sábado, 20 de fevereiro de 1999

"Um sinistro mistério literário"

"Um sinistro mistério literário — A estranha relação entre a arte e a vida é explorada no romance de Carol Schields, no qual uma dona-de-casa comum, após ser assassinada, se revela uma poetisa fascinante e um enigma que desafia a argúcia de biógrafos e de críticos", Jornal do Brasil, Caderno Idéias, Rio de Janeiro, 20 de fevereiro de 1999.

Resenha sobre o livro Swann, de Carol Schields, ed. Record.

Quinze anos antes de tornar-se famosa, ter seus poemas reconhecidos, ser amplamente comentada, elogiada e afinal biografada, Mary Moffat Swann, então com cinqüenta anos, saiu de sua casa, na minúscula cidade rural de Nadeau, ao norte de Ontário, Canadá, na escura tarde de 15 de dezembro de 1965, e foi para Kingston, cidadela vizinha, bater à porta de Frederic Cruzzi, que ela sabia vir dedicando-se a encontrar e publicar novos talentos literários através de sua doméstica editora, a Peregrine Press. Durante a visita, que tomou pouco mais de uma hora, Cruzzi, entre encantado e aturdido, leu os 125 pedacinhos de papel amassado com os poemas que a sra. Swann havia trazido para ele numa sacola de mão e decidiu publicá-los, pedindo-lhe apenas que lá deixasse os originais até o dia seguinte, quando lhe daria então uma resposta. Horas depois, provavelmente ao mesmo tempo em que contava à mulher, Hildë, da inusitada visita e lhe mostrava a imensa poesia circulando pela aparente rusticidade daqueles versos, Mary Swann era brutalmente assassinada por seu truculento marido, que lhe deu um tiro na cabeça, esmagou seu rosto com um martelo, desmembrou seu corpo com um machado, escondeu as partes no silo da pequena fazenda e depois matou-se — não deixando atrás de si senão um rastro de desrazão e falta de sentido.

O relato do crime saiu em maiúsculas nos jornais locais, os poemas foram afinal publicados numa modesta tiragem e sob o título de A Canção de Swann — e de Swann nada mais se ouviu falar até o dia em que um livro seu acabou descoberto na prateleira de uma cabana no lago de Wisconsin, quinze anos depois. A descoberta inspirou artigos que motivaram pesquisas que fizeram de Swann — que significa cisne e também poeta, solitários ambos, cada qual em seu canto — não apenas um fenômeno, mas principalmente um mistério literário. Infância descolorida, adolescência insossa, escolaridade medíocre, experiência profissional de um ano numa padaria, fastio, maturidade inaugurada com um casamento enjoado, existência vazia, mudança para uma fazendinha improdutiva na cidade de Nadeau, neve na porta, nascimento da filha Frances, mais neve na porta, o enfado firme do dia-a-dia — toda a vida besta de Mary Swann afinal não casa nem com a dramaticidade de sua morte, nem com a profundidade de seus versos.

Este não é o primeiro e nem o último livro de Carol Shields, que já escreveu quinze — entre eles Larry’s Party e, também publicado pela Record, The Stone Diaries (Os diários de pedra), premiado com o Pulitzer em 1995, o Governor-General’s e o National Book Critics Circle. Shields, americana mas naturalizada canadense, publicou Swann: a Mystery em 1987. Os quatro capítulos do romance têm os nomes dos quatro personagens principais, e o quinto, escrito sob a forma de um roteiro para cinema, é um simpósio cujo tema é a própria Swann, que já não existe há quinze anos e pouco deixou além dos poemas, duas fotografias, um diário idiota e uma caneta Parker 51, com a qual escrevia — objetos que vão misteriosamente desaparecendo, bem como os originais manuscritos e os poucos exemplares publicados por Cruzzi.

Abre o romance a incansável Sarah Maloney. Pesquisadora de sucesso aos 28 anos, brilhante, feminista convicta, independente, falante e solitária, Sarah descobriu o livro de Swann e desencadeou a construção do mito. No seu encalço, Morton Jimroy, famoso biógrafo de famosos poetas, céptico com relação à supervalorização da infância pela teoria biográfica, detalhista, misógino e desconfiado. Morton, bem como Sarah, não consegue encaixar a vida de Mary Swann na obra de Mary Swann, embora tenha de fazê-lo para poder viabilizar a biografia que tem em curso. Ambos perdem-se. Sarah, em especulações acadêmicas; Morton, na busca desmesurada por qualquer pequeno acontecimento que ilumine aquela estúpida existência em Nadeau.

