sábado, 1 de junho de 2002

“João Ubaldo Ribeiro, o mal com sotaque baiano"

2002-06
Não assinado, “João Ubaldo Ribeiro, o mal com sotaque baiano — o autor fala das influências autobiográficas de seu novo livro, da imagem e da profissionalização do escritor”. Literatura, Entrevista, Continente, ano II, nº 18, jun. 2002, p. 40-47.

JUR: “Foi ele que me persuadiu a não usar epígrafes. Eu estava escrevendo meu primeiro romance, que ele acompanhou lendo os originais. (...) Em O vermelho e o negro cada capítulo é precedido de uma epígrafe. Eu, entusiasmado, queria fazer a mesma coisa. (...) Disse que estava fantástico, mas sugeriu: ‘Tira essa frescura de epígrafes’. Desde então só uso epígrafes que eu mesmo construo. (...) Não aparece um Glauber todo dia”.

“A nostalgia do exílio de Milan Kundera"

“A nostalgia do exílio de Milan Kundera — Ignorância explora angústias e alegrias do retorno à pátria”, Jornal do Brasil, Caderno Idéias, Rio de Janeiro, 1 de junho de 2002.

Resenha sobre o livro A ignorância, de Milan Kundera, ed. Companhia das Letras; edição portuguesa: ed. Edições ASA.

Os espanhóis dizem añoranza; os alemães, Heimweh; os islandeses usam dois termos: söknudur e heimfra; os holandeses falam heimwee; os tchecos têm stesk; a língua inglesa tem homesickness; a língua portuguesa tem saudade. Por detrás, a iluminar esses termos, o sentido etimológico da palavra nostalgia: as saudades que sente de sua pátria o exilado. Assim dizem os tchecos, no espaço entre duas lágrimas, a sua mais bela frase de amor: “Styska se mi po tobe”, “Sinto nostalgia de ti”, sendo insuportável a dor de tua ausência. A añoranza espanhola vem do verbo añorar, ter nostalgia; do catalão enyorar; do latim ignorare. A nostalgia representa, antes de tudo, o sentimento da ignorância: a ignorância de não se saber o que ocorre com o objeto perdido, o amante ou a terra natal, ou seja, a infância, o primeiro amor, a primeira tristeza. Felizes as línguas que conseguem expressar um sentimento tão grave, tão insolúvel, quanto a nostalgia. As que não conseguem debatem-se com palavras que se aproximam da idéia, mas não a vêem, ou não a reconhecem.

Nostalgia tanto sente aquele que se afasta de sua terra, em exílio voluntário ou forçado, como aquele que retorna, empurrado ou com as próprias pernas. A ignorância, de Milan Kundera, é um romance não tanto sobre o exílio do modo como o entendemos — a expatriação, espontânea ou não —, mas sobre o exílio que se segue ao exílio: o exílio que se vive depois que se decide voltar; o exílio de si mesmo, dentro de si mesmo, dentro de casa. A casa de que se fala aqui é Praga — invadida em 68, ocupada em 69, abandonada em 89 —; os exilados, Irena e Josef. Ela retorna da França; ele, da Dinamarca; ela quer ficar; ele, não; ela o reconhece e sabe seu nome; ele, não, mas dissimula. Esse é um livro de poucas alegrias, muitas idéias e um único momento, arrebatador, orgástico e derradeiro. Irena e Josef encontram-se, encantam-se, arrebatam-se e afastam-se.

Para contar o retorno de seus nostálgicos exilados, Kundera esbarra, aqui e ali, em breves parágrafos, na história do ilustre Ulisses, fértil em ardis, caracterizando A odisséia como a epopéia fundadora da nostalgia, e o divino Ulisses, descendente de Zeus, como o primeiro nostálgico de que se tem notícia. Kundera relê A odisséia com os óculos da nostalgia e em seguida, com as mesmas lentes, debruça-se sobre a vida de sua Irena, comparando o seu retorno ao de Ulisses dos mil estratagemas, ou Odisseus, que, depois de dez anos a guerrear em Tróia, ainda passa uns maus bocados andando pelo mundo e tentando chegar a casa, a velha Ítaca de altos muros e belas cumeeiras. Não consegue. Retém-no em sua ilha a ninfa Calipso, paparicando-o por longos sete anos, até que o artificioso filho de Laertes, o valoroso Ulisses, já enfadado e saudoso de sua prudente Penélope, escapa e dá novamente início ao seu retorno a casa.

