sábado, 29 de novembro de 1997

"Perdidos no labirinto da ficção"

"Perdidos no labirinto da ficção", Caderno Idéias, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 29 de novembro de 1997.

Resenha sobre o livro O fosso de Babel, de Jacyntho Lins Brandão, ed. Nova Fronteira.

O autor é antes de mais nada um autêntico fingidor. Mas não neste romance, cujo segundo capítulo configura uma espécie de mea culpa. O autor revela a própria identidade, revela que os nomes dos personagens serão inventados e revela que será ele mesmo, em terceira pessoa, a contar a história. “Aqui, o autor sou eu — e é desnecessário repetir meu nome que o amigo poderá, muito simplesmente, descobrir na capa do livro. O professor J... é minha personagem e não será ele mesmo quem contará sua história, pois lhe pouparei esse trabalho.” Poderia o autor ter poupado a si próprio o trabalho desta explicação. Poderia ter poupado também o leitor, nesta e em outras passagens, de esclarecimentos excessivos que ao fim e ao cabo só fazem eliminar da leitura a sua necessária e fértil dificuldade.

Trata-se da história de um professor de grego que recebe em casa um estranho pacote cheio de papéis, entre eles os originais de um romance. O professor de grego chama-se José Leme, o pacote foi enviado por uma tal de Ana e o romance que lá está tem como autor um outro José Leme, que não é professor de grego mas gostaria muito, isto sim, de ser “um novo Xenofonte de Éfeso” — e é dessa maneira que inicia o seu romance. Como Xenofonte não veio de Éfeso, mas de Atenas, o professor de grego José Leme fica intrigado e parte por conta própria para uma investigação cujo ponto final estaria repousado no doce colo de Ana, para ele uma antiqüíssima ex-aluna, muito inteligente, muito bonita e muito aplicada. A investigação particular do professor conduz a aventuras e mal-entendidos. José Leme acaba seqüestrado por engano, termina preso por tráfico de cocaína, muda de identidade e transforma-se sucessivamente, e às vezes simultaneamente, em outros dois personagens: Antônio Costa, professor de literatura comparada; e Carlos Lima, investigador de polícia. O problema é que cada um deles, em si, não dá mostras de acreditar na própria história que vive. Com exceção de algumas pequenas manias e alguns modos de falar — insuficientes para que permaneçam por muito tempo na cabeça do leitor —, Antônio Costa e Carlos Lima constituem uma espécie de peso morto dentro da história.

“Não estranhe, meu leitor, que eu escreva J..., A... e não os nomes inteiros de cada um. É que, nesse caso, qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas não pretende ser mera coincidência.” Pudera. As iniciais de José Leme, J. L., são as mesmas de Jacyntho Lins Brandão — mineiro de Rio Espera e nascido em 1952. Assim como José Leme, Brandão é também professor de grego. É doutor em Letras Clássicas pela USP e atualmente vice-reitor da UFMG. Publicou o livro didático Língua grega: leituras e exercícios e o romance Relicário (de 1982), além da peça Que venha a senhora dona, premiada no concurso de textos teatrais da Fundação Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Há aqui uma intenção autobiográfica qualquer, sugerida pelas iniciais J. L. e pela advertência do autor. Mas isto não tem muita importância, mesmo não sendo o autor um autêntico fingidor. O importante é que O fosso de Babel parece não ter fim. A narrativa, em sua rapidez estonteante, abre muitas frentes na história — seja através do surgimento de novos personagens e, a reboque, novas situações a complicar ainda mais a vida de nosso herói, seja graças às originais e constantes referências à cultura grega, sua mitologia e sua língua. As referências estão presentes no nome de alguns capítulos, em citações explícitas e implícitas ao longo do texto e em metáforas e analogias, a maioria relacionada às viagens pós-guerra de um Ulisses cansado de Tróia, cantadas por Homero na Odisséia. Mas tantos caminhos parecem não conduzir a nada senão a novos caminhos que se desfazem, e os acontecimentos vão aos poucos perdendo o sentido e dando a impressão de que estão ali apenas para acelerar e preencher uma trama que afinal não está tecida. O texto é formalmente pouco original e há uma névoa de infantilidade que não o abandona. Mesmo assim, é correto, culto e extremamente engraçado.