Como contraponto ao teorismo de Sarah e ao azedume de Morton estão Rose Hindmarch e Frederic Cruzzi. Rose é funcionária da prefeitura de Nadeau, já entrou na menopausa há onze meses mas o fluxo, para seu desespero, resolvera voltar, é bibliotecária e curadora do museu local, gosta de um bom romance de suspense, é do conselho da escola dominical, é virgem e também conselheira da cidade, não sabe nada de poesia, muito menos o que pode significar, conheceu Swann na biblioteca, mora sozinha, está com um pelinho nascendo no queixo e tem uma memória de elefante. Cruzzi é o mais velho e o menos neurótico dos quatro — bondoso, sincero e simples, um humanista educado em todas as artes e todas as línguas, um solitário após a morte da mulher, Hildë, sua definitiva paixão. Diz Cruzzi, numa carta para Sarah Maloney: “...algumas vezes é melhor olhar o universo com olhos estrábicos, para sujeitar a si mesmo a uma deliberada distorção e esperar que, da visão confusa, (...) surja o acidente que representa a verdade”.

Mas a verdade é numerosa. A vida íntima de quatro solitários incuráveis em busca da familiaridade perdida em Swann e na biografia que ela não deixou registrada é o barro a partir do qual Shields vai desenvolver velhos assuntos. A solidão, hoje sob a forma de modus vivendi em cidades ricas e industrializadas — como Chicago, onde mora Sarah —, e seu efeito devastador sobre a personalidade humana. A dificuldade de se chegar ao âmago de uma existência, onde só caminharemos às apalpadelas e rodeados por sombras — donde o malogro de toda e qualquer biografia, donde o complicado relacionamento entre a vida e a arte, que nem sempre se tocam, quase nunca se imitam e em geral não se explicam.

Dois poemas de Mary Swann:

1 

Os rios desta terra 
Repuxam, rompem e matam 
E as águas do meu corpo 
Correm invisíveis. 

2 

Coisas Perdidas 

Acontece vez por outra, quando procuramos 
Objetos perdidos, um livro uma foto ou 
Uma moeda ou uma colher, 
Alguma coisa atravessa nossa mente... 
Não realmente uma sombra mas o que uma sombra viria a ser 
Num lugar em que faltava luz. 

Como se as coisas perdidas desaparecessem 
Dentro delas mesmas, os livros retornam 
Ao papel ou à madeira ou ao pensamento, 
Moedas e colheres ao simples mineral, 
Sem brilho nem história, 
Esperando fora de vista 

E tornando-se parte de uma perda maior 
Sem um nome 
Nem definição ou forma, 
Parecido com o que nos toca 
Nos momentos de humilhação.

Opções de trechos representativos dos quatro personagens principais que dão nome aos capítulos

Sarah Maloney:

“...como Swann conseguiu fazer tudo isso? Onde lhe foi possível encontrar a centelha para converter substância emblemática em ressonante poesia, naqueles desolados acres de terra em Ontário, em meio à desordem da fazenda? (...) As mulheres tricotam meias há séculos, e provavelmente constroem em suas cabeças versos que nunca chegaram a escrever. Aconteceu de Mary Swann dispor de uma caneta, aliás, uma Parker 51, e de olhos capazes de transpor a superfície das coisas. Além de uma espécie de persistência de um coração dilacerado, que a levava a sentar-se, após um dia fatigante de trabalho, e encaixar seus pensamentos em ambíguos lotes de versos rimados.”

“Minha boa amiga e mentora Peggy O’Reggis vive num universo em que os homens são apenas marginalmente visíveis. Idem para minha advogada, (...) confiável cidadã de Lesbos. Metade das minhas alunas na graduação prefere carregar os seus próprios pinos de barraca. Que se dane a estrutura do poder machista, e que se dane a penetração como expressão sexual. Elas pularam fora. Todas essas mulheres me fazem convites, literais ou subliminares. Mas algo em mim resiste.”

“De uma maneira semelhante, (...) Mary Swann inventou a poesia moderna. (...) Sem ter conhecimento da poesia de Pound ou Eliot, sem nem mesmo conhecer esses nomes, ela realizou o seu trabalho. Seus versos possuem todos os impulsos rudimentares e todas as recentes abrasões sintáticas que marcam o protótipo. Não se pode ler seus poemas sem perceber que existe uma forma em processo de criação.”

Morton Jimroy:

“Como acontece a muitos introvertidos, Jimroy desconfia dos caprichos do mundo interior da psique, mas nutre uma fé enorme no mecanismo do mundo exterior, que diz respeito a governo, maquinaria, arquitetura e ciência — que entende como sendo presidido por autoridades, anônimas mas confiáveis, capazes e, o mais importante, imbuídas de boas intenções. (...) Uma raça de homens e mulheres incompreensíveis (para ele) assumiram a responsabilidade pela sua segurança, estão desejosos de criar regulamentos, de estabelecer padrões, e de gerar um sistema inteiro de checagens e contraprovas. Quando ele gira o botão do forno de microondas (...), tem como certo que os minúsculos raios penetrem no alimento e não nele...”

