"Para o cristão, o primeiro segundo do tempo coincide com o primeiro segundo da Criação - fato que nos poupa o espetáculo (...) de um Deus desocupado que enovela séculos baldios na eternidade anterior."
(Jorge Luis Borges, "História da eternidade", in História da eternidade, trad. Carmen Cirne Lima, São Paulo, ed. Globo, 1993, p. 22.)
* Este título
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Uma prenda
"Nós, de uma olhadela, percebemos três copos em cima de uma mesa; Funes, todos os rebentos e cachos e frutos que comporta uma parreira. Sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer do trinta de abril de mil oitocentos e oitenta e dois e podia compará-las na lembrança com as listras de um livro espanhol encadernado que vira somente uma vez e com as linhas da espuma que um remo sulcou no rio Negro na véspera da batalha do Quebracho. Essas lembranças não eram simples; cada imagem visual estava ligada às sensações musculares, térmicas etc. Podia reconstruir todos os sonhos, todos os entressonhos. Duas ou três vezes havia reconstruído um dia inteiro; nunca havia duvidado, cada reconstrução, porém, tinha requerido um dia inteiro."
(Jorge Luis Borges, "Funes, o Memorioso", in Ficções, trad. Carlos Nejar, São Paulo, ed. Globo, 1995, p. 114.)
(Jorge Luis Borges, "Funes, o Memorioso", in Ficções, trad. Carlos Nejar, São Paulo, ed. Globo, 1995, p. 114.)
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Instruções
Preâmbulo às instruções para dormir
Encontre um espaço no chão que tenha um pouco mais do que o seu tamanho em altura e largura. Imagine-se deitado, mas não se deite ainda. É preciso antes imaginar. Para se imaginar a si mesmo deitado, pense numa grande fome e numa grande mesa cheia de comida, e pense também não tanto no que já fez na vida, mas no que ainda pretende fazer. E então, no exato instante em que se sentir cansado e sonolento, imagine-se deitado. Execute, em seguida, as manobras abaixo.
Procure certificar-se de que não será interrompido por alguém que esteja acordado, tire imediatamente os sapatos dos pés, na verdade os pés dos sapatos, pois não é educado deitar-se calçado, ponha-se de joelhos, incline-se para o chão, colocando nele as duas mãos com as palmas para baixo, vire-se de modo a conseguir sentar-se no centro do espaço encontrado ao início desta explicação e comece lentamente a reclinar-se para trás, tendo sempre em mente que o chão é o limite para a sua cabeça. O objetivo desta série de manobras é colocá-lo em posição paralela ao piso e perpendicular às paredes das casas ou às árvores mais bem feitas. Uma vez realmente deitado, procure esticar as pernas e posicionar os braços ao longo do corpo. Relaxe os músculos dos glúteos e do rosto e tire o relógio. Passemos agora às instruções para dormir.
Instruções para dormir
Feche os olhos e não tenha medo, ou seja, não pense naquela aldeia escocesa onde se vendem livros contendo uma página branca perdida ao léu que, uma vez encontrada, mata o leitor às três da tarde e não antes; não pense naquele cantinho recôndito e pouco conhecido de onde se podem ver, numa certa praça romana e em noites de lua cheia, algumas estátuas saindo sozinhas do lugar; não pense nos latidos solitários daquele cão perdido no último farol, plantado no mar e na noite em alguma zona costeira italiana; não pense no caixeiro-viajante que sentiu uma dor funda no pulso esquerdo, tirou o relógio e viu o sangue vir de uma ferida que parecia, sim, uma mordida do outro mundo; procure não pensar em nada disso que leu por aí* e que o impressionou e que justamente agora vem ofuscar-lhe o sono. Apenas feche os olhos e respire devagar. No fundo está a morte, você sabe, mas não tenha medo. Pense somente no que não leu: na árvore soltando as folhas, no barco correndo as águas, na chuva e no vento, juntos, limpando as telhas, no cheiro do pão. Desfranza a testa e comece a adormecer. E não se esqueça de sorrir antes.
O sono é chamado cochilo quando dura dez minutos; sono restaurador, durando de oito a catorze horas; sono profundo, ou valsa lenta, encompridando-se dias a fio e mesmo meses. E se é o caso de precisarmos contar os anos e os séculos, é porque nada mais conta.
* Cortázar e Borges
Encontre um espaço no chão que tenha um pouco mais do que o seu tamanho em altura e largura. Imagine-se deitado, mas não se deite ainda. É preciso antes imaginar. Para se imaginar a si mesmo deitado, pense numa grande fome e numa grande mesa cheia de comida, e pense também não tanto no que já fez na vida, mas no que ainda pretende fazer. E então, no exato instante em que se sentir cansado e sonolento, imagine-se deitado. Execute, em seguida, as manobras abaixo.