Há quem faça aproximações entre a narrativa de Jacyntho Lins Brandão e a de Machado de Assis. A semelhança, contudo, acontece apenas às vezes. Machado divertia-se com a idéia de trazer para si a presença do leitor, invocando-o a cada novo passo da história, lembrando-lhe que entre ambos há um texto constantemente atando e desatando um diálogo que é antes de tudo monólogo. Jacyntho Lins faz do mesmo modo, com simpatia, leveza e bom humor, mas no lugar de um leitor o professor não resistiu à tentação de colocar um aluno.

quarta-feira, 26 de novembro de 1997

“O feitiço da palavra"

1997-11-26
LÔBO, Clodoaldo, “O feitiço da palavra — em entrevista exclusiva, por telefone, João Ubaldo Ribeiro fala sobre seu mais recente livro, O feitiço da ilha do Pavão”, Caderno 2, A Tarde, Salvador, 26 nov. 1997.

CL: “Você explicaria essa tendência de ser categorizado como um escritor nacionalista e populista (no bom sentido), como o definiu, por exemplo, o crítico Wilson Martins?”.

JUR: “O que os críticos dizem é uma coisa, o que os escritores são — ou se acham —, realmente, é outra... Mas respeito o Wilson Martins. Ele sabe o que diz, deve saber, é um crítico conceituado. Mas eu mesmo não entendo por que é assim, se é assim”.

sábado, 1 de novembro de 1997

“Utopia tropical"

1997-11
LACERDA, Rodrigo, “Utopia tropical — O feitiço da ilha do Pavão, novo romance de João Ubaldo Ribeiro, assinala um processo de isolamento geográfico e estilístico do escritor, que encontrou na fantasia e na linguagem barroca a melhor forma de preservar um universo de riso e luxúria”, Revista CULT, nov. 1997, p. 32-39.

RL: “Talvez como reação a isso — e se não o é, bem poderia ser — João Ubaldo se recuse a pensar alto sobre seus livros. Aliás, ele nega-se a fazê-lo em qualquer circunstância, mesmo com seus próprios botões. Quando perguntado por que está tão distante do estilo dito contemporâneo de escrita, ele não hesita em responder: ‘Não faço a menor ideia’. Ou, quando caracteriza seu processo criativo, ele diz: ‘Eu só sento e escrevo. Escolho o título, ponho no papel, e aí continuo, ponho a dedicatória, a epígrafe e começo: Capítulo 1’. Se, no futuro, algum mestrando em teoria literária quiser fazer uma tese sobre sua obra, vai matar o escritor de aflição. Ele é daqueles que não suportam racionalizar sobre o que escreve. Além de negar qualquer planejamento antes e durante a escrita, em sua opinião também ‘o leitor é um mistério’ e a experiência da leitura idem, por consequência, o que inviabiliza qualquer teorização”.

quinta-feira, 16 de outubro de 1997

“João Ubaldo cria ilha em cobertura no Rio”

1997-10-15
NÉSPOLI, Beth, “João Ubaldo cria ilha em cobertura no Rio — o escritor está finalizando seu novo romance, O feitiço da ilha do Pavão, que deve ser lançado no fim do ano, enquanto o cineasta André de Oliveira cuida da versão de Viva o povo brasileiro para o cinema”, Personalidade, Caderno 2, O Estado de S. Paulo, São Paulo, 15 out. 1997, p. D-5.

JUR: “Essa história de raça me deixa irritado. Raça não tem a menor importância. Ultimamente, temos importado modelos sociológicos dos americanos, que são obcecados por raça. Importamos mal esses modelos de análise. (...) Não se pode aplicar os padrões americanos de raciocínio e análise à realidade brasileira. Considero isso uma burrice, sinal de colonização cultural, até mesmo de certas lideranças negras. Com isso, acho que a palavra mulato está cada vez mais carecendo de sentido. Agora o correto é negro. Isabel Fillardis e Camila Pitanga não são negras no sentido brasileiro e sim no americano, mas nós perdemos esse discernimento. Somos o país miscigenado mais bem sucedido do mundo e estamos fazendo tudo para perder isso”.

quinta-feira, 2 de outubro de 1997

“Crônica (picaresca) da vida brasileira"

1997-10
MARTINS, Wilson, “Crônica (picaresca) da vida brasileira — o novo livro do escritor baiano é mais um painel da epopéia primitiva e tumultuosa da nacionalidade em formação”, Crítica, Revista Bravo, out. 1997.

WM: “O seu populismo não é popularesco e simplista como na chamada literatura de massa (...). É o populismo ‘que se propõe a pintar os meios populares com realismo, mas também com a simpatia de princípio que pode resultar numa certa idealização da respectiva existência’ (Bruno Hongre e outros, Grand dictionnaire de culture générale [1996], v. ‘populiome’)”.

sábado, 2 de agosto de 1997

"Duas culturas, uma tragédia"

"Duas culturas, uma tragédia — Entre a Inglaterra e a África do Sul, um casal perde suas raízes e enfrenta seus fantasmas", Caderno Idéias, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2 de agosto de 1997.