“Jimroy detesta a falácia popular de que o biógrafo cai de amores por seus biografados. (...) Tão fácil, tão aprazível, este romance entre o escritor e o biografado; tão estimulante, tão querido, (...) tal convite ao sentimentalismo. E é, em certo sentido, irmão de uma outra concepção equivocada, que as pessoas alimentam sobre quem escreve romances: de que, a partir de um certo ponto, o livro adquire vida autônoma e começa, como adoram dizer, a escrever-se por si próprio. (...) Jimroy sabe muito bem que escrever uma biografia é o trabalho mais árduo do mundo, e que tem iguais chances de constituir-se ou não um ato de desprezo. Basta pensar em Sartre escrevendo sobre Flaubert. Ah, Deus. E — para não ir tão longe — quem conseguiria amar Erza Pound? Não ele, com certeza, não Morton Jimroy, um moralista manqué.”

“...chegou a se perguntar se era a própria poesia que começara a desprezar. Sem dúvida, vinha nutrindo desconfianças sobre seu sintetismo e sua forma hermética. Era tão fácil um poema ser nada mais que uma fraude — qual a diferença real entre uma elipse e um vácuo? (...) Sempre lhe parecera uma espécie de milagre que a poesia, realmente, em certas ocasiões, falasse. (...) não podia enxergar nada mais admirável do que o desejo impertinentemente humano de dominar o mar da linguagem comum e extrair dele palavras dotadas de riqueza, de beleza oculta, arranjando-as de tal maneira que o indizível pudesse ser dito.”

Rose Hindmarch:

“Rose é uma mulher feliz; sua rotina torna-a feliz. Bem cedo, pela manhã, (...) enche-se de expectativas a respeito do dia que tem pela frente. (...) E, nas noites de sexta-feira, logo cedo mergulha em seu pijama e enfia-se na cama, para ler. São apenas sete e meia, ainda está claro lá fora. (...) Pode ser que não pare de ler antes da meia-noite, ou até mais tarde. Amanhã será sábado; poderá dormir até a hora que quiser.”

“No entanto, a poesia apresenta um problema para Rose. À exceção do livro de Mary Swann, ela sente dificuldades em entender do que falam, e mesmo com a sra. Swann não é sempre que isso acontece. ‘Os aposentos em minha cabeça estão despidos / O trovão escova meu cabelo.’ Mas, o que ela está querendo dizer com este poema? Certamente, aposentos simboliza alguma coisa, mas trovão? ‘O outro lado do espelho / Abre-se para o lugar onde me escondo.’ Sem pé nem cabeça. Quem pode entender isso?”

Frederic Cruzzi:

“Os poema de A Canção de Swann foram desdenhados pela maioria dos críticos como mera curiosidade com bom acabamento, e os 250 exemplares que a editora imprimiu venderam muito mal. No final, ele e Hildë acabaram distribuindo-os, guardando apenas quatro. Eram justamente este quatro exemplares que estavam faltando. Contemplando a estante, Cruzzi sentiu-se atingido pela idade avançada, pelo seu desespero, e por saber que um ato de represália, há muito adiado, acabara de ocorrer. (...) Sentiu a vista turvar-se ao dirigir-se para o pequeno quarto de dormir nos fundos (...). Abriu a porta. (...) As gavetas do arquivo estavam abertas, e o conteúdo havia sido espalhado pelo quarto todo. (...) Supôs que devia ficar agradecido, mas em vez disso seu rosto conturbou-se de lágrimas.” 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 1999

"A cabine"

“A cabine”, Ficções, Rio de Janeiro, ed. 7Letras, 1999, v. 3, p. 54-63. (ISSN: 1415-9775).

2002: O conto “A cabine” foi roteirizado por Rosane Lima para o episódio de estreia do programa “Brava Gente”, da TV Globo, veiculado no dia 9 de abril de 2002, com Marília Pêra e Antônio Fagundes nos papéis principais.

Dona Amélia chegou à sua casa, como de costume, às sete e meia da noite. Está com alguns embrulhos na mão e mais uma vassoura nova, porque aquela, realmente. Encosta tudo ao pé da porta, cata a chave na bolsa e pensa no jantar. Entra, põe os embrulhos no chão e acende as luzes. Tudo para o armário, rápido, a vassoura a um canto, direto para o banho, já pode o bife ficar de fora para adiantar. Pendura a bolsa no cabide da sala, vai para o quarto, que não é quarto, é sala, é tudo a mesma peça, tira o colar, o relógio e os brincos, senta-se no sofá, que é também uma cama, tira os sapatos e as meias, tira também a blusa e se levanta, para tirar o resto. Quatro passos e está no banheiro.