Procure certificar-se de que não será interrompido por alguém que esteja acordado, tire imediatamente os sapatos dos pés, na verdade os pés dos sapatos, pois não é educado deitar-se calçado, ponha-se de joelhos, incline-se para o chão, colocando nele as duas mãos com as palmas para baixo, vire-se de modo a conseguir sentar-se no centro do espaço encontrado ao início desta explicação e comece lentamente a reclinar-se para trás, tendo sempre em mente que o chão é o limite para a sua cabeça. O objetivo desta série de manobras é colocá-lo em posição paralela ao piso e perpendicular às paredes das casas ou às árvores mais bem feitas. Uma vez realmente deitado, procure esticar as pernas e posicionar os braços ao longo do corpo. Relaxe os músculos dos glúteos e do rosto e tire o relógio. Passemos agora às instruções para dormir.
Instruções para dormir
Feche os olhos e não tenha medo, ou seja, não pense naquela aldeia escocesa onde se vendem livros contendo uma página branca perdida ao léu que, uma vez encontrada, mata o leitor às três da tarde e não antes; não pense naquele cantinho recôndito e pouco conhecido de onde se podem ver, numa certa praça romana e em noites de lua cheia, algumas estátuas saindo sozinhas do lugar; não pense nos latidos solitários daquele cão perdido no último farol, plantado no mar e na noite em alguma zona costeira italiana; não pense no caixeiro-viajante que sentiu uma dor funda no pulso esquerdo, tirou o relógio e viu o sangue vir de uma ferida que parecia, sim, uma mordida do outro mundo; procure não pensar em nada disso que leu por aí* e que o impressionou e que justamente agora vem ofuscar-lhe o sono. Apenas feche os olhos e respire devagar. No fundo está a morte, você sabe, mas não tenha medo. Pense somente no que não leu: na árvore soltando as folhas, no barco correndo as águas, na chuva e no vento, juntos, limpando as telhas, no cheiro do pão. Desfranza a testa e comece a adormecer. E não se esqueça de sorrir antes.
O sono é chamado cochilo quando dura dez minutos; sono restaurador, durando de oito a catorze horas; sono profundo, ou valsa lenta, encompridando-se dias a fio e mesmo meses. E se é o caso de precisarmos contar os anos e os séculos, é porque nada mais conta.
* Cortázar e Borges
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
O tempo, ao chegar ao coração
"Um fama tinha um relógio de parede e dava-lhe corda todas as semanas. Com grande cuidado. Passou um cronópio e ao vê-lo pôs-se a rir, foi para casa e inventou o relógio alcachofra ou alcaucil da espécie grande, preso pelo caule a um buraco da parede. As incontáveis folhas do alcaucil marcam a hora atual e além do mais todas as horas, de maneira que basta o cronópio arrancar-lhe uma folha para saber a hora. Como ele as vai arrancando da esquerda para a direita, a folha marca sempre a hora exata, e cada dia o cronópio começa a tirar uma nova rodada de folhas. Ao chegar ao coração, o tempo já não se pode medir, e na infinita rosa roxa do centro o cronópio encontra um grande prazer (...)."
(Julio Cortázar, "Relógios" , in Histórias de cronópios e de famas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972, p. 121-122)
(Julio Cortázar, "Relógios" , in Histórias de cronópios e de famas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972, p. 121-122)
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
"Última palavra: sim"
"... I was a Flower of the mountain yes when I put the rose in my hair like the Andalusian girls used or shall I wear a red yes and how he kissed me under the Moorish wall and I thought well as well him as another and then I asked him with my eyes to ask again yes and then he asked me would I yes to say yes my mountain flower and first I put my arms around him yes and drew him down to me so he could feel my breasts all perfume yes and his heart was going like mad and yes I said yes I will Yes."
(James Joyce, Ulysses, monólogo Molly Bloom, cap. 18)
("Última palavra: sim" - título de um livro de Nuno Júdice, 1977)
(James Joyce, Ulysses, monólogo Molly Bloom, cap. 18)
("Última palavra: sim" - título de um livro de Nuno Júdice, 1977)
domingo, 31 de janeiro de 2010
Do Universo das Idiossincrasias
Duas pessoas podem ser um livro uma para a outra - dois livros que ainda estão a ser escritos, e vão sendo lidos à medida que vão sendo escritos. E vão sendo corrigidos, e alterados, e melhorados, na medida da leitura, na medida também da escrita; na medida da vontade de continuarem as duas pessoas a ser um livro - um livro sem fim, uma para a outra.
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