Resenha sobre o livro Mudança de clima, de Hilary Mantel, ed. Record, trad. Maria dos Anjos Santos Rouch.

Inglaterra. O clima no condado inglês de Norfolk é frio, o ar é úmido e o mar ao pé dos rochedos tem cor de chumbo. Quando o olhar chega ao horizonte, não há horizonte, mas uma mistura cinzenta de nuvens geladas, como um véu. Embaixo, na terra, a vida é pacata. Norfolk é um polvilhado de igrejas e pequenas propriedades, a população é rural e religiosa, há muitas fazendas, separadas por extensas planícies, e um comércio local de produtos hortigranjeiros e miudezas para turistas. Vive-se para dentro e mastigam-se segredos — engolidos em silêncio junto com o chá, que sai às cinco.

África do Sul. O céu sobre os morros arredondados se inunda da luz do sol e fica violeta quando toca as pedras. Impossível não imaginar que, em algum lugar, lá estarão, intocados, as savanas, os horizontes a perder de vista, a girafa, o elefante e o bom selvagem. Mas na cidade de Elim, ao pé de Pretoria, o clima é quente e tenso. Há muita confusão nas ruas. O bôer — macho adulto branco holandês — está no comando há quinhentos anos, desde o século XV, época em que chegou e ocupou grandes regiões do sul da África, julgando-se dono da terra e dos que lá viviam. A educação está restrita às elites brancas, e a manutenção da miséria, do caos social e da ignorância cumpre a grosseira função de desmantelar qualquer tentativa da população negra de organizar-se em torno de uma identidade ainda a ser novamente criada, uma vez que já não mais existe.

Entre Inglaterra e África do Sul, emergindo de geografias sociais e políticas tão diversas está a história de um jovem casal de missionários ingleses, Ralph e Anna Eldred — ambos pertencentes à igreja anglicana, ambos nascidos em famílias ortodoxas e conservadoras (leia-se anti-darwinistas radicais), ambos ansiosos por sair de casa. Casados, vão Ralph e Anna para a África do Sul, a serviço da sociedade missionária a que pertencem, fazer o bem, não importando a quem, perdoando sete vezes setenta e amando o próximo como (muito mais do que) a si mesmos.

Os momentos mais dramáticos de sua permanência na confusa cidade de Elim, somados à descrição do clima que envolve a família Eldred em sua volta à Inglaterra e no desenrolar da vida no minúsculo condado de Norfolk, são o ponto alto deste Mudança de clima (A change of climate), sexto romance de Hilary Mantel. Esta inglesa de 45 anos nasceu em Derbyshire, trabalhou no Oriente Médio e viveu cinco anos na África do Sul. Ganhou por seus “escritos de viagem” o prêmio Shiva Naipaul, em 1987, e tem sido bastante elogiada por jornais e suplementos literários ingleses. Um de seus romances, A place of greater safety, recebeu do Sunday Express o prêmio de livro do ano e do Sunday Times o de melhor romance em 1992. O irresistível senso de humor tipicamente britânico que evapora de seu texto transforma qualquer melodramatismo narrativo em um pensamento inteligente, uma observação acurada, um quase aforismo.

Não se pode afirmar que Mudança de clima seja um romance autobiográfico. Provavelmente não. Mas cinco anos na África do Sul não deixam ninguém indiferente, e seria ingênuo crer que Mantel não tenha recapturado, não os fatos que viveu em sua experiência sul-africana, que estes, os fatos, mudam com o tempo e o vento e são quase incomunicáveis para quem não os viveu; mas que não tenha recapturado neste romance e principalmente no personagem de Anna, mulher de Ralph, a sensação do estranhamento. Não apenas o estranhamento de sentir-se estrangeiro no lugar para onde se foi, mas, em especial, sentir-se estrangeiro no lugar de onde se veio, quando se volta.

Depois de um bom tempo na cidade de Elim, numa espécie de lua-de-mel às avessas, a tentar remendar o irremediável, sem infra-estrutura e a viver numa casa aos pedaços, Ralph e Anna acabam metidos num mal-entendido que os leva à cadeia. Mas a cadeia não foi nada em relação ao mau bocado que passaram depois — um segredo muito bem trancado que os perseguiu por toda a vida; um episódio, chocante sob todos os aspectos, que não poderia ser revelado, sob pena de se desmantelar toda a família Eldred, incluídos os quatro filhos do casal.

