos de Carvalho.” “Campos de Carvalho?” “Não falei que você não conhecia...” “O Walter?” “Walter?!” “O Walter é meu primo!”, disse ela, tentando não gritar. “Ah”, disse eu, e pensei: “Nunca estive tão perto do homem”. Eu estaria mais ainda.

A partir daí, o Campos de Carvalho passou a ser “o Walter”. “Estou tentando encontrar a Lygia Rosa, mulher dele, mas não acho”, disse-me Fernanda, excitadíssima, pelo telefone. “Ela está em algum lugar de São Paulo, e sei que vai se mudar para o Rio. Quero organizar um jantar aqui em casa com você, Lygia e Maria Amélia Mello, gerente editorial da José Olympio.” Eu só sorria.

Enquanto isso eu começava a sair do lugar. Consegui o e-mail de outro primo do Walter, o escritor Mario Prata, que gentilmente me telefonou e se colocou à disposição para tudo o que eu quisesse. Mario Prata publicou alguns artigos nO Estado de S. Paulo que se tornaram responsáveis por tudo o mais que se seguiu; foram a pedra de toque para que hoje estejamos a falar de Campos de Carvalho. Devo mencionar, neste sentido, o escritor Nelson de Oliveira e — como entrevistadores corajosos — o Antonio Prata, filho do Mario, o Pedro Bial e também o Paulo Roberto Pires, que, através de seu trabalho, lograram arrancar de um Campos de Carvalho pouco eloqüente, cansado e triste as poucas palavras que, mesmo assim, conseguiram aproximá-lo de seus antigos e novíssimos leitores.

O jantar com Lygia e Maria Amélia saiu afinal do papel, e para lá nos dirigimos eu e Mauro, a encontrar uma Fernanda Gurjan animadíssima diante de sua mesa de jantar literariamente caracterizada com tudo o que havia na casa sobre Campos de Carvalho. Foi um jantar literário. Lemos trechos dA lua vem da Ásia, da Vaca de nariz sutil, dO púcaro búlgaro, e, não sei bem por quê, coube a mim ler Fernando Pessoa. Alguém me disse: “Escolha um número e abra a página correspondente”. Eu escolhi o treze, dia do meu aniversário e, por coincidência, do de Fernando Pessoa. Abri a página treze daquela edição e dei com um verso cujas palavras principais eu procurava há algum tempo e não encontrava. Trata-se de uma expressão utilizada por Carlos Felipe Moisés em seus comentários à Vaca de nariz sutil. Diz ele, à página 18 da Obra reunida: “... de um lado, o binômio morte-cemitério, de outro, a sugestão — já agora pessoana, ‘cadáver adiado que procria’ — de que há mais mortos fora do que dentro [do cemitério]”. E isto está no décimo e último verso da Quinta Quina, homenagem a D. Sebastião, rei de Portugal, da primeira parte de Mensagem, de Fernando Pessoa. E esse “cadáver adiado que procria” fui encontrá-lo justamente ali naquele jantar, naquela página treze, sem o menor esforço, sem a menor pesquisa, apenas abrindo numa página cujo número, o treze, nas palavras de uma atentíssima Lygia, bem ao meu lado na mesa, era o número preferido do seu marido, Walter Campos de Carvalho, “o Walter”. Temi-o ainda mais.

Principalmente depois do que me aconteceu na Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Eu estava lá, na seção de periódicos microfilmados, à cata de um importantíssimo artigo de Sérgio Milliet acerca dA lua vem da Ásia, publicado no dia 4 de fevereiro de 1957. A moça encarregada entregou-me um rolo contendo os microfilmes dO Estado de S. Paulo, do dia 1º ao dia 15 de fevereiro. Eu precisava muito daquela crítica, e por isso permaneci obsedado diante daquela tela verde-musgo, a rodar as manivelas e a ver passarem diante de mim todas aquelas minúsculas páginas, pensando no tamanho da lupa que teria de arranjar para conseguir ler as letrinhas que me esperavam. Já estava no final da edição do dia 3 de fevereiro, ansioso pela edição do dia 4 e, portanto, ansioso para chegar ao caderno cultural onde certamente estava o artigo do Sérgio Milliet, quando me dei conta de que, dentro daquele rolinho de filmes, o dia seguinte ao 3 de fevereiro de 1957 era, inexplicavelmente, o dia 5... A microfilmagem havia pulado, por razões incognoscíveis, a edição do dia 4... Perguntei à moça encarregada se aquilo era possível e mesmo permitido, e ela disse: “Sim, erro de microfilmagem, nada a fazer”. Mas eu já estava com a cabeça longe, a remoer corajosamente os meus medos.

