segunda-feira, 1 de janeiro de 1996

"Três mapas de uma geografia contraditória"

[Sem data.]
"Três mapas de uma geografia contraditória — O escritor israelense Omós Oz constrói personagem que se volta para si mesmo e sua natureza errante numa Jerusalém em estado de guerra", Caderno Idéias, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, sem data.

Resenha sobre o livro Fima, de Amós Oz, ed. Companhia das Letras.

Mal se aproxima do vaso, Fima abre as calças e se concentra. Como a bexiga hesita, puxa a descarga para inspirar-se no som da água caindo e consegue; a bexiga cede mas a água já se foi e há ainda um mundo de xixi pela frente. Perde a paciência de esperar que se encha novamente o reservatório e desata a puxar a cordinha, mas o fluxo é fraco, o xixi não desce, e, enfim, por que não deixar para depois?

Tanto tempo morando sozinho, Fima passou a falar às paredes, anotar meticulosamente seus sonhos e ligar para os amigos tarde da noite ou bem cedo. Quase não troca os lençóis, deixa a geléia endurecer fora da geladeira, acumula louça e lixo, observa lagartos e baratas, esquece-se das contas a pagar e das meias quando dorme fora, derruba copos, diz e faz coisas de que se arrepende, olha da janela de casa para as colinas de Belém e vê o passado desfilando pelas pernas de profetas, sacerdotes e milagreiros, ou não faz nada, e deita e dorme até o meio-dia, hora em que se levanta e vai ser aquilo que faz lá na clínica ginecológica dos doutores Wahrhaftig e Eitan: além do café, atende às pacientes, anota recados e marca consultas.

Efraim Nisan, ou Fima, nasceu em Jerusalém e tem 54 anos. Foi poeta, se poeta é algo que se deixa de ser quando não se faz mais o que poetas fazem, versos, e tem dois problemas: a luta pela paz entre judeus e árabes e sua azia. A azia é problema só dele, a guerra, não. Fima responsabiliza as suas lideranças extremistas pelo estado de carência dos árabes palestinos desde a década de 20; apresenta, em artigos e discursos aos amigos, a opção entre a identidade nacional e os territórios ocupados; insiste na suspensão total das hostilidades como o único passo para a negociação e propõe a retirada das forças armadas da faixa de Gaza, ainda que sem acordo. Para tanto, organiza verdadeiras reuniões imaginárias com o seu gabinete não menos imaginário, dá posse de ministro aos amigos e funda sozinho um Conselho Revolucionário com o fim de estabelecer a paz em seis meses. Isso tudo acontece em 1987.

Durante cinco dias acompanhamos este homem levemente gordo e bastante branco, em verdadeira peregrinação à volta de si mesmo e de uma Jerusalém em pé de guerra com os árabes. Durante cinco dias, estará Fima ao nosso lado, de manhã à noite, com algumas pausas para um pão com geléia ou um monólogo sobre a condição humana e a sua natureza errante. Ao fim de cinco dias saberemos quase tudo da vida deste intelectual em plena inatividade, na eterna cata por algo que não sabe se perdeu, porque não sabe o que é, nem como ou onde procurar.

O escritor israelense Amós Oz desenhou, com este surpreendente romance, três mapas: o mapa minucioso do cotidiano pacato de um homem, o mapa das condições políticas e históricas de seu povo e um terceiro, que pode ser o título original, Hamatsáv hashlishí, em sua tradução para o inglês: The third condition; pode ser a alternativa terceira ao problema de ser a guerra santa ou política, pode ser uma maneira de falar do povo, este terceiro-estado sempre excluído, ou pode ser o próprio Fima, deliciosamente receptivo às contradições — suas, de seu país e de sua espécie. O que acontece depois deve ser magia. Os três mapas se superpõem, as linhas geram entrelinhas, e um jogo vertiginoso de ida e volta começa. A mágica de Oz vai além de seu tempo, de seu personagem e de seu país, descansa ao pé da frase, ali onde as palavras se preparam para a corrida, ou para a dança, ou mesmo para a loucura do sonho, e volta. Fima, neste percurso, está bem perto; um pouco atrás, um pouco esbaforido, mas ao alcance da mão, a manter-nos ocupados com o banal e o sublime, sem perder a cabeça, a graça e a ironia.

Amós Oz nasceu em Jerusalém em 1939. É considerado um dos maiores escritores israelenses vivos, seus livros estão em 22 línguas, escreve para crianças, escreve para adultos, escreve ensaios, ganhou o prêmio Femina e, em 1992, o Prêmio da Paz em Frankfurt. Mas não é só. Oz faz parte de uma nova geração de escritores — surgida após o estabelecimento do Estado de Israel, em 1948 —, que, desde o fim dos anos 50, vem mudando a cara da literatura hebraica.