Este romance possui a rara qualidade de não ser simplista ao debruçar-se sobre o que se achou por bem chamar “o outro”. Afirma, sim, desde o título, a existência de uma diferença, uma mudança de clima, mas não cai na armadilha de caracterizar por estereótipo dois ambientes e depois submetê-los a uma apreciação que se limite a compará-los. Através da tragédia vivida pelos Eldred, formaliza e polariza, na pele de Ralph e Anna, dois velhos pontos de vista acerca de uma importante questão: até que ponto estão as diversidades culturais — incluídos os costumes, as tradições e as práticas sociais e religiosas — protegidas por uma espécie de imunidade que as isentaria de prestar contas aos chamados valores universais que resguardariam os direitos fundamentais do homem e a dignidade da pessoa humana?

Trecho: 

“— Mas Julian me contou, você sabe... sobre a prisão.

Ralph balançou a cabeça numa negativa:

— Isso não foi nada.

(...)

— Quando vocês estavam presos, vocês foram maltratados?

— Não, eu já disse, isso não foi nada. Se tivéssemos sido muito maltratados, teríamos voltado para casa depois de libertados, mas nós não voltamos, fomos para Bechuanaland. Continuamos por lá.

— Isso é um pouco misterioso. Para Julian. Ele fica imaginando por que vocês não falam sobre o assunto. Ele inventa razões, na cabeça dele.

— Kit passou por uma fase, você sabe como as crianças se comportam... Ela queria nos transformar em heróis. Ela não entendia por que eu não participava dos movimentos anti-apartheid, unindo-me às pessoas que sentavam na rua em frente à embaixada sul-africana.

— E por que você não participava?

— Por que é muito mais complicado do que pensam essas pessoas estúpidas que desfilam pelas ruas com faixas. Fico profundamente irritado de ver essas pessoas usando a África do Sul para se sentirem bem. Tão preocupadas com a moral de um país que nunca viram, com a vida de pessoas das quais não sabem nada.” (p. 171)

sábado, 21 de junho de 1997

"Estranha história de amor"

"Estranha história de amor — O romance do espanhol Gonzalo Torrente Ballester é uma longa e silenciosa carta apaixonada", Caderno Idéias, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21 de junho de 1997.

Resenha sobre o livro A ilha dos jacintos cortados, de Gonzalo Torrente Balester, ed. Record.

Gonzalo Torrente Ballester é de La Coruña e nasceu em 1910 — exatos 22 anos após o nascimento de Fernando Pessoa. Estava, aos 25, formadíssimo em filosofia e letras pela Universidade de Santiago de Compostela. Escreveu muito: ensaios, peças, novelas, alguns livros de história e romances. Em 1962, teve de mudar de vida. A presença de seu nome numa carta de apoio às reivindicações de grevistas asturianos não foi propriamente simpática aos olhos do governo espanhol. Convidado a abandonar seu trabalho na imprensa e no rádio, segue para a Universidade de Albany, nos Estados Unidos, onde ensinará literatura espanhola por vários anos. Destacam-se, entre seus romances, a trilogia Los gozos y las sombras e O rei pasmado e a rainha nua. Ganhou o Prêmio Cervantes, o Prêmio da Crítica e o Prêmio Nacional de Literatura — este por duas vezes.

A segunda vez, 40 anos depois, veio com A Ilha dos Jacintos Cortados, que reúne em si as cores e os sons do romance de amor que Ballester poderia ter escrito aos 20 e que acabou por escrever somente aos 70 anos. As cores, porém, não são gritantes, nem os sons. Tampouco é cega a paixão. O romance tem a forma de uma longa e silenciosa carta, cujo tom é o da melancolia sem choro e do erotismo sem carne. O autor da carta é um erudito professor de literatura, que ama uma estudante grega de nome Ariadna, que, porém, não o ama, mas sim a outro, o historiador Alain Claire, que não entra na história.

A carta de amor — cujo peso, volume e detalhamento a transformam num diário — começa a ser escrita, às escondidas, uma semana após a chegada de ambos, remetente e destinatário, à cabana alugada de uma ilha próxima à universidade. Lá, na Ilha dos Jacintos Cortados (The Isle of The Cut Hyacints), no Indian Lac, durante os três meses do outono norte-americano, Ariadna e o professor de literatura (não se lhe sabe o nome porque não assinou sua carta) encontram silêncio e privacidade para melhor se conhecerem e se ajudarem. Entre ambos, um mesmo problema: o historiador Alain Claire — que, por sua vez, tem dois: além de impotente, ousou escrever um livro em que investiga e tenta demonstrar a idéia de que Napoleão Bonaparte não passou de uma fraude, uma biografia forjada, uma ficção em branco. Tornaram-se, Claire e sua tese, um bom motivo para o escárnio de seus pares acadêmicos.