Entra no box, passa a mão pela barriga enquanto espera a água esquentar, passa a mão pelos peitos e pela bunda e dá um suspiro. Já saiu do banho mas decide não pôr camisola porque terá de ir à rua para telefonar, e a fila em frente à cabine. Nem cinco minutos e estará pronta. É cedo para ligar a televisão, a cena em que eles finalmente se encontram e descobrem quem são de fato deve ser só no fim. Onde está a revista? O arroz. Vai para a beira do fogo, mete numa panela o purê e o arroz e o bife na frigideira. Senta-se no sofá, relaxa os ombros e abre lentamente as mãos, deixando as palmas estendidas para o teto da sala, que é também o da cozinha. O do banheiro era diferente, azulejo, azulejo porque era azul, azulejo clarinho. Suspira longamente e lembra-se do bife. Arruma a mesa num instante e se senta. Pensa na fila em frente à cabine, engole em dez ou doze garfadas o arroz e o purê, em sete pedaços o bocado de bife, engole em seco, para adiantar, meia pastilha de sal de fruta e vai.

Chovia quando chegou à rua, e havia também um homem ocupando o telefone. Mas o homem não falava com ninguém e apenas fazia a cabine de abrigo. Dona Amélia corre para ele, bate no vidro e grita. “O senhor não está usando!” “Mas estou seco”, disse ele, abrindo a porta. “E eu, molhada.” “A senhora me perdoe. Eu espero lá fora.” “Obrigada.” Dona Amélia toma posse da cabine e liga para o filho. Ocupado. Tenta de novo. Ocupado. Vira-se dona Amélia para trás e procura pelo homem, que ocupa um canto da calçada, próximo ao meio-fio, já encharcado. Volta-se dona Amélia para o telefone, tenta de novo, ocupado. Vira-se rapidamente, a chuva aumentou e lá estava o sujeito. Dona Amélia abre a porta. “O senhor não quer tentar agora? O meu número está ocupado!” “Não, obrigado! A senhora fique à vontade!” “Mas o senhor não vai ligar para ninguém?” “Não, obrigado”, e ele se aproximou. “Quem eu procuro não está em casa. Liguei pela primeira vez tem um minuto, e a pessoa não está em casa.” “E o senhor está esperando o quê?” “Que a senhora termine de falar e eu possa voltar para o meu abrigo.” “E o senhor vai passar a noite inteira aqui?” O homem não respondeu.

Paciência, mas o pior era a novela. Não pusera o relógio e era preciso controlar o tempo. Abriu a porta e gritou. “O senhor tem horas?” “Não, mas daqui a pouco sei que vai começar a novela!” “Ah, obrigada!” Pelo menos o homem sabia da novela. Dona Amélia voltou-se lentamente, bem mais calma, e recomeçou a discar. A responsabilidade pelo horário da novela estava agora nas mãos dele. Não iria preocupar-se à toa. Sempre ocupado. “Diabo.” E foi só dizer diabo para arrepender-se. Ergueu os olhos, o teto da cabine era de fibra, e meteu a cabeça para fora. “O senhor tem algum pedaço de madeira aí à mão?” O homem tirou as mãos do paletó, mirou as palmas como para confirmar que estavam vazias e levantou os ombros. Mas teve o impulso de olhar em volta e assim descobriu, perto do ralo, um pedaço de pau, que pegou, sacudiu de leve e foi entregar à dona Amélia. “Obrigada. Não, não, não. O senhor segure, mas segure firme.” E ela deu três batidinhas na madeira e com isso acordou os deuses, o deus, que no caso de dona Amélia era um só, o que havia sobrado. E repreendeu-se, não tanto por invocar o diabo, mas por ter acordado aquele que nunca dorme e, talvez por isso, também nunca acorde. Abriu os olhos e reparou que o sujeito ainda estava lá, plantado na chuva e com o pedaço de pau à mão.

“O senhor quer tentar?” O homem baixou a cabeça, olhou para a madeira e depois para dona Amélia e disse que não, que não acreditava nessas coisas. Dona Amélia sorriu e virou-se. Partia para mais uma tentativa quando sentiu a tempestade bem em cima da cabeça e a cabine a vibrar com as bagas que caíam. Teve uma idéia. Olhou para trás e viu que o homem já se tinha afastado. “O senhor pode voltar aqui, por favor?”, gritou. E olhou-o bem de perto. “O senhor está encharcado. Eu estava pensando, o senhor poderia ficar aqui dentro comigo até eu falar com meu filho, se o senhor não se importar, é claro. Ainda está ocupado. Quando desocupar, o senhor volta para a chuva. O senhor sabe, a privacidade. É uma situação de emergência esta.” “Muito obrigado. Então eu vou virar de costas e assim a senhora fica mais à vontade.”