A última e mais importante coincidência a atravessar o meu caminho aconteceu alguns meses depois daquele jantar, quando eu e Mauro fomos convidados por Lygia para um vinho em sua casa. “Onde ela mora?”, perguntei a ele, que me foi apanhar de carro e já havia ido lá antes. “Em Copacabana”, disse. Entramos em uma rua e eu quis saber se era aquela a rua da Lygia. “É. Por quê?” “Porque é mais uma coincidência que me aparece.” “Qual?” Mas eu não cheguei a responder. Quando paramos em frente ao prédio, resmunguei: “É aqui, Mauro? Não pode ser...”. “Por que não?” E eu: “Qual o andar da Lygia?”. Mas ele estava ocupado em nos identificar junto ao porteiro. “Diga a ela: Juva e Mauro.” Mas o porteiro, cumprimentando-me com simpatia, dispensou com a mão as identificações e pediu que subíssemos. “Você o conhece?”, perguntou o Mauro, já no elevador. Mas eu queria era saber o andar da Lygia. Paramos logo no primeiro. “É aqui”, disse ele. “Ah...”, disse eu. “Ah, o quê?” “Você não vai acreditar, Mauro. A coincidência de que lhe havia falado quando entramos nesta rua é maior do que eu imaginava.” “Diga.” E antes que tocássemos a campainha eu disse a ele; disse que Lygia Rosa, mulher de Campos de Carvalho, era vizinha de porta de minha mãe, Telma, que um dia me atirou ao colo a Obra reunida e disse: “Leia isto”.


Quem tem medo de Campos de Carvalho? Ora... Campos de Carvalho levou o absurdo às últimas conseqüências. Ser surrealista foi a sua maneira de manter acesa uma crítica constante sobre a sociedade, e Campos de Carvalho sempre se definiu um autor surrealista. Mas o que é isso? Fui aos poucos compreendendo que essa definição, como quase toda definição, constituía um ponto de partida, e não de chegada. Borges disse que só podemos definir algo quando nada soubermos a respeito desse algo. Eu nada sabia acerca de Campos de Carvalho, e tudo o que me aparecia à frente me dizia que ele era um escritor surrealista.

Há, no entanto, duas maneiras de se entender isso: a primeira, compreendendo-se o surrealismo em seu sentido mais corriqueiro, como um conjunto de atos, palavras e idéias que dêem conta de algo que está de certo modo deslocado, fora do real, do comum, do razoável, do verossímil e do sensato. O efeito produzido por tudo o que esteja ligado a este sentido tem o humor como fator constituinte. O tipo de surrealismo que lemos em O púcaro búlgaro e as situações mais corriqueiras de A lua vem da Ásia são ótimos exemplos e demonstram a exploração de uma espécie de absurdo qualquer.


A segunda maneira de se entender a intimidade de Campos de Carvalho com o surrealismo vai levar-nos ao surrealismo como uma atitude diante da existência. Neste segundo sentido, o que é ser surrealista? É, antes de tudo, não conceber uma arte que esteja apartada da vida e uma vida que não tenha em si, do começo ao fim, um projeto artístico. Campos de Carvalho é surrealista porque teve consciência de que seu trabalho circulava em meio a uma sociedade mediocrizada, atomizada e afundada em seu amor ao dinheiro. Ser surrealista é trabalhar com a palavra do modo com Campos de Carvalho trabalhava: dando a palavra aos poetas, às crianças e aos loucos — os únicos que não têm medo de Campos de Carvalho.