O professor de literatura, no entanto, estimulado pela possibilidade de exibir-se para o seu amor mediterrânico com todas as letras de sua deliciosa eloqüência, decide acreditar na hipótese de Claire e até mesmo “prová-la”. Lança mão de técnicas de pesquisa científica pouco ou nada ortodoxas e empreende, ali, na rústica cabana alugada da Ilha dos Jacintos Cortados, uma viagem no tempo, por meio da simples, mas atenta, contemplação das chamas da lareira. Saber decifrá-las é saber que passado, presente e futuro são instâncias artificialmente delimitadas, a correr para a frente, sim, mas paralelas, o que vale dizer: simultâneas.

É o início do que podemos chamar de “interpolações mágicas”, segundo uma expressão do próprio Ballester — verdadeiras frestas por onde escorre, lentamente e sem qualquer compromisso com a linearidade dos aconteceres, uma segunda história, de adultérios, poesia e revoluções, a partir da qual se poderá assistir ao momento exato em que a idéia de se inventar um imperador para a França foi plantada. Começa, então, um outro romance, a passar-se em outro tempo e em outra ilha, de La Gorgona esta, “certo penedo resplandecente que emerge nas rotas do Mediterrâneo central, mais história que terra, (...) toda a história que cabe num punhado de rochedos amontoados, Ulisses, Enéias, os Templários e logo conto o resto”.

O resto, porém, não é o resto, mas a potência incansável da imaginação. Além das belas frases, longas, ritmadas e precisas, do verossímil encadeamento dos diálogos e do inegável fôlego narrativo de Ballester — qualidades que se repetem na tradução de Ari Roitman —, A Ilha dos Jacintos Cortados sugere a recriação ininterrupta como uma possibilidade a mais para o conhecimento das coisas. Esta sugestão faz lembrar o tão discutido problema acerca do conceito de arte e chama a atenção para a velha idéia de arte como via de conhecimento, um conhecimento não mensurável. Veja-se a História do cerco de Lisboa, de Saramago, onde um revisor acrescenta, num livro de História, a palavra “não”. Sua tarefa: dar um sentido histórico-narrativo àquele “não”. Seu método: recontar as histórias que estão dentro da História. A empreitada a que se entrega o professor de literatura neste romance dos Jacintos Cortados é também uma materialização do programa de Nietzsche: considerar a ciência pelo ponto de vista da arte e a arte pelo ponto de vista da vida. É com os olhos de um “bruxo” que o professor se debruça sobre a hipótese histórica de Claire. Acompanha pela lareira de sua cabana o desenrolar de um passado remoto e reinventa-o, com todas as artes, em seu diário. Se assim não fosse, de que outro modo poderia o professor chegar ao coração de Ariadna ou provar, por palavras tortas, a inexistência de Napoleão?

Primeira sugestão para trecho:

“Estou certo de que algum dia o método de Claire, essa multiplicidade de técnicas ali utilizadas pela primeira vez na pesquisa histórica, virá a ser casual, e algum dia terá também envelhecido e será superada; hoje sua novidade é tão abrupta, tão desafiante, que não me surpreendeu a repulsa com que foi recebida e a chacota geral com que a maioria manifestou sua pessoal e irreparável rotina. Naquela noite, Ariadna — você lia —, fomos progressivamente tomados por um discurso de estrutura rigorosamente matemática e por uma palavra de expressão rigorosamente poética, de modo que o resultado foi a mais perfeita embriaguez, a mais inconcebível, da inteligência e da sensibilidade. Reconheço que deixou de me importar o que era discutido: se Napoleão foi algo mais que uma palavra favorecida, embalada, amamentada pela necessidade política.”


Segunda sugestão para trecho:

“Gostamos da cabana. Não sei qual dos dois gostou mais, porém o seu entusiasmo parecia maior que o meu, e não pelo que ia ganhar de comissão, dez por cento do aluguel, mas pela genuína vontade que você tinha, e ocultava, de passar ali uns dias, ver como o outono se infiltrava no tempo, apoderando-se das folhas do bosque uma a uma: isso se notava nos seus olhos, no ágil movimento das mãos, principalmente na sua voz, quando você elogiava as virtudes e méritos da Ilha e do refúgio, lugar também para o amor, não só para o estudo e o recolhimento. Foram uns minutos em que Claire, se estivesse ali, teria sorrido ligeiramente com aquele sorriso de anglo-saxão prepotente diante dos povos inferiores e, caso fosse além do sorriso, (...) teria lançado um olhar que a julgaria uma incorrigível meridional, criticando todo movimento e expressividade, justamente o que mais louvo em você, a voz que sobe e se quebra, e o que suas mãos dizem enquanto a língua se recreia.”

sábado, 17 de maio de 1997

"Pulsões da alma sem retoques"

"Pulsões da alma sem retoques — Kazantzákis mistura prosa poética e exercícios espirituais para falar da fé e de prisões que libertam", Caderno Idéias, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de maio de 1997.