E a cara da literatura hebraica tinha a cara do judeu errante — desafixado e perseguido. A produção da geração anterior tratou a comunidade judaica como tema, fez deste tema personagem e construiu para ele um drama, na maior parte dos casos, histórico — a diáspora, o massacre nazista. A mudança que se verifica após 48, com a nova geração, é a tematização do indivíduo.

No entanto, fechar o cerco sobre o indivíduo, fechando-lhe os olhos para a conturbada história de seu povo, poderia significar a quebra do diálogo e sua substituição pelo ricochete do eco. Difícil ignorar o Estado de Israel; difícil não ver que, a reboque, e bastante pesada, ali está a sina do povo judeu. Difícil virar justamente esta página. Então escreveram também sobre as famílias dos indivíduos, e as famílias cresceram e se multiplicaram, tornando-se, cada qual, uma grande alegoria para uma certa idéia de nação. De outro modo, esta seqüência de metáforas acabou por desaguar novamente na larga comunidade judaica. Está, pois, fechado o cerco e restabelecido o diálogo.

Trecho 1:

“Fima não estava disposto a desistir nem deixar de lado.

— Você se lembra daquele verso famoso do poema de Amir Gilboa: ‘De súbito um homem acorda de manhã, e sente que é um povo, e começa a andar’? É exatamente a este absurdo que eu estou me referindo. Em primeiro lugar, professor, a verdade, mão no coração. Alguma vez você já acordou de manhã e sentiu que era um povo? No máximo depois do almoço. Quem é que consegue acordar de manhã e sentir que é um povo? E começar a andar? (...) É sério. Chegou a hora de parar de se sentir como um povo. Chegou a hora de nem começar a andar. Vamos acabar com essa baboseira. ‘Uma voz me chamou e eu fui.’ ‘Aonde nos enviarem — nós iremos.’ Essas frases têm uma motivação semifascista. Você não é um povo inteiro. Eu não sou um povo. Ninguém é um povo. Nem de manhã nem de noite. E, por falar nisso, não somos mesmo um povo. No máximo, talvez uma tribo.” (pág. 176)

Trecho 2:

“No meio de julho, logo depois dos seus exames finais, no jardim do Convento Ratisbonne, ele se apaixonou pela guia francesa de um grupo de turistas católicos. Estava sentado num banco do jardim esperando a namorada, uma estudante de enfermagem chamada Shula, que dois anos depois se casou com seu amigo Tsvi Kropotkin. Fima segurava entre os dedos um broto florido de oleandro e os pássaros discutiam sobre sua cabeça. Nicole, sentada no banco ao lado, se dirigiu a ele: ‘Será que há água por aqui? Você fala francês?’. Fima respondeu afirmativamente às duas perguntas, mesmo não tendo a menor idéia de onde achar água e sabendo apenas umas poucas palavras de francês. A partir daquele momento, seguiu as pegadas dela por toda parte em Jerusalém; não a deixava em paz apesar dos educados pedidos dela; não desistiu nem quando o líder do grupo o advertiu de que seria obrigado a registrar queixa contra ele. Quando ela foi à missa na Abadia da Dormição, ele esperou do lado de fora como um cachorro durante uma hora e meia. Toda vez que ela saía do King's Hotel, em frente ao Edifício Terra Sancta, encontrava Fima diante da porta giratória, olhos brilhando. Quando ela ia ao museu, lá estava ele à espreita em cada sala. Quando ela voltou para a França, ele a seguiu até Paris e inclusive até sua casa em Lyon. Numa noite de luar, já depois da meia-noite, assim corre a história em Jerusalém, o pai dela saiu da casa e disparou um tiro com uma espingarda de cano duplo, atingindo a perna de Fima. Durante os três dias que passou num hospital franciscano procurou se informar do que era preciso fazer para converter-se ao cristianismo. O pai de Nicole, ao visitá-lo no hospital para se desculpar, ofereceu-se para ajudá-lo a se converter. Entrementes, Nicole ficou farta também do pai, e fugiu de ambos, primeiro para sua irmã em Madri, e depois para sua cunhada em Málaga. Sujo, desesperado e maltrapilho, ele a perseguiu em trens e ônibus poeirentos até que seu dinheiro acabou em Gibraltar e, com a ajuda da Cruz Vermelha, foi devolvido quase à força para Israel a bordo de um cargueiro panamenho.” (págs. 20-21)