quarta-feira, 24 de março de 1999

“João Ubaldo Ribeiro — O feitiço da escrita”

1999-03-24
VASCONCELOS, José Carlos de, “João Ubaldo Ribeiro — O feitiço da escrita”, Entrevista, JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, Ano XIX, nº 743, Lisboa, Portugal, 24 mar. a 6 abr. 1999, p. 9-12.

JCV: “Sempre disseste que O feitiço da ilha do Pavão era uma simples história divertida, às vezes brejeira, sem nenhum outro significado. Não admites que ele também é uma metáfora (...)?.

JUR: “... prefiro que o leitor veja por si mesmo as metáforas. Se precisar explicá-las, serão más metáforas. Acho que, com o tempo, fui inventando (...) uma série de resposta um tanto cínicas para perguntas muito repetidas, tais como ‘pode dizer-nos alguma coisa sobre o seu livro?’. Aí eu digo a primeira besteira que me ocorre e, de tanto repetir essa besteira, ela se torna automática. Para ser perfeitamente honesto há uma vasta falsa modéstia no que eu falo a respeito de meu trabalho, mas tenho boas razões para isso: não é decoroso o sujeito sair por aí, rasgando-se em elogios a si próprio ou impondo visões sobre o que faz. Eu gosto do que faço e tenho lá minhas pretensões (esse ‘lá’ aí já é a falsa modéstia em operação (...)). Minha acção, pois, é devolver a peteca ao freguês. Ele que ache alguma coisa mais no Feitiço do que uma simples história divertida. Se não achar nada, terá sido, das duas, uma: ou é mau achador ele, ou sou eu mau carpinteiro. Ou ambas as coisas; nada impede que o leitor tenha um nível de incompetência comensurável com o do escritor” (p. 9).

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