Apertaram-se como puderam, dona Amélia tentou três vezes e desistiu. Olhou então para o vidro embaçado e depois para os números do teclado, desatarraxou o boca do telefone, leu e releu as instruções no painel, ia vendo, enfim, se matava o tempo, quando sentiu por trás uma encostadela. Era improvável não se encostarem, o espaço era para dois pés. Dona Amélia achou melhor falar. “Com licença”, e encararam-se. “Talvez o senhor devesse ligar mais uma vez. A pessoa pode ter chegado. Com uma chuva dessas, só mesmo alguém muito esquisito para sair por aí. Não me refiro ao senhor, é claro, que deve ter lá suas razões para estar na rua com um dilúvio desses, mas.” O homem sorriu. “Nem sei se tenho.”

Dona Amélia baixou a cabeça e espremeu os dedos do pé, involuntário gesto de defesa em momentos de grande embaraço. Só faltava o sujeito começar um chororô ali dentro da cabine. O que deveria ela dizer agora? “Bom, se o senhor não sabe”, foi o que disse. “Talvez eu venha a saber, mas só depois.” “Depois do quê?” “De falar com ela.” Dona Amélia, que não tinha mais nada a declarar, virou-se. Virou-se ele também. Um minuto depois o homem sentiu uma coisa dura a bater em suas costas, era dona Amélia estendendo-lhe o fone. “O senhor só vai saber se falar com ela, e só vai falar com ela se tentar.” E revezaram-se. Dona Amélia olhou para a calçada, depois para cima, para a chuva, depois para as poças no chão, para o ralo, para o pedaço de pau, lembrou-se do diabo, do filho e também das horas. Voltou-se ansiosa e viu que o sujeito ainda estava discando, talvez o último número. Não, havia mais um. O disco girava lentamente na volta, tempo bastante para que o homem checasse no pedacinho de papel de pão o número rabiscado, pouco discado, provavelmente nunca usado. Mais um número, este era pequeno, deve ser o um ou o dois. Era o um. Agora mais um, era o um de novo. A cabine que ficava três quadras adiante era mais moderna, com telefone de teclas.

“Como eu disse, ninguém atende.” Dona Amélia assustou-se com a voz do homem. Estava longe, no seu próprio telefone, que não ligava, só recebia, e tentava lembrar-se de que tipo era, se de teclas ou de disco, provavelmente de teclas. “O senhor tentou quantas vezes?” “Duas.” “Não quer tentar mais?” “Não. Já são horas.” “Isso. Eu estava para perguntar alguma coisa para o senhor e não me lembrava. Agora lembrei. A novela.” “Que é que tem a novela?” “Já começou?” “Vai começar agora.” “Hoje é a cena em que eles finalmente se encontram e descobrem quem são de fato.” “A senhora tem razão.” “O senhor mora por aqui perto?” “Não. Moro em outra cidade.” “Mas está decerto nalgum hotel.” “Também não. Cheguei hoje e hoje volto. Quer dizer, se não conseguir falar com a pessoa que procuro, volto hoje.” “E se conseguir?” “Se conseguir falar com ela? Não sei.” “E o senhor acompanha a novela?” “A novela é sagrada.” “E o senhor vai assistir à novela onde?” “Vou tentar um desses botequins com televisão.” “Ah.”

Dona Amélia respirou fundo. O homem parecia simpático. Educado, barba feita, cavalheiro, um pouco curto nas palavras, mas simpático. Era gente de bem, dava para ver só de olhar. Ainda por cima, pobre homem, com aquela chuva, chegado de viagem, tentando encontrar uma pessoa, pelos vistos uma mulher, talvez um amor antigo, como às vezes acontece na vida real e quase sempre na novela. Dona Amélia respirou muito mais fundo, tinha de decidir agora. Não. Era melhor não inventar moda, mas quando deu por si já tinha aberto a boca. “Se o senhor quiser assistir à novela em minha casa, eu moro aqui mesmo em frente”, disse, e emendou. “O senhor não faça essa cara e não fique pensando que, bom. Eu só estou fazendo isso porque a situação em que o senhor está, convenhamos. Eu, por mim, jamais perco a novela. E o senhor está correndo um grande risco de perder o capítulo de hoje, sem falar no risco de ficar perambulando por essa cidade.” “Não, não. A senhora não entendeu minha surpresa.” “O senhor é que não entendeu a minha boa intenção. Eu moro sozinha, é verdade, mas tenho vizinhos atentos. E só estou fazendo este convite porque sei o que é perder um capítulo, a gente depois não pega nada, e porque já posso ver a gripe que o senhor vai pegar e, bom. Eu bem sei que nós não nos conhecemos, mas o senhor me pareceu gente de bem, assim como eu, de modo que.” “A senhora me desculpe se me mostrei surpreso, mas na cidade grande a gente não espera esses gestos. Muito prazer, meu nome é José, e estou encantado e muito agradecido com o seu convite. A senhora se chama?” “Hum, Marta, mas pode me chamar de dona Marta.” “Dona Marta, se eu fiquei surpreso, foi com sua generosidade, acredite.” “Bom, senhor José, nesse caso.” “A senhora ainda quer discar para o seu filho mais uma vez?” “O senhor não disse que a novela estava para começar?” “Já começou tem dois minutos.” “E o senhor sabe disso como, se não tem relógio?” “Eu liguei para a hora certa enquanto a senhora estava de costas.” “O senhor é esperto.”