Resenha sobre o livro Ascese, de Nikos Kazantzákis, ed. Ática, introdução e notas de José Paulo Paes.

Este é um pequeno grande livro. É um tratado filosófico e um exercício, teoria e prática; uma ficção de versículos numa prosa sem história, com personagens abstratos, metáforas e animismos; um poema em prosa poética; uma voz de mestre a suscitar em ti, leitor-discípulo, o ânimo necessário para assuntarem, juntos, graves quesitos relativos à existência de Deus, à existência da própria voz que suscita; deste que lê e mesmo deste que aqui escreve.

A narrativa de Ascese, Os salvadores de Deus, do cretense Nikos Kazantzákis (Alexis Zorba, O pobre de Assis, A última tentação), não emparelha com a dos tratados filosóficos convencionais — escritos com a temperança do pensador que se põe a salvo no conforto do método científico —, mas sim com a pujança e a exclamatividade dançante de textos como Assim falava Zaratustra e A origem da tragédia, de Nietzsche, livros que traduziu, juntamente com O riso, de Bergson; A divina comédia, de Dante; o Fausto, de Goethe; além da Ilíada e da Odisséia, de Homero, estas últimas, traduções dentro do idioma grego, do arcaico para o moderno.

A identificação do assunto-cerne desta singular “peça” literária — belamente traduzida e apresentada por José Paulo Paes — principia pelo título. “Ascese” é palavra grega que designa “exercício”. Sobreviveu à areia do tempo e ainda tange em seu sentido primeiro: conjunto de práticas que apontam para um crescimento espiritual rumo a uma espécie de libertação, cuja essência está na união indissolúvel com Deus, que é a mesma coisa que o leite, o sangue e o pus, o inseto e a mais singela idéia — “Joelhos encostados no queixo, (...) sentado de cócoras, feito uma bola, Deus está encerrado dentro de cada partícula de carne”.

Encerrado e ferido, este Deus, já desenfeitado da expressão plácida e altiva que outros tempos e outros povos Lhe atribuíram, sem as certezas e bondades que julgamos possuísse, este Deus, que tem esse nome “porque só esse nome comove, desde tempos imemoriais, nossas entranhas até o fundo”, este Deus grita por socorro, carece do homem na exata medida em que carecemos Dele. E a voz narrativa de Ascese convoca-nos a todos, seres moventes e vegetais, para uma luta inglória — contra a estagnação e o conformismo, pela libertação, terrena e divina.

Deus berra e quer brigar. Mas Sua natureza não é onipotente o bastante para que baixemos as armas e O deixemos, a Ele, ao deus-dará. Deus não dará; quer receber; “não se importa nem com seres humanos nem com animais, muito menos com virtudes ou idéias. Ama-os por um instante, esmaga-os para sempre e segue adiante”. Sua natureza não é bondosa, não é onisciente, sequer salvadora é; porém pasmada na exata medida em que pasmados estamos diante do caos. Verdadeiros salvadores de Deus seremos se cumprirmos, heroicamente, nossa missão, possivelmente impossível, de lutar e tombar; tombar e entregar a lança ao vizinho.

Propondo uma espécie de “infiltração” entre natureza humana e divina — proposta que prescinde de uma religião organizada em dogmas e pressupostos salvacionistas, protagonizada por um Deus que “concebe, fecunda e mata”, não redime, não ajuda quem cedo se levanta, não tem identidade estática e que não é nada sem a ajuda do homem —, não é estranho imaginar que Kazantzákis tenha enfrentado problemas com a Igreja Ortodoxa de Atenas. Considerado um “inimigo da fé”, recusaram-lhe enterro com direito a padre oficial. Foi sepultado onde nasceu: Heráklion, capital de Creta. Seu auto-epitáfio é um eco do que pensava e sentia acerca do sentido da vida e da falta de sentido da morte: “Não temo nada. Não espero nada. Sou livre”.