"O cão"

“O cão”, Ficções, Rio de Janeiro, ed. 7Letras, 2004, v. 13, p. 16-21. (ISSN: 1415-9775)

Republicado em: “O cão”, in: PENA, Felipe, Geração Subzero: 20 autores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores, 1. ed., Rio de Janeiro, ed. Record, 2012, v. 1, p. 23-28 (ISBN: 9788501099143).

Contaram-me.

Desde que a mais nova se mudou para a casa ao lado e se tornou vizinha da mais velha, as duas nunca trocaram mais que um aceno — o primeiro. Não se falam porque Gisela tem medo de olhar nos olhos de dona Rosinha, de fazer amizade com dona Rosinha, de deixar os portões abertos por engano durante uma conversa com dona Rosinha — e num relance a coisa toda acontecer. A coisa toda, se um dia acontecer, e um dia a coisa toda vai acabar acontecendo, como de fato aconteceu, que a coisa toda não aconteça na frente dela, Gisela, porque não haverá de sua parte qualquer gesto que preste — e nem depois, porque ela também não vai saber como se dirigir à dona Rosinha e nem como pedir desculpas: “A senhora me desculpe, isso não vai acontecer novamente”. E Gisela, com metade de um sorriso, pensou nas suas próprias palavras descabidas: não vai acontecer novamente de os meus dois pastores caçarem, morderem, matarem e engolirem o seu minúsculo poodle, dona Rosinha, e balançou a cabeça, imaginando a cena; a senhora pode ficar sossegada.

Sossegada dona Rosinha era mesmo. Morava naquela casa desde menina, quando era então a menina Rosinha. Hoje a chamam dona Rosinha, ou Rosa, a vizinha. Logo à chegada da moça, tomou todas as iniciativas que se esperam de uma vizinha como dona Rosinha: aproximou-se da bem cuidada cerca viva, território de ambas, afastou um pouquinho a massa de arbustos cerrados, mostrou a cara e acenou para a nova moradora, que estava postada à janela da cozinha e não deu um minuto apareceu à porta. Veio devagar a moça, e veio sorrindo, mas um sorriso que foi encurtando à medida que se aproximava da cerca; foi encurtando e encurtando, até que sumiu de todo quando ela desviou o olhar do minúsculo poodle sentado à entrada da casa, a abanar o rabinho e a olhar para a sua dona, a dona Rosinha. Quando se encostou à cerca, Gisela apertou a mão de dona Rosinha e voltou a olhar para o cachorrinho. Depois murmurou algumas palavras convencionais, gritando-as quando percebeu que dona Rosinha era surda, e sem saber mais o que dizer deu-lhe as costas. Só pensava no dia seguinte, quando seus pastores enfim chegariam, a acompanhar o resto da mudança.

Gisela morava sozinha, trabalhava o dia inteiro e só chegava à casa à noite. Dona Rosinha vivia em casa, saía muito pouco e adorava assistir à televisão em alto volume. À exceção dos finais de semana, em que Gisela passeava os cães de manhã à noite e bem longe de casa, todos os dias eram de tumulto, um tumulto que dona Rosinha não escutava ou ao qual parecia não dar muita atenção. O que acontecia nos jardins das duas casas chegava a divertir um ou outro passante, e nada mais. A principal ocupação dos pacientes pastores era a espreita, a contínua vigilância ao momento exato em que o pequeno poodle de dona Rosinha realizaria as suas poucas saídas diárias de xixi e cocô — as únicas reais oportunidades que tinham os pacientes pastores de tentar ultrapassar a fronteira de arbustos e fazer daquele minúsculo bicho escandaloso uma bolinha, uma bolinha a ser mordida e arranhada até que não mais latisse ou se mexesse. Corriam os três, ao longo da cerca, para cá e para lá, dois de um lado e um do outro, em grandes latidos, e o mais que conseguiam os pastores era enfiar os focinhos e as patas dianteiras pelo meio da moita, sem qualquer sucesso, e cavar alguns pequenos buracos que talvez um dia os conduzissem para o lado de lá da cerca. O poodle, quando não estava às carreiras para cima e para baixo, latia — latia a plenos pulmões, estridente e esperneante. Não tinha medo.

