domingo, 19 de março de 2017

Ubaldo - Ficção, confissão, disfarce e retrato (capa)

Ubaldo - Ficção, confissão, disfarce e retrato, Rio de Janeiro, Editora Vieira e Lent, 2016, 419p. (ISBN: 9788581600710)

sábado, 18 de março de 2017

"Biografia 'des-soleniza' o escritor João Ubaldo e o próprio gênero"

Noemi Jafe, "Biografia 'des-soleniza' o escritor João Ubaldo e o próprio gênero", Caderno Ilustrada, Folha de S.Paulo, São Paulo, 18 de março de 2017, p. C7.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

"Programa Metrópolis", TV Cultura (vídeo)

video

"Programa Metrópolis"
17 de fevereiro de 2017, TV Cultura, São Paulo.

sábado, 21 de janeiro de 2017

"João Ubaldo em família"

Roberto Midlej, "João Ubaldo em família", Caderno Vida, Jornal Correio, Salvador, 21 de janeiro de 2017.

sábado, 7 de janeiro de 2017

"Ubaldo, o personagem"

Leonardo Cazes, "Ubaldo, o personagem", Prosa, Segundo Caderno, O GloboRio de Janeiro, 7 de janeiro de 2017.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

"A almazinha de João Ubaldo Ribeiro"

Escrever sobre João Ubaldo Ribeiro hoje, logo após a sua morte, pode significar um olhar compulsório para trás, observando-se uma obra agora completa e uma vida que foi toda ela, do começo ao fim, dedicada à literatura, mas este caráter obrigatoriamente retrospectivo é apenas aparente. A arte de Ubaldo segue adiante, gerando leitores, estudiosos e novas interpretações — uma forma de se atestarem a potência de um trabalho e o seu caráter imorredouro. O escritor publicou, ao longo de 41 anos, dez romances. Quem quiser conhecer a obra romanesca de João Ubaldo Ribeiro terá de os atravessar, e dentro desses romances tentar encontrá-lo, e também à sua marca.

Será isto conversa de escritor, ou os escritores têm marcas? Há escritores reconhecíveis à distância, numa leitura cega, e há outros de mais difícil identificação? Diante de um escritor como Ubaldo, em que não se detecta um estilo formal ou temático explícito a permear os seus romances, há então o quê, à excepção da assinatura, a agrupá-los? Sua obra romanesca é tematicamente sortida, o que tem dado ensejo a múltiplas abordagens, com variados resultados. Deve haver, no entanto, um centro nervoso, uma “marca” a enlaçar textos tão dissemelhantes.

É um curioso personagem ubaldiano, batizado no romance Viva o povo brasileiro de a “almazinha brasileira”, que pode iluminar uma leitura dos demais livros, anteriores e posteriores a 1984, e nos ajudar a identificar a “marca” do escritor baiano. É este personagem também que pode funcionar como a representação ficcional de um modo de se narrar ampla e radicalmente utilizado pelo autor: o discurso indirecto livre.

A almazinha de Ubaldo aparece como uma das mais brilhantes ideias da literatura brasileira, e justamente porque se comporta tal qual um discurso indireto livre o faria, sobrevoando as inúmeras histórias que compõem um romance e não se identificando de modo restrito com nenhum personagem; antes, de maneiras diversas, conseguindo ser cada um deles e ao mesmo tempo não ser nenhum, sendo apenas ela mesma, de algum modo única e sozinha. A almazinha que surge às primeiras páginas de Viva o povo... atravessa quatro séculos e algumas gerações, sempre a encarnar em pobres-diabos, índios tupinambás, negrinhas escravas maltratadas ou ainda soldados brasileiros mortos na flor da idade, como foi o caso do pescador e alferes José Francisco Brandão Galvão.

O jovem, atingido pelas balas portuguesas, cai morto no cais da Ponta das Baleias, na Baía de Todos os Santos, com o crânio em pedaços. Mas José Francisco, graças às palavras de amor à pátria que teria supostamente proferido à hora da morte, se tornou, da noite para o dia, um herói da independência.