“Pegamos uma tocha e corremos. Por um instante, nosso rosto se ilumina, mas prontamente passamos a lanterna a nosso filho e em seguida sumimos no Hades.” Lá, entre rochedos, fogo e ranger de dentes, tropeçamos na pedra de Sísifo e aprendemos mais sobre a natureza intérmina das batalhas, as verdadeiramente grandes. Kazantzákis contorna, em Ascese, a silhueta do herói, o que avança descalço sobre os limites da própria humanidade, se equilibra sem medo no olho do furacão e, de pé, balança a cabeça, a dizer sim para o sofrimento do mundo e seu terrível engano. O próximo passo é a dança; e dançando Sísifo refaz seu eterno retorno ao rochedo, para, mais uma vez, e mais outra, (re)carregar ao topo sua pedra e sua danação. A pedra, ao fim e ao cabo, rola para baixo, e o castigado desce — para novamente subir. Camus, em O mito de Sísifo (o título original, Le mythe de Sisyphe, forma uma bela homofonia com O mito decisivo), considera o momento da descida crucial para o bom entendimento da natureza absurda de seu herói. É descendo que Sísifo se toca de sua desgraça. Neste sentido, a consciência de seu tormento o faz superior ao próprio destino. Tivesse ele a esperança, mesmo mínima, de que seu trabalho teria algum fim, sua condição não seria trágica por excelência.

É aqui, na consciência ardida do absurdo, que Ascese se nos apresenta como algo mais que mero exercício místico-contemplativo. O guerreiro de Kazantzákis, com sua luta incerta pela salvação de Deus, e Sísifo — “proletário dos deuses”, pedreiro dos pedreiros — adquirem uma identidade palpável e atual. Podemos estar falando da classe operária de hoje e de ontem, a entregar-se em todos os dias de sua vida a uma tarefa que não é sua nem tem sentido senão nela mesma, quando tem — absurda portanto. Podemos estar falando também de outras coisas, como deste outro grito de guerra: “Não há nada a fazer, mas nós o faremos”, que não é de Kazantzákis, nem de Deus; é de Hemingway, e bem poderia ser de todos nós.

quinta-feira, 2 de janeiro de 1997

“A palavra é imortal" / “O chef das palavras e o tempero do pensamento"

1997
VASSALO, Márcio, “A palavra é imortal — João Ubaldo Ribeiro aponta preconceito intelectual contra o humorismo e diz que escrever é um ato tão íntimo quanto fazer sexo”. “O chef das palavras e o tempero do pensamento — um dos autores mais traduzidos do Brasil, João Ubaldo Ribeiro mostra os ingredientes de uma conversa que alimenta a alma”, Lector, ano III, nº 24, 1997, p. 8-9.

Sobre humor:

JUR: “Monteiro Lobato é considerado menor porque está enquadrado no gênero infantil. Por sua vez, um intelectual de alto nível como Millôr Fernandes é subvalorizado porque é humorista. Ele não é considerado um escritor sério. (...) É uma grande maluquice. Recentemente, gravei uma participação no programa Casseta & Planeta. Fiz o papel de um (...) porteiro de um prédio inteligente. O prédio é tão inteligente que o porteiro é da Academia Brasileira de Letras. (...) Existe uma discriminação intelectual contra o humorismo”.

JUR: “A realidade é que não se aceita que um escritor abdique daquela postura grave, daquela cara séria que as pessoas estão acostumadas a ver. Como imaginar um escritor vestido de ninja, fazendo palhaçadas com aqueles molecotes do Casseta & Planeta? Ora, eles não são molecotes. O pessoal do Casseta & Planeta renovou o humor brasileiro”.

quarta-feira, 1 de janeiro de 1997

"A chuva amarela"

[Sem data.]
"A chuva amarela", Caderno Idéias, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, sem data.

Resenha sobre o livro A chuva amarela, de Julio Lhamazares.

A história da solidão começa com a morte do tempo. E a solidão dá à luz, à luz fria e embaçada do inverno nos Pireneus, o infeliz que há de contar a história deste insólito romance — os dez últimos anos de vida do único sobrevivente de um vilarejo abandonado. Nas montanhas da região de Sobrepuerto, no Pireneu de Huesca, Espanha, apodrecendo aos poucos, desmoronando em silêncio, está o povoado de Ainielle. A história de seu desgraçado habitante é narrada por ele próprio, às portas da morte — se já não era morte a vida que então vivia.

A chuva amarela, do espanhol Julio Llamazares, conta esta história, que também poderia ser a de outros povoados abandonados, como os de Basarán, Cillas, Casbas, Bergua ou Escartín — lugares onde não há mais ninguém, embora ainda lá estejam as casas, com suas mesas, cadeiras, camas e cobertas de lã. Lugares que existem apenas na medida em que resistem, quando resistem. O povoado espanhol de Vegamián, na província de León, deixou de existir. Lá nasceu, em 1955, o próprio Llamazares. Formou-se em direito, viveu como jornalista em Madri, publicou dois trabalhos de poesia, La lentitud de los bueyes (1979) e Memoria de la nieve (1982), que ganhou o prêmio Jorge Guillén, e os livros El río del olvido (1990), En Babia (1991), Luna de lobos (1985), La lluvia amarilla (1988) e Escenas de cine mudo (1994).