Ao final do dia, e à medida que se aproximava de casa, chegando a pé do trabalho, Gisela sentia o peito apertado e uma vontade danada de fazer xixi. Era do tipo que não perdia a oportunidade de imaginar, sempre que possível, o pior, acreditando ao mesmo tempo, no fundo de sua alma, que o pior nunca haveria de acontecer, justamente porque as coisas nunca aconteciam do modo como as imaginamos. E era essa a sua fórmula: imaginar o pior justamente para que o pior não acontecesse. E lá vinha Gisela pelo caminho, imaginando o seguinte pior, que poderia variar em alguns detalhes, conforme caminhava a sua imaginação, mas era, em essência, o mesmo: ela olhando por cima do portãozinho e vendo a coisa toda, a terra esparramada, a cerca destroçada, o sangue respingado, os pastores dando voltas ao redor do corpinho do poodle da dona Rosinha, e ela, Gisela, tendo que fazer alguma coisa. A vontade de fazer xixi, por mais que fizesse todo o xixi que tinha em si antes, crescia com a ansiedade, que por sua vez também crescia ao ponto máximo quando Gisela estava a dois passos da entrada. Daí conseguia vê-los diante da porta da cozinha, dormindo inocentes, e a vontade de fazer xixi, pronto, sumia. Foi sempre assim, às vezes mais e às vezes menos, e o quotidiano encarregou-se de ir aos poucos enfraquecendo a carga desse sofrimento, que no entanto nunca cessou de todo.

Foi sempre assim, até que um dia não foi mais. Gisela, estrategicamente pessimista, mas no fundo uma otimista incurável, não imaginou que o pior que persistentemente vinha imaginando há semanas, em alguma de suas variantes, poderia de fato realizar-se, porque esse pior imaginado, por mais vivas que fossem as sua cores, só era imaginado porque era provável. Dito de outro modo, Gisela, antes de estrategicamente pessimista e, num segundo olhar, incuravelmente otimista, não passava de uma irremediável realista. E assim, num belo final de tarde de um dia qualquer, Gisela vinha pela calçada, já depois de ter dobrado a última esquina, quando ouviu um bulício incomum. Aproximou-se quase correndo, a bexiga subitamente cheia, olhou por cima do portãozinho e viu a coisa toda: a terra esparramada, a cerca destroçada e os pastores dando voltas ao redor do corpinho do poodle da dona Rosinha. Ela, Gisela, tinha de fazer alguma coisa.

E fez, tão rapidamente e com tal empenho, que, mais tarde, bem mais tarde, madrugada adentro, já na cama, depois de um belo banho, alguma comida e dois copos e meio de vinho, não soube explicar para si mesma como pudera ter feito o que fez e com tanta diligência. Não soube como conseguira tanto sangue frio, como mantivera sem perceber toda a calma do mundo para iniciar a série de pequenas tarefas que agora rememorava com algum orgulho, alguma culpa, algum medo e a muita convicção de que não poderia ter feito diferente. Depois de olhar para os quatro lados para ver se não via ninguém, mandou os pastores às favas, enxotando-os com dois pedacinhos de pau que encontrou junto à terra revirada, pegou com as duas mãos o corpo inerte do poodle, sopesou-o como se sopesam salames e, com um único suspiro, constatou que o bicho já estava morto há algum tempo. O corpinho estava frio e sujo, mas felizmente inteiro e sem um único corte. Meteu-o debaixo do casaco e entrou em casa. Voltou para o jardim, varreu o chão, espalhou e aplainou toda aquela terra denunciadora e entrou. Lavou o cão na pia da cozinha, secou no banheiro e penteou no quarto. Depois de um minucioso exame para certificar-se de que não havia no corpo defunto do bichinho nem um único indício do que de fato acontecera, Gisela esperou que caísse a noite. Enquanto esperava espreitava — não tirava o olho da janela para ver se dona Rosinha por acaso não estaria à cata do cão. Não estava. Nada se mexia, nem mesmo os pastores, nada se ouvia, nem mesmo a televisão do outro lado da cerca. Quando notou que a última mancha de luz na casa de sua vizinha se havia apagado, Gisela, com o poodle novamente escondido no casaco e uma escova no bolso, esgueirou-se para fora, saiu de casa, pulou a cerca viva utilizando as traves do portão como suporte para os pés, deslizou até a pequena escada de três degraus que levava à soleira da porta de entrada da casa de dona Rosinha e lá deitou delicadamente o cãozinho, não sem antes repenteá-lo e lhe dar três amigáveis tapinhas na cabeça, tomando o cuidado de posicionar suas patinhas de modo a que parecesse estar dormindo. Tentou não ficar sentimental diante daquele montinho de morte que acabava de sair de suas mãos, desejou-lhe mentalmente uma boa viagem e desapareceu em segundos. Em dezessete minutos já estava de banho tomado e sentada no sofá com um copo de vinho à boca. Comeu em seguida e, em seguida, foi para a cama, adormecendo sem perceber, para depois, bem depois, madrugada adentro, acordar sobressaltada e lembrar-se — lembrar-se, com algum orgulho, alguma culpa, algum medo e a muita convicção de que não poderia ter feito diferente, de sua diligência, de seu sangue frio e de sua calma. “Pobre cãozinho”, diria à dona Rosinha. “Pelo menos morreu dormindo...”