Naquele dia de 1822, a almazinha que habitava o corpo do alferes um segundo antes do passamento afinal se despega, às carreiras, e sobe mais uma vez aos céus, aboletando-se no “Poleiro das Almas”, sítio onde se aboletam as almas enquanto esperam pelo momento de mais uma vez poder descer e encarnar noutro ser. Permanecendo almas, não aprendem nada; encarnando, aprendem as razões da vida. As almas precisam ser, e cada encarnação de uma alma é um modo de ser. E é essa almazinha brasileira que acaba por ser, ao fim e ao cabo, o mais constante personagem do caudaloso romance de Ubaldo. Ela entra e sai das histórias mais diversas, através de encarnações e desencarnações que partem do século XVII e chegam ao XX — quatro séculos de tiranias e humilhações —, para compor a eloquente amostra de alguns específicos modos de ser brasileiro.

Quais modos de ser? Do entrelaçamento de todas as histórias do livro e dos cruzamentos familiares verificados ao longo de tantas décadas destacam-se, do quadro ficcional, três personagens, analisados pela professora Eneida Leal Cunha, na sua tese Estampas do imaginário — literatura, cultura, história e identidade (Dep. Letras, PUC-Rio, Rio de Janeiro, 1993). José Francisco, que a posteridade reconhece como o heroico alferes Brandão Galvão, encarnará a ideia do patriotismo vazio que atravessa o imaginário brasileiro, do povo às elites. Um índio tupinambá, que chamam de Capiroba, habitante da ilha de Itaparica pelos idos de 1647, canibal de gosto exigente e apreciador da carne holandesa, transforma-se na possibilidade de se poder ouvir uma voz sempre silenciada nos relatos da história oficial: a do índio em processo de catequização. E transforma-se também — porque o centro da acção, aqui, é a catequese forçada, uma vez que o índio não se submeteu à conversão — no produto, levado às últimas consequências antropofágicas, do que lhe haviam ensinado os padres jesuítas: a celebração da Eucaristia.

A terceira encarnação da almazinha brasileira recairá sobre uma mulher. A jovem guerrilheira Maria da Fé parece constituir uma vontade do autor de que seja ela, das três, a mais apropriada encarnação da alma do povo brasileiro — almazinha inquieta e indecisa, é verdade, mas possuidora de um grande desejo de ser. Os três personagens carregam por toda a vida, habitando-lhes as entranhas, a almazinha brasileira que constitui o ser do romance; e carregam também, agora nos ombros, a responsabilidade de constituírem, cada um à sua maneira, uma tentativa de representação da assim chamada “identidade nacional”.

Esta almazinha é então esses três personagens, e não é nenhum deles, sendo apenas ela mesma e igual apenas a si mesma. Esta almazinha pode ser uma resposta à nossa busca pela “marca” do autor, na medida em que este insólito personagem funciona como uma representação ficcional, portanto interna à obra, de uma outra coisa, esta, sim, constituinte e fundante do universo romanesco: o narrador. A natureza do narrador na obra de João Ubaldo Ribeiro é a mesma da almazinha voadora: errática e ambígua quanto à sua identidade.

Ubaldo leva às últimas consequências, como poucos escritores o fazem, o discurso indirecto livre, que se apresenta, na sua narrativa, com uma radicalidade joyceana. E quais são essas “últimas consequências”? São graves. O que se espera de um narrador? Que conheça a história que vai contar. Mas o narrador ubaldiano, que não consegue mover-se e falar senão como se move e fala o personagem que está incorporando, não conhece a história que deveria contar, salvo nos raríssimos momentos em que não está “incorporando” algum personagem.

Assim como a almazinha, que necessita encarnar para aprender, o trabalho do narrador vai desenrolar-se ao longo de um determinado percurso de vida — a sua vida de narrador ao longo dos principais romances do escritor. De Setembro não tem sentido, de 1968, a O albatroz azul, publicado 41 anos mais tarde, vislumbra-se um caminho, linear no tempo, de progressiva e nítida abertura, que parte do personagem ensimesmado e avança em direcção a uma nova condição — condição que inclui os relacionamentos desse personagem com os grupos sociais que o envolvem, cada vez maiores e mais complexos, e também consigo mesmo e com a História.

Assim é que o seu primeiro romance, Setembro não tem sentido, se concentra na figura de Orlando, fechado em seu quarto e em si mesmo e demonstrando angústia e falta de perspectiva. Este romance tem a velocidade e a criatividade de um livro no qual claramente se inspira: O retrato do artista quando jovem, de James Joyce.