Quando saíram do elevador, dona Amélia ainda tremia. Só faltava aparecer alguém e topar com ela ali, acompanhada de um sujeito, o sujeito tinha nome, é verdade, era o senhor José, ou João, não importa, mas disto ninguém sabia, só ela. Ela mesma, se a encontrasse ao lado daquele sujeito vestido de preto e mais parecendo um corvo, estancaria à porta chocada. Mas não há o que temer, nem o que tremer, não há mal algum em convidar um estranho que não é mais estranho, estranho não tem nome, e esse tinha, era o senhor José, ou João. Convidar um amigo para ver a novela é a coisa mais natural do mundo. Dona Amélia, enquanto catava a chave no bolso, pensou alto. “Hoje é a cena em que eles finalmente se encontram.” “Mas isso, dona Marta, eles só vão mostrar no final.” Dona Amélia concordou com um grunhido e tomou a dianteira. “É por aqui, o senhor não repare, a casa é pequena mas o sofá é confortável.”

O senhor José parou à soleira e olhou à volta. A sala, que pelos vistos era também um quarto e uma cozinha, tinha um sofá para três, logo à frente uma televisão suspensa no teto por um suporte de ferro brilhante e embaixo da televisão um armário de roupas ao lado de uma mesa com restos de um jantar e duas cadeiras. “Com a sua licença, dona Marta.” “O senhor fique à vontade.” “A senhora mora num apartamento muito bonito e aconchegante.” “Obrigada. São os olhos do senhor.” “Decerto que são. É com eles que posso ver que a senhora tem muito bom gosto.” “O senhor precisa de um café. Use o banheiro para se secar. Depois de seco, pode sentar no sofá.” O senhor José obedeceu, dirigiu-se ao banheiro e, feliz, trancou-se. Não achou estranho estar ali. Estranho era aquele teto de azulejos. Ficou lá o tempo que dona Amélia levou para arrumar a mesa e providenciar dois cafés e uma cadeira, que encaixou ao lado do sofá.

Sentaram-se, mas a novela não havia começado. O que viam eram as fagulhas e os chuviscos do canal sem sintonia, a tela cinza da tevê a fritar sua própria imagem num caldo de bolinhas brilhantes e barulhentas. “Quando chove é sempre assim”, disse ela. E em um minuto os olhos de ambos já haviam baixado da televisão para o armário, do armário para a mesinha e da mesinha para as duas cadeiras. E passeando pela sala, e tentando não se cruzarem, acabaram os quatro olhos reunidos numa pequena prateleira próxima à pia da cozinha. Dona Amélia baixou a cabeça e espremeu os dedos do pé. Na pequena prateleira próxima à pia da cozinha estava o telefone. “O senhor já deve ter percebido que eu tenho um telefone”, começou, rápida, antes que o sujeito pensasse que ela era louca ou estava devendo à companhia telefônica. “Sim, é verdade. A senhora tem um telefone.” “Sim, e o problema é que eu não consigo dar...”, interrompeu a si mesma para reprimir um bocejo, “... só receber telefonemas. O senhor me desculpe.” “Imagine. E a senhora já esteve com um técnico?” “Não. A última pessoa foi meu marido.” “Seu marido?” “É. Ele bem que tentou um pouco antes de morrer. Ligou para a companhia telefônica, eles disseram que o problema era aqui no prédio, e até hoje.” “Quanto tempo tem isso, dona Marta?” “Uns dois meses.” “Oh, então é recente? Meus sentimentos.” Dona Amélia apenas disse: “O café esfriou”.

Esvaziaram mesmo assim as xícaras, concentrados no barulho da televisão fritando e da chuva caindo, e quando o silêncio estava para virar pedra dona Amélia abriu a boca, “O senhor quer mais café?”, ao mesmo tempo em que ele, “A senhora sabe, eu estava tentando ligar para uma moça...” “O senhor quer mais café?” “Não, obrigado. Uma moça não é bem a palavra, o tempo passou, e hoje, depois de quase trinta anos...” “O senhor por favor não se sinta na obrigação de me dar satisfações.” “Sim, não, mas é que a senhora me pareceu intrigada desde o início, e...” “O senhor nem pense uma coisa dessas. Eu me preocupei com a chuva, com a possibilidade de o senhor se resfriar e com a novela, principalmente com a novela, que, a julgar pela hora, já começou.” “Pois é, talvez uma pancadinha lá em cima”, e ele já se ia levantando para bater na televisão quando a cara bem barbeada do moço do noticiário apareceu falando que em virtude de problemas técnicos relacionados ao temporal nas antenas de transmissão a novela poderia atrasar alguns minutos, talvez muitos.