Passaram-se os dias, e sempre, ao final da tarde, e à medida que se aproximava de casa, chegando a pé do trabalho, Gisela sentia o peito apertado e uma vontade danada de fazer xixi só de imaginar que poderia encontrar-se casualmente com dona Rosinha e esta lhe perguntar se por acaso sabia a querida Gisela das razões da morte de seu pequenucho — ou, ainda, utilizando-se a estratégia de sempre imaginar o pior, encontrar-se com dona Rosinha e esta, com o dedo em riste, aos berros e aos prantos, lhe atirar à cara a terrível acusação. Mas nada disso acontecia. Gisela, desde o lamentável acidente com o cãozinho — que no dia seguinte à tarde já não estava mais onde o tinha deixado, ali à porta, a dormir —, nunca mais encontrou, sequer viu ou ouviu falar de dona Rosinha. Era como se dona Rosinha tivesse deixado de existir, só existindo a casa e seu silêncio. E assim foi, até que um dia não foi mais. Num belo final de uma tarde qualquer, Gisela vinha pela calçada, já depois de ter dobrado a última esquina, quando viu a vizinha do lado de lá da casa de dona Rosinha. Como era mesmo o nome dela? Não ia lembrar de jeito nenhum. E ela vem sorrindo — sinal de que vai falar, não apenas menear a cabeça, mas falar. Mas falar de quê, se as duas nunca trocaram mais que um ou outro barulhinho de bom dia e como vai?

— Eu vou bem, e a senhora?

— Vou bem, minha filha, vou bem. A Rosa é que...

— O que houve com a dona Rosinha?

— A menina não soube o que aconteceu?

— Não.

— Foi internada...

— Nossa! Mas o que houve?

— A pobre sofreu um ataque dos nervos e está internada.

— Por quê? O que houve?

— Não fala com ninguém, olha para as paredes...

— Mas por quê? Por quê?

— Você conheceu o cachorrinho dela?

— Conheci, conheci.

— Bom, o cachorrinho dela morreu.

— Morreu? Puxa... Ela deve ter ficado mesmo muito abalada...

— Com a morte dele?! Não, não. Ele estava velho...

— Mas então...

— Ela ficou abalada com o que aconteceu depois.

— O que aconteceu depois?! Depois do quê?

— Bom, o cãozinho morreu. Até aí, tudo bem, todos nós um dia morreremos... Fazer o quê? E ela fez o que tinha de fazer: enterrou o bichinho no jardim, pôs até uns pauzinhos em cruz no montinho, realizou lá uma cerimoniazinha de adeus, e foi dormir. No dia seguinte, acorda, abre a porta da entrada para pegar o jornal, e o que vê? A menina não vai acreditar...