O facho da narrativa começa a abrir-se para o mundo no romance seguinte, Sargento Getúlio, de 1971. O narrador apresenta-se aqui em primeira pessoa, o próprio sargento, e por todo o livro o que faz é falar, não apenas de si, mas do que faz na vida: ser sargento, ser um empregado de seu chefe e ser portador de uma missão: levar um preso tido por comunista de um lugar para outro. Sargento Getúlio foi traduzido para o inglês pelo próprio Ubaldo e inspirou um estupendo e premiado filme homónimo, do realizador brasileiro Hermano Penna, com o actor Lima Duarte no papel principal. Observamos, neste segundo romance, o personagem Getúlio diante de sua missão e diante de si mesmo. Não há à sua volta nenhum grupo social a que pertença; há apenas ele, Getúlio, o desgarrado. A narrativa e o leitor estão encarcerados na mente de Getúlio.

Oito anos mais tarde chega ao público o romance Vila Real (1979). O personagem Argemiro torna-se ao longo da história um líder natural para o seu povo; um homem pouco preocupado consigo mesmo e dolorosamente comprometido com os valores e os problemas da sua comunidade. Toda a narrativa se mantém encaixada na terceira pessoa, usando e abusando, no entanto, do discurso indirecto livre, para dar conta do universo subjectivo de Argemiro, contraposto às agruras objectivas do povo de Argemiro, uma comunidade rural situada na região da Jurupema, ameaçada de todos os lados por povos inimigos. Não há aqui uma perspectiva nacional; não há perspectiva outra senão a da comunidade. Não se fala de Brasil; fala-se da região da Jurupema. O diâmetro do facho narrativo não ultrapassa as cercanias de Vila Real. O facho, no entanto, abriu-se um pouco mais. Já se pode ver que a área iluminada pelo narrador ultrapassa em muito os interesses particulares dos protagonistas, não mais fechados em seus quartos ou preocupados apenas em cumprir uma ordem e se manter em paz consigo próprios.

Com o romance Viva o povo brasileiro (1984), João Ubaldo, a começar pelo título, que não fala de um homem, Getúlio, nem de uma vila, a Real, mas de um povo, o brasileiro, dá mostras de avançar e ampliar sensivelmente o facho de interesses e o universo temático do seu narrador. O grupo social de que se fala agora é outro, ou são vários: o povo brasileiro como um todo e cada uma das suas partes — pretos e brancos, e dentro dos brancos os portugueses, holandeses, alemães e ingleses, e dentro dos pretos os de vários tipos e origens, e entre eles todos os pardos, mulatos, cafuzos e mamelucos.

Tudo isso está representado pela gente de um mesmo lugar, o seu universo por excelência: o Recôncavo Baiano. Os rudimentos de uma ideia de pátria envolvem todos os personagens e relativizam os seus projectos particulares em nome de uma causa maior, de âmbito nacional. Foi a partir de Viva o povo... que se começou a falar, acerca da obra de Ubaldo, da necessidade cultural, espelhada na literatura, de se contornar com mais nitidez o que se convencionou chamar de “a questão da identidade nacional”.

O romance seguinte, O sorriso do lagarto, de 1989, cujo protagonista é um cientista, inaugura uma nova direcção no grupo de temas do escritor. Mesmo se passando em Itaparica, o livro não tem como preocupação contar a história desta ilha baiana e do seu povo. O narrador ilumina os seus personagens com um assunto de responsabilidade internacional e alça-os à condição não mais de representantes de um povo do Recôncavo Baiano ou do Brasil, mas de uma ideia de humanidade. Os alvos dO sorriso do lagarto são a ciência, a engenharia genética, as consequências sociais do mau uso da tecnologia e a suposta presença de uma ideia universalista do mal nas condutas humanas.

No romance que se lhe segue, O feitiço da ilha do Pavão (1997), esse facho narrativo, que começou com o indivíduo e chegou à humanidade, realiza agora a sua abertura mais radical: através do tempo histórico, para afirmar uma dilatação não apenas do seu ambiente ficcional, mas do raio de acção de uma liberdade humana sem precedentes. O facho dilata-se para dentro do tempo, não como em Viva o povo..., que cobre quatro séculos da história brasileira, comendo-a pelas bordas, mas através da exploração radical de uma espécie de leque de possibilidades — à semelhança da cauda de um pavão. Para tanto, parte do seguinte ponto, simples: a História está todo o tempo a ser alterada em seu futuro pelos actos cometidos no presente. O feitiço..., no entanto, não pára aí; utiliza-se da metáfora da viagem no tempo para dar conta da ideia de que a História também pode ser alterada retrospectivamente — um outro modo de se dizer que o passado pode ser reinventado, sim, a depender do caminho interpretativo que se percorra, tal qual uma obra literária...