E dona Amélia, que não sabia mais o que dizer, disse: “Bem”, pegando a bolsa e a chave e apenas olhando para o guarda-chuva, “talvez seja melhor telefonarmos novamente”. “Se a senhora quiser, dona Marta, vou sozinho. Ligo para o seu filho e, caso não esteja ocupado, peço a ele que ligue para cá. Assim a senhora não se molha”, e o senhor José, orgulhoso da própria inteligência, sorriu com tanta simpatia que dona Amélia quase, quase disse a ele que senhora estava no céu, ao lado do senhor, e que ele poderia chamá-la mesmo era de Amélia, ou Mélia, que era como a irmã a chamava. Mas lembrou-se a tempo de que havia dado nome falso e que o filho, esquentado como quê, desligaria na hora, dizendo não conhecer nenhuma Marta, e pronto. Passava ela por mentirosa e desconfiada aos olhos do senhor José, que tão boa pessoa parecia ser. “Não”, disse, “eu vou com o senhor.” E desceram juntos.

Espremeram-se dentro da cabine e, mais uma vez molhados, fizeram ambos as suas tentativas. O sinal de ocupado cortava todas as esperanças de um contato imediato, mas permitia a permanência da certeza de que havia alguém em casa. O chama chama e ninguém atende mantinha as esperanças em suspenso, mas fazia crescer, a cada novo toque, a incômoda suspeita de que a casa só não estava vazia porque havia lá um telefone a apitar, como um velho surdo gritando na escuridão de um quarto. Para o senhor José, pouca coisa mudava, era apenas uma questão de continuar cada vez mais sozinho.

Olharam-se ao fim de alguns minutos e sorriram, amarelos e desapontados. Invertidos os sinais, o mundo seria diferente. Dona Amélia, preocupadíssima por não saber do paradeiro do filho em noite tão tempestuosa. O senhor José, um tanto ansioso, muito ansioso, uma pilha de nervos, sabendo que o telefone do seu amor de infância poderia, tão subitamente como uma parada cardíaca, desocupar. E ele teria de dizer quem era e o que queria, explicar tudo desde o início e preparar-se, talvez, para o desinteresse e o silêncio, ao fim do qual ele pediria desculpas e desligaria. Mas o mundo não era assim, ou assim não estava.

Voltaram a sorrir um para o outro, amarelos e desapontados, e correram aos pulinhos para a portaria do prédio. Entraram e reuniram-se para um novo café ali mesmo, ao pé do fogão, sentindo-se ambos mais à vontade. “Pelo menos esta minha viagem não foi tão perdida assim.” “O senhor veio de muito longe?” “Umas cinco horas daqui.” “Mas por que é que veio? Quer dizer, se a pergunta não for indiscreta e...” “As respostas, dona Marta, é que são indiscretas, não as perguntas. Há muitos anos venho sonhando em vê-la pessoalmente. Então pensei que poderia ligar, pedir seu endereço, dizer que quero escrever e depois aparecer em sua casa de surpresa, alguns minutos depois de ter ligado. Ela abre a porta e eu a vejo enfim, não sei se mais ou menos bela, porque o rosto que vejo é o rosto de uma menina, e colocar trinta anos sobre o rosto de uma menina...” “E ela, bem...”, ia dizer dona Amélia. “Ih, dona Marta, é uma longa história essa”, e o senhor José fechou os olhos. “Aqueles amores que não acontecem quando têm de acontecer e a gente fica o resto da vida a imaginar como teria sido a vida se tivessem acontecido ou como poderá vir a ser caso ainda aconteçam.” Dona Amélia balançou as mãos. “Não, eu ia perguntar se o senhor por acaso se informou antes para saber se ela não está casada ou se não se mudou...” Ele abriu os olhos e por alguns segundos não disse nada, apenas encarou-a como se tivesse que decorar seus traços para toda a vida. Enfim falou. “Não tenho o endereço, apenas um número de telefone e a informação de que mora pelas bandas da rodoviária.” “Este bairro é grande”, disse ela. “Do tamanho da minha cidade”, disse ele.