A mesma embriaguez do retorno sente Irena ao pôr os pés em Praga. O mesmo vazio sente Ulisses, modelo de paciência, quando se depara com o fato de que ninguém em Ítaca está interessado em saber como fora sua vida ao longo daqueles vinte anos de guerras e viagens — os longos vinte anos que o fizeram homem e que representam o melhor de sua vida, o mais importante, o essencial. Do mesmo modo, os longos vinte anos que passou Irena em França, e nos quais ninguém em Praga estava interessado, representam a formação de sua identidade — uma identidade que por certo transcende sua estereotipada condição de “tcheca exilada em França”. Se não rememora esse tempo, Irena perde-o. Quanto mais distantes se tornavam aqueles vinte anos em Paris, mais distante de Praga ela se sentia. “Quanto mais Ulisses se entristecia, mais ele esquecia”, escreve Kundera. Assim como Irena em Praga, Ulisses em Ítaca não era um estrangeiro. A um estrangeiro se pede que fale de si, de onde vem, para onde vai e que aventuras viveu. Irena e o judicioso Ulisses aprenderam a calar-se à força e, esquecidos de si, exilados em casa, entraram em nostalgia.

Nunca saiu de sua nostalgia o narrador de Kundera, ou o próprio Kundera, se preferirmos — e preferimos, já que toda a inteligência de seus romances se desenvolve a partir da justaposição operada entre autor e narrador. Ambos assumem a condição privilegiada de sua onisciência para, além de descrever e historiar, desenvolver pensamentos e ensaiar teorias acerca de seus temas e personagens. A denominação “o narrador de Kundera” pode então encerrar dois sentidos. O primeiro é evidente e clássico: “aquele que narra a história em um livro de Kundera”. O segundo sentido para “o narrador de Kundera” é uma suposição: “aquele que narra o próprio Kundera” — não a história de sua vida, mas a história de suas idéias. A ignorância apresenta-se como um autêntico romance de idéias — um romance conduzido por um redondo, transparente e às vezes indiscreto narrador que não revela a menor pudicícia em dizer eu: quem manda aqui sou eu, eu estou aqui a contar essa história, eu penso isso e não aquilo, eu me lembro disso e não daquilo.

Esquecimento e lembrança, exílio e nostalgia, são os dois melancólicos casais a resumir a galeria dos principais personagens de seus romances: a representação do arquetípico papel do ser humano desgarrado de sua terra e preso à sua própria nostalgia. Kundera, que tem, na alma, a pele do desgarrado, nasceu em 1929 na cidade de Brnö, na Tchecoslováquia, e em 1948 entusiasmou-se pelo ideal comunista. Dois anos depois foi expulso do partido devido ao seu “excesso de individualismo”. Em agosto de 1968, por ocasião da invasão russa, destacava-se como um dos principais motores da “Primavera de Praga”. Foi então duplamente silenciado: não mais podia dar aulas, tampouco podia vender livros. Em 1975, com 46 anos, viajou para a França na condição de emigrado voluntário. Graças ao impacto de seu Livro do riso e do esquecimento junto ao governo tcheco, perde sua cidadania de origem em 1979 e, em 1981, “torna-se” francês.

“O que é que você ainda está fazendo aqui!” é a exclamativa pergunta que abre as páginas de A ignorância e que se dirige a Irena, no outono de 1989, data em que os russos “gentilmente” abandonam a Tchecoslováquia. “E onde deveria estar?”, pergunta ela, “francesa” já há vinte anos. “Na sua casa!”, respondem-lhe. O retorno de Irena a Praga pode tomar o lugar, no plano imaginário, do retorno que o próprio Kundera a seu tempo talvez não tenha empreendido. A exemplo do que disse Flaubert acerca de sua Emma Bovary, Kundera poderia dizer, também em francês, incorporando pedaços de seus dois personagens: “Irena sou eu; “Josef também sou eu”. Criá-los foi a sua maneira de não esquecer. E é por isso que o autor de A brincadeira (1965), Risíveis amores (1969), O livro do riso e do esquecimento (1978), A insustentável leveza do ser (1982), A imortalidade (1988), A lentidão (1994), e outros tantos títulos, entre poemas, peças e ensaios, tem na voz de seu narrador um eco do que lhe vai à cabeça. Ambos acreditam no contar e recontar histórias como uma maneira de não esquecer, sim; mas sabem que o passado não é algo que se possa simplesmente trazer à tona, não existindo por si, senão como uma retalhada e lacunosa presentificação. Sabem também que toda rememoração é ilusória e que alguns pedaços de vida são lembrados justamente para que outros sejam esquecidos. Sabendo de tudo isso, sabem portanto que a lembrança constitui, ao fim e ao cabo, uma das mais ardilosas formas do esquecimento.