Como se viu, o facho narrativo de Ubaldo se foi abrindo, de 1968 a 1997, e o seu narrador, a cada abertura, se foi tornando mais e mais comprometido com algo que o ultrapassa. Os romances Miséria e grandeza do amor de Benedita (2000) e A casa dos Budas ditosos (1999) não se encaixam em tal caminho interpretativo; enveredam por um desvio face à linearidade observada nos seis livros anteriores. São romances escritos em função de encomendas específicas: A casa dos Budas ditosos, para a série “Plenos Pecados”, da editora brasileira Objetiva; e Miséria e grandeza do amor de Benedita, inserida no projecto da editora Nova Fronteira de criação do primeiro e-book brasileiro.

Em 2002, com a publicação de Diário do farol, o autor regressa ao ponto de partida: o quarto fechado, onde o facho parece estreitar-se novamente para os limites do indivíduo ensimesmado. Parece estreitar-se, mas na verdade se amplia. O protagonista do Diário..., dentro do seu quarto, talvez o quarto de uma instituição psiquiátrica, dispõe-se a forjar a sua biografia, com paciência e detalhes. O facho volta a dirigir-se ao indivíduo, mas se dilata para dentro do universo infinito das memórias de infância, do inconsciente e da loucura.

Com O albatroz azul, o seu último romance, de 2009, Ubaldo narra com uma tristeza e uma melancolia que já o acompanhavam de alguma forma. É o seu romance mais introspectivo e triste. Tertuliano Jaburu, o protagonista, é um homem triste; a vida de Tertuliano é, na sua maior parte, também triste, e de uma tristeza serena e constante, sendo os seus momentos menos tristes ironicamente aqueles em que passa a acreditar que irá morrer dali a pouco, anunciando assim a boa nova aos amigos; a história de seus antepassados é triste, e não poderia ser senão triste o tom do narrador, uma vez que está quase todo o tempo em focalização interna com Tertuliano — um narrador que só não fala mais da morte e da velhice porque tem uma história de vida para contar, ou um romance para escrever.

Mesmo assim é da morte que fala, e é para ela e o seu infinito que se amplia o foco narrativo. Com este romance o leitor conhece um novo e último Ubaldo, agora às voltas com um novo e último tema, que é o velho tema, o tema de sempre, o tema de todo dia, que é o próprio fim, uma das maneiras de se falar da própria vida.

Toda essa gradual abertura para universos mais amplos e complexos, da infância à velhice e à morte, obriga o narrador de Ubaldo a “encarnar” em mais vidas e a se comprometer com problemas cada vez menos particulares. Ao longo do facho, que é sempre outro e mais amplo, já não são um ou dois, mas uma grande comunidade de personagens a reivindicar para si esse narrador. Talvez seja esta a “marca” que procurávamos — esta “almazinha brasileira” que está lá em cada personagem, e ao mesmo tempo não está, e que será sempre aquilo que nos escapa. A almazinha de João Ubaldo Ribeiro, no entanto, esta não nos escapa: está impressa, página a página, aguardando leituras e releituras eternas. Isto é um convite.



domingo, 25 de dezembro de 2016

Aijaz Ahmad

“A mudança de um concepção primordialmente política para uma concepção culturalista tornou-se, então, ainda mais a-histórica porque surgiu num contexto acadêmico norte-americano que também testemunhou, depois que os radicalismos políticos dos anos de 1960 foram domesticados, o surgimento de uma ideologia específica que poderíamos chamar, no sentido estrito da palavra, de culturalismo — uma ideologia, em outras palavras, que trata a “cultura” não apenas como um forte aspecto de organização e comunicação social, mas como uma instância determinante. Achei muito surpreendente que, exatamente naquele momento histórico em que o capitalismo havia penetrado, pela primeira vez, os âmbitos mais longínquos não só das produções econômicas mas também das produções culturais, houvesse surgido uma ideologia que procurava deslocar o locus de determinação da economia política para a cultura.”

Aijaz Ahmad, “Prefácio à edição brasileira”, in: _____, Linhagens do presente — ensaios, org. Maria Elisa Cevasco, trad. Sandra Guardini Vasconcelos, São Paulo, Boitempo Editorial, 2002, p. 8-9.