A estranha naturalidade de Llamazares — nativo de um lugar que não existe — gerou um romance igualmente estranho e profundamente triste. Mas o povoado de Ainielle existe, está lá, aconteceu. “No ano de 1970”, segundo o autor, “ficou completamente abandonado”, embora suas casas ainda resistam “em meio ao esquecimento e à neve”. Os poucos personagens deste livro, por outro lado, não são verdadeiros. Mas dizer isto com relação aos últimos habitantes de um povoado extinto é quase a mesma coisa que dizer o oposto. Se tal ou qual personagem não existiu de fato, pode existir por suposição, e sua história de vida será, antes e depois de tudo, a história de um sobrevivente.

O sobrevivente, aqui, se chama Andrés, e sua solitária e teimosa permanência em Ainielle terá a forma de um fantástico e arrasador monólogo, cuja razão de ser está no ajuste de contas que estabelece com o mundo dos vivos — um esforço do narrador no sentido de transformar em linguagem o desamparo, o desespero e o delírio de que foi vítima. Sua lucidez nos primeiros anos, quando assunta a si mesmo, sua família ausente, o povoado e seus antigos habitantes, vai gota a gota se diluindo numa poça de sonhos, lembranças e alucinações. Alarga-se a poça com a chuva amarela das folhas de outono, abrem-se os braços da loucura e da morte, e o único olhar que devolve o seu é o de uma cadela sem nome, cuja sombra, como tudo o mais em Ainielle, vai lentamente amarelando.

A história de Andrés é também a história de sua casa. Enfrentaram ambos, um dentro do outro, a lenta partida dos outros habitantes — lenta no início, veloz quando já eram poucos os que restavam — e o terrível escorrer do tempo. Envelheceram ambos, homem e casa, ao longo de dez anos de inteira solidão. Sentiram a velhice penetrar-lhes a pele e as paredes sob a forma de rugas e rachaduras. Estalaram juntos no inverno ossos e vigas, articulações e dobradiças, enquanto assistiam, da beira do fogo, ao desmoronamento das outras casas madrugada adentro. Escutaram durante todas as noites de cada ano o crepitar da ferrugem povoando os cantos da sala, dos quartos, da cozinha e da memória. Sofreram calados a ação da umidade e perceberam em si mesmos o mofo e a angústia. Morreram um dentro do outro, ao mesmo tempo e insepultos.

O texto de Llamazares é um poema. Sua capacidade de metaforização é radical — o que faz da narrativa um laboratório de insólitos ajustes, a transferir substantivos, adjetivos e verbos de um específico universo simbólico para outros, de natureza inteiramente diversa, no restrito espaço de uma frase. E não há frase feita, porque as frases avançam, enlouquecidas e misteriosas, e o final é sempre uma cilada, ou a quebra de uma promessa, ou um soco no estômago. A tradução de Monica Stahel transcorre belamente e sustenta, sem desafinar, a vibração do texto e a justeza das expressões. Seu maior mérito, contudo, está no desenvolvimento impecável da pontuação — a difícil pontuação de um monólogo que tem de ser razoável e inteligível o bastante para descrever o próprio absurdo de sua condição póstuma.

Trecho 1: 

“Pouco a pouco, o cansaço e o desânimo foram me invadindo, a atividade infatigável dos primeiros dias deu lugar a um abatimento cruel e progressivo, e, assim, quando chegou o verão, vi-me novamente perambulando como um cão abandonado pelas ruas do povoado. Os dias eram longos, preguiçosos, e a tristeza e o silêncio abatiam-se como avalanches sobre Ainielle. Eu passava as horas vagando pelas casas, percorria as cocheiras e os aposentos e, às vezes, quando o anoitecer se prolongava mansamente entre as árvores, acendia uma fogueira com tábuas e papéis e me sentava numa entrada a conversar com os fantasmas de seus antigos habitantes.”

Trecho 2: 

“A partir desse dia, a memória foi a única razão e a única paisagem da minha vida. Abandonado num canto, o tempo se deteve e, como um relógio de areia quando é virado, começou a correr no sentido contrário ao que mantivera até então. Nunca voltei a sentir a angústia de me aproximar de uma velhice que, durante muito tempo, resistira a aceitar como sendo a minha. Nunca voltei a me dar conta daquele velho relógio que, abandonado num canto, estava inutilmente pendurado na parede da cozinha. De repente, o tempo e a memória se confundiram, e todo o resto — a casa, o povoado, o céu, as montanhas — deixara de existir, a não ser como lembrança muito distante de si mesma.”