E dona Amélia lembrou-se de que a cena em que eles finalmente se encontram e descobrem quem são de fato iria ao ar naquela noite. Não iria mais. A novela e toda a programação prevista para as próximas quatro horas seriam transferidas para a noite do dia seguinte. Era o que dizia a televisão, em letras brancas e antipáticas sobre um fundo cinza escuro tão discreto que ainda não haviam dado por ele quando enfim se sentaram, já sem assunto, para ver se viam a novela. E foi tanta a decepção, tão súbita a pancada nos ânimos, que permaneceram mudos e perdidos, como se tivessem sido roubados e sobrassem apenas as mãos abanando, os bolsos vazios e toda a vida pela frente.

Dona Amélia ficou desnorteada. O que deveria fazer? Fazer sala, servindo uma bebida forte e transformando tudo aquilo, enfim, em uma visita, ou não fazer nada e esperar que ele faça? E o que deveria ele fazer? E o que ela gostaria que ele fizesse? Dona Amélia ainda olhava para a televisão, como se não pudesse compreender o objeto barulhento que tinha diante de si, quando a resposta veio, súbita e estridente. “Deve ser o seu filho”, disse o senhor José. “É ele com certeza”, disse ela, já de pé e claramente aliviada. “Ninguém mais, além do meu filho, tem o meu número”, e atendeu.

Não falou ela três frases. “Tudo bem, filho?” “Tudo ótimo, mãe, e você?” “Tudo bem.” E a ligação caiu. Mais que depressa o senhor José, que não queria de modo algum estar ali ao lado enquanto mãe e filho matavam saudades, aproveitou a queda para despedir-se. E o fez rapidamente, porém com método, agradecendo primeiro pela confiança e depois pela hospitalidade com que ela o recebera em sua casa. “Antes que meu filho volte a ligar”, disse ela, já à porta, “prometa-me que voltará a tentar falar com ela ainda esta noite.” “Prometo”, disse ele, e emendou, “o meu ônibus sai à uma da manhã, vou tentar ligar para ela antes disso, deixo tocar três vezes. Não era esta a minha idéia, mas a senhora está pedindo, e eu, como única forma de agradecimento possível, prometo”, e o senhor José saiu da porta para a chuva.

Dona Amélia esperou até às onze mas o filho não voltou a ligar. Não era a primeira vez que isso acontecia, e não era grave, já que o telefonema, apesar de curtíssimo, dera conta do recado. Mãe e filho passavam bem, e ambos sabiam disso, e sabiam também que já era tarde e que aquelas eram horas de se estar na cama. Mas dona Amélia demorou a dormir. Pensamentos sem contorno, imagens fugidias e lembranças desconectadas corriam sob suas pálpebras enquanto duravam todos aqueles minutos que vêm antes do sono profundo.

Restos do dia que passou, das compras do supermercado, da vassoura nova, tudo ao pé da porta, quatro passos e estava no banheiro para tomar banho e passar a mão pela barriga e pelos peitos e pela bunda. E a calcinha nova, o sutiã novo e o vestido apertado para ir para a rua para ligar para o filho e para encontrar-se com o homem na cabine do telefone, sob a tempestade. Restos da noite que passou passam por dona Amélia, que não pôde assistir ao momento em que eles finalmente se encontram e descobrem quem são de fato. “Mas isso, dona Marta, eles só vão mostrar no final.” “O senhor é esperto.” “Mas estou seco.” “E eu, molhada.” “Então eu vou virar de costas, assim a senhora fica mais à vontade.” “E o senhor está esperando o quê?” “Vou tentar um desses botequins com televisão.” “O senhor tem algum pedaço de madeira aí à mão?” “Não, mas daqui a pouco sei que vai começar a novela.” “Diabo.” “A novela é sagrada.” “Este bairro é grande.” “A senhora se chama?” “O senhor sabe, a privacidade.” E quando dona Amélia sente enfim todo o peso do corpo... “Aqueles amores que não acontecem quando têm de acontecer.” “Sim, e o problema é que eu não consigo dar...” “Meu nome é José.” Ela começa a sonhar. “A última pessoa foi meu marido.” Dispara o telefone na escuridão do apartamento. “Deve ser o seu filho.” “Hum, Marta, mas pode me chamar de dona Marta.” “O que tenho é apenas um número de telefone.” “Ninguém mais, além do meu filho, tem o meu número.” “Nem sei se tenho.” “Bom, se o senhor não sabe.” Dispara, súbito e estridente, o segundo toque. Dona Amélia vê em sonhos a calçada, a chuva e, lembrando-se do diabo, o telefone. O sujeito ainda estava discando o último número. Não, havia mais um. Os números do disco giravam lentamente em volta da cabeça de dona Amélia. “Ninguém mais, além do meu filho, tem o meu número.” Era um número de telefone pouco discado, provavelmente rabiscado num pedaço de papel de pão. Agora mais um número, pequeno, que deve ser o um ou o dois. Era o um. Agora mais um, era o um de novo. É quase uma da manhã, dispara o terceiro e último toque. Dona Amélia dorme fundo.

fev. 99