sexta-feira, 1 de janeiro de 1999

Tribo (Campos de Carvalho)

Campos de Carvalho, Tribo, ed. Pongetti.

Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti, Editôres, 1954

Palavra dos editores:

Este é um livro desconcertante.

Não se situa em nenhum gênero conhecido, nem tampouco procura situar-se. Escreveu-o o autor sem qualquer plano preconcebido — no ônibus, nos cafés mais infectos, até no meio da rua — pelo prazer único de conversar consigo mesmo, já que lhe faltavam confidentes com os quais pudesse trocar idéias ou simplesmente combater o próprio tédio.

Se resultou num livro triste apesar de tudo, não terá sido certamente por culpa do autor, que nele usou e abusou do direito de ironizar a vida, os outros e sobretudo a si mesmo, com uma audácia que não será muito comum nestes tempos de evasivas, de reticências e de hesitações. O humour — por vezes cáustico e impiedoso — foi a única norma que se impôs o autor nesse tête-à-tête personalíssimo a que se viu forçado numa cidade de quase três milhões de habitantes (sem contar os fantasmas) o que não impediu que muitas de suas páginas descambassem para o lirismo mais puro ou para a jeremiada mais inconsequente, como de resto ocorre a todo espírito que se vê entregue à própria sorte e se põe a imaginar o que poderia ser a vida se não fôsse o que é e há de ser eternamente, enquanto durar o mundo.

Irmãos Pongetti Editôres – Rio de Janeiro

Banda Forra (Campos de Carvalho)

Campos de Carvalho, Banda Forra, São Paulo, 1941.

Banda Forra

São Paulo: Estabelecimento Gráfico Cruzeiro do Sul, 1941.

Sumário do livro:

1. Palavras de Prefacio
2. Da Tristeza Brasileira
3. Do Primado da Intelligencia
4. Da Arte do Cabotinismo
5. Do Casamento Precoce
6. De Medicina e de Medicos
7. Da Felicidade Psychopathica
8. Da Inferioridade da Mulher
9. Da Harmonia Conjugal
10. Da Literomania, e o que vem a ser




Epígrafe:

Je suis venu trop tard dans un monde trop vieux.
(Rolla)

Trecho (Palavras de Prefácio):

"Banda Forra dizia-se, ao tempo de nossos avós, daquelle escravo que, tendo juntado pequeno peculio, ou esportula, conseguia com elle comprar ao seu senhor certo quinhão de liberdade, podendo então trabalhar para si aos domingos. De posse desse quasi nada de independencia, cultivava seu roçado de dez a vinte palmos de comprido, arranjava peculio novo e maior para conquista de maior liberdade, e tinha-se com isso por muito feliz e contente da vida. Labutava como um mouro nos seis dias da semana para abarrotar ainda mais as arcas prenhes do patrão, mas dava-se por compensado de todas as dôres e desgraças do mundo quando, ao fim, podia dispôr de algumas poucas horas para cuidar apenas de sua existência." (págs. 11 e 12)

Trecho (Da Literomania, e o que vem a ser):

“Uma das obsessões que mais fundamente costumam vincar o caracter de certas creaturas, preferentemente de creaturas que sejam geradas por intellectuaes ou artistas da penna, é, sem duvida, a que chamamos de “literomania”, e que trataremos de expôr o que seja.

Chamar-se-á literómano, em uma palavra, o cidadão que enxerga as coisas deste mundo, e não raro as do outro, através das lentes fantasistas da literatura, como provavelmente faziam seus paes e avós mais remotos. Outros preferirão chamal-o, com naturalidade, literato obsedado e maluco, creatura desmiolada, e outros termos mais, o que vem a dar na mesma desde que se trate de igual phenomeno. Si a veia lhe arrebenta para o lado da Poesia, em tudo ha de vêr tal especimen côres e harmonia, rythmos e paixões inspiradoras: e fará versos com a naturalidade com que outros fazem a digestão. (...)” (págs. 101 e 102)

Campos - Retratos surrealistas (Nelson de Oliveira)

Nelson de Oliveira, Campos - Retratos surrealistas, ed. 100/sem Leitores, 1999.