quarta-feira, 16 de novembro de 1977

“Novenário do malpensar e da mistificação”

1977-11-16
RIBEIRO, João Ubaldo, “Novenário do malpensar e da mistificação”, 2o Caderno, Tribuna da Bahia, Salvador, 16 nov. 1977, p. 9.

JUR: “Todas as causas da Ignorância são políticas, inclusive a Burrice. (...) O produto da Ignorância e da Burrice é o malpensar”. (...) O problema político é fazer do Estado Brasileiro o Estado dos Brasileiros. Isto não é gratuito, porque é uma questão de Sobrevivência. A Sobrevivência ocorre quando se preserva a Identidade. Quando não se preserva a Identidade, a Sobrevivência é a do Outro. Não adianta sobreviver usando a cara do Outro, pois cada ser é responsável somente pela sua Cara”.

terça-feira, 9 de agosto de 1977

“Tiêta do Agreste ou a volta do ‘romancyzta do povo'”

1977-08-09
ROCHA, Glauber, “Tiêta do Agreste ou a volta do ‘romancyzta do povo”, Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, 9 ago. 1977 (capa).

GR: “Alvaro Lins, um dos caciques da crítica, classificou Mar morto de subliteratura.

"... o Povo leitor do Brazyl consome Jorge Amado com a voracidade sacra dos religiosos à espera das palavras divinas."

"Diante de Jorge Amado, os críticos brazyleyros, sem negar as ‘geniais’ qualidades do ‘contador de histórias’, lamentam o tom partidário, o esquematismo, a baixeza da linguagem, a subversão negra, a comunização partidária, o sexualismo delirante – coisas que chocam os bem-comportados leitores e imitadores de Machado de Assis, o ideólogo liberal-pessimista das vivandeiras impenitentes que há 477 anos constroem uma vitrina estético-filosófica sobre a miséria."

"De 1930 a 1977 Jorge Amado é a Heuztorya Brazyleyra, Espírito e Corpo. O reconhecimento popular ultrapassa os Códigos Científicos da Crítica Repressora, o mistério de Jorge Amado seria raso se fosse decifrado, seu estilo é a sexual posse do leitor, um dos raros escritores a gerar prazer de leitura."

"Tiêta do Agreste(...) é um desafio aos críticos que proclamam a morte universal do romance, sobretudo do nosso. (...) Os machadianos, que continuam xingando José de Alencar, Castro Alves e Jorge Amado de sujos, pornográficos, românticos, negristas e indianistas, além de comerciais, terão, como Tiêta, o prazer de finalmente sacar Jorge Amado a Pleno Sol... nas páginas de um Romance Mayor, que fecha as cortinas de uma Época e, renascido nele mesmo, cria o Romance Luzafrárabe, o Baianês Portogrosso Épico & Didático & Liricatlantico, seiva de u’a nação, Bahya, ventre da raça brazyleyra da qual Jorge Amado é o maior Artyzta Vivo."

"... o Romance é mais rico que a Crítica, sobretudo quando Jorge Amado corta mais uma vez as bitolas das velhas narrativas de caducas mentiras em nome de novas formas para novas idéias, num transbordar criativo que supera Bertold Brecht, único escritor capaz de se igualar ao Mestre Bayano nas completas artes ficcionadas de metaforizar seu Tempo na Forma Im/Perfeita."

"Gylberto Freyre, acusado de fascista, é o autor da mais violenta denúncia que se fez contra a Catequeze no Brazyl, além de mostrar que a sociedade sobreviveu em cima do negro e que o negro salvou até a nacionalidade... injetando no branco o que lhe faltava de sexualidade, poesia etc... Tiêta está para o Brazyl de 1970 como Casa Grande & Senzalaesteve para o Brazyl de 1930."

"Invocar Pound para elogiar Jorge Amado é o melhor jeito de verificar a crise da crítica dividida entre ‘Realistas Críticos’ e ‘Estruturalistas’, duas camisas-de-força neuróticas de escritores que escolhem o suplício."

"fazer o poema, fazer a peça, fazer o romance– é um ato sexual público, sujeito a críticas e censura, pode dar cadeia, exílio, morte, fortuna, glória, tudo – daí a raridade de pessoas como Miguel de Cervantes ou Jorge Amado, e ainda Giovanni Boccacio ou Rabelais, grandes Romancyztas do peso do autor de Tiêta."

"Os ‘modernistas’, ou ‘tropicalyztas’ ou ‘marxystas-lenynystas’ dos anos 20-30-40 (Gerações Atravessadas por Jorge Amado) eram colonizados, professavam no máximo a língua revolucionária da Europa e dos EUA (a China estava longe...) e mesmo Oswald de Andrade reagiu dentro do formalismo vanguardista europeu, limitado geneticamente que estava no seio paulistano."

"Jorge Amado revela, numa receita de Maturis com Camarões, como se faz Literatura”.

"Jorge Amado funde o vanguardismo Realista Socialista ao Modernismo Revolucionário de 1930. Inaugura o Tropykalyzmo quando se lança como Romancyzta em O país do Carnaval. Em 47 anos de carreira romanesca Jorge Amado denuncia o subdesenvolvimento, conta as lutas de classes, informa sobre a sociedade negra da Bahya e adjacências, devasta latifúndios, ergue-se contra o Estado Novo, antropologiza a sociedade brazyleyrano microcosmos bayano, mistura o sexo à política e a revolução ao amor numa Língua Nova, num estilo baianês, mosarábico, sensualmente redundante e lírico naquela progressão transformacional do Barroco Mextiço, do Panfletário Radical, do Humorista Vulcânico, do Sábio Popular, da Autoridade sem Opressão, do Saber Fecundo."

"Jorge Amado fez no Romance o que Brecht fez no Teatro. Convertendo o povo em personagem principal dos dramas, virou de cabeça para baixo a mise-en-scéne de um Romance, no caso brazyleyro, que falava do Ocupante na linguagem do Ocupante. Jorge Amado escreveu em linguagem bárbara que, como Villa-Lobos, rompeu o granfinismo puritano do machadianismo."

domingo, 13 de março de 1977

“Os escritores da Bahia — João Ubaldo”

1977-03-13
SCLIAR, Moacyr, “Os escritores da Bahia — João Ubaldo”, Revista ZH, Zero Hora, Porto Alegre, 13 mar. 1977, p. 2.

JUR: “Dona Flor tinha dois maridos e a crítica brasileira tem dois Jorge Amado. Diante de sua obra, as opiniões se dividem (...) ferozmente. Mais tarde, porém, sentado diante desse homem de cabeleira branca, mas ainda vigoroso e ágil, não é na crítica que eu penso. É num rapaz de dezoito anos que lia Capitães de areia com lágrimas nos olhos e que sonhava, como Pedro Bala, em mudar o mundo”.

JUR: “Jorge Amado pega o telefone, liga para escritores, combina encontros para mim. E termina marcando um almoço no Pelourinho” [almoço com João Ubaldo, em outro arquivo].

JUR: “Procuro uma analogia (...). Acho uma: não sei se é boa, mas creio que foi inspirada pelo sol da Bahia. O sol é o povo, o público leitor; os escritores, os planetas que giram ao redor desse sol (há escritores que prefeririam que o sol girasse em torno deles, mas isso é outro papo). Então: há planetas que estão muito próximos ao sol, que são brilhantemente iluminados; há outros que estão mais longe, que recebem pouca luz e cuja translação é mais demorada. É tudo uma questão de posicionamento”.